A CIDADE DE GUSTAVO KRAUSE E O HOMURBANO

A CIDADE E O HOMURBANO
por Gustavo Krause

 

.

.

A cidade é feita de casas
e de covas rasas.
A cidade é feita de ruas
e de estátuas nuas.

A cidade é feita de praças
e de fumaças.

A cidade é feita de bares
e de azares.

A cidade é feita de gentes
e de carentes.

A cidade é feita de graças
e de massas.

A cidade é feita de artistas
e de conquistas.

A cidade é feita de inteligências
e de consciências.

A cidade é feita de poesias
e de maresias.

A cidade é feita de amores
e de dores.

A cidade é feita de dezenas de equipamentos,
de centenas de lamentos
e de milhares de sentimentos.

A não-cidade é feita de céus arranhados
e de homurbanos desesperados.

Homurbanos?

Alpinista, escala morros.
Nadador, atravessa o mar de lama.
Velocista, corre contra o tempo.

O homurbano se move em disputa atlética.

Em busca frenética
de vapores tóxicos,
de rações dietéticas
com sabores cítricos,
de sonhos estéticos
sem formas nítidas,
com esperanças caquéticas
de vitórias exdrúxulas.

O homurbano pára no descanso (u)tópico.
Em recolhimento fóbico
da guerra cósmica.
Em proposta lúdica
de inspiração etílica.
Em impulso erótico
de sexo rápido.
Em sombras típicas
de sono asmático.

 

ponte da boa vista foto restaurada

RECIFE
por Talis Andrade

.

(trechos)

7

Nascida do encontro das águas
linda Cidade Maurícia
Veneza Brasileira
No turbilhão da Festa da Mocidade
eu não percebia
Vendidos a retalho
os arredores do Recife
os canaviais das fábricas de açúcar
as pastagens das vacarias
as matas os sítios
aterrados os alagados das marés
os novos dias
tornariam realidade
a profecia
de Gilberto Freyre
A cidade ficaria inchada
a pobreza morando ao lado
dos arranha-céus
a pobreza morando ao lado

8

Multiplicaram-se as favelas
Krause construiu as escadarias
as ruas os caminhos dos morros
em parceria com o povo
Multiplicaram-se os carros
o prefeito Antonio Farias
abriu espaços para a passagem
duplicando pontes viadutos
por lugares nunca imaginados

 

 

Rio Capibaribe de João Cabral de Melo Neto e Carlos Pena Filho

PAISAGEM DO CAPIBARIBE
por João Cabral de Melo Neto

.

A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada
O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão,
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.
Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul.
da fonte cor-de-rosa
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.

 

1024px-Confederacao_equador_1824_exercito_imperial

1024px-Panoramic_view_of_Recife

Pontes_do_Bairro_do_Recife_Antigo

640px-A_Cidade_e_o_Rio

 

 

GUIA PRÁTICO DA CIDADE DO RECIFE
por Carlos Pena Filho

.

(fragmentos)

(…) tudo o que for do rio,
água, lama, caranguejos,
os peixes e as baronesas
e qualquer embarcação,
está sempre a todo instante
lembrando o poeta João
que leva o rio consigo
com um cego leva o cão.

 

BRA^PE_JDC capibaribe

2 poemas de Leo Lobos, o poeta chileno mais querido dos brasileiros

Leo Lobos

Leo Lobos

 

 

Jazz no Parque
lemos o jornal no Jazz no Parque (o hotel de onde nos mudamos), me sinto
aprisionado.
Nos convidaram ao concerto de Peter Salett, e é sem dúvida uma boa ideia
para sair daqui e sair ao passo do estado no qual nos encontramos. Um táxi
móvel nos leva ao Clube que está praticamente tomado, entramos sem
dificuldade com a ajuda dos anjos custódios em meio às luzes cegantes,
tomamos bebidas brancas, escutamos com atenção enquanto mulheres ruivas
são agitadas pela música.

