Ano Novo, Festa de Iemanjá

Réveillon no Rio

 

Iemanjá, Portinari clique para ampliar

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por Talis Andrade

 

Na noite festiva
a praia iluminada
esbarro em uma multidão
vestida de branco
Não há como negar a beleza
são milhões de velas acesas
nas areias de Copacabana

Chuva de ouro e prata
cai sobre nossas cabeças
Os fogos de artifício
jorram em cascatas
do alto
de suntuosos edifícios
Os fogos de vista
desenham nos ares
flores e estrelas

Nas areias de Copacabana
o povo presenteia Iemanjá
com vinho e manjares
que as ondas levam
para o largo-mar

Na noite de fim de ano
o solitário desejo
as ondas cobertas de flores
consigam adormecer
meu corpo indefeso

Na iluminada noite
o povo canta e dança
para Iemanjá
O povo dança e reza
Iemanjá devolva
em dobro as oferendas
que as ondas levam
que as ondas levam
para o largo-mar

 

Ratos e urubus, larguem nossas fantasias

 

reveillon
por Fernando Brito

 

“Não há nada mais importante para destruir um povo do que lhe tirar aquilo que o define: sua identidade , a capacidade de sonhar coletivamente e fazer juntos.

E esta identidade, desde os primórdios da civilização, encontra – próprias ou “importadas e adaptadas” – as festas como expressão deste sentir coletivo.
Tão intenso que Leonardo Boff, ao defini-las, disse que são “o tempo forte da vida, onde os homens dizem sim a todas as coisas”.

Os mecanismos de dominação, com todo o seu poder, se apropriam das representações simbólicas desta identidade, esvaziam seu significado, empresariam-nas, comercializam-nas e as tentam moldar aquilo que é da própria natureza da dominação: a exploração econômica.
E, no entanto, aquele sentido permanece.

Talvez seja a coisa mais importante a se aprender em política, em economia, na vida.

Que os ratos e urubus, como delirou genialmente o Joãosinho Trinta, querem sempre rasgar as nossas fantasias coletivas.
Os nossos sonhos e desejos.

Vivemos – ou viveram vocês, porque minha vocação de eremita vem de longe – nestes últimos dias, um destes momentos, o Ano Novo.

Aliás, até o “Réveillon” é outra destas magníficas provas de que o povão recebe, digere e sintetiza, porque não é palavra de uso corrente nem no francês, onde designava uma ceia tardia, própria do Natal. No meu tempo de guri, só os metidos a besta usavam a palavra e eu, na tolice própria dos pretensiosos, custei a ver este macunaímico processo de fagia de sentido.

Sobre isso, recebo e partilho duas reflexões.

A de meu velho mestre Nílson Lage e a do meu ex-calouro (que hoje tem mais cabelos brancos e mais talento do que eu) Fernando Mollica, colunista de O Dia.

É minha maneira, furtada, de desejar a todos que possamos, apesar dos que nos acenam com o inferno e a danação do desastre nacional, um feliz 2015.

 

A festa resiste

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por Nílson Lage

 

O importante, no carnaval e no reveillon de Copacabana, é que são invenções e realizações magníficas do nosso povo que, a princípio, tentaram excluir e sabotar e, agora, fingem promover.

Lembro-me bem das medidas “profiláticas” tomadas para impedir que as praias fossem “emporcalhadas” pelos despachos a Iemanjá e os moradores das vizinhanças “perturbados” pela gritaria dos festeiros; das ameaças de repressão policial e das pressões da Arquidiocese sobre a redação do Jornal do Brasil.

Ainda no final da década de 1970, a Rede Globo, empenhada em eliminar da programação resíduos do que os militares consideravam inoportuno ou grotesco, reduziu ao máximo a cobertura dos desfiles de escolas de samba, com o slogan “A programação normal e o melhor do carnaval”.

Foi quando Fernando Pamplona, superintendente da Fundação TV Educativa do Rio de Janeiro, com meu modesto apoio (era gerente de jornalismo), mobilizou os recursos modestíssimos da emissora e pôs no ar a transmissão completa dos desfiles.

Eu estava no controle mestre e recebia, sem parar, telefonemas de todos os estados e do exterior pedindo que abrisse o sinal para inclusão na rede.

Foi aí que a Globo decidiu negociar com os bicheiros das escolas de samba, pagou uma nota, segurou a exclusividade e até hoje reduz a cobertura o quanto pode, com chamadinhas ridículas das músicas, a indefectível novela cobrindo o início do desfile, a narração desinformada e palpiteira, tudo enfeitado com as curvas da Globeleza, invenção romântica do Hans Donner.

