Antipetismo e ódio de classe

A partir das figuras do escravo e do dependente, formou-se entre nós uma massa a quem se nega o estatuto de “gente”

 

negro criança racismo

por Maria Eduarda Mota Rocha/ El País/ Espanha

 

Bastou o resultado do primeiro turno das eleições ser divulgado e, mais uma vez, os insultos aos “nordestinos miseráveis analfabetos” eleitores de Dilma Rousseff pipocaram nas redes sociais. Enquanto isso, na grande imprensa, FHC reproduzia o preconceito em sua versão mais douta e sutil, associando o voto ao PT aos “menos informados” que, por “coincidência”, são os mais pobres.

Na raiz do problema, uma velha tradição brasileira: a ausência de um arcabouço moral universalizado capaz de impor como dever o respeito a todos os seres humanos, em sua dignidade fundamental. Os “nordestinos miseráveis analfabetos” são a versão mais recente do que Jessé Souza chamou de “ralé brasileira”. Ele mostra como, a partir das figuras do escravo e do dependente, formou-se entre nós uma massa a quem se nega o estatuto de “gente”.

No caso em questão, a dignidade desses tipos sociais é duplamente negada. Primeiro, contesta-se o seu direito à manifestação mais superficial de cidadania que é o voto. Eleitores tão desinformados não deveriam votar, está implícito. Mas esta primeira recusa está fundamentada em outra, muito mais profunda, que é a do direito ao reconhecimento social já mencionado.

Ao fim e ao cabo, o que está em jogo é a grita contra a quebra do monopólio de recursos vitais para a reprodução das elites e para a manutenção do tipo obsceno de desigualdade que existe entre nós. Afinal, os governos petistas empreenderam uma política de valorização do salário mínimo e de distribuição de renda, o que fez cair a desigualdade econômica de modo contínuo, embora em ritmo mais lento nos últimos anos. A PEC das domésticas veio colocar mais lenha na fogueira porque, ao regular este tipo de trabalho, atacou o mais claro resquício da escravidão no país, uma relação que não tinha sequer uma jornada estabelecida.

Mas foi sobretudo a democratização do acesso à universidade que feriu os brios das elites nacionais, porque afetou diretamente um dos mecanismos mais importantes para a sua reprodução: o acesso exclusivo ao ensino superior. As novas universidades, a política de cotas, a expansão das vagas convergiram para fazer muitas famílias verem um de seus membros chegar pela primeira vez a este nível de escolaridade.

Para piorar a situação dos preconceituosos, já partir de 2006 as políticas inclusivas do Governo provocaram uma mudança da base eleitoral do PT, das classes médias mais escolarizadas para as classes populares, como mostrou André Singer. Eles acertam quando identificam a composição social do voto petista. Mas seu preconceito não os deixa ver que os pobres tem boas razões para isso, mesmo que o Governo tenha deixado intocados tantos outros monopólios, como o da própria mídia que agora o ataca, e que tenha se paralisado no último mandato em áreas tão importantes como a política cultural.

A corrupção é a cortina de fumaça para muitos – mas não para todos – dos que repudiam o PT neste momento. A trajetória do partido faz os escândalos que o envolvem soarem mais fétidos do que os demais, porque ele começou a conquista do poder pelo legislativo, chamando para si a função de fiscal do executivo, desde a redemocratização. Agora, a pecha de “paladino da ética” é usada contra ele. Mas, todos sabemos (mesmo que a grande mídia e os eleitores do PSDB façam questão de esquecer) que a relação viciada entre o legislativo e o executivo é constitutiva da política brasileira.

Tendo campanhas absurdamente caras, o Brasil vê chegar ao poder partidos comprometidos com grandes empresas e congressistas que votam por interesse, e não por convicção. Entretanto, por que os tantos indignados com a corrupção não defendem a reforma política que podia mudar esse estado de coisas? Porque a moralização do debate é uma forma de evitar sua politização. Politização que, aliás, avançou muito pouco durante o governo petista, o que agora pode lhe custar o Planalto. Os jovens pobres parecem ver suas conquistas como meramente pessoais, cedendo diante da ideia de meritocracia e esquecendo os fatores estruturais e a ausência de políticas públicas que explicam porque as gerações anteriores não tiveram as mesmas oportunidades. Por isso, a onda conservadora pode crescer ainda mais.