 

Vida noturna na cidade

Saímos daí disparados a seguir rodando
pelo lado escuro da cidade
um grupo de rastas fumam pelas beiras
de um lugar noturno onde esta noite toca um demônio,
quero ir embora, ainda que o cheiro de tranquilidade que aqui se respira
me retenha, comemos verduras que vendem baixo do pórtico de um arranha-céu
onde nos refugiamos da chuva. Um deles recorta fotografias de revistas e pinta
os marcos onde as expõe sobre um pedestal – caixa, outro desenha em um enorme
bloco com grandes traços
inumeráveis imagens difusas.
Queimamos as antigas imagens que tínhamos deles e em pouco
as nossas se fazem cinzas
que o vento
leva.
Tradução Leonardo de Magalhaens

JAZZ ON THE PARK

leemos el diario en Jazz on the Park (el hotel donde nos hemos mudado ), me siento encerrado.

Nos han invitado al concierto de Peter Salett, y es sin duda una buena idea para salir de aquí y salir al paso del estado en el que nos encontramos. Un taxi móvil nos lleva al Club que está prácticamente copado, entramos sin dificultad con la ayuda de los ángeles custodios en medio de luces cegadoras, tomamos bebidas blancas, escuchamos con atención mientras hermosas mujeres rubias son
mecidas por la música.

URBAN NIGHT LIFE

Salimos de ahí disparados a seguir girando
por el lado oscuro de la ciudad
un grupo de rastas fuma en las afueras
de un local nocturno donde esta noche toca un demonio,
quiero irme, aunque el aroma de tranquilidad que aquí se respira me retiene, comemos verduras que ellos venden bajo el pórtico de un rascacielos donde nos refugiamos de la lluvia. Uno de ellos recorta fotografías de revistas y pinta los marcos donde las expone sobre un pedestal – maleta, otro, dibuja en un enorme block a grandes trazos innumerables imágenes difusas.
Quemamos la antigua imagen que teníamos de ellos y de paso
las nuestras se hacen cenizas
que el viento
lleva.

 

Leo Lobos visto pela poetisa Cristiane Grando aqui 

 

 

Lamentamos informar que a tal “vida simples” do interior é apenas ilusão

por Moacir Japiassu

 

japi 1

 

Famílias trocarama cidade pelo campo parater uma vida simples

Janistraquis sorriu:

“Até a ‘filósofa’ Marilena Chauí, musa do PT que odeia a classe média, teve pena de tamanha pureza d’alma; não existe mais a tal vida simples”.

É verdade; vida rural é difícil e cada vez mais perigosa. Há algum tempo, Odilon, amigo nosso, seguia a pé do sítio para a cidade, como todos os dias, quando foi assassinado no meio da estrada Cunha-Paraty a golpes de barra de ferro. Nunca acharam o bandido que cometeu a maldade contra um homem bom, que andava sem dinheiro no bolso e não tinha armas.

Há alguns meses, Geraldo Bernardo, comerciante aqui ao lado do Maravalha, foi atacado a pauladas no instante em que encerrava o expediente, no início da noite; os bandidos, três menores de idade, também invadiram a residência, que ficava em cima do armazém, e mataram a facadas a mulher dele, dona Nair. “Apreendidos”, como dizem os trouxas, os bandidos devem ter sido beneficiados pela folga da Semana Santa.

A vida no meio do mato se transformou num pavor diário. Nossos sítios e chácaras são cercados por apenas três, quatro fios de arame farpado, e, se o bandido não pula por cima, arrasta-se por baixo ou então mete o alicate e passa do mesmo jeito. Ter cachorro é a mais inocente das ‘providências’.

A segurança talvez esteja nas armas de fogo e na disposição de atirar até nas sombras da noite. Janistraquis vai tentar contato com Marcola para ver se compra, a prazo, é claro, uma metralhadora e algumas granadas para esticar um pouco mais a vida simples desejada pela classe média de Marilena Chauí.

Caderno de classificados

por Urariano Mota

capainterna1

Nos jornais existe uma seção, um caderno que reflete melhor a sociedade que as notícias da primeira página. Os anúncios classificados, que se publicam ao fim das edições, revelam sempre uma pista segura de como age e anda o mundo.

Diferentemente da primeira página, que se faz ao gosto de quem organiza e hierarquiza os fatos de todos os dias, os anúncios publicados lá no último caderno se fazem conforme a gente da cidade, que em linhazinhas breves, em espaços curtos fala. Ali, quase toda a gente pede, oferece e propõe do jeito que as coisas e as pessoas são, ou melhor, revela-se no como gostaria que coisas e pessoas fossem. Numa palavra, compra-se, ou vende-se, conforme a natureza dessa gente.

