Pena de morte. Polícia do Rio condena menino de onze anos

O negrinho Patrick executado pela polícia

é enterrado no dia em que faria 12 anos

 

Patrick, 11 anos

por Bernardo Costa/ Extra

 

“Parabéns para você”. Foi o que cantaram amigos e parentes de Patrick Ferreira de Queiroz pouco antes de seu sepultamento, na tarde deste sábado, no Cemitério do Catumbi. A criança faria 12 anos hoje, e o que era para ser um dia de festa, se tornou um momento de tristeza e luto para a família. Patrick foi morto por um tiro de fuzil disparado pela polícia, durante operação no Complexo do Lins, na quinta-feira.
— Toda esta gente que está aqui hoje iria jogar uma dúzia de ovos na cabeça do meu filho, para comemorar o aniversário dele. Em vez disso, meu filho está recebendo é uma pá de cal — desabafou Daniel Pinheiro de Queiroz, de 48 anos, pai de Patrick: — Revolta eu já não tenho mais. Vou entregar na mão de Deus e procurar os nossos direitos.

 

Parentes e amigos cantam ‘Parabéns para você’ antes do sepultamento Foto Fabiano Rocha

Parentes e amigos cantam ‘Parabéns para você’ antes do sepultamento Foto Fabiano Rocha

Uma vizinha, que não quis se identuificar, contou que moradores do Morro da Cachoeira Grande, onde Patrick foi morto, preparavam uma festa surpresa para ele:
— Iríamos comprar bolo, guaraná… Essas coisas de criança.
Momentos antes de cantarem “Parabéns para você”, o pai pediu que o caixão fosse aberto novamente para olhar para o rosto do filho pela última vez. Amigos e parentes aproveitaram para jogar rosas sobre o corpo, enquanto rezavam e cantavam músicas religiosas.
— Agora nós esperamos que a justiça seja feita — disse Scarlete Ferreira de Queiroz, de 20 anos, irmã de Patrick.

O velório de Patrick Foto Fabiano Rocha / Agência O Globo

O velório de Patrick Foto Fabiano Rocha / Agência O Globo

Segundo nota divulgada pela Coordenadoria de Polícia Pacificadora no dia da morte de Patrick, ele estava com uma pistola, uma mochila com drogas e um rádio transmissor no momento em que foi baleado durante uma troca de tiros. A família contesta a versão.

 

[Ninguém mais acredita na versão policial depois do caso Amarildo. Para a polícia comandada por Pezão, Patrick era o bandido mais perigoso da favela. Onze anos de criminalidade, desde quando nasceu pintado de negro]

 

‘Cadê a pistola?’, questiona pai de menino morto durante tiroteio em UPP

Moradores da Camarista Méier dizem que não havia arma perto de corpo da criança

 

por Flavio Araujo
Rio – No dia em que completaria 12 anos, Patrick Ferreira de Queiroz não vai ganhar brinquedos ou bolo de aniversário. Deverá receber apenas flores em seu enterro, que possivelmente será marcado para este sábado. O garoto levou três tiros nas costas na manhã desta quinta-feira, durante operação policial no Morro da Cachoeira Grande, Complexo do Lins. Segundo o pai do garoto, o ajudante de caminhão Daniel Pinheiro de Queiroz, 48, Patrick foi alvejado por PMs da UPP Camarista Méier.
Em nota a Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP) afirmou que houve troca de tiros com traficantes. Segundo o texto, com o garoto foi apreendida uma pistola, uma mochila e um rádio transmissor. “Cadê a pistola?”, questionou o pai do menino no Instituto Médico-Legal, onde não conseguiu liberar o corpo do filho, que foi removido sem documentação.

