Oito poemas de Valéria Tarelho

Cristina Arruda

Cristina Arruda

cantiga para assobio negativo

no fim das quantas
o corpo
é velha trilha
que ninguém toca

sequer canta_
rola

.

não morreu

aquela proposta
permanece
de pélvis

it’s now
or never

.

in other words…

é primavera, amor.
agora e novembro a fora: status de flora.
copa e cabana, um cantinho, uma viola, sampa e canção
:
serão nossa horta, jardim, pomar.
é primavera, meu bem. ali, além. aloha!
vamos unir as escovas, a sua rede, minha redoma, minha renda com sua barra, seu chope com meu shopping, sua ipanema e minhas tiras [que as havaianas dançaram no último arrastão].
é hora de, a sós, amar à sombra. de grafitar poemas no quadro do luar [particular] de meu ser tão. sermos a soma de meu sim com teu yes. trançar de línguas e idiomas. com fusão. [fly me to the moon] novembro ou não.
você verá, paixão — toldos verão —, o rio é de janeiro, mas será sempre fe[r]vereiro sob o avanço do redentor.
há mais calor, é feito estufa e feito estava. não é minha praia. minha onda é uma noite mais sinatra.
[Let me see what spring is like on Jupiter and Mars]
vem! novembro até que é fresco.
é efeito flor.

.

vai idade

do espelho
ao espólio
é um piscar
de olhos

.

ainda tenho meus [en]cantos

nem sereia
nem sarada

mas com a língua
afi[n]ada

.

identidade

prefiro correr o risco
a não mover um músculo
em meu rosto o
vasto currículo

córregos sofridos
sacrifícios em ondas
vincos de rios vazios

minha fronte move ruas
expressa vias
bifurca rumos

exibo na face nua
meu real registro

o rg das rugas

.

dezembro

dezembro
traz nos ombros
o peso
de onze meses

chumbo ou ouro
dezembro só quer
o de sempre

encerrar o expediente
com chuva
de estouros

.

filosofia de bolso

antes que chegue
o ano novo
traço o velho
até o osso

 


Seleta de Jandira Zanchi

 

 

Tema assustador… que não deve ser tabu

por Pedro J. Bondaczuk

morte3

A morte é um dos assuntos que mais me incomodam e que procuro, sempre que possível, evitar. Sou comprometido com a vida e seus mistérios, dissabores, tristezas, alegrias e satisfações. Tenho medo de morrer? Muito! Essa perspectiva apavora-me, embora esteja consciente que é algo de que nem eu e nem ninguém conseguiremos escapar. Todavia, enquanto escritor – dos menores e mais obscuros, admito – não fujo de tema algum. Nem mesmo deste, que me é tão desagradável e penoso, literalmente “mórbido”. Volta e meia sou “provocado” por leitores, para escrever a respeito e, embora a contragosto, não fujo da raia. É o que acontecerá, por exemplo, hoje. Pediram-me para abordar o assunto “morte” com “objetividade”. Tentarei, pois, fazê-lo, posto que com os parcos conhecimentos que tenho a propósito. Espero, apenas, que minha abordagem seja útil a alguém, em algum momento.

A Medicina tem, atualmente, visão clara e definida do que vem a ser a morte. Está bem longe o tempo em que este colapso total do organismo era associado com a parada das pulsações de um determinado órgão, no caso, o coração. Com o advento das operações a peito aberto desta “máquina” natural de bombear sangue, em que ela é paralisada por completo para passar por cirurgia, sem que, por isso, o paciente morra, mas recupere todas suas funções vitais, tão logo finde o ato cirúrgico, não tem mais sentido situar exclusivamente nesse órgão a sede da vida. De acordo com os médicos, a essência da morte está na ativação de um produto químico orgânico (pois contém carbono), da família das aminas, chamado Catepsina, deflagrada pela anoxia, ou seja, pela ausência de renovação de oxigênio no organismo.

Essa substância é uma enzima proteolítica que durante toda a vida permanece em atividade no interior das células. Portanto, quando se diz que já no momento em que nascemos trazemos em nós a semente da extinção, não se está incorrendo em nenhum exagero e nem somente se está utilizando figura de linguagem. Isso é rigorosamente literal. Mesmo após o cérebro ficar sem suas funções e o coração parar de pulsar, o ser humano continua “morrendo” por mais algumas horas. Inicialmente, é uma célula que morre. A seguir, são outras tantas; são os tecidos, os órgãos, os sistemas e… todo o organismo enfim. Com as mudanças de conceitos sobre as características da morte, mudou-se, no correr do tempo, a maneira dela ser diagnosticada. Antigamente, o médico, para saber se determinado paciente moribundo já havia morrido, colocava um espelho à frente da sua boca. Queria constatar se ele ainda respirava. Era, portanto, a parada dos pulmões que lhe dava a certeza de que o desenlace havia ocorrido.

Depois, evoluiu-se (e não faz muito) para a utilização do estetoscópio, para a agulha intracardíaca, para o bisturi na carótida, para a tríplice reação de Lewis (injeção e resposta tecidual), para o eletrocardiógrafo e, finalmente, para o eletroencefalógrafo. Essa explicação foi dada, há alguns anos, pelo doutor Irany Novah Moraes, perante o Conselho Técnico de Economia, Sociologia e Política da Fiesp, reproduzida no excelente livro “O médico perante a morte”. Um resumo, muito bem elaborado, do teor dessa conferência, foi publicado na edição de outubro/novembro de 1985 da revista “Problemas Brasileiros”.

Há que se distinguir três formas de morte para efeitos da Medicina: a cerebral, a encefálica e a biológica. Recorro aos ensinamentos do doutor Irany para tentar explicar, de forma minimamente didática, cada um desses casos. O primeiro deles ocorre “em conseqüência de um curto período de anoxia (falta de renovação de oxigênio) que provoca o amolecimento cortical difuso. Bastam três minutos de falta de ventilação para decortificar (deixá-lo sem o córtex cerebral) um paciente, que terá, daí em diante, apenas vida vegetativa. Seus órgãos continuarão funcionando, mas estará desligado da vida exterior”.