O passar das páginas dos classificados são como o movimento de um avião que não levantasse vôo sobre a cidade, como um carro com asas que visse o conjunto de habitações sem que fosse preciso subir. Como o passar de carro por uma cidadezinha muito especial, lugar onde se mostram casas de todas as cores, tamanhos e arquitetura.

O mais engraçado, nessa cidade entrevista, é o corte bruto, sem consideração ou piedade para o sofrimento ou a alegria. É a passagem sem transição da mercadoria para o afeto da gente. Ali é o lugar de uma feira original, uma feira de tudo. Da mulher de que se necessita ao telefone que se vende. Do transplante de fígado, urgente, ao coração exposto, nu, sem pudor à luz do dia. Do engraçado, do cômico, ao Correio Sentimental na seção de Serviços Profissionais, vindo logo antes do Esoterismo/Místicos.

Nessa feira vai-se da tragédia ao prosaísmo, entra-se no amor e sai-se no eletrodomésticos, porque no espírito da página quem manda é a ordem alfabética. Os Produtos Gráficos se acham ao lado das Massagistas, ainda que estas não façam tatuagens, e os Telefones se vendem junto ao Som/Vídeo, mesmo que toquem uma só canção, mecânica.

Imaginem os leitores de hoje o mundo daqui a cem anos. Imaginem a humanidade, se existir, daqui a cento e cinqüenta anos. Então imaginem nossos descendentes, se vivos forem, imaginem se eles poderão entender os hábitos que éramos, se lhes mostrarem a primeira página dos jornais de hoje. “Popularidade de Bush cai”. Nossos futuros, se houver, perguntarão, quem foi mesmo esse vegetal pequeno que se apelidava de Bush? Imaginem agora o leitor que nos sucederá nesses futuros anos ao ler estas linhas:

PROCURO HOMEM – Sem compromisso, 38 a 45 anos, que ainda acredite no amor.

Haverá linha mais eloqüente que expresse, a nossos pósteros, que em 2008 houve uma vez uma mulher sozinha, sofrida, que procurava alguém que AINDA acreditasse no amor? O advérbio aí é mais substancioso que nossa transformação em pó. AINDA. Isso dirá que essa mulher já sofrera, já se magoara muitas vezes, mas que era possuída pela humanidade, que não desertara da esperança. E nos compreenderão, se viverem, se lerem, quando lerem:

TENHO 50 anos. Solteira, nível superior. Procuro pessoa livre, nível superior, de bons sentimentos, de 50 a 55 anos e acredite no amor, que tenha mente aberta e esteja também à procura de alguém para sincera amizade ou algo mais. Caixa Postal…

Não importa se o anúncio quer o difícil, o quase impossível. Se quer um homem de 55 anos que não esteja casado, que não esteja farto de tudo, que assim não estando procure a mulher ideal, e para algo mais que a amizade. Não importa. Pois não houve uma vez um professor em Água Fria que aos 65 anos ainda buscava a namorada de infância? Então é possível.

Em nome da inteligência dos que nos vêm depois, nem precisamos comentar os classificados que se seguem. Eles falam por si, das taras, dos tempos e das transgressões. “Casada infiel. Ligue e confira!”. “Menina linda, rostinho de anjo e sorriso encantador. Uma colegial superdanada! Para maiores de 40…”. “Bruna – bela travesti bronzeada para executivos”. “Tia & Sobrinha – Safadas e fogosas!”…. E como possível cura às frustrações dessas fantasias, uma nova, de certeiro homeopata: “Alberto – Resolve problemas amorosos.”

Os anúncios classificados, por serem comerciais, e porque vendem mercadorias, bem que poderiam ser lidos como um espelho invertido de desejos. De casas, de carros, de apartamentos, de objetos, de emprego, de sexo e de amor. De sonhos, de altos e baixos sonhos, do sublime e de quinquilharias. Feira da selva que legamos.

