O assédio é a única resposta do homem machista?

Num ato de mulheres em São Paulo pelos direitos da mulher, homens se acharam no direito de ridicularizá-las e até de se masturbar em público. Por quê?
Ato de mulheres: Cunha sai, a pílula fica

Ato de mulheres: Cunha sai, a pílula fica

por Clarice Cardoso

Nenhuma mulher se surpreendeu quando eu contei do rapaz branco, “bem vestido”, e aparentemente de classe média que decidiu se masturbar em plena Avenida Paulista, em São Paulo, enquanto milhares de mulheres protestavam contra o presidente da Câmara Eduardo Cunha, o PL 5069/13 e as cotidianas violências a que estão sujeitas.

Foi na esquina da própria Paulista, assistindo ao ato do outro lado da rua, que aquele rapaz de cerca de 30 anos de idade resolveu abrir as calças, colocar o pênis para fora e se exibir.

Eu esperava o farol fechar para atravessar quando percebi que ele olhava para mim e sorria. Eu já estava no meio da travessia quando percebi o que ele tinha na mão. A única reação foi sair dali o mais rápido possível.

Esse episódio não surpreendeu nenhuma mulher com quem eu conversei. Pior, passei a ouvir os mais variados relatos de situações similares.

Este não é um texto sobre este e os outros homens que encontrei na rua na sexta-feira. Esses homens que se infiltraram num ato de 15 mil pessoas para assediar mulheres e tentar, talvez, causar algum tipo de dispersão.

Este é um texto sobre a absurda incompetência do Estado em garantir a segurança de mulheres nas ruas das cidades, mesmo quando se trata de um ato feito por mulheres pelos direitos das mulheres.

Porque foi isto o que fez com que o cara da esquina achasse que ele podia fazer o que fez: a certeza da impunidade. Nenhum policial iria fazer nada porque sabemos, vemos todos os dias, não é atrás de pessoas assim que a polícia vai. E mesmo se fosse, “atentado ao pudor” é uma redução leve demais para o que acontece.

Pouco antes, tinha observado com atenção os homens que por ali passavam, alguns acompanhando suas mulheres e filhos, outros sozinhos ou com amigas, que caminhavam por São Paulo em sinal de apoio a questões de que eles só conseguem se aproximar por um exercício enorme de abstração. Alguém que não sabe o que é o medo do estupro gritando contra essa cultura é uma pessoa louvável.

No meio deles, um grupo de jovens vestidos de mulher, como se fossem a um baile de Carnaval, caminhava de um lado ao outro da rua se achando muito espirituosos. Porque é engraçado para eles ridicularizar as mulheres (cis e trans). Porque nossos corpos estão à disposição para usar, agredir, julgar ou fazer piada. Não estão? O Congresso acha que sim.

Eles só não eram piores que o grupo que se comportava como se estivessem numa balada. Entre milhares de mulheres, o teste do macho era para ver quem “pegava” mais mulheres. Um comportamento já por si só condenável replicado num ato sério, representativo, que precisa ser tratado com toda a seriedade que merece.

Dois chamaram a atenção pelo “apoio” às avessas que davam à causa. Sem camisa, usaram batom para escrever no corpo: “Meu útero, minhas regras”. A lógica explica o que há de errado nisso.

O que na pauta de demandas de todas aquelas mulheres incomodou tanto esses homens a ponto de eles lançarem mão do assédio como única forma de resposta? Por que é tão difícil para eles respeitar uma situação em que eles não são os protagonistas? Uma situação em que ninguém precisa pedir a ajuda deles para ser ouvida?

É quase como se o assédio fosse a última carta na manga para tentar voltar à cena.

aborto

Não me venha falar na malícia de toda mulher

Ou enganam, ou são enganadas
Se mulheres são enganadas, é por políticas públicas como as propostas por Eduardo Cunha

Se mulheres são enganadas, é por políticas públicas como as propostas por Eduardo Cunha. “Sua corrupção no meu útero, não!”

Por Antonia Pellegrino

O deputado e atual presidente da câmara deve estar rindo das mulheres que foram às ruas contra sua PL 5069/13, mais conhecida como PL do Aborto.

Segundo Cunha, “a legalização do aborto vem sendo imposta a todo o mundo por organizações internacionais inspiradas por uma ideologia neomalthusiana de controle populacional, e financiadas por fundações norte-americanas ligadas a interesses supercapitalistas”.

Para o deputado, os frutos deste lobby começaram a brotar nos Estados Unidos, em 1969, sob a presidência de Nixon, alçando seu auge poucos anos depois, no relatório Kissinger.

A partir do relatório, que “propunha o controle demográfico mundial como matéria de segurança nacional dos Estados Unidos” (sic), forças de oposição à política americana começaram a emergir em todo o mundo, e também dentro da América.

Hora de o lobby mudar de estratégia, e foi o que aconteceu, segundo argumentação de Cunha, a partir de 1974, quando “a direção das organizações Rockefeller, em conjunto com sociólogos da Fundação Ford, formularam uma nova tática na estratégia para o controle da população mundial”.

“Os meios para a redução do crescimento populacional, entre os quais o aborto, passariam a ser apresentados na perspectiva da emancipação da mulher, e a ser exigidos não mais por especialistas em demografia, mas por movimentos feministas organizados em redes internacionais de ONG’s sob o rótulo de ‘direitos sexuais e reprodutivos’.”

“Neste sentido, as grandes fundações enganaram também as feministas, que se prestaram a esse jogo sujo pensando que aquelas entidades estavam realmente preocupadas com a condição da mulher.”

Estará o deputado Eduardo Cunha verdadeiramente preocupado com a condição da mulher?