Maria Eduarda Mota Rocha é pesquisadora e professora da Universidade Federal de Pernambuco

O que você diz de “sua” empregada. Crítica do preconceito

por Carla Jiménez
e  Marina Rossi

empregada

Um perfil no Twitter satiriza a herança escravocrata brasileira sob o codinome @aminhaempregada. A brincadeira toca em um assunto sério, a começar pela inclusão do pronome possessivo “minha” na alcunha virtual, que demonstra um papel de posse de alguém que lhe serve. O autor, que prefere ficar no anonimato, segundo a BBCBrasil, retuíta os posts preconceituosos de parte dos brasileiros, que em algum lugar do seu imaginário se julgam seres superiores em relação a seus empregados. “Só porque eu sou negra tá achando que eu vou trabalhar de empregada”, diz uma.

“Minha empregada não chega, disse que tá sem ônibus, minha casa tá imunda. Vadia, vem andando!”, diz alguém, indiferente à greve de ônibus que paralisou a cidade de São Paulo e deixou mais de 260 quilômetros de congestionamento nesta terça-feira. “Minha empregada é anta, ela tava arrumando meu quarto, tocou quatro vezes o celular e ela nem para me levar e nem avisa!”, dizia outra tuiteira.

O portal choca, mas como diriam alguns, até a página 15. Esse tipo de comentário faz parte do cotidiano do Brasil, pelo menos desde a assinatura da lei Áurea, no dia 13 de maio de 1888. Antes dessas datas, os mesmos comentários, ou até piores, seguidos de chibatadas reais, eram dirigidos às servis escravas que este país, um dos últimos a eliminar a escravidão no mundo, manteve para assear os banheiros sujos das classes dominantes.

No caso do perfil @aminhaempregada, alguém apenas decidiu reuni-los, para que pudessem ser apreciados a olho nu em sua crueza mais genuína. Porém, há um lado muito positivo dessa história toda. Recorrendo à expressão em latim, verba volant, scripta manent, ou as palavras voam, e a escrita permanece, o perfil materializa um preconceito que em sua essência é intangível. Quando visto com todas as cores, ganha a função de espelho, onde o brasileiro pode se reconhecer como uma “anta” por adotar atitudes similares aos que estão sendo expostos na rede por seus comentários.

Na mesma rede, um sujeito teve a coragem de desabafar. “Tomei um ótimo tapa na cara com este perfil @aminhaempregada. Sim, já falei coisas assim. Mas essa é a beleza do negócio: aprender e melhorar.” O comentário desse internauta mostra o caminho que se pode tomar, ao enxergar o copo meio cheio em vez de meio vazio. Quanto mais detalhado o diagnóstico de uma doença, maior a chance de curá-la. O perfil @aminhaempregada apenas joga mais uma luz nessa distorção de uma parte da sociedade brasileira, em um país de maioria negra e pobre.

O professor Emerson Ricardo Girardi, sociólogo e professor da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), de São Paulo, lembra que a questão das empregadas domésticas no Brasil é antiga, abordada, por exemplo, na obra do escritor Gilberto Freyre, de Casa-Grande & Senzala, (livro publicado em 1933). Girardi acredita que a conta do Twitter tem dois lados, um positivo e um negativo. “O negativo é que ele acaba, de certa forma, disseminando o preconceito que já é estruturado na sociedade brasileira. Mas, por outro lado, isso gera uma certa polêmica e essas questões proporcionam o debate”, afirma.

Mesmo que a carapuça do perfil @aminhaempregada sirva para muita gente, é fato que ela não deve ser generalizada. Muitas famílias no Brasil procuram promover sua distribuição de renda particular, garantindo o que lhes é devido, ou benefícios extras para aquelas que se tornam seus braços direitos e que ainda cuidam de seus filhos. Diversos patrões ajudam suas funcionárias do lar a comprar suas próprias residências, a voltar a estudar, ou a pagar a escola dos filhos, apenas para praticar dentro de casa o que deveria ser o principio básico da igualdade.

Para os que não partilham dessa reflexão, vale lembrar que a vingança das empregadas domésticas já está em curso. Oitenta anos depois a obra de Freyre ter sido publicada, muita coisa mudou –para melhor– para elas. Seus préstimos se tornam cada dia mais caros –seu salário sobe mais que a inflação, em função de a procura ser maior que a oferta– e encontrar uma boa candidata demanda quase um esforço de headhunter. “De marido e de empregada, a gente não fala bem nem para a melhor amiga”, sentencia uma empresária.

