É HORA DO POVO PENSAR

por Talis Andrade

livro pássaro

Ora poesia lírica
ora poesia épica
do Grande Rio
do Sul

Ora um canto suave
ora um canto áspero
– flor e espinho

Que lhe fere o coração
ver os filhos da rua
saber que existem meninas
que ficam nuas por um pedaço de pão

Ora Sandra ora
aos Santos ora
doutro poeta a oração

Oh! bendito o que semeia
livros à mão cheia
e manda o povo pensar

e manda o povo pensar

No dia da Poesia

por Woden Madruga

 

DIA-DA-POESIA

 

Hoje, 14 de março, antevéspera de lua cheia, comemora-se o Dia Nacional da Poesia. Vejo que nesta terra de Poti mais rimada há festas programadas ao gosto estadual e municipal. “Rio Grande do Norte, capital Natal: em cada esquina um poeta, em cada rua um jornal”. Isso era no começo do século que passou. Hoje, há poucos jornais. Contando nos dedos, três. Agora, poeta são muitos. Não somente nas esquinas – disputando o espaço com os camelôs (há camelôs poetas, sim, tantos como há poetas ambulantes, ambula aqui, ambula acolá) – , mas eles também são vistos nos canteiros centrais, espaços públicos onde, às vezes, se joga lixo, tão ao gosto do natalense. Isso sem contar que os poetas agora avançaram mais no tempo e ocupam a internet povoando os blogues. Como tem poeta em blogue! Mas com pouca poesia…

O Dia Nacional da Poesia existe por conta de Castro Alves. Mas o  grande baiano (“Boa-noite, Maria! É tarde… é tarde… / Não me apertes assim contra o teu seio. // Boa-noite!… E tu dizes – Boa-noite./ Mas não digas assim por entre beijos… / Mas não me digas descobrindo o peito, / – Mar de amor onde vagam meus beijos.”) nunca é lembrado, nunca é  recitado (“Oh! Eu quero viver, beber perfumes/ Na flor silvestre que embalsama os ares;/ Ver minh’alma adejar pelo infinito,/ Qual branca vela n’amplidão dos mares.”). Aqui e acolá quando é tempo de carnaval, a tevê desfilando por Salvador, mostra um trio elétrico contornado a Praça Castro Alves (“A praça! A praça é do povo/ Como o céu é do condor/ É o antro onde a liberdade / Cria águias em seu calor.”) Será que nas escolas o poeta, que começou a fazer versos na escola aos 14, 15 anos, é ensinado?

O poeta que nasceu no sertão da Bahia (14 de março de 1847), viveu apenas 24 anos. Viveu intensamente. Morreu em Salvador (depois de muito viver e muito amar em Recife, Rio de Janeiro e São Paulo), no dia 6 de julho de 1871 (“Morrer… quando este mundo é um paraíso,/ E a alma um cisne de douradas plumas:/ Não! o seio da amante é um lago virgem…/ Quero boiar à tona das espumas. / Vem! formosa mulher – camélia pálida,/ Que banharam de prantos as alvoradas. / Minh’alma é a borboleta, que espaneja / O pó das asas lúcidas, douradas…”)

Não, ninguém hoje mais ler nem cita Castro Alves, o poeta abolicionista, pregador da liberdade e amante apaixonado, o poeta do romantismo, autor teatral, o escritor, o tradutor de Vitor Hugo, de Lamartine, de Byron, de Alfred de Musset (“Deus! ó Deus! onde estás que não respondes? / Em que mundo, em que’ estrela tu t’escondes / Embuçado nos céus?”). Não ninguém “ouve” Castro Alves.  E Jorge Fernandes, natalense, xaria das ruas Santo Antônio e Vigário Bartolomeu, que tomou cachacinha com Mário de Andrade escoltado por Luís da Câmara Cascudo, também ainda é lembrado?  (“A luz elétrica do meu tempo / Vinha com  a lua-cheia… / Cantavam dentro de mim / Todos os trovadores do passado… / Os olhos que amaram os trovadores / Esquecidos / Eram de novo lembrados / Nas canções dentro de mim…”).