Mas a festa resiste. Aos palanques, aos bicheiros, aos carolas, aos Marinho, às vedetes. Foi nela que primeiro se ouviu falar de Chica da Silva, que Delmiro Gouveia foi, enfim, lembrado, que o Cristo Trabalhador coberto em um manto negro mostrou que a fé do povo vai muito além dos ditames seculares da hierarquia da Igreja.

É o DNA, a origem, o que diferencia o carnaval e o reveillon do Rio de quantos o copiaram.

 

A nossa bela insanidade

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por Fernando Mollica

 

O Réveillon de Copacabana é, de longe, campeão em matéria de insanidade carioca que dá certo. A festa tinha tudo para dar errado numa cidade imensa, marcada pela beleza mas também pela violência e exclusão. É inacreditável que o evento se repita há décadas sem que jamais tenha sido registrado um tumulto de grandes proporções — até os de pequena monta são raros. Nem na época em que o Rio era associado a frequentes tiroteios, a passagem de ano na Avenida Atlântica deixou de ser pacífica.

E olha que somos bons em desafiar a lógica. A apresentação das escolas de samba é outro exemplo da nossa capacidade de driblar o impossível. Comecei a frequentar a Sapucaí dois anos antes da construção do Sambódromo, e até hoje não entendo como pode funcionar um espetáculo com 50 mil artistas, quase todos amadores e que se apresentam sem ter participado de um ensaio geral digno desse nome. Conduzir os imensos carros alegóricos pelas ruas e obrigá-los a fazer uma curva de noventa graus para entrar na pista de desfile são atividades que desafiam as leis da física.

Mas nada se compara ao nosso Réveillon, festa que acabou copiada por muitas cidades brasileiras. Aposto que nem no pra lá de organizado e seguro Japão as autoridades teriam coragem de estimular uma confraternização que reunisse tanta gente, a maioria com elevadas doses de álcool no organismo.

Estima-se em dois milhões o número de pessoas presentes na praia — um terço da população carioca. A maior parte do público mora longe de Copacabana, passa sufoco para entrar e, principalmente, sair do bairro, enfrenta filas para ir ao banheiro, gasta uma grana para comer e beber por lá. Tudo isso para acompanhar um espetáculo que dura 16 minutos — as atrações musicais são apenas coadjuvantes e não justificariam o deslocamento de tanta gente.

Nem mesmo a beleza dos fogos explica tamanho sucesso de público, o mesmo espetáculo seria incapaz de reunir tantas pessoas se realizado em outra época do ano. A esperança é que justifica a aglomeração e seu caráter pacífico, ninguém ali parece preocupado em atrapalhar os sonhos e os desejos dos outros. Na passagem do dia 31 para o dia 1º saudamos a vida, comemoramos tudo que correu bem e nos damos outra chance de resolver o que ainda está complicado. Tudo isso merece os fogos e a barulheira. O Réveillon de Copa e o desfile das escolas renovam também a nossa fé no país. Não pode dar errado uma sociedade que reúne pessoas capazes de promover as melhores e loucas festas do mundo.”

 

 

Musica. “Hoy se está revalorizando el baile”

La orquesta, una fanfarria de vientos y percusiones que transita la cumbia mexicana, colombiana, villera, peruana, sonidera y los ritmos de Bolivia, mostrará hoy en el Teatro Mandril cómo suena en vivo el poderoso material de Alborada en el derrumbe.

 

por Sergio Sánchez

 

 

LUCIANO CHOQUE RAMOS, DIRECTOR DE LA ORQUESTA TODOPODEROSO POPULAR MARCIAL: “Hasta hace poco era un embole decir que tocabas en una banda de viento o hacías folklore”

LUCIANO CHOQUE RAMOS, DIRECTOR DE LA ORQUESTA TODOPODEROSO POPULAR MARCIAL: “Hasta hace poco era un embole decir que tocabas en una banda de viento o hacías folklore”

 

 

Un fenómeno cultural ocurre, al menos, hace una década: el acercamiento de las nuevas generaciones urbanas a los folklores latinoamericanos. Esto no significa que antes los músicos de los grandes centros urbanos no se vincularan con géneros rurales o folklóricos, pero lo cierto es que el intercambio musical se viene dando de manera cada vez más sostenida, decidida y masiva. Se multiplicaron, en los últimos años, las propuestas interesadas en recuperar los sonidos nacidos en Latinoamérica, desde la música andina hasta la chacarera, pasando por el reggae, la murga, la bossa nova y el merengue. Y, claro, la cumbia –y sus derivados, como el porro y el vallenato– no fue la excepción. Este género, que desató más de una polémica en la Argentina, hoy también se produce en la ciudad de Buenos Aires y ya no es exclusividad de los márgenes. ¿Moda o cambio cultural? Parece imponerse la segunda opción, aunque el oportunismo nunca falta.