Los horrores de la guerra en palabras

“No hay nada glorioso en la muerte de un joven en el frente, sea del bando que sea”, plantea el autor bosnio Velibor Colic, que aun en el horroroso recuento de la guerra de los Balcanes en los noventa encuentra una ventana donde hacer entrar la humanidad y hasta el humor

Colic se alistó en el ejército bosnio, pero desertó

Colic se alistó en el ejército bosnio, pero desertó

 

Por Por Silvina Friera


“¿Se paga peaje cuando no se tienen más que recuerdos como equipaje?” Esta acuciante pregunta la plantea un sobreviviente de la lucha encarnizada y homicida de los Balcanes en los años ’90, consciente de la dificultad radical de expresar los sentimientos de quienes se han salvado del “sangriento festín” al que él, como tantos otros, estaba convidado desde hace tiempo. “No hay nada glorioso en la muerte de un joven en el frente, sea del bando que sea”, se lee en la última parte de Los bosnios (Periférica) primer libro del escritor bosnio Velibor Colic, un artefacto bello y doloroso, próximo a los recursos de la ficción, con evocaciones breves que podrían camuflarse en el ropaje “mítico”, es decir, rozar el cuento de hadas, a veces la plegaria o la poesía, otras relatos brevísimos de vidas truncadas. Pero, como aclara el narrador, “todo es verídico, por desgracia”. Un texto que es un eslabón más de la cadena en la que se podrían inscribir Walter Benjamin, Primo Levi y también Ivo Andric, el único autor yugoslavo que obtuvo el Premio Nobel de Literatura. Se suele aconsejar que para tratar cuestiones tan extremas, en la compleja frontera de lo indecible, conviene esperar pacientemente, dejar reposar esa experiencia. Que la escritura inmediata, en “caliente”, pegada a los acontecimientos, además de contraproducente, no se traduce en resultados mínimamente adecuados. Que es indispensable cierta distancia temporal para escribir. Cualquier tipo de manual o de instrucciones están concebidos para ser transgredidos. Y éste parece ser el caso del narrador bosnio.

Colic nació en 1964 en la pequeña ciudad de Modrièa (Bosnia). Se alistó en el ejército bosnio, pero no pudo soportar lo que vieron sus ojos. En su primer libro, publicado en Francia en 1994, donde actualmente reside, dos años después de los hechos vividos, cuenta el incidente que lo convirtió en “desertor”. A los prisioneros serbios se los obligaba a tender las manos entre sí, y se las ataban con alambre de espino. “Resulta que pasé cerca de un hombrecillo mal afeitado, con uniforme del ejército federal, que estaba agachado, y con las manos sujetas, junto al canal que bordea la carretera de Garevac, cerca de Modrièa. Con voz suplicante, me llamó y me pidió que le abriera el bolsillo superior izquierdo de su chaqueta. Así lo hice, y encontré en él la fotografía de dos niños (un niño ya de una cierta edad y una niñita más pequeña). Le deslicé entre sus dedos ensangrentados, di vuelta y me marché. En el dorso de la foto ponía: ‘¡Papá, vuelve!’.” En julio de 1992, un grupo de entre dos y mil tres mil bosnios de la región de Posavina fue encerrado en el campo Slavonski Brod. El escritor estaba entre aquellos desdichados. En una nota al pie del capítulo sobre este campo “de la derrota y la vergüenza”, el autor revela que, aprovechando una violenta tormenta que estalló el tercer día de su cautiverio, el 13 de julio, consiguió saltar el muro de aquel estadio transformado en campo y llegar hasta Zagreb. Al día siguiente, el campo fue desmantelado de modo inevitable: los serbios lo bombardearon. “Ninguno de los que habíamos conseguido salvar la vida gracias a algún milagro, ni tampoco aquellos que murieron en aquella guerra demente, tenemos muchas posibilidades de volver un día a ‘nuestro’ lado del Sava. Nos marchamos con miedo y precipitación, emprendimos las vías celestes o ‘imperiales’ que llevan a la muerte y el exilio.”