E um outro coestaduano ilustre, José Bezerra Gomes, seridoense de Currais Novos? Será que nas escolas daqueles sertões, uma professora (pode ser professor), um dia, abra um livrinho para recitar para seus alunos o seu poema de nome sugestivo, “Mealheiro”? (“Meu avô/ a camisa por cima da ceroula/ no mourão/ da porteira do curral/ de pau-a-pique/ cheirando a estrume. // Contando os bezerros/ novos/ das vacas paridas // Minha avó/ no santuário da capela/ o rosário de contas/ de capim santo/ nas mãos devotas. (…) A barra das madrugadas / o aboio dos tangerinos// As alpregatas/ do meu avô/ arrastando/ nas lajes dos alpendres/ do mundo/ de minha infância.”).

E tem outro poeta, agora pernambucano, que consta do meu cadastro dos não esquecidos: Ascenso Ferreira. Conheci aqui em Natal, entre os becos e ruas estreitas da Ribeira, guiado por Veríssimo de Melo, começo da década de 60. É da mesma geração de Jorge Fernandes, pouco mais moço do que José Bezerra Gomes. Já se foram. Mas a  poesia de cada um, não. De Ascenso, gosto muito do poema Sertão, que me lembra Queimadas de Baixo.

“Sertão! – Jatobá! / Sertão! – Cabrobó! / – Cabrobó!/ – Ouricuri!/ – Exu!/ Exu! // Lá vem o vaqueiro pelos atalhos, tangendo as reses para os currais…// Blém… blém… blém… cantam os chocalhos/ dos tristes bodes patriarcais. // E os guizos fininhos das ovelhas ternas: / dlim… dlim… dlim… // E o sino da igreja velha: / bão… bão… bão… // O sol vermelho como um tição.”

Eis o meu quarteto de poetas no Dia da Poesia. Representam bem todos os poetas.

Na Capitania
A Capitania das Artes faz festa para celebrar a Poesia. Logo cedo, coisa das 8 horas, o prefeito  Carlos Eduardo e o presidente Dácio Galvão recebem seus convidados, poetas e escritores, para um café Poesia & Prosa. Haverá homenagem ao grande Moacyr Cirne, cujo nome será dado a um dos Centros de Artes e Esportes Unificados (CEUs), projeto conveniado entre Ministério da Cultura e Prefeitura. O de Moacyr fica no bairro Lago Azul, na zona Norte.

Em seguida serão lançados os editais dos concursos Othoniel Menezes (Poesia), Ensaio Etnográfico (Câmara Cascudo) e Ensaio Literário (Moacyr Cirne).

Emenda-se com o lançamento do livro “A Poesia e o Poema no Rio Grande do Norte”, de Moacyr Cirne, reedição do Sebo Vermelho, Projeto Nação Potiguar.

Mesa Literária 
Ainda na programação da Capitania das Artes, duas mesas literárias: a primeira, 9 horas, sobre o tema “A Poesia vista pelos olhos da Poesia”, por conta do poeta carioca Eucanaã Ferraz, professor de Literatura da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Prêmio Alphonsus Guimaraens da Biblioteca Nacional, doutor em Vinícius de Moraes.

A segunda mesa (10 horas), “Da crítica à Poesia Experimental”, tem como mediador o sebista e editor Abimael Silva. Palestrantes: Falves Silva, Anchieta Fernandes e Muirakitan de Macedo. Em seguida, intervenções poéticas.

Chuva

Natal amanheceu quinta-feira debaixo de chuva. Que beleza! Chove em todas as regiões do Estado. Mais no Oeste e no Seridó. A maior chuva foi em Carnaúba dos Dantas, 42 milímetros; Acari, 40. São informações da Emparn até coisa das 9 horas. Deve ter tido mais chuvas no andar do dia.

Dozinho
Partiu Dozinho para os carnavais celestiais. Compositor, letrista, músico, boêmio, papo delicioso. Bela figura de gente. Saudades.

Vozes d’África

por Castro Alves

 

Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito…
Onde estás, Senhor Deus?…

Qual Prometeu tu me amarraste um dia
Do deserto na rubra penedia
— Infinito: galé! …
Por abutre — me deste o sol candente,
E a terra de Suez — foi a corrente
Que me ligaste ao pé…
………………………………..

