Papa: Contemplar o Evangelho e não as telenovelas

JESUS DÁ ESPERANÇA

 


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Terça-feira, 3 de fevereiro – Na Missa em Santa Marta o Papa Francisco exortou os cristãos a escutarem o Evangelho e não telenovelas.

O Santo Padre sublinhou que a contemplação diária do Evangelho ajuda-nos a ter a verdadeira esperança.

Desenvolvendo a sua homilia a partir da passagem da Carta aos Hebreus que fala sobre a esperança, o Papa Francisco propôs a “oração de contemplação” que se faz com o Evangelho na mão lendo e refletindo sobre os acontecimentos:

“Como faço a contemplação com o Evangelho de hoje?

Vejo que Jesus estava no meio da multidão, à sua volta estava muita multidão. Cinco vezes diz esta passagem a palavra ‘multidão’. Mas Jesus nunca descansava? Eu posso pensar: ‘Sempre com a multidão…’ Mas a maior parte da vida de Jesus é passada na estrada, com a multidão. Mas não descansava? Sim, uma vez diz o Evangelho, que dormia no barco mas veio a tempestade e os discípulos acordaram-no.

Jesus estava continuamente entre a gente. E vê-se Jesus assim, contemplo Jesus assim, imagino Jesus assim. E digo a Jesus o que me vem de dizer-lhe.”

O Santo Padre sublinhou, desta forma, que a oração de contemplação ajuda-nos na esperança. Permite-nos fazer crescer a esperança se concedermos 15 minutos de atenção a uma pequena passagem do Evangelho – afirmou o Papa Francisco:

“…Imagina o que aconteceu e fala com Jesus. Assim, o teu olhar estará fixo em Jesus e não tanto nas telenovelas, por exemplo. O teu ouvido estará fixo nas palavras de Jesus e não tanto nos mexericos do vizinho e da vizinha…”. (Rádio Vaticano)

 

 

“Não há como escapar da dolorosa contradição que impõe o convívio entre a dor e a beleza o tempo todo”

por Nei Duclós
Jornal Opção

Nei Duclós

Nei Duclós

A invenção da leitura

Longe do panfletismo, o rigor de Alberto Moravia joga pesado na confluência de intenções contraditórias, nas vontades que se anulam, nas decisões erradas, no imaginário promovido pela iminência da guerra. “1934” é o romance que Moravia preparou para nos assustar

Moravia

Personagem de um romance é o seu primeiro leitor. O protagonista narra sua leitura para quem o acom­panha. Temos assim acesso a uma representação do romance que o autor compõe ao voltar-se para sua própria arte. É o princípio da es­piral que gera o tornado, fruto do confronto entre a massa de ar quente da imaginação com o gelo da palavra. O único cuidado, para artistas do verbo como o italiano Alberto Moravia (1907-1990), mo­nu­mento literário do século 20 com uma obra fluvial que muitas vezes de­saguou no cinema, é não transformar esse movimento ascendente de ro­tação num espetáculo virtual. É preciso que o evento destrua o ambiente para nele sobreviver a história sem concessões. É só literatura, mas não pode deixar de ser mortal.

“1934” é um romance de Mo­ravia que trata de um leitor compulsivo, escritor obcecado em alguns grandes autores que busca uma saída para o inevitável suicídio. “É possível viver no desespero sem desejar a morte?” é a primeira frase que nos leva para o abismo. Inspira­do na obra radical das gravuras e qua­dros de Albrecht Dürer e no Niet­zsche de Zaratustra, ele se divide entre a dor e o prazer, trafegando num fio de navalha a partir de uma ilusão: o namoro com uma be­la turista alemã casada. Ele procura do­minar o desespero para equilibrar-se na difícil Europa de domínio fascista. Revela a intelectualidade de mãos amarradas e de raciocínio podre, a serviço do imobilismo do gesto e do marca passo das ideias.

O jovem Lucio, o escritor que viaja a Capri para produzir algo que resolva seu paradoxo, entra no jogo de sedução cedendo a um impulso, mas sua intervenção obedece a um intuitivo planejamento. No fundo ele quer amarrar a súbita paixão ao confortável desfecho de sua aventura. Mas é traído pela complexidade da trama. A mulher do seu desejo tem uma outra, idêntica, irmã gêmea que se confunde com ela, apesar das personalidades opostas (o convívio com uma o liberta das amarras com a outra e vice-versa). Isso faz com que o jogo de cabra cega com o gênero oposto vire uma armadilha, intensificada pela presença do marido, um alemão nazista que o obriga a fazer a saudação maldita de braço estendido.