Lo cierto es que este cambio de mirada trajo cambios positivos. La cumbia villera, por ejemplo, pudo escapar del estigma que en 2004 hizo evidente el entonces jefe de Gabinete Alberto Fernández. El funcionario vinculó directamente el aumento de la delincuencia con la difusión de este estilo de cumbia. Porque la cumbia no es una sola, son muchas y se expanden por todo el continente; de tal forma que cada país que se la apropió le puso su sello propio. De esa diversidad da cuenta la orquesta Todopoderoso Popular Marcial, una fanfarria de vientos y percusiones que transita por la cumbia mexicana, colombiana, villera, peruana, sonidera y por ritmos bailables y populares de Bolivia (huaynos, tinkus y caporales) y la región. Todopoderoso integra una nueva camada de orquestas porteñas que ponen el acento en la música tropical, aunque no le escapan a otros géneros folklóricos. Integrada por 21 músicos, este combo de bronces acaba de publicar su primer disco, Alborada en el derrumbe, un trabajo instrumental irresistiblemente bailable que hasta se permite versionar “Puño de acero”, de Rage Against the Machine. Lo presentarán hoy a las 23.30 en el Teatro Mandril (Humberto Primo 2758).

“El prejuicio hacia la cumbia estaba sólo en Argentina, en otros lados del mundo la cumbia estaba invisibilizada y luego se visibilizó. Pero acá no sé si se rompió el prejuicio o lo aceptamos porque en el mundo ‘ahora está bien’”, se pregunta Luciano Choque Ramos, director general y creador de Todopoderoso. “Ya nos pasaron por adelante. Hay cumbia hasta en Inglaterra y en Francia, mucho antes de que se la aceptara en Buenos Aires”, completa el músico, aunque al mismo tiempo reconoce el cambio cultural. “Hace algunas semanas, en un programa de La Tribu, estábamos con las chicas del grupo colombiano Son del Arroyo y contaban que cuando llegaron a Buenos Aires, en 2005, nadie sabía qué era una gaita y una tambora, instrumentos de la cumbia tradicional. Pero decían que ahora hay bocha de gente que no sólo toca esos instrumentos, sino que también los hace. Y está buenísimo que empiece a circular. Hay un claro proceso cultural de intercambio, que no es sólo musical. Esto va de la mano de otras lógicas no sólo musicales, como prestarle atención, por ejemplo, a lo que pasa en el gobierno de Bolivia.”

–¿Por qué la propuesta es instrumental y no hay un frontman?

–Nos gustaba la idea de no tener la lógica televisiva de centralizar en un personaje, sino que sea algo más popular y democrático en su formato y en su forma de transmitir. Es algo en tiempo real, no están todos mirando al cantante. Es una idea, pero no significa que lo que no sea así no esté bueno. Me encanta ver a un cantante en el escenario. De hecho, la idea inicial era no necesariamente tocar en escenarios, sino tocar sin microfonear nada y entre la gente. Después eso fue mutando un poco porque hay ciertas situaciones que no las podemos abarcar: si hay mil personas y nosotros igual seguimos siendo veinte, por más que suene fuerte, no se escucha. Lo instrumental viene un poco por ese lado: que no haya un rol protagónico, como sucede en el mundo del pop y el rock.

–Más allá de tomar distancia, el rock se cuela en la orquesta. ¿Es una cuestión generacional?

–Es casi al revés. De pronto se están colando las orquestas en el mundo del rock. Hasta hace poco era un embole decir que tocabas en una banda de viento o hacías folklore. Cuando estábamos con la Peña Eléctrica, había salido una nota en Rolling Stone que decía “vas a ver que el folklore tiene onda”, como abriendo el juego. En Argentina hay una cosa muy conservadora, de seguir repitiendo el rock, porque fuimos los primeros en Latinoamérica en tener este género. Pero no pasa en ningún otro lado eso. En verdad, no es que ya fue, pero comparte el mismo lugar que otros géneros. La movida acá, claro, responde a un mercado. Por suerte, se empezó a colar toda la movida de las orquestas y gente a la que le interesa tocar otros instrumentos. Alguien que tocaba el acordeón hace veinte años y da clases, seguro te va a decir que hoy tiene más laburo que hace diez años. De todas formas, está bueno que en Todopoderoso hayamos mantenido un lado más rockero, más fuerte. Porque nos gusta saltar y hacer pogo. Para nuestra generación y varias para adelante y para atrás, tener un rato de pogo es liberador, es necesario. La banda tiene pocos temas tranqui, la mayoría son fuertes.