A categoria ainda não ganhou o direito a ter a indenização legal em caso de demissão, a exemplo dos demais assalariados no país, uma batalha que está parada no Congresso. Mas conta com sindicatos organizados que fornecem orientaçoes nesses casos. Lograram ainda se transformar em fonte de debate, algo positivo para um país que tenta romper com suas práticas mais tacanhas. “O primeiro passo para poder se resolver algum problema, seja ele de cunho social ou político, é reconhecer que esse problema existe”, diz Girardi.

Violência contra a dignidade feminina

por Pedro J. Bondaczuk

Eray Özbek

Eray Özbek

 

Há formas bastante sutis de violências praticadas contra as mulheres, que não produzem ferimentos físicos, não deixam marcas no corpo, não são sequer visíveis, mas que acabam doendo, e muito, já que as vítimas ficam impotentes, sem qualquer possibilidade de reação diante delas, e não têm, por conseqüência, como e a quem recorrer ou reclamar. São os atos que ferem sua dignidade e sua honra.

O não reconhecimento da importância do trabalho doméstico feminino, no cuidado da casa, na educação dos filhos e nas tarefas diárias de preservação e valorização do patrimônio comum da família é, por exemplo, uma dessas formas de violência, e a mais comum. Mais injustiçadas ainda se sentem as que trabalham fora e são forçadas a exercer dupla jornada, sem que o seu esforço seja recompensado ou sequer reconhecido.

As ofensas proferidas pelos companheiros masculinos, quando não há testemunhas, no auge de cenas banais (e comuns) de ciúme, atacando sua honra ou questionando a sua fidelidade, é outra forma corriqueira de violência. E a idéia (implícita) de que a mulher deve “irrestrita obediência” ao homem da casa, seja pai, irmão, marido ou mero companheiro, arraigada na sociedade, (basta viajar pelo interior do Brasil ou pela periferia das grandes cidades, por exemplo, para constatar o quanto esse comportamento é verdadeira regra de conduta não escrita) é mais uma, senão a pior, das formas de agressão à dignidade feminina.

Os agravos, aliás, não param por aí e não ocorrem somente no seio da família. Verificam-se no trabalho, na escola, no lazer, nas relações sociais e nos mais variados aspectos da vida em comunidade. São tantos, que sua simples enumeração consumiria páginas e mais páginas de textos, sem que se esgotassem.

Muitas dessas ofensas, frise-se, são tão sutis, que nem mesmo as próprias mulheres se dão conta de que estão sendo ofendidas e injuriadas. São as que questionam, por exemplo (posto que veladamente), desde a sua inteligência à sua competência, capacidade e senso de responsabilidade. Vários escritores e filósofos ficaram famosos, através da história, por sua misoginia, tendo deixado registradas para a posteridade inúmeras citações sarcásticas e desairosas sobre as mulheres, repetidas ainda hoje, em tom de chiste, amiúde, nas rodas masculinas.

E são considerados “normais”, e até “legais”, em muitas sociedades, pelo mundo afora — que contam com leis consuetudinárias, baseadas nos costumes, algumas milenares, tidas como “cláusulas pétreas”, imutáveis mesmo estando patentes as injustiças que amparam — as determinações de estrita submissão feminina, sem que haja a mínima justificativa (biológica, moral ou legal), para isso.

Há, no entanto, agressões à dignidade da mulher mais grosseiras, ostensivas e até perigosas. No Sudão, por exemplo, (e em vários outros países islâmicos onde prevalece a “sharia”), os juizes podem determinar chibatadas em praça pública, que variam de dez a cinqüenta, àquelas que não seguirem o “código de vestimentas”, independente da religião que professem. Em relação aos homens, no entanto, não existe a mínima restrição quanto àquilo que vistam ou deixem de vestir.

No Afeganistão, dos talibans, as mulheres foram expressamente proibidas de trabalhar e de estudar. E não podiam sair de casa para nada, se não estivessem cobertas, da cabeça aos pés, com a tradicional “burkha”. Trata-se de uma vestimenta que cobre a pessoa por completo, tendo, como única “concessão”, rala telinha, junto aos olhos, nariz e boca, para permitir que quem a use possa respirar e enxergar por onde anda. E ai daquela que desrespeitasse essa norma! Estaria sujeita, sem nenhuma possibilidade de defesa ou de apelação, à pena de morte, por apedrejamento!

