O sol na poesia de Nei Duclós

Nei Duclós

AS VEIAS DO CANTO

Creio na morte
não na sua vitória
a poesia está à prova, como o homem
o canto não acaba, se renova
no coração de quem escolhe
a própria fome

Nada muda no sol que o meu corpo não receba
Aberto como um poço para a sede
escrevo duros poemas
na terra que treme
e sacode a caneta

Só o canto fala por si mesmo
escutem seu bater de veias
ele vingará, como as colheitas
cercadas de amor e de firmeza

 

VIAGEM

Perdidos
pegamos as mochilas
e a vida se fez visita

Batemos no ombro da madrugada
e ela espreguiçou-se pelo mundo
com um brilho pequeno
de quem se acaba
Nos lançou beijos cor de barro
e morreu depois de puxar o sol pelos cabelos

Chegamos nos caminhões de estrada
com apertos de mão e palavras
À procura de um vôo
suado e sem retorno

Chegamos sempre ao anoitecer
quando as cidades se armam
com feras de aço e chapas brancas
com chaves que fecham portas de ferro

O futuro nos saudou
mas o passado
sujou nossos abraços

Voltamos sepultados
Estávamos a um passo
da liberdade

 

CARTA AO COMPANHEIRO EXILADO

Aqui, o sol obstinado
ainda banha a folhagem
a chuva nos visita
e deixa o arco-íris quando parte

As cores da saudade
abriram a palma
de nossa mão pálida
e a vontade de buscar-te
soltou-se como um raio

Descobrimos que era muito tarde

Agora, que a madrugada se caba
e o sol nos dá na cara
não sabemos o que fazer
com esta ressaca

Batem nas portas e revistam roupas e pacotes
Estamos na praia do naufrágio

Do mar vieram boiando coisas mortas
entre elas
nossos sonhos e emboscadas

 

O DESESPERO É UMA FLOR

O desespero é uma flor
que come carne
e arde no meu peito de pastor

Levei uma surra de navalhas
preso num eterno elevador

Num sanatório de sonho
tenho a mão sangrada
Quero o silêncio
de uma estrada nova e calada

Quero a luz do sol e o fim do nojo
quero maio o ano todo
e a dor como um papel em branco

 

DIGO PARA MIM

Digo para mim: fica tranqüilo
as coisas não são tão terríveis
és um anjo de asas brancas
o sol dessa manhã cinza

Digo para mim: não tema
há muito que te prenderam
estás acostumado ao calabouço
ver o mundo será tão pouco
comparado À solidão que aceitas

Sossega, tudo vem, uma larva no pescoço
um acidente, o amor de quando em pouco

Por isso bebe a água, come a carne
a falta de um almoço não te mata
deixa o tempo engatilhar sua arma

Nasceste para durar pouco
ou não durar nada
mas durar é secundário

Antes de partir
deixarás pegadas na areia
para a memória do vento

 

 

Está envenenada a terra

por Eduardo Galeano

 

Epiros Derveniotis

Epiros Derveniotis

Está envenenada a terra que nos enterra ou desterra.
Já não há ar, só desar.
Já não há chuva, só chuva ácida.
Vista do crepúsculo no final do século

Já não há parques, só parkings.
Já não há sociedades, só sociedades anónimas.
Empresas em lugar de nações.
Consumidores em lugar de cidadãos.
Aglomerações em lugar de cidades.
Não há pessoas. Só públicos.
Não há visões. Só televisões.
Para elogiar uma flor, diz-se: “parece de plástico”.

 

Seleta de Fábio José de Mello

A menina Jasmim perfumando a casa

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No vôo da Gol, no dia 10 de novembro, com destino para Porto Alegre, conheci Jasmin Amaral, uma menina de 3 ou 4 anos. Viajava com o avô para um transplante de rim, num hospital de Porto Alegre (Santa Casa?). Jasmim não entendia das demoras que existem nessas ocasiões (espera para embarcar, para descer do avião, para esperar as malas, as caixas com os medicamentos, o aparelho de hemodiálise, nada disso) O avô entendia disso tudo e segurava o coração e as ideias em cada mão.

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Peguei minha pequena bagagem antes e fui ao encontro do meu rumo. Prometi ao avô que rezaria pela Jasmim e que pediria a Deus pela saúde dela, como se eu tivesse alguma autoridade e intimidade com Deus.
_ Jasmim Amaral, Jasmim Amaral. O avô repetiu duas vezes e ficou aliviado.
Quem pensa que eu estive sozinha na Feira do Livro de Porto Alegre, não sabe que entre foto e foto, stand e stand de livros, abraços de amigos e leitores, esse nome virou prece para mim.

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Hoje, domingo, uma pausa para as perguntas que fazem fila na minha cabeça. O que será da Jasmim e do seu avô? O que será de toda a família de Jasmim? Essas perguntas chamam outras perguntas, o que também é um qualidade de prece. Este domingo tem nome de flor e sobrenome que deriva do amor. E lá vou eu perfumando a casa e renovando o valor de cada coisa que me toca. Tudo é jasmim e tudo é amaral.

A FLOR



por Talis Andrade

 

Tua voz
derrete
meu coração
de pedra

Tua voz
quebra
a maldição
de Fedra

Os pássaros
repetem
teu canto
de menina
que não conhece
o pranto
que não conhece
a dor do luto
apenas conhece
os encantos
do mundo

Os pássaros
cantam contigo
meu coração
canta contigo

Tua voz
tua voz
faz surgir
uma flor
nas minhas mãos


Ilustração Enrique Villasenor