Submeter-se às conveniências para sobreviver é a fonte do desespero, fruto da escravidão. O escritor não pode se manifestar porque a situação política que ultrapassa fronteiras não permite. Em 1934 o ambiente já estava definido a partir da morte e sua celebração, consolidada no Viva La Muerte da futura guerra espanhola naquela década. A criação estava confinada ao oposto de sua natureza. Moravia escreveu sobre esse pesadelo de 1934 só muito mais tarde, na década de 1980. O romance tem tudo de um resgate a partir das ruínas. Criaturas demolidas pela situação insuportável imaginam amar, pensar, gerar um destino diverso do que está sendo imposto. “Acredito que a criação humana é universal”, disse ele numa entrevista. “Qualquer homem possui uma capacidade criadora, nunca desprezível e incessante. A todo o instante se pode encontrar no interior de qualquer homem, por mais insignificante que seja, a sua força criadora. E isso é que é belo.” Mas neste romance a beleza fica sufocada, apesar da mestria do texto, sempre encantadora.

Longe do panfletismo, o rigor de Moravia joga pesado na confluência de intenções contraditórias, nas vontades que se anulam, nas decisões erradas, no imaginário promovido pela iminência da guerra. Tudo é delicado nos detalhes dessas rotinas vulneráveis, em que os bilhetes podem levar a um assassinato, uma leitura consegue destruir carreiras, uma paixão de verão acaba virando um caso sinistro. Em que sombras definem a vontade de sumir e todo esforço bate na barreira de uma realidade intransponível. Estávamos estrepados em 1934 e parece que saímos daquela gruta. Mas ele prepara uma surpresa.

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Continuamos lá, nos prova o ogro da palavra. Ainda estamos engessados em nossas limitações econômicas, políticas, comportamentais, apesar de falarmos tanto mal daquela época. Não saí­mos do horror, como imaginávamos. O desespero continua martelando a existência e empurrando-a para o final. A arte tem o poder de nos salvar, mas em qual livro a salvação se esconde, qual o trecho definitivo, o que a arte pode reverter em nosso benefício? No momento em que pensamos estar no caminho da redenção, acabamos girando em torno do caos.

Não é, como nos diz a literatura de autoajuda, uma situação que encerre lições de vida. Mas é uma obra que encarna as hostilidades espirituais inerentes às criaturas, envolvidas em suas criações diárias. A complexidade humana, em Moravia, é pintada com sua estupenda capacidade estética, em que tudo ganha vida nas descrições de paisagens, tanto as urbanas quanto as da natureza. O velho balneário de uma aristocracia já morta (tema recorrente em sua literatura) agoniza à beira das cores míticas do mar Tirreno, na ilha de Capri. O veraneio faustoso en­cerra uma sucessão de conflitos internalizados, dolorosos, de onde é difícil sair ileso.

A solução, provisória diante da precariedade humana, mas decisiva como exercício do talento, é um romance assustador, com a narrativa diante do espelho, voltada para si mesma e que encontra nessa reprodução o avesso de sua essência. Não se trata apenas de arte, mas das ameaças à sua existência. Isso combina com o sofisticado pessimismo do autor: “As artes poderão morrer por uma razão simples: a arte não é mais do que uma alta, muito alta, forma de artesanato”, disse ele. “No mundo inteiro, assistimos ao fim do artesanato. Ora, o homem reflete-se naquilo que produz: pois que, si se fabrica para tudo objetos em série, não se poderá também impedir de criar homens em série — e o homem em série é o contrário do artista.”

Essas declarações fazem parte também do enfoque que dá ao seu trabalho: “Não procuro mostrar o bom humor. Os heróis de romance não têm de ser felizes. Devem, pelo contrário, ser durante todo o tempo aquilo que as pessoas são num instante no auge dos seus conflitos”.

Moravia tem gana da aristocracia e dos conservadores em geral. Em seus romances, como a sua estreia “Os Indiferentes”, ele retrata o ambiente de sua infância e adolescência, de família abastada onde encontrou a desgraça de ficar imobilizado devido a uma tuberculose óssea. Transformou-se num observador atento e um narrador detalhista. E nos seus contos surrealistas e satíricos, ele pega cada personagem desses castelos carcomidos, mansões obsoletas, profissões inúteis num mural humano degradado. É um clima de Fellini sem a vantagem onírica, já que é “realista” demais para se deixar levar pelo delírio.