A morte encefálica “ocorre quando os comandos da vida se interrompem. Não emana impulso de nenhum centro encefálico. Pergunto: não seria este o momento da saída da alma? Este é o diagnóstico científico da morte. O corpo não se relaciona mais com o mundo”. Finalmente, a morte biológica “ocorre ao término da rigidez cadavérica em que toda a Catepsina ativada pela anoxia determina a autólise. O processo de falência termina, para todo o organismo, 24 horas após a morte cardíaca, quando termina a rigidez cadavérica”. Levamos, portanto, um dia inteiro para “morrermos” por completo.

A Medicina desenvolveu estratégias, ou seja, processos para reter por mais tempo esse misterioso sopro de vida quando ele ameaça escapar. No caso da parada cardíaca, desde que se aja com rapidez, é possível, em alguns casos, reanimar o paciente e lhe dar ainda alguma possibilidade de sobrevivência. É claro que se trata de superar o tempo e depende do motivo que causou a cessação das pulsações do coração. Quanto à extinção da função cerebral, pode ser feita uma oxigenação sanguínea, mas esse artifício de pouco (na verdade de nada) adiantará para a pessoa. Seu cérebro – sede de suas reações, emoções, pensamentos e lembranças – estará irreversivelmente morto. Mesmo que o processo de morte biológica não vier a ocorrer, esse indivíduo jamais voltará a ver, conscientemente, a luz do mundo.

Viram, desafiadores leitores, como não temo abordar temas que me desagradem e apavorem? E nenhum, absolutamente nenhum me é mais desagradável e me aterroriza mais do que a morte. Ao escritor, porém, não há (e nem deve haver) assunto interdito, considerado tabu, desde que tratado, notem bem, com responsabilidade, com habilidade, com clareza, com verdade e… com bom gosto, para conseguir e conservar o “prêmio” maior que um comunicador pode aspirar: o da credibilidade.


Hieronymus Bosch (c.1450 – 1516). A Morte e o Avarento
(c. 1490). Óleo na madeira (93 x 31 cm) – National Gallery of Art, Washington

Estamos submetidos a fatores aleatórios que, em fração de segundos, podem destruir, sem deixar o menor vestígio, tudo o que somos e construímos.

Donos? Do que?

 

Ares homem mulher

 

por Pedro J. Bondaczuk

“O homem concebera-se, por muitos séculos, no centro de um universo limitado no espaço e no tempo e criado em seu benefício. Imaginara-se habitante, desde a Criação, de uma Terra imutável no tempo. Construíra-se uma história de poucos milhares de anos que identificava a humanidade e a civilização às nações do Oriente Próximo e, depois, à Grécia e Roma. Pensara-se diferente, em essência, dos animais; senhor do mundo e dono de seus próprios pensamentos. Em breve, no novo século, ele terá de defrontar-se com a destruição de todas essas certezas, com uma diversa, menos narcisista mas decerto mais dramática, imagem do homem”. Esta afirmação não é minha (embora concorde, em termos, com ela). É do italiano Paolo Rossi.

Antes que alguém me questione, ou que algum desavisado confunda, aviso que a personalidade citada não é o centroavante da seleção da Itália, carrasco da equipe de Telê Santana na Copa do Mundo de 1982 na Espanha. Não é, pois, o autor dos três gols da “Azurra”, naqueles fatídicos 3 a 2, episódio futebolístico que ficou conhecido como “Desastre do Sarriá” (desastroso para nós, brasileiros, obviamente). Esse Paolo Rossi não tem nada a ver com futebol. É um filósofo italiano, e dos mais respeitados, que faleceu recentemente, em 14 de janeiro de 2012.

A citação foi “pinçada” de seu livro “Os sinais do Tempo”. A obra em questão foi lançada no Brasil pela Companhia das Letras e pode ser facilmente encontrada em qualquer boa livraria. Sua abordagem é não apenas pertinente, mas fascinante. Centra-se, principalmente, em três eixos temáticos: nas histórias da Terra e das nações e nas teses sobre a origem da linguagem e do pensamento abstrato. Trata-se, como se vê, de um livro precioso, diria imperdível, que lhe recomendo sem pestanejar, curioso leitor.

Porventura, o pensamento do homem contemporâneo mudou, a esse propósito? Entendo que não. Pelo menos não o da maioria, que ainda pensa que é o “centro do universo”, que acha que já entende essa misteriosa e monstruosa grandiosidade, convicto que esta seria restrita, ou seja, limitada no tempo e no espaço. Estaria certo nesta convicção (ou presunção, como queiram)? Obviamente que não! Em relação ao universo, somos menos, até, que o menor dos infinitamente pequenos microorganismos. Estamos limitados em um planeta de dimensões tão ínfimas, que a certa distância (para nós incomensurável, mas que em termos universais é pequeníssima), é impossível de ser localizado. É como se sequer existisse.

Estamos submetidos a fatores aleatórios que, em fração de segundos, podem destruir, sem deixar o menor vestígio, tudo o que somos e construímos. No entanto… quem pensa nisso? Quem cogita da própria efemeridade? Quem está consciente, mas consciente de fato, de que no minuto seguinte pode estar morto? Agimos como se dotados de vida eterna. Somos arrogantes ao ponto de “achar” que compreendemos este mistério que se refere à nossa existência, ou seja, ao o que somos, por que vivemos e onde, de fato, estamos, entre tantos outros questionamentos.

Paolo Rossi, embora em princípio pareça pessimista aos desavisados, mostra um otimismo incomparável. Afinal, acredita que o homem (ou seja, cada um de nós) irá mudar seus paradigmas já neste século e cair na realidade. Não sou pessimista, mas não creio que isto virá a acontecer. E não só nesta geração, como em nenhuma outra. Isso se não nos destruirmos antes, ou se algo além da nossa capacidade de defesa não o fizer em um piscar de olhos. Rossi, no trecho que selecionei de seu livro, afirma que o homem “pensara-se diferente, em essência, dos animais, senhor do mundo e dono de seu próprio pensamento”. O notável filósofo fez essa constatação como se fosse coisa do passado. Mas é? Essa arrogante convicção foi alterada, posto que minimamente? Óbvio que não.