E os fundamentalistas afegãos foram ao extremo de exigir até que as venezianas de todas as casas de suas cidades fossem pintadas de negro, para que as mulheres não pudessem ser sequer vislumbradas, mesmo que de perfil, à noite, à luz elétrica, pelas frestas das janelas, por eventuais transeuntes que trafegassem nas ruas.

Esse comportamento bárbaro pode parecer grosseira exceção à regra de comportamento vigente no mundo contemporâneo, caso extremo de fanatismo religioso. Mas, infelizmente, não é. Somente se tomou conhecimento desse tipo de atitude, agora, por causa da ofensiva norte-americana no Afeganistão.

Não fossem as ações militares contra os talibans e os terroristas comandados por Osama Bin Laden, ninguém falaria a respeito. Ou se algum repórter mais ousado falasse, seria a título de registrar, meramente, um “costume exótico”, “curioso”, “pitoresco” até, e não para denunciar estúpida e indefensável forma de violência contra a vontade e a dignidade da mulher.

Ressalte-se que muitos outros povos adotam a mesma prática, e com o mesmo rigor dos fundamentalistas afegãos, sem que o Ocidente (ou seja lá quem for, alheio a essas comunidades), tome ciência, por não terem sobre si o foco das atenções internacionais. A apregoada globalização, como se vê, ainda não chegou à área do direito natural à igualdade, que as mulheres deveriam ter, mas ainda não têm.

Atos implícitos (e até explícitos) de coação, de sujeição feminina existem, em grande profusão, em todos os lugares, bastando apenas que se atente para eles. E isso ocorre quer nos países miseráveis e culturalmente atrasados do chamado Quarto Mundo (da África, Ásia ou América Latina), quer nos tidos e havidos como os mais civilizados, liberais e prósperos do Planeta, como Estados Unidos, Japão e os seletos integrantes da Europa Ocidental.

 

 


Do livro “Guerra dos Sexos”, Pedro J. Bondaczuk

Elogios que matan

 

por Koldo Campos Sagaseta

 

 

indgnados feminismo pedra
No hay elogio para una madre que se tenga por mayor muestra de respeto que esa cruel observación de que “mi madre es una mujer de su casa, una mujer que no pisa la calle, entregada a la causa de su padre, de sus hermanos, de su familia…”.
Y junto al cumplido, la puntilla… “y por ello es que el amor perdura”.

Es perverso confinar a la madre a un “burka” de cal y ladrillos, pero aún es más cruel celebrarle la clausura. El resto son sus… labores, la prolongación de los muchos afanes en la casa de una mujer desprovista de identidad y convertida en la esposa de, la madre de, la viuda de…

Y las labores de una madre que se respete, devota y desprendida, siempre transcurren entre las mil y una paredes del hogar, entre esos muros hechos a la medida de la costumbre ante los que se rinde la curiosidad y se quiebran las alas; esas rígidas paredes a prueba de llantos, que apagan las voces y encierran los pasos y en las que los relojes únicamente marcan la espera.

Si acaso, queda la ventana del consuelo y el encuentro fugaz con la vecina mientras se tienden al sol los desahogos y se comparten todos los silencios.

Al otro lado del muro está la vida, el aire, la gente paseando por la calle, la juventud doblando las esquinas, los tragos en las mesas, la música en los pies, las monedas rodando por las manos, la lluvia, las paradas de buses, el amor paseando en bicicleta, la noticia caliente, la cerveza fría, eso que hemos dado en llamar vida y que, gracias a Dios y a nuestro cálido elogio, nunca perturba el sueño de las madres ni amenaza tampoco su virtud.

 

 

 

 

Louise Bourgeois. Femme maison, 1945-6

Louise Bourgeois. Femme maison, 1945-6

Desdomesticación de la mujer

ANTE EXIGENCIAS QUE ENFERMAN

 

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La autora considera que, en el debate sobre el trabajo de las amas de casa, “algo quedó silenciado”, ya que “las mujeres siguen enfermando a causa de las exigencias desmedidas”: “Quizás un manto de represión haya caído sobre esta temática demasiado sensible, espina dorsal del sistema capitalista”. Hoy finaliza la Semana de la Mujer.