Ramos cuenta que su interés por la cumbia, la música latinoamericana y las fiestas populares nació durante su adolescencia, cuando con su familia iba a la fiesta de la Virgen de Urkupiña, que se hace cada octubre en el Bajo Flores. “Es una fiesta súper multitudinaria e híper invisibilizada; nadie se entera que hay como 30 mil personas en la calle dando vueltas frente a la cancha de San Lorenzo”, cuenta. Durante el festejo, desfilan por la calle comparsas, bandas de viento, grupos de sikuris y ballets de danzas andinas. Por eso, quiso trasladar a la orquesta ese espíritu callejero, orgánico y de tracción a sangre. “Desde la música y lo visual, tenemos más que ver con lo callejero y lo popular, que con espacios cerrados en donde hay que amplificar los instrumentos. En las fiestas tocamos entre la gente y en el escenario”, destaca el músico.

–¿Este proceso también tiene que ver con la necesidad de encontrarse, de recuperar la fiesta popular y de darle valor al baile?

–Sí. Y también responde a otro tipo de encuentro: tener músicos tocando en vivo en lugar de un DJ. Un intercambio más mezclado entre músico y público, que es la lógica de la fiesta popular, como sucede con los sikuris. Los tipos tocan en una ronda y la gente está alrededor. No hay una lógica de espectáculo con escenario. Por otro lado, se está revalorizando el baile. En nuestro caso, llama la atención ver tantos músicos tocando en vivo. También hay una revalorización de lo antiguo, quizás en contraste con lo digital. La vuelta del vinilo responde a eso. Más allá del mercado, hay una necesidad de que pasen otras cosas.

 

O samba dos bons malandros

por Isabel Coutinho

Paulo Lins lançou “Cidade de Deus” em 1997 e o sucesso esmagou-o. Quase não sobreviveu. Regressa 15 anos depois com “Desde que o Samba é Samba”

É verdade que teve a ideia de Desde que o Samba é Samba antes de publicar o primeiro romance?

Pensei nele quando ainda morava na Cidade de Deus. Nasci no bairro Estácio, Rio de Janeiro, e morei lá até aos sete anos. Quando era criança comecei a sair de casa, para comprar pão, ir ao mercado, à farmácia e havia um bar onde não podia entrar porque tinha bandidos, prostitutas e era muito violento. Passava por lá com medo. Depois fui para a Cidade de Deus mas minha tia continuou no Estácio. Então eu voltava sempre lá. Um dia, ao ler um livro sobre a história do samba descobri que aquele tal bar era frequentado por Cartola e por Nelson Cavaquinho. Decidi nesse dia mesmo escrever a primeira página do livro. Fiz um poema que depois adaptei para prosa. Pensava escrever um livro sobre o Estácio daquela época, só muito mais tarde é que a ideia de escrever um romance sobre a génese da escola de samba foi amadurecendo.

Que zona do Rio de Janeiro é essa?

É o que [o compositor] João da Baiana chamava de Pequena África: o cais do Porto, Catumbi, Cidade Nova e Estácio… Tinha o Mercado do Valongo na zona portuária e ali se concentravam os negros. O samba aconteceu ali. O samba nasceu porque não podia haver manifestação cultural dos negros: a polícia vinha e proibia os cultos religiosos. Sendo proibido assim, tudo foi escondido. Mas quando as mães de santo do candomblé começaram a ter poder político dentro da comunidade, um deputado consegue uma licença para os terreiros de candomblé funcionarem. Então passa a funcionar também o samba e a umbanda, que estava nascendo na época, porque a polícia não sabia bem o que era o samba, o que era a umbanda e o que era o candomblé. É nessa confusão que cresce, desse jeito.

Como é o Estácio hoje?

Tem uma escola de samba, é um bairro ainda boémio, tradicional. Mas mudou muito. Acabou a zona de prostituição, o morro de São Carlos está pacificado, tem a estação de metro. Mas a escola de samba Estácio de Sá continua lá. Essa tradição do samba se perpetuou. É uma marca do Estácio.

Mas não há quem diga que o samba nasceu na Bahia?

É para quem não sabe das coisas [risos] É furado isso. É uma teoria falsa.

Desde que o Samba é Samba vem de onde?

Desde que o samba é samba é uma expressão que surgiu no meio do samba.
É popular. Eu peguei isso na rua quando era criança.

Neste romance mistura personagens que existiram no Estácio com outras inventadas.

A personagem principal é o samba e o Ismael Silva [1905-1978], o grande criador do samba e a turma dele. Ele vai na religião, ele vai na prostituição, ele vai em tudo que é lugar. É um cavaleiro andante. O Brancura, alcunha de Sílvio Fernandes [1908 -1935], também viveu e participou do samba.

Causou a polémica no Brasil, as personagens do sambista Ismael Silva e do poeta Mário de Andrade serem retratados como homossexuais assumidos.

Não se pode falar que o pai do Modernismo era homossexual ou que o pai do samba era homossexual? Por que é que não se pode falar? A Academia não pode ser homofóbica, a Academia tinha de usar isso a favor da humanidade e não reforçar o preconceito.