O homem contemporâneo, com todo o acervo de informações que conseguiu reunir, com as facilidades de transporte e de comunicação que a tecnologia colocou a seu dispor, continua tão arrogante e insensível como sempre foi. Aliás, é mais, muito mais do que os das gerações que o antecederam. Não dá a mínima para os animais. Age como se o mundo fosse só seu e que, por isso, pode fazer com ele o que quiser; comporta-se como se fosse viver para sempre, sem atentar para o fato de que é mortal e que no momento seguinte pode estar morto e que horas a seguir começará a se decompor. Não se preocupa, de fato, sequer com os semelhantes, quanto mais com outras espécies, com os outros seres vivos.

Pitigrilli traçou um perfil humano genérico, não de alguém específico, mas do tipo médio, no qual a maioria se enquadra. Escreveu, no livro “Lições de Amor”: “O homem não é nem anjo, nem fera, ou é ambas as coisas em proporções desiguais. A beneficência, a moral, a caridade não podem fabricar homens e mulheres ideais. Devem servir-se daqueles que encontram”. Caso o homem mude todas suas certezas atuais, substituindo-as por “uma diversa, menos narcisista, mas decerto mais dramática”, como prevê, com extremo otimismo, o filósofo Paolo Rossi, essa nova imagem será a real? Terá, pelo menos, a mais leve das proximidades com a verdade? Ou a subjetividade e o preconceito continuarão determinando seus (na verdade, nossos) julgamentos? Sabe-se lá!

“Dios no murió. Se transformó en dinero”

Entrevista a Giorgio Agamben

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Traducido para Rebelión por Susana Merino
Piero Guccioni

Piero Guccioni

Giorgio Agamben es uno de los más grandes filósofos vivos. Amigo de Pasolini y de Heidegger, es según el Times y Le Monde uno de los diez cerebros más importantes del mundo. Por segundo año consecutivo ha permanecido en Sicilia durante un largo período de vacaciones.

El gobierno de Monti invoca la crisis y el estado de necesidad y parece ser el único camino de salida tanto de la catástrofe financiera como de las indecentes formas que ha tomado el poder en Italia, ¿el enfoque de Monti sería la única salida o podría convertirse contrariamente en un pretexto para imponer serias limitaciones a las libertades democráticas?

“Crisis” y “economía” no se usan hoy en día como conceptos sino como palabras de orden que sirven para imponer y obligar a aceptar medidas y restricciones que la gente no tendría porqué aceptar. “Crisis” significa hoy ¡debes obedecer!” Creo que es muy evidente para todos que la llamada “crisis” viene durando decenios y no es otra cosa que la normalidad con que funciona el capitalismo de nuestro tiempo. Un funcionamiento que no tiene nada de racional.

Para comprender lo que está sucediendo, hay que interpretar al pié de la letra la idea de Walter Benjamin según la cual el capitalismo es ciertamente una religión, es la más feroz, implacable e irracional religión que haya existido jamás porque no conoce ni tregua ni redención. En su nombre se celebra un culto permanente cuya liturgia es el trabajo y su objeto el dinero. Dios no ha muerto, se ha convertido en dinero. La Banca con sus grises funcionarios y sus expertos – ha ocupado el lugar de la iglesia y de sus curas y gobernando el crédito (incluso los créditos estatales, que han abdicado fácilmente su soberanía) manipula y administra la fe – la escasa e incierta fe – que aún le queda a nuestro tiempo. Por otra parte que el capitalismo sea hoy en día una religión, nada lo muestra mejor que el título aparecido en un gran diario nacional hace pocos días: “salvar al Euro a cualquier precio” Ya “salvar” es un concepto religioso pero ¿qué significa “a cualquier precio”? ¿Aún al costo de sacrificar vidas humanas? Solo en una perspectiva religiosa (o mejor dicho seudoreligiosa) se pueden hacer afirmaciones tan paletamente absurdas e inhumanas.

La crisis económica que amenaza con convulsionar a buena parte de los estados europeos ¿se puede generalizar como una crisis de toda la modernidad?

La crisis que está atravesando Europa no tiene que ver tanto con un problema económico como se quiere hacer creer sino ante todo una crisis de la relación con el pasado. El conocimiento del pasado es el único camino de acceso al presente. Es buscando entender el presente que los hombres – por lo menos los europeos – se sienten obligados a interrogar al pasado. He precisado “nosotros los europeos” porque me parece, admitiendo que la palabra Europa tenga sentido, como parece hoy en día evidente, ese sentido no puede ser ni político, ni religioso y tanto menos económico pero consiste en que el hombre europeo – a diferencia por ejemplo de los asiáticos y de los americanos, para quienes la historia y el pasado tienen un significado totalmente diferente – puede acceder a su verdad solamente a través de una confrontación con el pasado, solo haciendo cuentas con su historia. El pasado no es tan solo un patrimonio de bienes y de tradiciones, de recuerdos y saberes sino sobre todo un componente antropológico esencial del hombre europeo, que puede acceder al presente solo mirando lo que le ha ido sucediendo. De la especial relación que tienen los países europeos (Italia y desde luego Sicilia son desde este punto de vista ejemplares) con sus ciudades, con sus obras de arte, con su paisaje: no se trata de conservar bienes más o menos valiosos, pero exteriores y accesibles: esta es en cuestión la verdadera realidad europea, su indiscutible supervivencia. Por eso destruyendo el paisaje italiano con el hormigón de las autopistas y la alta velocidad, los especuladores no se privan de ganar pero destruyen nuestra propia identidad. La misma expresión “bienes culturales” es engañosa, porque sugiere que se trata de unos bienes entre otros, que pueden ser aprovechados económicamente y hasta vendidos, como si se pudiera liquidar y poner en venta la propia identidad.

