A CASA AZUL

por Talis Andrade

Eu poderia ser feliz
em uma casa azul
à beira de um lago

Uma casa azul
ladeada por árvores
uma casa azul
com varandas
nos lados

Uma casa azul
com sinos de vento
e o canto dos pássaros
eu poderia ser feliz

Se existisse uma casa azul
de tão bonita a casa
talvez você consentisse
em morar comigo

Do Grande Rio do Sul a Poesia de Sandra Santos

Sandra chimarrão

***

 

ando pelas colinas campeando a vida
que ficou pra trás
por vezes a felicidade passa disfarçada
pra outro lugar…

 

Sandra Santos, a musa

 ***

triste ter que excluir
discurso racista
homofóbico e sexista

será que a criatura tem jeito?

 

sandra santos5

***

 

atirou a primeira pedra
a pedra atingiu uma mulher
atirou a segunda pedra
a pedra atingiu a negra
atirou terceira pedra
a pedra atingiu a velha
a quarta pedra atingiu uma ativista
a quinta pedra, a benzedeira
atirou a sexta pedra
e nada mais
poderia atingir
sua identidade mestra
a pessoa esmurrou a pedra

 

 

As 20 combinações de Cristina Moreno de Castro para uma vida feliz

 

 

1 – Frango com catupiry
2 – Pão de queijo com café
3 – Filme com pipoca
4 – Aniversário com dia de folga
5 – Almoço com farofa
6 – Churrasco com dia de sol
7 – Férias com viagens
8 – Buteco com amigos
9 – Blues ou samba com lugar sem cadeiras

 

Cristina Moreno de Castro, jornalista e poetisa

Cristina Moreno de Castro, jornalista e poetisa

10 – Gaita com qualquer boa música
11 – Pé com chinelo
12 – Natal com crianças
13 – Preto com branco
14 – Cerveja com conversa
15 – Domingo com família
16 – Beagá com céu azul
17 – Outono com céu azulíssimo
18 – Míope com óculos
19 – Faxina com rádio ligado
20 – Amor com carinho

 

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Recife. E a festa tão ansiada começou

por Manuel Carvalho
Público/ Portugal

Pela manhã, um dos jornais diários do Recife titulava a toda a capa: “Que felicidade”. Raramente uma manchete de um jornal consegue acertar com tanta precisão antes do acontecimento como a do Diário de Pernambuco. Uma fotografia de uma pessoa em pose eufórica, com um gesto algures entre o devaneio e a celebração era apenas uma boa antecipação do que se preparava para acontecer nessa noite no Marco Zero, o epicentro da geografia e, por afinidade, da cultura do Recife e de Pernambuco. Depois do final da tarde, centenas de milhar de pessoas invadiram o bairro antigo para serem felizes, para dançarem como se nunca tivessem dançado, para rirem como se tivessem esperado, para se abraçarem como se despedissem para longas ausências.

rosto carnaval

E difícil descrever o que é o Carnaval no Recife. Por causa dos semblantes, do movimento, da forma como se dança, sem dúvida. Mais ainda por causa da impossibilidade de descrever tantos odores, de queijo coalho na prancha, das espetadas, do suor, da maconha, do esgoto fugaz mas insistente. Ou da música, do som dionisíaco das orquestras de frevo, do estilo forró que sai dos palcos, do maracatu que cruza as ruas ou dos trios ou quartetos de homens tisnados do sol que vêm do interior apenas para tocar numa esquina do carnaval. Como de Bosco, que veio do Lajedo com o seu grupo de bombo, caixa, flauta e pratos para colonizar uma esquina com aquele ritmo irresistível da miscigenação cultural do Brasil. Após tantas dimensões impenetráveis do Carnaval do Pernambuco fica uma certeza: é um dos maiores festivais de World Music do mundo.

Foram quase três horas de concerto no palco grande, no Marco Zero, onde passaram cantores indígenas e anónimos e pernambucanos conceituados como Lenine – Elba Ramalho não é pernambucana de nascimento, mas foi adoptada e por lá passou também. Mas se na sua órbita gravitavam os corpos em movimento de milhares de pessoas, a quintessência do Carnaval recifense passava-se nas ruas do interior do bairro primordial da cidade. Era lá que esse enorme caos controlado melhor se expressava. Grupos de jovens em correria, homens e mulheres de idade provecta, crianças, pretos, brancos, pardos e de todas as outras tonalidades do Brasil, rapazes que carregavam caixas de esferovite com cerveja e outras bebidas frescas, pobres que apanhavam as latas ou as garrafas plásticas do chão, mascarados ou anódinos, o enorme torvelinho do Carnaval fazia ali todo o sentido no seu aparente caos.