 

“Balearam Patrick perto da minha casa. Quando saí, ouvi que ele pedia socorro, mas os PMs isolaram o local e me ameaçaram. Disseram que se eu fosse socorrer meu filho, seria o segundo cadáver”, contou Daniel. Ele diz que não havia qualquer pistola no chão, perto do corpo do garoto. “Disseram que um morador tentou pegar a arma e a recolheram”.
O clima na comunidade ficou tenso durante todo o dia, com reforço de patrulhamento e parte do comércio fechado no Morro do Gambá, Cachoeira e Cahoeirinha, além de todo o entorno do Hospital Marcílio Dias.
A morte do menino chocou os vizinhos. A prima Denise da Silva, que mora ao lado, quase desmaiou ao ver o corpo de Patrick. “Ele tinha três buracos nas costas e o pulmão saiu pela frente do corpo”, contou.
Dois policiais da UPP Camarista Méier, que patrulhavam nesta quinta à noite a comunidade, disseram que Patrick foi apreendido na semana passada com drogas e levado para a 25ª DP (Engenho Novo). De acordo com o relato, ele teria chorado muito na delegacia, disse estar arrependido e que não trabalharia mais para o tráfico. Eles contaram também que o garoto ameaçava os PMs pelo rádio e já tinha trocado tiros com algumas guarnições.
A irmã do garoto, Scarlet Ferreira de Queiroz, 20, desmente a informação de que o ele teria ligação com o tráfico. “Era um menino medroso, não brigava na rua. Então, como ele iria enfrentar a polícia?”. A UPP Camarista Méier foi inaugurada em 2013. Em outubro do ano passado, na mesma região, dois contêineres foram incendiados, deixando três feridos. O registro foi feito na 25ª DP, que apreendeu as armas dos PMs. As investigações estão a cargo da 26ª DP (Todos os Santos). A CPP abriu Inquérito Policial Militar para apurar o caso.

— Tinha arma. Mas quem vai falar que não foram eles que colocaram?

por Rafael Soares

Patrick Ferreira Queiroz, de 11 anos, foi atingido por um tiro de fuzil na axila por volta das 15h de quinta-feira. Segundo registro de ocorrência feito na 25ª DP (Engenho Novo), com Patrick foram apreendidos uma pistola calibre 9mm, um radiotransmissor e uma mochila com maconha, cocaína e crack. O delegado Niandro Ferreira, que acompanhou a perícia, registrou o caso como morte decorrente de intervenção policial. Os três PMs envolvidos no caso relataram na delegacia que atiraram porque viram a arma da mão do menino. Quando o delegado chegou ao local, a arma já havia sido recolhida pelos policiais.

 

[Vamos supor que Patrock era o mais perigoso bandido. Por que três homens, treinados para matar, não conseguem dominar uma criança de onze anos? Já pensou esses valentões diante de um bandido de maior idade? Vão mijar nas calças. A covardia e a crueldade já estão comprovadas. Não foi “bala perdida”. Foi um tiro de fuzil de longe. E mais um, e dois, e três, quando se aproximaram do cadáver do garoto. Bandido nessa história corriqueira é a polícia de dia, que vira milícia de noite]

 

Ontem pela manhã, o pai de Patrick negou que o garoto estivesse armado quando foi morto por PMs. Daniel Pinheiro de Queiroz, de 48 anos, acusa os PMs de terem plantado a pistola que disseram estar nas mãos do menino.
— Tinha arma. Mas quem vai falar que não foram eles que colocaram? Só vi ele com uma mochila e um radinho. Como um garoto de 11 anos vai ter pistola? — disse Daniel, enquanto cuidava da liberação do corpo do menino no Instituto Médico-Legal (IML).
A Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP) sustentou, por nota, a versão de que Patrick integrava o tráfico no local e estava, além da arma, com maconha, cocaína, crack e um radiotransmissor.
Lanchonete
Segundo a família de Patrick, o menino havia abandonado a escola há seis meses, mas trabalhava numa lanchonete na favela. “Não se negava a fazer nada para ninguém. Era trabalhador. Trabalhava numa lanchonete”, afirmou o pai, que morava com Patrick e seu irmão mais velho, até este ser apreendido na Operação Elo de Paz.
Já a prima de Patrick, Denise Balu da Silva, de 24 anos, afirmou, no IML, que o menor brincava na rua quando foi morto. “Queremos uma resposta das autoridades. Vou lutar para a morte dele não ser em vão. Ele era como um filho para mim”, contou Denise, emocionada.
Scarlet Ferreira de Queiroz, de 20 anos, irmã de Patrick, criticou a ação da polícia. Segundo ela, os PMs retiraram do local do crime a pitola que diziam estar com Patrick. “A arma tinha que ficar lá. Se ninguém podia chegar perto, por que eles tiraram a arma? Não deixaram nem cobrir o corpo”, afirmou Scarlet.

 

 

pena de morte