Hace muchos años un filósofo que era además un alto funcionario de la naciente Europa, Alexandre Kojève sostenía que el homo sapiens había llegado al final de su historia y que no tenía ante sí más que dos posibilidades: el acceso a una animalidad posthistórica (encarnado en la american way of life) o el esnobismo (encarnado de los japoneses) que continuan celebrando su ceremonia del té, vacías pero con un significado histórico. Entre unos EEUU integralmente reanimalizados y un Japón que se mantiene humano solo a través de renunciar a todo contenido histórico, Europa podría ofrecer la alternativa de una cultura que se mantiene humana y vital aún después del fin de la historia, porque es capaz de enfrentarse a su propia historia en su totalidad para desde allí alcanzar una nueva vida.

Su obra más destacada Homo Sacer investiga sobre la relación del poder político y la nuda vida y pone en evidencia las dificultades presentes en ambos términos, ¿Cuál es el punto de posible intermediación entre ambos polos?

Lo que me han demostrado mis investigaciones es que el poder soberano se fundamenta desde sus comienzos en la separación entre nuda vida (la vida biológica que en Grecia tenía lugar en la casa) y la vida políticamente calificada (que se desarrollaba en la ciudad). La nuda vida se halla excluida de la política y al mismo tiempo incluida y capturada por la propia exclusión: en este sentido la nuda vida es el fundamento negativo del poder. Esta separación alcanza su forma extrema en la biopolítica moderna. Lo que sucedió en los estados totalitarios del novecientos y que es el poder (ya sea a través de la ciencia) que decide en última instancia qué es una vida humana y qué no lo es. Por el contrario sucede que se piensa en una política de las formas vitales, es decir en una vida que no pueda separarse de su forma, es decir que nunca más sea nuda vida.

El fastidio, por usar un eufemismo, con que el hombre común enfrenta a la política ¿está vinculado a las específicas condiciones italianas o es de algún modo inevitable?

Creo que hoy estamos frente a un fenómeno nuevo que va más allá del desencanto y de la recíproca desconfianza entre los ciudadanos y el poder y que abarca todo el planeta. Lo que se está produciendo es una transformación radical de las categorías con las que estábamos acostumbrados a pensar la política. El nuevo orden del poder mundial se basa en un modelo de gobernabilidad que se define democrático, pero que nada tiene que ver con lo que este término significaba en Atenas. Que este modelo sea, desde el punto de vista del poder, más económico y funcional lo prueba el que haya sido adoptado hasta por los regímenes que hasta no hace muchos años eran dictaduras. Es mucho más fácil manipular la opinión de la gente a través de los medios y la televisión que tener que imponer permanentemente cada decisión por medio de la violencia. Las formas políticas que conocíamos – el estado nacional, la soberanía, la participación democrática, los partidos políticos, el derecho internacional – han llegado al final de su historia. Permanecen en la vida como formas vacuas, pero la política actual tiene la forma de una “economía” es decir un gobierno de las cosas y de los hombres. Lo que nos resta es pensar integramente, desde el principio lo que hasta ahora hemos definido con la expresión, por otra parte poco clara, de “vida política”

El estado de excepción que usted ha vinculado al concepto de soberanía parece asumir hoy en día el carácter de normalidad, pero los ciudadanos permanecen perdidos ante la incertidumbre en la que viven cotidianamente ¿es posible atenuar esta sensación?

Vivimos desde hace décadas en un estado de excepción, que se ha convertido en regla, como sucede en la economía, la crisis es la condición normal. El estado de excepción que debería hallarse limitado en el tiempo – es en cambio hoy el modelo normal de gobierno y esto en los mismos estados que se llaman democráticos. Pocos saben que las normas de seguridad introducidas luego del 11 de setiembre (en Italia ya habían sido establecidas durante los años de plomo) son peores que las vigentes durante el fascismo. Y los crímenes contra la humanidad cometidos durante el nazismo fueron posibles debido al hecho de que Hitler había asumido el poder y proclamado un estado de excepción que nunca fue revocado. Y él sin embargo no tenía las mismas posibilidades de control (datos biométricos, telecámaras, celulares, tarjetas de crédito) propias de los estados contemporáneos. Se diría que hoy el Estado considera que cada ciudadano es un terrorista virtual. Esto no hace otra cosa que deteriorar y volver imposible la participación en la política que debe definir a la democracia, Una ciudad cuyas plazas y cuyas calles están controladas mediante telecámaras no puede ser un lugar público: es una cárcel.

¿Podemos plantearle una pregunta sobre la conferencia que pronunció en Sicilia? Algunos han llegado a la conclusión de que ha sido un homenaje a Piero Guccioni, a una amistad de tanto tiempo, otros han visto una orientación de cómo huir del jaque mate al que se halla encadenado el arte contemporáneo