Los bosnios, que empieza con una plegaria, “Ave María, gratia plena…”, está dividido en tres partes –“Hombres”, “Ciudades” y “Alambradas”– más una sección final: “¿Post scriptum o post mortem (carta a un amigo muerto)?”. En la primera parte, emerge una voz colectiva, un “nosotros” que va desgranando las atrocidades cometidas para que las víctimas no queden confinadas en la infamia del anonimato. En “Hombres” hay nombres, aunque el lector pronto crea asistir a una especie de cementerio en continuado, cadáveres y más cadáveres apilados en el decurso de las páginas. Acaso no sea pertinente preguntarse, emulando a Adorno, si es posible la poesía luego de la guerra en los Balcanes, con 98 mil muertos, un millón de desplazados y una limpieza étnica sistemática; números aproximados que poco y nada dicen. Los números no hablan; verdad de Perogrullo que no viene mal, más allá de la obviedad, apuntar. Los muertos tampoco hablan, por eso Colic elige adoptar una voz que se parece al del narrador oral que articula relatos a través de testimonios, de testigos que completan parcialmente fragmentos brevísimos de historias espeluznantes. Como la historia de Adem –Adán, el primer hombre–, que caminaba encorvado como el filo de una hoz. Vivía en una casucha de adobe junto con su madre, hasta que los serbios se ensañaron con su joroba. “Por primera vez en su vida, Adem estaba erguido. Estaba de pie contra la pared de su casa natal, empalado en una estaca. Le habían roto la columna vertebral para enderezarla.”

Al gitano Ibro, que pese a ser musulmán se negó a huir de la ciudad natal del escritor cuando los soldados serbios entraron, le cortaron el cuello, como a su mujer y a su hijo. Como en “tiempos de los turcos”, plantaron las cabezas sobre las estacas de la empalizada que rodeaba su casa. Alma era una niña de siete años que vivía de la caridad brutal y voluble, de los borrachos a los que vendían flores. La bala de un francotirador la mató. La muerte sorprendió a Simo con los ojos abiertos de par en par. “A la pregunta habitual que le había hecho un oficial del Ejército Federal, si era serbio leal o no, Simo había respondido: ‘Soy serbio, en efecto, pero Bosnia es mi patria’. No era culpable de nada más.” Tanto horror seguido, narrado con una precisión quirúrgica, poniendo el acento en el verbo y prescindiendo de la adjetivación para generar un estado de vacilación persistente –lo verídico es tan excesivo, un hiperrealismo elevado a la enésima potencia que deviene absurdo o imposible–, resultaría insoportable. Para contar la tragedia en los Balcanes, esa zona de alta heterogeneidad y mescolanza con sus reyertas ancestrales, es indispensable el desvío a través del humor. El aire que suministra una dosis exacta de comicidad para continuar respirando, viviendo, leyendo. El escritor lo consigue insertando misceláneas protagonizadas por Huso y Haso, personajes populares de los chistes bosnios.

En “Ciudades” explora la agonía y la ruina de tantos sitios desaparecidos de la faz de la tierra, como el pueblo de Grapska. “El cementerio en el que reposaban los ‘bienaventurados’ que habían tenido la suerte de morir de muerte natural tampoco se salvó”, confirma el narrador cuya literalidad, fenómeno extraño, no es ironía. Por más paradójico que suene, en esas ciudades devastadas, sólo los cementerios son nuevos. Los habitantes entierran a sus seres queridos en lugares absurdos, en los parques públicos, en los jardines de sus propias casas, donde pueden. “No hay tiempo para ceremonias y lágrimas. Se cavan siempre dos o tres fosas por adelantado. Por los muertos venideros.” Los bosnios no es un libro de “respuestas” ni el equivalente bélico de la autoayuda. El dedo en la llaga que mete Colic en su debut literario –ojalá se traduzca pronto la elogiada Sarajevo ómnibus, su última obra, publicada por Gallimard– podría condensarse en esta frase-interrogante: “No importa, quememos, aniquilemos, más tarde encontraremos buenas razones para haber actuado de ese modo. Al fin y al cabo, ¿no nos han enseñado las guerras precedentes que, al final de un conflicto, los vencedores consiguen siempre justificarlo todo?”

Me lanço nesta cidade que não perdoa

por Juca Badaró

Ivan Maurício

Ivan Maurício

Me lanço nesta cidade que não perdoa.

Observo os dias e as coisas que moram neles. Coisas de gente, coisas de bicho.

Coisas estranhas.

Eu mesma sou coisa estranha neste lugar.

Escondo minha boca seca, separo as minhas partes e as reconstruo a cada dia.

Na peleja urbana e fictícia que inventei pra mim, brinco de soldado sem fuzil e morro na primeira trincheira do dia.

E com muita sorte posso dormir à noite sem sobressaltos.

Sem dor nós pés.

Contam, por aqui, de um homem que se entregou assim.

Da mesma forma que às vezes pareço sucumbir.

Foi aumentando os espaços vazios de casa e cada vez se identificando menos.