 

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Por Roxana Yattah *

En las décadas de 1970 y 1980 existió en la sociedad un debate acerca del trabajo realizado por las amas de casa en sus hogares. Este debate ponía en cuestión lo que estaba naturalizado como supuestas obligaciones propias de las mujeres. Fueron discusiones fecundas llevadas adelante por los movimientos feministas, sumadas a análisis marxistas; así se acuñaron conceptos clave como “trabajo invisible” o “doble jornada laboral”. Se ponía en relieve la sobrecarga laboral a la que estaban expuestas las mujeres y la trampa de entrar a los hogares por la puerta de los ideales para luego salir por la del desgaste y el agotamiento. Pero este debate, que supo ser apasionado, tendió a desaparecer de la escena de las luchas y reivindicaciones femeninas. Sin duda, las mujeres, hartas ya de las casas, se volcaron hacia ámbitos más interesantes y reclamaron, en terrenos más públicos que privados, las conquistas referidas a su propia sexualidad y a lo específicamente laboral. Sin embargo, algo de aquellas elaboraciones quedó silenciado. No hubo leyes que reconocieran el trabajo agobiante en la casa ni se lograron cambios suficientes en las familias. Hoy en día, la clínica y diversas experiencias institucionales parecen confirmar que las mujeres se siguen enfermando a causa de las exigencias desmedidas en el plano laboral.

Ahora se habla de doble y hasta triple jornada laboral, cuando al trabajo realizado dentro y fuera de sus casas se le suman terceras ocupaciones tales como actividades artísticas o compromisos derivados de alguna militancia. Estos factores, donde se ve la insistencia (y quizás agravamiento) del problema, llevan a pensar que acaso un manto de represión haya caído sobre esta temática, demasiado sensible, verdadera espina dorsal del sistema socioeconómico capitalista, más sensible aún por referirse a la intimidad. En el otro extremo, el malestar que se registra hoy en la clínica, los callejones sin salida para quienes pretenden sostener sus trabajos sin por ello dejar de ocuparse de sus casas y familias; los lugares imposibles en los que derivan dichos intentos, son motivos suficientes para considerar volver a traer a escena la discusión sobre lo doméstico.

En sociedades precapitalistas, la casa era la célula social básica, unidad principal de producción y consumo. Con la entrada en el capitalismo se produce una clara división que demarca un espacio privado, la casa, con la figura del “ama de casa” responsable de las tareas domésticas, y un espacio público, lugar de la producción, masculino por definición, donde se lleva a cabo la circulación económica. Esta división estructural es la que hace síntomas. De esta caracterización del trabajo doméstico se desprenden dos rasgos que es interesante resaltar por su vigencia.

El primero es su valoración en signo negativo, expresado en el ya clásico “No hago nada” del ama de casa, que se hace extensivo al “No vale nada, no sirve”. Al no recibir una valoración social clara ni tener tiempos definidos –es un trabajo que se realiza en un circuito sin fin– resulta difícil darle un estatuto ¿de qué hablamos cuando hablamos de ‘trabajo doméstico’? También es difícil nombrarlo como problema y más aún que su malestar se torne identificable.

Este rasgo se correspondió con el debate acerca de si el trabajo doméstico era productivo o improductivo (Lipszyc, Cecilia; Ginés, Ma. E.; Belucci, Mabel, Desprivatizando lo privado. Mujeres y trabajos. Ed. Catálogos, 1996). Al considerarse sólo como valor de uso quedaban subvaluados sus productos, ya que desde el punto de vista de la sociedad mercantilista se reservaba para valor de cambio aquellos trabajos que producían mercancías. Algunas respuestas feministas no se hicieron esperar: sostenían que el trabajo doméstico también era valor de cambio, pero diferido. Y su producción era precisamente la crianza de los hijos, que en su momento se insertarían en el mercado laboral con un valor específico, históricamente reconocido.

El segundo rasgo se refiere a la relación de alienación entre las mujeres y el trabajo doméstico, que supone una identificación entre las mujeres y las casas. Todavía hoy decir “doméstico” y “mujeres” es casi redundancia. Las casas son como extensiones de las mujeres, como una parte de sus cuerpos o la medida de su valoración narcisista. El discurso social produce así deslizamientos por los cuales: si la casa brilla, ella brilla; si la ropa está lavada y planchada, ella es cálida; si cocina y hay comida, ¡tiene amor para dar! La felicidad pasa por la casa. La publicidad nace, se consolida y expande reforzando estos patrones sociales.

En el otro extremo, si una mujer siente rechazo o desinterés por dicho trabajo, esto es rápidamente patologizado, desde un criterio adaptativo de salud, rendija por la cual los laboratorios introducen cantidades de psicofármacos para mejorar su rendimiento.