Piero Guccioni

Piero Guccioni

Es verdad se trataba de un homenaje a Piero Guccioni y a Scicli, una pequeña ciudad en la que residen algunos de los más importantes pintores vivos. La situación del arte es actual y posiblemente el mejor lugar para comprender la crisis de la relación con el pasado del que hemos hablado. El único lugar en donde puede vivir el pasado es el presente y si el presente deja de sentir vivo al propio pasado, el museo y el arte, que son las figuras eminentes de aquel pasado se convierten en lugares problemáticos. En una sociedad que ya no sabe qué hacer con su pasado, el arte se encuentra atrapado entre el Escila del museo y el Caribdis de la mercantilización (1) Y a menudo como en los templos del absurdo como lo son los museos de arte contemporáneo, ambas cosas coinciden. Duchamp ha sido probablemente el primero en darse cuenta del callejón sin salida en que se había encerrado el arte. ¿Qué es lo que inventa Duchamp con el ready-made? Toma cualquier objeto usual por ejemplo un urinario e introduciéndolo en un museo lo obliga a presentarse como una obra de arte. Naturalmente – luego del breve instante en que dura el efecto de la extrañeza y de la sorpresa – en realidad nada agrega a su presencia: no la obra porque se trata de un objeto usual, cualquier objeto producido industrialmente, ni la obra artística por no existe en modo alguno “poiesis”, producción – y menos aún artista, sino que como filósofo o crítico o como amaba decir Duchamp, “uno que respira” un simple ser vivo. En todo caso es cierto que él no pretendía producir una obra de arte sino desbloquear el camino del arte, encerrado entre el museo y la mercantilización. Como sabéis lo que sucedió en cambio es que una clase, aún activa, de hábiles especuladores transformó el ready-made en obra de arte. Y el llamado arte contemporáneo no hace sino repetir el gesto de Duchamp llenando de no-obras y de performances a los museos que no son otra cosa que órganos del mercado destinados a acelerar la circulación de mercaderías que como el dinero, han llegado a un estado de liquidez y quieren seguir valiendo como obras. Esta es la contradicción del arte contemporáneo: abolir la obra y además pretender un precio.

1) N.de T. Escila y Caribdis son dos monstruos marinos de la mitología griega situados en orillas opuestas de un estrecho canal de agua, tan cerca que los marineros intentando evitar a Caribdis pasarían muy cerca de Escila y viceversa.

Preconceito e violência

Por Pedro J. Bondaczuk 

 

indignados contra racismo

O preconceito, seja a que propósito for, mas, sobretudo, o racial – que ainda é o mais comum – é sempre odioso. Não tem a menor justificação. Ademais, é um pavio aceso em um barril de pólvora para a deflagração da violência. Essa, como todos sabem (até o mais tolo dos tolos não o ignora), é fácil de começar… todavia, em alguns casos, é difícílima de controlar. E, em situações extremas, é, até mesmo, incontrolável. Principalmente quando o preconceito sobe um degrau a mais e se transforma em discriminação. Ou seja, em segregação daqueles que o preconceituoso julga inferiores. Como ninguém gosta de ser inferiorizado, nem mesmo o mais renitente dos masoquistas, a reação da vítima é para lá de lógica. E, invariavelmente, é violenta.
 
Escrevi muito sobre este tema, que considero apropriado de ser tratado em Literatura, pelas diversas facetas que apresenta. Aliás, tudo e todos são assuntos para um bom escritor (atento e competente), pois sua principal missão é reproduzir, em ficção ou não ficção, a vida como ela é. E, infelizmente, o ser humano é assim: preconceituoso e discriminador, egoísta e violento. O que varia é a intensidade desses comportamentos, de acordo com a educação que o indivíduo recebe e, por conseqüência, da sua forma de encarar o mundo e esta aventura perigosa, mas fascinante, que é o privilégio de viver.
 
Fico imaginando se há, em alguma parte do mundo, algum país em que não exista o mais leve resquício de preconceito. Desconfio que não haja neste Planeta que parece tão grande, e no entanto é tão pequeno, nenhum “paraíso” como esse. Indago-me, amiúde, por exemplo, se a discriminação racial foi, de fato, banida da África do Sul, depois da sapientíssima e nobre ação de Nelson Mandela, no sentido de tornar aquela sociedade (em que o preconceito e a discriminação foram, por praticamente meio século, inclusive normas legais), em uma nação não somente multicultural, mas, sobretudo, multirracial. Tenho lá minhas dúvidas. Receio que resquícios de ressentimento sobrevivam nos corações e mentes de muitos brancos e de muitos negros. O que pode variar é a quantidade desses ressentidos e preconceituosos dissimulados.
 
E os Estados Unidos, livraram-se do racismo, com a eleição de Barak Obama para a presidência? Ou este permanece vivo, esperando, apenas, oportunidade, algum pretexto, mesmo que banal, de se manifestar? Consultando meus arquivos, para escrever sobre o assunto sem risco de dizer bobagens, encontrei matéria, datada do início de maio de 1992, dando conta dos distúrbios ocorridos nos Estados Unidos, que começaram em Los Angeles e se estenderam a outras dez cidades norte-americanas, de sete Estados, e que trouxeram à tona, mais uma vez, naquela oportunidade, a questão do preconceito racial naquele país.
 
A absolvição dos agressores de Rodney King, um negro, barbaramente espancado pelos policiais Laurence Powell, Theodore Briseno, Timothy Wind e Stacy Koon em 3 de março de 1991, cujo fato foi registrado por um cinegrafista amador e cujas imagens foram divulgadas praticamente no mundo todo, por um júri, todo ele integrado por brancos, foi o estopim da revolta. Foi a gota d’água que faltava para que ressentimentos acumulados por anos extravasassem.
 
As cenas do videoteipe falavam por si sós e por isso ninguém compreende – e certamente nem os próprios jurados – a razão de uma decisão tão infeliz, parcial e injusta do grupo encarregado de julgar os que exorbitaram da autoridade. A vítima havia sido detida por dirigir em alta velocidade. Não resistiu à detenção e sequer esboçou mínimo gesto de hostilidade. Ainda assim, King recebeu, em várias partes do corpo, 56 golpes de cassetete, chutes e socos, numa inesquecível cena de selvajaria que quem a presenciou, pela televisão, certamente jamais irá esquecer.
 
Compreende-se, até, a revolta da comunidade negra diante do ridículo veredito da Justiça. Mas nada justificava que se respondesse à violência com outra violência ainda maior. Los Angeles virou praça de guerra, com centenas de incêndios se espalhando por toda a cidade, saques e depredações generalizados e, o que é pior, agressões de toda a sorte que redundaram na morte de pelo menos 38 pessoas, ferimentos em cerca de 1.300 e prejuízos incalculáveis, que ascenderam a alguns milhões de dólares. E, o que foi mais grave, a imagem dos Estados Unidos, de uma sociedade quase perfeita, perante a comunidade mundial, ficou bastante comprometida na ocasião.
 