Frágil, perambulava em autocarros coloridos e fingia ser um cidadão comum.

Até que o dia levava a luz e o calor, mas o deixava numa rua familiar, perto de casa.

Voltava sorrindo…mentindo pra quem?

E fui assim andando com muito medo dessa história.

Com receio dessa transformação dentro de mim.

A cidade continuava não me perdoando, mas aos poucos eu a compreendia.

Ou pelo menos procurava compreender.

Especialmente aos seres que a habitavam. Não só sua língua nos distanciava.

Mas a sua voz, o seu tempo, sua verdade, seu segredo, sua sorte.

Minha sorte.

Naquele dia que amanheceu menos amargo, pude saber dos teus encantos.

E num ímpeto involuntário, procurei preservar aquelas sensações em minha carne. Viva.

E continuei assim por não sei quanto tempo.

A cada hora querendo sepultar o meu dia e cada noite desenterrando a memória.


Seleta de Antonio Nelson

O país das torres medonhas

por Milton Hatoum

Bacia do Pina, a ameaça de um novo Recife de altas torres sem povo

Bacia do Pina, a ameaça de um novo Recife de altas torres sem povo

Há pouco tempo, quando passei por Natal, mal pude reconhecer a Baixa Ribeira, que eu havia visitado nos anos 1970. Nas duas últimas décadas, construíram-se torres em volta desse bairro antigo, um dos mais belos de Natal. Isso aconteceu em outras cidades litorâneas: Maceió, Recife, Salvador, Rio, Fortaleza, Vitória… Santos é mais um exemplo de total desfiguração arquitetônica, mas há torres e fortalezas por toda a parte, até em pacatas cidades do interior.

Hoje mesmo, na capital paulista, a paisagem do entorno das casas modernistas projetadas por Gregori Warchavchik está ameaçada pela construção de um edifício-torre.

Há menos de vinte anos, um arquiteto teve a ideia luminosa de construir uma torre de 125 metros perto do Masp. O colosso arquitetônico – uma ideia felizmente abandonada – foi apelidado de “pirocão”, mas esse lindo apelido nada tem a ver com a metáfora de um ato inventivo, como sugeriu o poeta Gottfried Benn ao dizer que a “palavra é o falo do espírito”. O “pirocão” apenas traduz o péssimo gosto verbal (e gestual) de certos arquitetos megalômanos.

Na verdade, sentimos horror à memória urbana. Casas e edifícios históricos de municípios e capitais brasileiros foram e estão sendo desfigurados ou destruídos; somos impotentes diante da avidez de algumas construtoras, que demolem a arquitetura histórica e erguem torres de 40 andares. Mas essas barbaridades não seriam praticadas sem a cumplicidade (às vezes secreta) de funcionários públicos e políticos. Alguns bairros de São Paulo, se forem adensados com a construção de novos edifícios-torres, vão parar de vez.

Mas há também pequenas barbáries, de grande alcance simbólico. Cinemas que faziam parte da história cultural das cidades brasileiras foram demolidos. Vários tornaram-se sedes de bancos, e outros, horrorosos templos religiosos, que nem mesmo o diabo ousaria visitar.

Casas onde viveram poetas, artistas e escritores também foram destruídas. A casa do poeta Thiago de Mello – um dos raros projetos de Lucio Costa na Amazônia – está ameaçada pela ampliação de um porto. Na cidade alagoana de Viçosa, a casa onde morou Graciliano Ramos foi demolida e deu lugar a um condomínio, cuja fachada dispensa comentários. Agora só falta derrubar a igreja Matriz da cidade, onde Graciliano escreveu boa parte de uma obra-prima da literatura brasileira: S. Bernardo.

O escritor e crítico de cinema Paulo Emílio Sales Gomes assinalou que o descaso em relação à nossa História mais antiga está ligado a um profundo e inconsciente horror ao passado: ódio à miséria social do nosso passado e à opressão colonial. Ele usou uma expressão certeira ao dizer que “as decadências prematuras são doenças do subdesenvolvimento”. Hoje, a opressão é de outra ordem, mas essas doenças persistem: basta ver os projetos de habitação popular, onde os pobres são arrebanhados em abrigos vergonhosos. No Brasil, a moradia popular é o avesso de uma vida digna.

