Argentina, Papa Francisco: La Iglesia abrirá archivos de la dictadura y hará autocrítica

argente mãe

Angela Lita Boitano, referente de la Agrupación de Familiares de Detenidos y Desaparecidos por razones políticas, aseguró que el papa Francisco le confió que “la Iglesia hará una autocrítica sobre su rol durante el terrorismo de Estado y que abrirá sus archivos sobre ese período”.

“Le pedí a Francisco si la Iglesia podría hacer una autocrítica y abrir sus archivos en relación a la dictadura. Él me dijo que están preparando una documento sobre el tema”, señaló Boitano en declaraciones a Radio Del Plata.

De esta forma, la histórica dirigente de una entidad emblemática en el movimiento de derechos humanos que denunció a la última dictadura cívico militar se refirió al encuentro que mantuvo en Roma con el jefe de la Iglesia Católica, quien, según reveló, le habló “de forma muy segura”.

“El encuentro fue muy positivo, nos habló de forma muy segura y nos prometió que se iba a ocupar del tema. La Iglesia tenía los datos exactos sobre los desaparecidos y el Vaticano los está buscando”, aseguró Boitano.

En ese sentido, aseveró que en aproximadamente un mes, la Iglesia dará a conocer un documento sobre la última dictadura.

“Durante aquellos años del terrorismo de Estado, los familiares denunciamos las violaciones a los derechos humanos que se cometían en Argentina y mandábamos cartas al Vaticano. Así que ahí debe haber información”, señaló.

Boitano contó que en 1979 estuvo en Roma para denunciar la desaparición de Telma Jara de Cabezas, secuestrada en la ESMA, y allí pudo comprobar que la Iglesia tenía información sobre las víctimas de la dictadura.

“Cuando estuve en el Vaticano intentamos ver a Juan Pablo II pero no pudimos. Nos recibió un funcionario, le dije que era familiar de desaparecidos y ahí me trajeron una ficha con mi nombre. Ya sabían quién era. Por eso digo que la Iglesia debe tener mucha información sobre el tema”, precisó.

Vê se me esquece

por Alice Ruiz

 

Alice Ruiz. Foto: Vilma Slomp

Alice Ruiz. Foto Vilma Slomp

 

Já que você não aparece,
venho por meio desta
devolver teu faroeste,
o teu papel de seda,
a tua meia bege,
tome também teu book,
leve teu ultraleve
carteira de saúde,
tua receita de quibe,
de quiabo, de quibebe,
do diabo que te carregue,
te carregue, te carregue
teu truque sujo, teu hálito,
teu flerte, tua prancha de surf,
tua idéia sem verve,
que nada disso me serve
Já que você não merece,
devolva minhas preces,
meu canto, meu amor,
meu tempo, por favor,
e minha alegria que,
naquele dia,
só te emprestei por uns dias
e é tudo que lhe pertence

PS: Já que você foi embora por que não desaparece?

 

Página de Alice Ruiz 

Não existe “boletim médico elaborado na ocasião em que corpos são encontrados. Não existe boletim médico de local. Só com o corpo no IML, se esclarece a causa da morte”

Quando a polícia mata, sempre aparece um delegado ou soldado estadual com um falso boletim médico. Assim aconteceu nos assassinatos de Amarildo, Cláudia, DG e milhares de favelados trucidados pela polícia na conquista das favelas, nos despejos judiciais e na repressão contra manifestações populares. Idem nos movimentos grevistas e passeatas estudantis.

A imprensa vende que no Brasil existe uma guerra interna. Que a polícia vai para as ruas do povo para matar. Atira com balas de borracha, de festim e chumbo. Joga bombas de efeitos moral, de gás lacrimogêneo e de pimenta. Usa canhões d’água e sônicos. Abusa da pistola lazer, que ora substitui a cadeira do dragão dos porões da ditadura. Idem pistola de mostarda. Um arsenal moderno de armas letais, além de antigas armas contra o povo, como cacetes de todos os modelos (pau, borracha e ferro), e leva a cachorrada para morder, e a cavalaria para pisotear o povo. É o prende e arrebenta do general Newton Cruz.

Enterro do bailarino Douglas Rafael da Silva Pereira, DG, funcionário da TV Globo

Enterro do bailarino Douglas Rafael da Silva Pereira, DG, funcionário da TV Globo

 

A polícia sempre monta uma farsa para justificar as chacinas: balas perdidas, disputa entre traficantes, resistência seguida de morte, queda, atropelamento, morte por causa desconhecida, vítima desaparecida e estórias surrealistas como o caso do menino Marcelo Pesseghini que conseguiu o feito de pistoleiro super treinado: usar um revólver com cinco balas, dar cinco tiros e matar cinco pessoas, tendo entre as vítimas o pai sargento e a mãe cabo da temida Rota, força tática da Polícia Militar de São Paulo. Com o empirismo do olhômetro da cena do crime, um delegado de polícia deu entrevista acusando Marcelo, citando um inexistente boletim médico. A imprensa, prontamente, espalhou a história de um monstro parricida, matricida e suicida de 13 anos.

