CULTURA & DINHEIRO

por Celso Marconi Lins


Eu estou aposentado do trabalho mas continuo pensando. E por isso pelo menos acompanho o movimento cultural em Pernambuco e por onde me chegam notícias.

Hoje mesmo li um artigo de Fernando Castilho na parte de Economia e outro de Marcelino Granja, o secretário de cultura do Estado, no setor de opinião ambos do JC. Resumindo os dois o que se vê é que ambos são de opinião que sem capital privado a cultura não pode se desenvolver.

Desde que eu acompanho cultura que ouço essa opinião. A verdade é que o particular que tem dinheiro só tem interesse em coloca-lo onde lhe der lucro. E todo mundo sabe que cultura verdadeira não dá lucro. Quem quiser ganhar dinheiro com cultura tem que partir pelos caminhos do chamado mainstream e ir aprender com os hollywoodianos.

Quem faz cultura verdadeira, isto é, no sentido antropológico da autêntica revelação do espírito criativo não pensa em ganhar dinheiro. Todo aquele que faz cultura sabe que ganha no mínimo força interior.

O secretário Marcelino Granja deveria escrever um artigo para dizer o que está sendo feito para que um instrumental como o dos museus de Pernambuco funcione e não apenas para mudar leis de incentivo.

Eu queria saber por que o dinheiro arrecadado pelo Estado não pode ser gasto com cultura?

No Rio de Janeiro inauguraram ontem um Museu do Futuro. No cais do porto como os dois daqui que estão fechando. Vamos esperando quanto tempo para vê-lo fechar? A arquitetura pelo que vi na televisão é belíssima. O certo é que nada se pensa nos Governos com autêntica cultura, com profundidade. É tudo paietê ou seja decoração. Alguns lutam internamente mas nunca conseguem realmente vencer. Infelizmente.

VELHOFOBIA. Quem tem velhice é como se fosse um doente contagioso

EU TENHO UM SONHO

De Celso Marconi Lins

 

Celso Marconi

 

Eu queria viver no mundo sem temer o mais forte
Onde quem tem foguetes massacra quem não tem
Onde um empurra o outro simplesmente para passar
E o mais forte apóia sempre o mais forte e nunca o fraco
Como acontece com o grande país do norte daqui
Eu gostaria de caminhar na rua e subir num ônibus sem medo
Mesmo que eu não enxergasse muito bem com um olho
E com o outro olho eu não enxergasse nada nada e nada
Gostaria também de deixar a minha casa aberta
E não tivesse medo de que alguém estranho entrasse
E pudesse deixar meus livros livres para quem quisesse ler
Eu não queria ler no jornal que o pai e a madrasta matou o filho
Não gosto de ver que crianças morreram porque comeram do lixo
Comidas que muitos não se preocupam em deixar só cair no chão
O melhor seria se a gente pudesse caminhar a pé pelas ruas
Até o sol se por e não se preocupar se a noite vai chegando e escurecendo
Acho que uma pessoa de mais de 80 anos deveria andar pra lá e pra cá
Sem subterfúgios sem pressa conversando com alguém que encontrasse
Mas quem tem velhice é como se fosse um doente contagioso
Pra que tanta lei do idoso se a lei que vale é a de ser trancado em casa
Quando o idoso tem casa para ser trancado e então escondido
Quantas coisas eu vejo no mundo de hoje e simplesmente não gosto
E também vejo muitas coisas maravilhosas mas que são distantes escondidas
Será que existe algum planeta onde o animal vivente seja mais moderado
E não precise de se matar e esfolar os outros para sobreviver?
Se existe quero ir para lá mas não com os pés juntos.

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Bairro Novo, Olinda, 3 agosto 2014

ARIANO SUASSUNA (MESTRE DA CULTURA POPULAR). EITA PARAIBANO ARRETADO !!!

BRA_JP ariano paraíba

NO PALCO ETERNO DO MUNDO DISTANTE DO BERÇO PRIMEIRO

por Walter Santos

Sobre Ariano Suassuna nada mais precisa ser dito. O Planeta intelectual brasileiro já o fez ao assimilar o Mestre das palavras e dos enredos, por isso pouco acrescentará de agora em diante. Mas há um vazio histórico registrando 87 anos de angústia e de desprezo dele para com seu passado quando se trata de relacionar-se com a referência de João Pessoa (o personagem, sobretudo) respingando na sua relação com a aldeia Paraiba levando-o aos braços de Pernambuco, onde quis guardar seus restos. Mesmo que não queira, agora é tarde, a História o faz personagem de vida iniciada na então Parahyba nascendo no Palácio da Redenção, na Capital Paraibana, só que isso de nada mais adiantou enquanto apelo afetivo. Será o Nego da bandeira, a cultura de caranguejo ou nossa má sorte de ter nossos Heróis cultuados nos braços dos outros, mesmo fortes como Pernambuco? De qualquer forma, nada supera a dor e o amor que seus conterrâneos devotaram e hão de devotar para sempre.

ariano na platéia

REFLEXÕES SOBRE JOÃO GRILO

por Celso Marconi Lins

Ariano deitado num leito de hospital, sofrendo com as dores de um AVC, é um momento fundamental para a reflexão, pois há dois dias atrás ele estava palestrando no Teatro Souto Dourado, em Garanhuns, falando sobre o seu amigo compositor Capiba e, inclusive, falando que o seu personagem João Grilo não é nenhum anti-herói, mas sim um herói, pois ele vence todos os componentes do espectro social como o padre e o bispo, a religião e o fazendeiro, e o dono da padaria e da farmácia, e todos os demais integrantes da burguesia. Então, por que ele não seria um herói?