Estos eran, a grandes rasgos, los planteos y argumentaciones que circulaban en aquellos tiempos en innumerables libros, artículos, estudios científicos que denunciaban los andamiajes ideológicos sobre los que se sostenían las tareas de las mujeres dentro de los hogares. Hoy, ese material desapareció de las librerías.

En el equipo de Adultos del Centro de Salud Mental Nº 1 Dr. Hugo Rosarios, del Gobierno de la Ciudad de Buenos Aires, donde me desempeñé, recibíamos frecuentes consultas de mujeres, jóvenes o de mediana edad, en plena etapa productiva de sus vidas, a cargo de la crianza de sus hijos, del cuidado de sus casas, cursando sus proyectos de pareja. Además de los motivos específicos por los cuales cada mujer consultaba, era frecuente que las entrevistas giraran en torno de la preocupación por el entorno familiar. Algún hijo con problemas o crisis matrimoniales en ciernes motivaban el interés por comenzar un tratamiento.

Muchas de estas mujeres reconocían estar apartadas del campo laboral o postergar sus proyectos personales en función de considerar prioritario “sacar adelante la familia” (no es un dato menor el de que esto tenía lugar alrededor de la crisis de 2001). Frente a las crisis, ellas eran las primeras en consultar. Entre los cuadros depresivos, los síntomas de angustia, aparecían también marcados rasgos de agotamiento y cansancio, que expresaban con actitudes de desgano o apatía. Según la seriedad del caso, se sumaba una tendencia al aislamiento, autorreferencia, sentimientos de frustración y fracaso.

En ese contexto llamaba la atención el papel que ocupaba el trabajo doméstico en sus vidas. Como un telón de fondo constante, el trabajo que encaraban dentro del propio hogar y en el cuidado de las personas era abrumador y de sus relatos se desprendía que llevaban años sosteniendo ese ritmo. Por diversas que fueran las consultas, las emparejaba la actitud que asumían hacia lo doméstico: una especie de incondicionalidad y automatismo. Pero esto no estaba sintomatizado, es decir: no se quejaban por ello ni venían con una disposición para replantear un cambio, sino que buscaban restablecer el equilibrio perdido. En sintonía con el modelo de familia que habían emprendido, venían pidiendo que nada cambiara.

Esta consulta insistente y numerosa dio pie a un proyecto de investigación y asistencia que en un comienzo se abocó al estudio de situaciones de maltrato y violencia (proyecto de asistencia e investigación Sujetos en situaciones de violencia, 1994 a 2005, Centro de Salud Mental Nº 1, que coordiné). Buscábamos rastrear en aquellos interiores del hogar los momentos de quiebre, conflictos, desilusiones, desesperanzas que llevaban a las crisis y explosiones en el ámbito familiar y que habían decidido a cada una a consultar. Con los años, el interés de la investigación se fue desplazando hacia el estudio de la vida cotidiana de las mujeres, centrándose en experiencias que atraviesan la vida cotidiana de cualquier mujer, pero que no son suficientemente tenidas en cuenta ni llegan a reconocerse como problemáticas.

Convendría separar esos dos lugares que aparecen indiferenciados: las mujeres y las casas. El trabajo que genera una casa en su devenir, que se desprende de su uso: las cosas-de-la-casa. Eso que se usa, se ensucia, se gasta, se rompe; eso que se consume, se mancha, se tira. Es un trabajo que en sí mismo no es de nadie pero pide ser atendido, cada vez. La casa es una máquina demoledora que no para de demandar horas y horas de trabajo humano.

Pero lo doméstico es también el reducto de lo familiar, de la intimidad; es el lugar de los cuidados y de los afectos. ¿En qué momento y por qué motivos este espacio, tan privilegiado, se convierte en lo contrario? Volviendo a las mujeres: ellas deben responder por esta carga laboral. Presionadas, deben postergar los signos de cansancio o de malestar y postergarse. La sociedad, así pautada, les exige este pequeño sacrificio. Y finalmente lo hacen, pero a costa de convertirse en autómatas. Estos aspectos compulsivos de la cuestión pueden ser los que motivan la aparición de manifestaciones contrarias hacia la casa, donde aparecen los signos de rechazo. Lo cierto es que los aspectos amables de lo doméstico se convierten con el tiempo en amenazantes y angustiantes.