E porquê? Porque, talvez, tudo aquilo era colado por uma cultura que todos partilham e um estado de espírito que todos comungam. Uma obrigação voluntária, passe o contra-senso. É difícil entender esse Carnaval porque se nota que se incrustou nas pessoas que, como uma criança com os seus quatro anos que integrava um dos blocos de maracatu, batem nos tambores desde que são o que são. Aos de fora, não há muita oportunidade para perceber tanta música, tanta gente, tanto odor, tanto riso e tanta paixão. O melhor mesmo é seguir o bloco, deixar-se guiar pelo frevo e reconhecer ao menos que aquela é uma festa que sublinha a felicidade e tudo o que há de melhor do género humano.

pífano carnaval

As cinco coisas de que as pessoas mais se arrependem antes de morrer

Bronnie Ware é uma enfermeira australiana que durante vários anos trabalhou numa unidade de cuidados paliativos para doentes terminais. No seu blog – Inspiration and Chai – compilou as cinco coisas que as pessoas à beira do fim mais se arrependem de não ter feito.

Ware afirma que as pessoas «crescem imenso quando confrontadas com a sua mortalidade» e que cada indivíduo passa por uma «grande variedade de emoções», «negação, medo, raiva, remorso, mais negação e, eventualmente, aceitação».

Quando questionados sobre o que gostariam de ter feito de forma diferente em vida, os pacientes repetiam frequentemente os temas. Essas respostas foram compiladas e deram origem ao livro ‘The Top Five Regrets of The Dying’.

Aqui fica um resumo dos principais arrependimentos das pessoas no leito de morte, tais como foram testemunhados por Bronnie Ware.

 

Quem me dera ter tido a coragem de viver de acordo com as minhas convicções e não de acordo com as expectativas dos outros. «Este é o arrependimento mais comum. Quando as pessoas se apercebem de que a sua vida esta a chegar ao fim e olham para trás, percebem quantos sonhos ficaram por realizar. (…) A saúde traz consigo uma liberdade de que poucos se apercebem que têm, até a perderem».

Quem me dera não ter trabalhado tanto. «Este era um arrependimento comum em todos meus pacientes masculinos. Arrependiam-se de terem perdido a infância dos filhos e de não terem desfrutado da companhia das pessoas queridas. (…) Todas as pessoas que tratei se arrependiam de terem passado muita da sua existência nos ‘meandros’ do trabalho».

Quem me dera ter tido coragem de expressar os meus sentimentos. «Muitas pessoas suprimiram os seus sentimentos, para se manterem em paz com as outras pessoas. Como resultado disso, acostumaram-se a uma existência medíocre e nunca se transformaram nas pessoas que podiam ter sido. Muitos desenvolveram doenças cujas causas foram a amargura e ressentimento que carregavam como resultado dessa forma de viver».

 

Quem me dera ter mantido contacto com os meus amigos.«Muitas vezes as pessoas só se apercebem dos benefícios de ter velhos amigos quando estão perto da morte e já é impossível voltar a encontrá-los. (…) Muitos ficam profundamente amargurados por não terem dedicado às amizades o tempo e esforço que mereciam. Todos sentiam a falta dos amigos quando estavam às portas da morte».

Quem me dera ter-me permitido ser feliz. «Muitos só perceberam no fim que a felicidade era uma escolha. Mantiveram-se presos a velhos padrões e hábitos antigos. (…) O medo da mudança fê-los passarem a vida a fingirem aos outros e a si mesmos serem felizes, quando, bem lá no fundo, tinham dificuldade em rir como deve ser».

 

SOL

SUFRIMIENTOS EN LA “CIVILIZACION DEL PLACER”

Razón de las ovejas enfermizas

En una civilización donde –sostiene el autor de este ensayo– “resulta inmoral no ser feliz” y donde predominan “la evasión, la violencia mediática y la frivolidad”, sucede que “el hombre actual sufre por no querer sufrir”. Y prospera el “infantilismo”, que declara: “Sufro: alguien tiene que ser el causante”. Es el argumento que Nietzsche llamó “de las ovejas enfermizas”.

Por Luis Hornstein

La moral y la felicidad, antes enemigas irreductibles, se han fusionado; actualmente resulta inmoral no ser feliz. Hemos pasado de una civilización del deber a una del placer. Allí donde se sacralizaba la abnegación y la privacidad tenemos ahora la evasión, la violencia mediática y la frivolidad. La dictadura de la euforia sumerge en la vergüenza a los que sufren. No sólo la felicidad constituye, junto con el mercado de la espiritualidad, una de las mayores industrias de la época, sino que es también el nuevo orden moral.

El hombre actual sufre por no querer sufrir. Quiere anestesia en la vida cotidiana. Ciertos sufrimientos sólo preocupan cuando son desmesurados, sea por la duración, sea por la intensidad. Para atenuarlos, para borrarlos, recurrimos a diversas estrategias: los fármacos, el alcohol, las drogas, la calma chicha de ciertas corrientes orientales que decretan vanos nuestros afectos y compromisos. Otra estrategia es el infantilismo y la victimización. Ambas intentan eludir las consecuencias de los propios actos. “‘Sufro: indudablemente alguien tiene que ser el causante’: así razonan las ovejas enfermizas”, escribió Nietzsche. Leia mais