Na crônica Os Arranha-Céus no Rio Não Fazem Bela Figura”, Manuel Bandeira escreveu: “O arranha-céu é uma fatalidade econômica, não é criação artística. Tudo o que se pode fazer é meter a ridículo os snobes que inscrevem o arranha-céu como cláusula de modernidade Quem manda construir arranha-céus está se ninando para as artes, modernistas ou não. Quer é dinheiro”.

O grande poeta publicou essa crônica em 1928, quando a natureza do Rio ainda era soberana e estava longe de ser ameaçada pela proliferação de edifícios-torre ou pirocões pós-modernos, que nada têm de artístico. Dane-se a história das nossas cidades: na sanha devastadora do urbanismo bárbaro, só o céu é o limite.

A beleza roubada. Cinzentando o azul do rio e o verde dos manguesais

A beleza roubada. Cinzentando o azul do rio e o verde dos manguezais na Bacia do Pina. Clique na foto para ampliar

Inefáveis amantes

por Antonio Nelson

– Sem a ebulição da cidade! Que júbilo…

– Olhos radiantes!
Os pássaros anunciam a primeira luz da manhã.
Suave voz invadira meus ouvidos. A brisa sussurrava um convite ao mar…

Imagem 219

– Carícias labiais
Dorsal atlântica
– Os bondes elétricos deslizam nos trilhos.
Apenas ouvíamos nossas emoções
beijos…
Um vinho invade nossos desejos
Paixão
– A plácida noite nos presenteia com estrelas
O cintilar leva-nos na suave dança.
Penumbra

Nordeste do Brasil, Dezembro de 2009. Northeast of Brazil, December 2009.

– Sem a ebulição da cidade!
Que júbilo…
Inefáveis vidas dos amantes


Antonio Nelson é jornalista, cirberativista da liberdade na rede e do software livre. Está no site do Luis Nassif GGN O JORNAL DE TODOS OS BRASIS http://zip.net/bfk9nV

Estreitamento e ocupação das calçadas

por Joana Cabral

Andar pelas ruas nas cidades grandes está se tornando uma maratona com desafio de diversos graus de dificuldade. Dificuldade, esta, que dobra se você estiver com uma criança.

Para começar; as calçadas estão tomadas por “fradinhos” (toscos cones de cimento), barras de ferro e canteiros – também usados como “cinzeiros” e lixeiras de passantes -colocados ali com o único propósito de impedir que os carros invadam as calçadas, já transformadas em estacionamento de bicicletas, triciclos de entrega em domicílio e de motocicletas!
deveria haver uma lei que obrigasse todas as garagens colocarem um quebra-molas na saída. Esse simples gesto de consideração com o próximo evitaria muitos atropelamentos em plena calçada!

Agora, falando em atropelamentos, como é que vamos dividir as calçadas com carros mal estacionados, cocôs de cachorros, motoristas mal educados parados na faixa de pedestres, e… bicicletas? Se você anda meio distraído, pensando na vida ou ouvindo um som com os fones, está correndo o maior risco de atropelamento, em quase todos os casos, leva a maior bronca do ciclista por estar andando “sem prestar atenção”. Mas esse prestar atenção, geralmente está em suas costas!!

Alguém me responde como é que um idoso, ou criança, ou (e imagina) um deficiente visual, deve andar na calçada? Talvez seja “olhando” para trás para ver se não está vindo algum adolescente ou adulto (diga-se de passagem) que ainda não conseguiu superar a fase egocêntrica?


Joana Cabral apresenta uma lista de desejos e reinvidicações de uma amante da caminhada. Que seja lida pelos prefeitos e vereadores.

Que os prefeitos ladrões e os vereadores vendidos revejam as leis que estreitaram as calçadas. Para alargar as ruas para os carros.
Quando a rua foi idealizada para os pedestres.

A especulação imobiliária vem aumentando o gabarito dos edifícios. Propina no bolso das autoridades. Acontece que uma rua estreita não comporta edifícios de 20, 40 andares como estão erguendo no Recife.

Futuramente aparecerão os minhocões de Sampa, e os viadutos que irão desvalorizar vários edifícios. Ultimamente as associações de bairro foram invadidas e corrompidas pelos políticos. O futuro da cidade depende do planejamento urbano. Um planejamento livre da corrupção dos grileiros, especuladores imobiliários, construtoras e outros predadores.