O experiente criminalista, professor de Medicina Legista, declarou:

– “Desconheço boletim médico elaborado na ocasião em que corpos são encontrados. Creio que é uma criação da Polícia, para ocultar a violência cotidiana.

Não existe boletim médico de local. Só com o corpo no IML, se esclarece a causa da morte”.

 

Violência em silêncio

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Deitados às cinzas das sombras dos prédios.
Sob a punição de seus medos
No relento do descaso
Onde as ruas são seus laços
Suas identidades desfeitas por cédulas de abandono
Aprisionados na dor da violência
De devassos governantes com viseiras do poder
Violência da alma, da mente
Não há armas
Apenas corpos sedentes
Do amor, do calor
Cansados da ausência do ser
Sufocados pela presença do ter
Na foto vejo um pouco de mim
e vejo um pouco de você.

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FOTO: Weslei Barba – Fotógrafos Ativistas
TEXTO: Ariana Lackshmi – Fotógrafos Ativistas

AUDIODESCRIÇÃO: Dois moradores de rua estão próximos a um monumento localizado na região da Sé. Um deles está sentado com a mão no rosto e o outro está deitado. No fundo, há alguns prédios antigos. Foto em preto e branco.

fotografia violência

Terra da garoa

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Este senhor está sobre suas muletas para que o alagamento próximo a ele não o atinja.
Não parece ser suficiente.
Será que está sonhando? Acordado, talvez.
Pode ser que esteja esperando a água da chuva lavar sua alma.
Talvez esteja pensando em como sair dali.
Talvez seu sono seja tão profundo a ponto de não alertá-lo do perigo iminente.
Talvez não esteja prestando tanta atenção e outras coisas ocupem sua mente.
“Terra da garoa” é eufemismo.
A chuva quando vem, não espera ninguém.

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FOTO: Natan Linhares – Fotógrafos Ativistas
TEXTO: Monique Alves – Fotógrafos Ativistas

AUDIODESCRIÇÃO: Morador de rua está no chão, deitado em cima das suas muletas. Ao seu redor, a água da chuva toma conta do espaço. Foto em preto e branco.

 

morador de rua

“Neste momento em que um golpe ronda um país vizinho, é meu dever dizer aos jovens o que é um golpe de estado”

“É meu dever dizer aos jovens o que é um golpe de estado”

por Hildegard Angel

Ditadura

Neste momento extremamente grave em que vemos um golpe militar caminhar célere rumo a um país vizinho, com o noticiário chegando a nós de modo distorcido, utilizando-se de imagens fictícias, exibindo fotos de procissões religiosas em Caracas como se fosse do povo venezuelano revoltoso nas ruas; mostrando vídeos antigos como se atuais fossem; e quando, pelo próprio visual próspero e “coxinha” dos manifestantes, podemos bem avaliar os interesses de sua sofreguidão, que os impedem de respeitar os valores democráticos e esperar nova eleição para mudar o governo que os desagrada, vejo como meu dever abrir a boca e falar.

Dizer a vocês, jovens de 20, 30, 40 anos de meu Brasil, o que é de fato uma ditadura.

Se a Ditadura Militar tivesse sido contada na escola, como são a Inconfidência Mineira e outros episódios pontuais de usurpação da liberdade em nosso país, eu não estaria me vendo hoje obrigada a passar sal em minhas tão raladas feridas, que jamais pararam de sangrar.

Fazer as feridas sangrarem é obrigação de cada um dos que sofreram naquele período e ainda têm voz para falar.

Alguns já se calaram para sempre. Outros, agora se calam por vontade própria. Terceiros, por cansaço. Muitos, por desânimo. O coração tem razões…

Eu falo e eu choro e eu me sinto um bagaço. Talvez porque a minha consciência do sofrimento tenha pegado meio no tranco, como se eu vivesse durante um certo tempo assim catatônica, sem prestar atenção, caminhando como cabra cega num cenário de terror e desolação, apalpando o ar, me guiando pela brisa. E quando, finalmente, caiu-me a venda, só vi o vazio de minha própria cegueira.

Meu irmão, meu irmão, onde estás? Sequer o corpo jamais tivemos.

Outro dia, jantei com um casal de leais companheiros dele. Bronzeados, risonhos, felizes. Quando falei do sofrimento que passávamos em casa, na expectativa de saber se Tuti estaria morto ou vivo, se havia corpo ou não, ouvi: “Ah, mas se soubessem como éramos felizes… Dormíamos de mãos dadas e com o revólver ao lado, e éramos completamente felizes”. E se olharam, um ao outro, completamente felizes.