Aliás, coincidentemente, somente alguns dias antes desses conflitos, o filósofo esloveno, Slavoj Zizek, comentando o fim do comunismo e a desagregação da ex-União Soviética, previu tumultos como estes em países capitalistas. Observou: “Sem o mundo comunista, desapareceu a figura do inimigo externo que deve ser exterminado. As lutas agora se transferiram para a esfera interna. Não é verdade, como diz Francis Fukuyama, que com a queda do comunismo terminaram os antagonismos e a História” E não terminaram mesmo.
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Não eram (e não são), apenas, os Estados Unidos que tinham (ainda têm?) essa autêntica bomba de tempo montada em seu interior para explodir a qualquer momento chamada preconceito. Na Alemanha, por exemplo, o ressurgimento do nazismo, com toda sua ideologia de ódio e de pretensa superioridade racial,  gerou alguns tumultos, posto que nenhum tão grave como os que afetaram Los Angeles e mais dez cidades norte-americanas em fins de abril e começo de maio de 1992.
 
França, Grã-Bretanha, Itália, apenas para mencionar outras potências, estão muito longe de serem os oásis de paz e solidariedade que alguns apregoam, muitos sonham construir, mas que ninguém se empenha seriamente para tornar concretos. Isto para não citar o antagonismo étnico latente em várias partes da Europa, especialmente no Leste europeu e os fundamentalismos religiosos, instigando ódios em seguidores fanatizados, ao invés de mensagens de amor, como seria de se esperar da parte de qualquer religião.
 
Mais do que nunca, os homens se odeiam, se agridem e ressaltam pequenas e irrelevantes diferenças, quando deveriam se concentrar em cultivar as enormes semelhanças. Martin Luther King, na década de 1960, definiu com clareza o que está por trás das atitudes segregacionistas: “A segregação racial é alicerçada em medos irracionais como a perda de privilégio econômico, a posição social alterada, os casamentos interraciais e o ajustamento a situações novas”.
 
Teme-se que explosões de violência até inesperadas venham a ocorrer, e não importa onde, motivadas pelo preconceito (não apenas o racial, mas principalmente ele) e pela conseqüente discriminação. Pretextos, infelizmente, sempre existiram e existirão enquanto não houver uma consciência clara de que os sistemas sociais existentes, que classificam os homens e determinam seus destinos pelo que eles têm e não pelo que são, são perversos, injustos, imorais e ilógicos. Afinal, como indagou William Shakespeare, numa de suas peças: “O que é a cidade senão as pessoas?” Da minha parte, faria uma ligeira mudança nessa indagação. Substituiria a palavra “cidade” por “sociedade”. E a questão ficaria assim: “O que é a sociedade senão as pessoas?”. Sim, leitor, o que é?!
 
 

Mistérios e absurdos

misterios
por Pedro J. Bondaczuk
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A fé é confundida, pela imensa maioria das pessoas, com mera “credulidade”, confusão essa que a banaliza e a diminui. Quem a faz, mete na cabeça uma série de crendices, algumas absurdas e irracionais, e se apega fanaticamente a ela, como se fosse o suprassumo da verdade. Há, até, quem seja capaz de matar para impor sua crença, que considera absoluta e inquestionável. Esses absurdos, queiram ou não, são, na verdade, a negação da fé. Não é e nem pode ser sua essência.
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Não é, por exemplo, o comportamento de indivíduos racionais, que usam o que Deus lhes deu de mais precioso para tentarem chegar à compreensão do pouquíssimo que pode ser compreendido por nós, humanos (o que é ínfimo por sinal): o raciocínio.
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Blaisé Pascal afirmou, certa feita: “Com a fé vejo mistérios, sem a fé vejo absurdos”. Todas as pessoas que pensam chegam a determinadas reflexões que se constituem em becos sem saída. Ninguém conseguiu até hoje, por exemplo, responder de forma convincente e cabal, sem deixar espaço para a mínima dúvida, às três questões essenciais da nossa espécie: “O que sou? De onde venho? Para onde vou?”. E olhem que milhões de pensadores já tentaram, em vão.
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Claro que essas perguntas suscitam outras, muitas outras, e não tarda em nos emaranharmos num amontoado de novas e novas questões, que fazem com que tudo pareça um infinito e monumental absurdo. O mesmo Pascal, em magnífico ensaio, intitulado “O homem e a natureza” (cuja leitura recomendo aos que gostam de pensar por si sós e se recusam a serem induzidos por charlatães), escreveu: “… Considerando que no que vejo há mais aparência do que outra coisa, procuro descobrir se Deus não deixou algum sinal próprio. O silêncio eterno desses espaços infinitos me apavora. Quantos reinos nos ignoram! Por que são limitados meus conhecimento, minha estatura, a duração de minha vida a cem anos e não a mil? Que motivos levaram a natureza a fazer-me assim, a escolher esse número em lugar de outro qualquer, desde que na infinidade dos números não há razões para tal preferência, nem nada que seja preferível a nada?”.
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Sim, amigos, por que? Mistérios, não é verdade? E consideramo-los assim “apenas” porque acreditamos na existência de um Deus, tão poderoso e sábio que criou esta infinidade de mundos, que a mente humana jamais apreenderá quantos, de fato, são, todos adstritos a leis lógicas, tão perfeitas, que até a mente pequenina deste tão miserável e ínfimo ser, que é o homem, consegue apreender.
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A fé, para merecer esse nome, tem que ter uma base lógica e racional. Caso contrário, corremos o risco de descambar para a mera “crendice”, sem pé e nem cabeça, que só nos manterá em confusão e obscuridade. Daí exigir-se muito cuidado com a crença irrestrita e inquestionável no que determinados “líderes religiosos” pregam. De onde eles tiraram os dogmas que tentam impor (e de fato impõem) aos incautos? “Ah, foi inspiração divina”, dirão os crédulos.
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Por que, pois, Deus, todo-poderoso – tanto que criou esta infinidade de mundos com tamanha perfeição – escolheria “aquela” determinada pessoa específica, e não outra qualquer, para lhe revelar os mistérios da Criação? Sim, por que?
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Antes que alguém erga seu dedo acusador e me chame de ateu, esclareço: “não o sou!”. Muito pelo contrário! E nem poderia ser! Não posso negar uma evidência tão óbvia! Procuro usar, isto sim, o que de mais nobre e eficaz meu Criador me outorgou, ou seja, o raciocínio. Tenho fé, sim, e muita. Mas apenas no Infinito e Eterno, fonte de toda a sabedoria e vida, onipotente, onipresente e onisciente. Por isso, considero tudo o que não entendo (e, a rigor, não entendo nada), um mistério e não o tremendo absurdo que parece ser.
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Minha vida tem que ter algum sentido, mas qual? Mistério! Considero-o assim, porém, exclusivamente porque tenho fé. Não tivesse, as evidências (que raramente se constituem, em verdade, mesmo que aparentem ser) me levariam a considerar minha existência grande absurdo. Sobre isso, talvez, nunca encontre explicação, embora deva sempre tentar, tentar e tentar enquanto tiver mais alguns parquíssimos anos de vida. Afinal, o Criador deu-me a faculdade de pensar para isso.
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“Cogito, ergo sum! (Penso, logo existo!”). Mas de onde se originou a vida para que eu tivesse, neste preciso tempo e não em outro qualquer, a oportunidade de usufruí-la? A fé faz com que considere isso um mistério. Sem ela, essa realidade não passaria de absurdo. Afinal, para que nascemos se ao cabo de um tempo tão ínfimo morremos e de nós restem só lembranças (quando restam) e uma ou outra obra que eventualmente sobreviva ao tempo e ao esquecimento? Quer absurdo maior do que este? Sem a fé, de fato o é.