En su artículo “Lo siniestro”, Freud se refiere a “aquello espantoso que afecta las cosas familiares desde tiempo atrás” y se pregunta: “¿Bajo qué condiciones las cosas familiares pueden tornarse siniestras?”. En lengua alemana, Unheimlich, “siniestro”, es antónimo de Heimlich, que significa: “íntimo”, “secreto”, “familiar”, “hogareño”, “doméstico”. Freud busca desentrañar condiciones propicias para que algo devenga siniestro: una de ellas es que pertenezca “al terreno de la realidad común”, tal como sucede con lo doméstico y las cosas de la casa. Otra dimensión de lo siniestro alude a la duda entre lo animado e inanimado: “La duda de que un ser animado sea viviente y, a la inversa, que un objeto sin vida esté animado”. Esta confusión entre las mujeres y las casas; el carácter compulsivo en donde no es posible elegir; el hecho de no detenerse y seguir, a costa de transformarse las mujeres en autómatas, constituyen características muy particulares de esta temática.

Encarnadas

En las últimas décadas, las instituciones de salud mental han crecido considerablemente. Y, hoy, en los tratamientos, tomar como punto de partida el malestar, la angustia, significa aceptar la caída de los ideales y la entrada en un tiempo concreto; significa el fin de las esperas infructuosas. Aquellas mujeres que venían con actitud de entrega incondicional hacia sus familias, sin estar advertidas, sin haber incorporado un pensamiento crítico, cuando los esquemas fallaban volvían la carga del fracaso contra sí mismas. Se sentían responsables, lo cual las convertía en presas fáciles del maltrato de los demás, cuando no en objetos de descarga del sadismo. Las amas de casa tienen sus modos masoquistas de quebrarse: se rompen por dentro, implosionan.

Lentamente, alentadas por un medio facilitador que las acompañe, dejan caer sus creencias e ilusiones y se animan a iniciar experiencias de cambio. Desde posiciones éticas –también institucionales– que abiertamente se oponen a perpetuar estructuras de maltrato, se introducen nuevas coordenadas de dignidad y respeto, hacia sí mismas y hacia los demás. Los tratamientos institucionales, lejos de plantearse como meros maquillajes adaptativos, se convierten en verdaderos gestos de ruptura que dan lugar a vivencias inéditas de libertad y autonomía. Cada paciente, en la medida de sus posibilidades, empieza a recortarse y a poner límites, a expresar sus propios deseos e intereses, pero sobre todo a valorar su propio trabajo y a hacerse valer. Allí reside un cambio de posición, serio e irreversible.

Estos tratamientos tienen lugar en el caso por caso, lo cual implica una revalorización (y reconsideración) de la singularidad. Esto marca el cambio de época. La clínica hoy está demostrando que las grandes ideas muchas veces pueden tener curso si son encarnadas por personas reales, que sufren y hacen síntomas. No siempre hay un horizonte claro y diáfano que se dirige hacia la lucha y se embandera en ella, sino más bien todo lo contrario. Cuando una mujer (para el caso) se desprende de sus certezas, cuando reconoce que está perdida y que no sabe lo que quiere, cuando lo único claro es su angustia y sólo se siente dueña de su malestar, allí puede comenzar una historia de transformación, cuyo final está abierto pero cuyas posibilidades (y fuerzas) son infinitas. Porque brotan de lo reprimido.

Sería un grave prejuicio considerar estos procesos de ruptura como individualistas. Son pequeñas batallas, pero abren brechas en todas las direcciones: en primer lugar hacia las generaciones siguientes; conmoviendo a las generaciones anteriores, de donde provienen los mandatos y prohibiciones, pero también produciendo cimbronazos en todo el cuerpo social, al que interpelan para poder emerger desde otro lugar. Hoy, cuando tanta agua ha corrido bajo el puente, ya no se trata ni de huir hacia los espacios públicos ni de someterse en los ámbitos privados, sino de hacer algo distinto, algo que precisamente hay que inventar. Aquellas grandes divisiones entre las luchas políticas y el psicoanálisis, en dos líneas paralelas que parecía que nunca se tocarían, son desmentidas por la clínica y por estas experiencias colectivas.

Y esa intersección que se anuncia, ese encuentro a medio camino entre algo que se esboza con dificultad y el cambio necesario (¡dar batalla allí!) parece ser el rasgo de nuestra época.

* Psicoanalista, investigadora.