“Tive dois obstáculos para superar”, disse. “Primeiro, foi a minha doença — tuberculose óssea. De cinco em cinco anos ia à cama, o que me deprimiu bastante. E depois, claro, houve o fascismo. No entanto, não acredito muito nos obstáculos exteriores. O olhar do homem moderno é demasiado forte para tudo conseguir anular, mesmo a doença. Há somente para ele alguns obstáculos interiores.”

Num dos seus contos, alguém visita o ateliê de um amigo e lá dorme e sonha com o cenário que se descortina da janela. Quando o personagem acorda, a mesma paisagem é descrita de modo inteiramente diverso. É a mágica de Moravia, um mestre da percepção pictórica, que nos devolve em quadros o que enxerga em três dimensões. Em “O Desprezo”, filme de Jean-Luc Godard baseado em outro livro seu, ele serve uma paisagem clássica como moldura de uma covardia: “Em ‘O Desprezo’ procurei mostrar como o dinheiro, num mundo capitalista, determina não apenas as relações de negócios, mas também as relações afetivas. Está igualmente fixado sobre a dúvida: a mulher começa a desprezar o seu marido porque desconfia que ele a quer colocar nos braços do realizador, do qual depende o seu futuro como cineasta. O livro decorre em Roma e em Capri, no mundo do cinema. onde o dinheiro tudo corrompe”.

Não há como escapar da dolorosa contradição que impõe o convívio entre a dor e a beleza o tempo todo. “Um artista é um belo ser independente”, dizia ele, “mas quando se trata de assuntos para uma sociedade restrita como a de Luís XIV, ou vasta como a atual sociedade francesa, põem-se problemas diferentes. Há sempre uma pressão”. Mo­ra­via não se iludia com seu ofício, que dominava como poucos: “Não quero ser diferente, mas por outro lado sei bem que o ar­tista é diferente, porque possui um poder de contemplação. Po­de­ria mesmo dizer-se que é uma tes­temunha, ‘a testemunha’ no ver­dadeiro sentido da palavra. Em certas circunstâncias, ele é a ú­nica pessoa que ‘viu’ o que se passou”.

Seu nome verdadeiro era Alberto Pincherle e há 23 anos, desde 25 de setembro de 1990, não temos mais o privilégio da presença física deste romano talentoso. Mas seus livros, vários, estão aí para nos alertar.

De Mariana Valle

Às vezes, é preciso esvaziar espaços,
pra ocupar com outros braços
os abraços que queremos dar.

Noutras vezes, só nos falta ar
pra respirar com calma,
pra limpar a alma de mágoas,
se desafogar das turbulentas águas
e suas ondas de lamentos.

O vento não leva embora nada.
O tempo não é remédio.
Que tédio esse clichê!
É você que tem que fazer.

É sua mente quem procura
a cura pro coração.
É a cor da ação, o tom,
o “não” e o “sim”
que você começa a pronunciar
em nome do fim,
do que se deve mudar.

Às vezes, é só deixar pra lá.
E noutras, trazer pra cá,
pra dentro.

Às vezes as vozes não mentem,
mas é só sua voz que importa.
É preciso trancar a porta
e as janelas
e ficar em silêncio,
pra se escutar.


Com este poema Mariana Valle se fez poeta. Encontrou seu estilo. Único. Exclusivo.

Este poema é completo.
Pode ser piegas. De amor-desamor. Leia de novo.

Um poema de auto-ajuda. Com suas lições de como escapar dos perigos do ramerrão. Das ciladas do inimigo. Que é você.

Este mundo cheio de livros religiosos, e de psicologia, ensinando como se deve viver, e ninguém aprende. Leia de novo.

Um poema que vai além do corpo. Da alma. Um poema filosófico. Leia de novo.

A poesia é tudo. Que os poetas sabem a linguagem dos anjos. Um poema é belo quando espelha a alma de quem ler. Quando o leitor sente o êxtase da possessão. Acordados todos os sentidos.

Sinta a incorporação. Neste mundo de zumbis, de fantoches, de marionetes, de teleguiados, de controle remoto, sinta o próprio corpo. Descobre tua alma. Valle! se você avista no espelho o semblante de Mariana.