Só que Macunaíma também vence todos os participantes que lhe passam à frente, inclusive vence o preconceito brabo racial, passando de preto para um legítimo representante dos brancos, e no filme de Joaquim Pedro de Andrade, Macunaíma é primeiro representado por Grande Otelo, preto, e depois pelo branco Paulo José, inclusive com os cabelos louros, mas nem por isso deixa de ser um anti-herói porque anti-herói é o herói que vence, mas não pelos termos oficiais. Vence sub-repticiamente. Vence pela valentia que aparenta uma covardia, e não pelas posições que o oficialismo tem como vitoriosas. João Grilo vence pela astúcia, pela força do mais fraco, mas muito mais sabido e mais inteligente.

O personagem criado por Ariano, através da figura popular de João Grilo e, também, de Xicó, vem do folheto de cordel numa brilhante adaptação e numa verdadeira apropriação da cultura popular riquíssima.

Talvez as suas origens burguesas façam com que Ariano não veja que seu teatro chegou até mesmo onde talvez sua ideologia não poderia ter seguido, mesmo que, externamente, seu desejo seja ir muito além no caminho do popular e não se fechar.

Bairro novo Olinda, 22 julho 2014

Rosalvo Mello: “Quem fui eu”

MEU AMIGO ROSALVO

 

por Jorge Filó

 

Esse é o poeta Rosalvo, meu amigo da bodega do seu Artur. O conheci lá e lá fortalecemos nossa amizade. Estive viajando e só soube hoje de seu falecimento, quando li essa, diga-se de passagem, minúscula nota no JC, onde foi redator. Rosalvo era também capaz de poesia, como assim, dizia Luna de todos os poetas.

rosalvo-horz

Há pouco mais de um ano o poeta me entregou este poema, batido em máquina de datilografia, para que eu digitasse e lhe entregasse algumas cópias para presentear os amigos. Disse que não era uma despedida e sim uma constatação. Era um cidadão admirável, um boêmio notável, um poeta instável…

Vá na paz meu amigo…

QUEM FUI EU

Vivi demais
Amei demais
Sofri demais
Vi demais a face dos homens.
De tudo ficou um pouco
Como a cinza do cigarro no cinzeiro
O que me restou foi apenas a angústia
De ter acolhido em meu afeto
Alguns que só mereciam a minha compaixão.
A morte se aproxima
Não importa a causa
Apenas nasci.
Jamais cortejei ao longo da vida
A efêmera glória dos salões iluminados.
Que o meu canto permaneça
Apenas nas paredes dos botecos da vida.
Nos humildes quartos das mulheres
Perdidas, ou achadas.
Nas apertadas celas dos cárceres
Onde aprendi lições, de solidão.
Fui feliz e infeliz
Mas quando me encontrei
Eu me perdi…
com a lucidez dos loucos
E o precário equilíbrio dos bêbados.
Fui apenas um homem.
reto e Só…

Rosalvo Mello.

 

Jorge, essa “minúscula nota no JC” comprova a certeza dos versos de Rosalvo: “Vi demais a face dos homens./ (…) O que me restou foi apenas a angústia/ De ter acolhido em meu afeto/ Alguns que só mereciam a minha compaixão”. 

E publicaram uma foto de Rosalvo “colhida na net”. A autocensura do JC enoja. Os jornalistas frouxos tiveram medo de citar meu nome. Preferem o roubo dos direitos autorais. A foto é do arquivo de Karla Mello que, gentilmente, me cedeu para a publicação de um poema de Rosalvo. Confira

A “minúscula nota” tem uma razão de ser. O JC de hoje teme as lições de coragem, de liberdade, de idealismo, de retidão que foi a vida de Rosalvo.

Morreu o JC de Abdias Moura, Eugênio Coimba Jr., Carlos Pena Filho, Nilo Pereira, Mário Melo, Ivan Maurício, Manoel Costa, Ronildo Maia Leite, J. Gonçalves de Oliveira, Ricardo Antunes, José de Souza Alencar, Celso Marconi, Ladjane Bandeira, Cristina Tavares, Audálio Alves, Anchieta Hélcias, J. Maciel Jr, Francisco Bandeira de Mello. 

O patronato e seus escribas costumam dizer que jornalista não é notícia. Citei nomes que, escritas as biografias, jamais desaparecerão com o cotidiano dos diários. São escritores, poetas e artistas. Ou jornalistas que foram perseguidos, sequestrados ou presos. Nomes que transcendem o tempo. 

Quando dirigi o Jornal do Comércio e o Diário da Noite dedicava uma página ou duas, para noticiar o falecimento de um jornalista. “De tudo fica um pouco”, canta Rosalvo.