De Pedro J. Bondaczuck

Esperando o melhor

Hoje acordei predisposto a evitar, a todo o custo, pensamentos e temas negativos. Não se trata, aviso de antemão, de nenhum súbito surto de alienação, até porque os meios de comunicação, com seu noticiário sombrio, e a função que exerço, de comunicador, não me permitem assumir essa postura. Decidi, porém, dar a mim mesmo – e a você, precioso leitor, que me privilegia com sua honrosa leitura – apenas uma trégua. A empreender momentânea fuga do lado feio da realidade e atentar para seu aspecto benigno e agradável, que ela também tem, mas ao qual raramente atentamos. Estamos condicionados, intoxicados, viciados em negativismo face ao que estamos continuamente expostos.

Mas hoje não quero, e nem vou escrever sobre tema árduo, tenso, negativo, ruim. Evitarei abordar crises, violência, taras e desvios de conduta que, gostemos ou não, se constituem em matérias-primas de uns 80% ou mais da Literatura. Essa decisão me lembra a conduta que adotava com freqüência em uma empresa em que trabalhei, há já algumas décadas. Tínhamos reuniões periódicas para debater problemas de trabalho, complexos e urgentes, que nos mantinham durante longas horas em estado de desgastante e desagradável tensão. Era terrível!

Eram comuns debates acalorados, em que muitos de nós ficávamos exasperados, à beira de um ataque de nervos, em decorrência da oposição (lícita, por sinal) que alguns dos colegas faziam às “soluções” que propúnhamos, não raro até óbvias, posto que não consensuais. Afinal, como diz o surrado, porém pertinente clichê, “em cada cabeça há uma sentença”. E como há!

Naquele tempo ainda não havia o veto (oportuníssimo) que há atualmente ao ato de fumar em ambientes fechados. Essas reuniões tinham como participantes entre oito a dez pessoas, todas chefes de suas respectivas seções. Éramos todos fumantes. Havia quem fumasse um charuto fedorento, que empesteava o ambiente e nos sufocava. Quando esses encontros terminavam, havia dez cinzeiros com pirâmides imensas dos restos desse veneno derramando-se nas bordas: cinzas e muitas, muitíssimas pontas de cigarro, mal cheirosas e insanas. Imaginem como era o ar que circulava naquela sala relativamente pequena e sem janelas. Havia uma cortina de fumaça tão densa que, exagerando um pouco (mas não muito), dava até para ser cortada com uma tesoura. Era um horror!

Como ninguém é de ferro, tínhamos, após duas horas de intensas discussões, quinze minutos de pausa. Alguns, iam à copa da empresa para se dopar de cafeína, que estimulava ainda mais o consumo de nicotina. Outros se dirigiam ao sanitário, sem interromper, contudo, os debates que os empolgavam. Contígua à sala de reuniões, porém, a empresa tinha bem cuidado jardim, com vários canteiros de flores e algumas árvores, com banquinhos debaixo delas. Esse era, invariavelmente, meu destino – à exceção dos dias de chuva.

Ali, eu aproveitava as pausas para “limpar a mente”, para não pensar em nada, mas apenas respirar ar puro, contemplar as flores, ouvir a algazarra dos pássaros, em suma, para recarregar as baterias mentais, nesse breve, porém eficaz contato com a natureza. E a estratégia funcionava. De regresso à reunião, era tiro e queda.

Invariavelmente, era eu que apresentava as soluções, finalmente adotadas, para os problemas que nos exigiam tantas discussões e tensão. Não, leitor, não sou nenhum gênio e muito menos um poço de sabedoria. Era, porém, o “único” a aproveitar, de maneira racional, os intervalos. Limitava-me, tão somente, a dar oportunidade ao subconsciente de atuar. E ele atuava. Vislumbrava as soluções que estavam diante dos olhos de todos, mas que ninguém enxergava. Muito menos eu, diga-se de passagem, antes dos intervalos das reuniões. Firmei prestígio na empresa por causa disso e obtive várias promoções.