Hoje, se uma mulher for estrupada e engravidar, é direito dela ir diretamente ao hospital e realizar o procedimento. Caso o projeto do deputado entre em vigor, a estuprada terá que comparecer a uma delegacia, registrar ocorrência e se submenter a um exame de corpo de delito para comprovar o abuso.

Em seu Facebook, Eduardo Cunha afirmou: “o projeto de lei vai contra a impunidade, incentivando as vítimas reais a registrarem Boletim de Ocorrência; ajudando a combater este crime hediondo”.

Vítimas reais, deputado?

O projeto de lei do deputado Eduardo Cunha parte do princípio de que haveria mulheres utilizando o SUS para fazer abortos ilegais. Seu alegado objetivo seria, portanto, em última instância coibir a mentira. Concedo que não é absurdo supor que mulheres estariam mentindo para ter o direito ao aborto legal pelo SUS. Mas cabe perguntar: por que elas fariam isso?

Talvez a resposta possa vir da boca de Sandra Maria dos Santos Queiroz, a mulher que deixou seu bebê aos pés de uma árvore, há poucas semanas, no bairro de Higienópolis, na cidade de São Paulo. Quando perguntada por que “abandonou” seu filho, Sandra tapou o rosto e disse: “por desespero”.

Deputado, se as mulheres enganam, só o fazem porque são coagidas por um Estado que se diz laico, mas lhes retira o direito ao próprio corpo utilizando argumentos históricos para escamotear intenções nada laicas e nada preocupadas com a condição feminina.

E, se (algumas) mulheres são enganadas, é por políticas públicas como as propostas pelo senhor. Não passará. #AgoraÉQueSãoElas In Carta Capital

fanatismo religioso pena morte aborto

Las sin nombre

Por Flor Monfort/ Página 12

Nadia Vera

Nadia Vera

Primero fue un nombre y una cara las que ilustraban la noticia: “El fotoperiodista Rubén Espinosa fue brutalmente asesinado junto a cuatro mujeres”, se dijo desde los medios mexicanos, y el mundo recogió la noticia replicando esa cara y ese nombre. El domingo, el fiscal que investiga su muerte aclaró que junto a Espinosa había cuatro mujeres, también muertas de un “tiro de gracia con un arma calibre 9 mm”, y las designó con un número que corresponde a sus edades: 40, 32, 29 y 18. Nada dijo sobre las torturas sexuales a las que fueron sometidas antes de morir, poco sobre sus identidades. Enseguida se empezó a especular con los vínculos, con quién vivía Espinosa, la supuesta fiesta que había habido en su casa antes de los tiros y los movimientos que hubo en el departamento ese 31 de julio. Hasta el cierre de esta edición, sólo se sabe con certeza a quién corresponde el número 32, los años de la activista Nadia Vera al momento de su muerte. De esa tríada en femenino que forman el 40, el 29 y el 18 sólo se labra una silueta, una que a esta altura se puede hacer coincidir con tantas trazadas en suelo mexicano por la violencia que las hace desaparecer en Ciudad Juárez o en La Bestia, también conocido como “tren de la muerte”, sólo por poner dos territorios icónicos de un mapa donde el femicidio y los crímenes de odio son moneda corriente.

Vera era antropóloga egresada de la Universidad Veracruzana, integrante de la Asamblea Estudiantil de Xalapa y formó parte del movimiento #Yosoy132, trabajaba en la Muestra Internacional de Cine y Video Independiente Oftálmica y coordinaba el Festival Internacional de Artes Escénicas Cuatro por Cuatro. En noviembre de 2014 se puso frente a una cámara para alertar al mundo: cualquier cosa que le pasara sería responsabilidad de Javier Duarte Ochoa, el intendente de su Veracruz natal al que venían denunciando con Espinosa desde distintos frentes como el jefe del estado mexicano más peligroso para ejercer la libertad de expresión. Ambxs recibieron amenazas y emigraron al Distrito Federal para sentirse a salvo. Pero hace poco más de dos meses el terror se materializó en una acción concreta: policías de civil atacaron a golpe de machetazos a diez estudiantes y militantes de la universidad de la que Nadia había egresado, algunos eran sus amigxs y todxs ellxs la conocían. Las heridas marcaron los cuerpos a fuego y tanto Nadia como Espinosa creyeron que en la capital del país estarían a salvo. Pero no fue así, y junto a Nadia otros tres cuerpos de mujeres aparecieron sin vida, y después de violentados, también sin nombre.

Feministas y activistas por los derechos humanos se encargaron esta semana de poner nombre a esos números que el fiscal de la causa mencionó por arriba, como un trámite tedioso. “Alejandra, la mujer invisible para los medios y la sociedad, tenía 40 años y trabajaba como empleada doméstica… Tenía una vida, amigxs, tenía un pasado y un futuro, tenía sueños que valían tanto como los de cualquier otra persona y se los arrebataron”, dice una imagen que circula en las redes sociales. “Yesenia Quiroz Alfaro, maquilladora originaria de Mexicali”, dice otra junto a un lazo negro y sin terminar de identificarla se habla de una “colombiana” que deja incompleta una lista de víctimas invisibles, tan brumosas como aquellas a las que se insiste en llamar con otros nombres, como cuando se habla de nuestra Laura Moyano en masculino o se insiste en su muerte como un homicidio más, propio de la “inseguridad”.

Cuerpos de descarte, cuidadanxs de segunda, nombres que se omiten porque otros los preceden, el ataúd de Nadia Vera tiene un pequeño cartel que lo corona con una frase suya: “Seamos realistas, hagamos lo imposible” que hoy parece un deseo hermoso pero amargo, difícil de tragar.