Ah, meu deus, e como nós, as famílias dos que morreram, éramos e somos completamente infelizes!

A ditadura militar aboletou-se no Brasil, assentada sobre um colchão de mentiras ardilosamente costuradas para iludir a boa fé de uma classe média desinformada, aterrorizada por perversa lavagem cerebral da mídia, que antevia uma “invasão vermelha”, quando o que, de fato, hoje se sabe, navegava célere em nossa direção, era uma frota americana.

Deu-se o golpe! Os jovens universitários liberais e de esquerda não precisavam de motivação mais convincente para reagir. Como armas, tinham sua ideologia, os argumentos, os livros. Foram afugentados do mundo acadêmico, proibidos de estudar, de frequentar as escolas, o saber entrou para o índex nacional engendrado pela prepotência.

As pessoas tinham as casas invadidas, gavetas reviradas, papéis e livros confiscados. Pessoas eram levadas na calada da noite ou sob o sol brilhante, aos olhos da vizinhança, sem explicações nem motivo, bastava uma denúncia, sabe-se lá por que razão ou por quem, muitas para nunca mais serem vistas ou sabidas. Ou mesmo eram mortas à luz do dia. Ra-ta-ta-ta-tá e pronto.

E todos se calavam. A grande escuridão do Brasil. Assim são as ditaduras. Hoje ouvimos falar dos horrores praticados na Coreia do Norte. Aqui não foi muito diferente. O medo era igual. O obscurantismo igual. As torturas iguais. A hipocrisia idêntica. A aceitação da sobrevivência. Ame-me ou deixe-me. O dedurismo. Tudo igual. Em número menor de indivíduos massacrados, mas a mesma consistência de terror, a mesma impotência.

Falam na corrupção dos dias de hoje. Esquecem-se de falar nas de ontem. Quando cochichavam sobre as “malas do Golbery” ou as “comissões das turbinas”, as “compras de armamento”. Falavam, falavam, mas nada se apurava, nada se publicava, nada se confirmava, pois não havia CPI, não havia um Congresso de verdade, uma imprensa de verdade, uma Justiça de verdade, um país de verdade.

E qualquer empresa, grande, média ou mínima, para conseguir se manter, precisava obrigatoriamente ter na diretoria um militar. De qualquer patente. Para impor respeito, abrir portas, estar imune a perseguições. Se isso não é um tipo de aparelhamento, o que é, então? Um Brasil de mentirinha, ao som da trilha sonora ufanista de Miguel Gustavo.

Minha família se dilacerou. Meu irmão torturado, morto, corpo não sabido. Minha mãe assassinada, numa pantomima de acidente, só desmascarada 22 anos depois, pelo empenho do ministro José Gregory, com a instalação da Comissão dos Mortos e Desaparecidos Políticos no governo Fernando Henrique Cardoso.

Meu pai, quatro infartos e a decepção de saber que ele, estrangeiro, que dedicou vida, esforço e economias a manter um orfanato em Minas, criando 50 meninos brasileiros e lhes dando ofício, via o Brasil lhe roubar o primogênito, Stuart Edgar, somando no nome as homenagens ao seus pai e irmão, ambos pastores protestantes americanos – o irmão assassinado por membro louco da Ku Klux Klan. Tragédia que se repetia.

Minha irmã, enviada repentinamente para estudar nos Estados Unidos, quando minha mãe teve a informação que sua sala de aula, no curso de Ciências Sociais, na PUC, seria invadida pelos militares, e foi, e os alunos seriam presos, e foram. Até hoje, ela vive no exterior.

Barata tonta, fiquei por aí, vagando feito mariposa, em volta da fosforescência da luz magnífica de minha profissão de colunista social, que só me somou aplausos e muitos queridos amigos, mas também uma insolente incompreensão de quem se arbitrou o insano direito de me julgar por ter sobrevivido.

Outra morte dolorida foi a da atriz, minha verdadeira e apaixonada vocação, que, logo após o assassinato de minha mãe, precisei abdicar de ser, apesar de me ter preparado desde a infância para isso e já ter alcançado o espaço próprio. Intuitivamente, sabia que prosseguir significaria uma contagem regressiva para meu próprio fim.

Hoje, vivo catando os retalhos daquele passado, como acumuladora, sem espaço para tantos papéis, vestidos, rabiscos, memórias, tentando me entender, encontrar, reencontrar e viver, apesar de tudo, e promover nessa plantação tosca de sofrimentos uma bela colheita: lembrar aos meus mártires, e tudo de bom e de belo que fizeram pelo meu país, quer na moda, na arte, na política, nos exemplos deixados, na História, através do maior número de ações produtivas, efetivas e criativas que possa multiplicar.

E ainda há quem me pergunte em quê a Ditadura Militar modificou minha vida!

[Acrescentei o trailer do filme Zuzu Angel, e os links biográficos]