Essa pausa benfazeja funciona, também, em nosso cotidiano (a menos que a encrenca em que nos tenhamos metido seja de tal sorte que não tenha saída positiva). A vida ensinou-me (não raro de maneira dramática, severa e até dolorosa) que não existe problema sem solução. Às vezes (aliás, muito frequentemente), esta não é a que desejávamos e que nos seria benigna. Mas, em boa parte das vezes, quando damos trégua à tensão, quando “limpamos” a mente e quando deixamos o subconsciente agir, esta se mostra tão simples e direta que chegamos a sentir raiva por não a havermos percebido antes, de imediato, poupando tanto desgaste e sofrimento.

A vida é muito mais simples do que ousamos admitir. Nós é que a complicamos, com nossos medos, preconceitos e, sobretudo, pessimismo. Esperamos o pior – de nós mesmos e principalmente dos outros – e essas expectativas são tão intensas e recorrentes, que ele, de fato, acontece. A esperança tende a ser, metaforicamente, “faca de dois gumes”. Se for voltada para o factível, o viável, o realizável e acima de tudo o positivo, multiplica nossas forças (físicas e/ou mentais), e o que era esperado se realiza, não raro de forma muito melhor do que eram nossas expectativas. Caso contrário… É inesgotável fonte de decepções, angústias, frustrações e sofrimentos. Pense nisso.

“El cambio civilizatorio que requiere la humanidad no es solamente económico sino también cultural”

– En su libro “dos pasos adelante, uno atrás” usted sostiene que en esta crisis civilizatoria del capitalismo están dadas las condiciones para una transición que permita cambiar el sistema. ¿Esta crisis capitalista será la oportunidad para comenzar este proceso de transformación?

– Yo he dejado de hablar de cambio de sistema para plantear cambio civilizatorio. Podría pensarse que es lo mismo pero no lo es porque un cambio civilizatorio implica una transformación de las lógicas profundas que vienen dominando la civilización actual, y lo que aprendimos del socialismo del siglo XX fue el planteamiento de una alternativa superadora del capitalismo y ciertamente podemos decir que mal o bien lo logró en el sentido de que hubo varias revoluciones pero quedaron entrampadas en la lógica de la competencia económica del capitalismo. Se pensó que hacer la revolución pasaba por apropiarse de los medios de producción por parte del Estado, reduciendo el poder a las personificaciones institucionales, sin ver otras aristas, sin contemplar la hegemonía, simplemente teniendo una visión institucionalista y economicista del poder y eso automáticamente produciría la liberación humana. La historia no es así y lo que hubo fue un cambio de dueños que no modificó la lógica, por eso yo creo que el problema no es superar el capitalismo sino superar toda la civilización del capital, el desafío es mayor. Nosotros vivimos una civilización deshumanizada en el sentido de que promueve una alienación muy grande de los seres humanos porque somos cada vez más objetos de consumo. Cada vez vivimos menos para nosotros y mucho más para el mercado.

– Pero esto tocó fondo…

– No, nunca toca fondo, se profundiza cada vez más, esto no se termina espontáneamente. El ser humano está tan enajenado que se sigue autoflagelando para responder a la cuestiones que se consideran normales y no se piensa en los cómo y en los para qué. La humanidad no se va a dar cuenta de todo lo que está pasando: guerras, destrucción de la naturaleza, etc., porque para darse cuenta tendría que tener las herramientas culturales y no las tiene. Y aquellos que quieren cambiar el mundo en vez de estar simplemente en la calle deberían dedicarse a concientizar. Y no quiero decir que estar en la calle sea una pavada porque a veces hay que estar en ella, pero hay que avanzar en la concreción del pensamiento estratégico, en el sentido de Paulo Freire, no ir a meter conceptos sino tratar de razonar y discutir las realidades. El problema del mundo es la inexistencia de una humanidad consciente para lo cual tenemos que encontrar un nuevo modo de vida entre todos y todas, y eso no se logra por decreto sino que hay que construirlo, por eso la construcción del poder es desde abajo. Es decir, tenemos que cambiar el modo de producción y de reproducción y eso hay que pensarlo, hay que inventarlo, y es todo un caminar de muchos años. Pero además, la humanidad tiene que saber porqué lo hace para querer hacerlo.

Entrevista con la filósofa argentina Isabel Rauber

A PROPOSTA INDECENTE DE NIETZSCHE

“E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: ‘Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência’?”

 

Nietzsche, em A Gaia Ciência

 

É com essa premissa que Friedrich Nietzsche (1844-1900) nos apresenta o mito do eterno retorno, que ele mesmo considerou sua ideia “mais profunda e amedrontadora”. Segundo sua linha de raciocínio, não existe passado, presente ou futuro: tudo se repete eternamente, sempre exatamente da mesma forma, sem a menor chance de modificação. Assim, o melhor e o pior momento das nossas vidas continuam acontecendo agora mesmo, e suas alegrias e angústia ainda agem sobre nós da mesma maneira.

O conceito é tão complexo e, aparentemente, antinatural, que não há como não duvidar: será que existe mesmo alguma possibilidade de ele ser verdadeiro? Grande parte dos filósofos contemporâneos que tentaram desatar esse nó concluíram que não. Para eles, no entanto, o mais importante não é tentar descobrir se o eterno retorno é plausível, mas aproveitar a valiosa reflexão que ele oferece: até que ponto gostaríamos de experimentar nossa própria existência novamente? Ou, em outras palavras: até que ponto amamos a vida?

Para encontrar a resposta, basta rever a proposta do demônio nietzschiano e responder: para você, ela se parece mais com um presente divino ou com uma terrível maldição?

 

 

NOSSO LUGAR APÓS A MORTE

por Luana McCain

 

 

Quantas vezes indagamos

no silêncio de nós mesmos:

– Para onde iremos,

após a morte do corpo?

Que lugar nos espera no Além?

Na verdade, nosso lugar é construido

pelo nosso comportamento na existência atual.

Não basta sonhar:

é preciso realizar;

não resolve somente orar:

é necessário trabalhar.

Não adianta esperar:

é indispensável construir

enquanto o tempo nos favorece

na vida física.

Não devemos esquecer

em momento algum

esta verdade,

a fim de não perdermos de vista

nossa própria edificação.