Não basta inda de dor, ó Deus terrível?!
É, pois, teu peito eterno, inexaurível
De vingança e rancor?…
E que é que fiz, Senhor? que torvo crime
Eu cometi jamais que assim me oprime
Teu gládio vingador?!

…………………………………

Cristo! embalde morreste sobre um monte
Teu sangue não lavou de minha fronte
A mancha original.
Ainda hoje são, por fado adverso,
Meus filhos — alimária do universo,
Eu — pasto universal…

Hoje em meu sangue a América se nutre
Condor que transformara-se em abutre,
Ave da escravidão,
Ela juntou-se às mais… irmã traidora
Qual de José os vis irmãos outrora
Venderam seu irmão.

Basta, Senhor! De teu potente braço
Role através dos astros e do espaço
Perdão p’ra os crimes meus!
Há dois mil anos eu soluço um grito…
escuta o brado meu lá no infinito,
Meu Deus! Senhor, meu Deus!!…

AS DORES DA ESCRAVIDÃO

por Mercêdes Pordeus

 

Gravura de Debret

Eles vieram de tão longe, traziam consigo o medo,
As incertezas eram suas companheiras desde cedo.
Traziam o sofrimento antecipado dos seus receios
E as dores dos açoites, que já sentiam nos navios.

Mal chegavam, já eram analisados como animais,
Vendidos como meras mercadorias, artigos banais.
Trabalhavam duro e sofriam o peso da escravidão,
A cada chicotada e a cada açoite, a dor da solidão.

A cada ano as esperanças da liberdade se dissipavam,
Os seus filhos nasciam e naquele regime continuavam.
Enquanto os mais velhos as dores do flagelo sofriam,
Os ecos da noite nos traziam os sons dos que gemiam.

Ao longe era refletida desses ecos a repercussão
E o reflexo do som trazia a forte dor da servidão.
Pelo negro, no nosso país, através da escravidão
De terras longínquas a saudade do seu natal torrão.

Mais navios negreiros que aportavam e a história se repetia
Movimentos no Brasil a escravidão, aos poucos, se extinguia.
Castro Alves o poeta abolicionista que os seus ideais escrevia,
Vozes da África, Navio Negreiro, Os Escravos, primeira poesia.

O poeta abolicionista marcou época com sua primeira poesia
Mais um nordestino que com força e garra, nascido na Bahia,
Seus estudos de Direito na Faculdade de Recife realizaria
E o seu grande apogeu no Rio de Janeiro, ele consolidaria.

Vinte anos se passaram após a morte do grande Poeta
Para se realizar seu almejado sonho, seu grito de alerta,
Decretada extinta a escravidão e o grande Brasil desperta
Na Lei Áurea está implícita a nobreza da alma do poeta.

Castro Alves, poeta singular

por Pedro  J. Bondaczuk

A força da sua poética situa Castro Alves entre os mais notáveis, criativos e vibrantes poetas não apenas do seu tempo, mas da história da literatura mundial. Sua poesia é singular. Alia metáforas perfeitas com ritmo e rimas originais. É forte, é vibrante, é combativa, é eterna. Volto a tratar dele, por não entender a pouca importância que se lhe dá, hoje, quando sua poesia deveria ser estudada, analisada e apreciada com mais freqüência e um olhar despido de preconceito. Castro Alves foi um escritor singular.

O poeta cria a realidade… Não para egoístico uso próprio. Antecipa-se ao tempo. Avança lustros, décadas, séculos, milênios. Como farol em mar tempestuoso, ilumina o caminho das gerações vindouras. Mantém acesa a chama do ideal. Espalha-a pelo mundo, em um incêndio que, mais cedo ou mais tarde, devora tiranos e tiranias.

“Quebre-se o cetro do Papa,/faça-se dele uma cruz!/A púrpura sirva ao povo/pra cobrir os ombros nus… Banhem-se em luz os prostíbulos./E das lascas dos patíbulos/erga-se estátua aos heróis”.

O poeta antecipa a manhã luminosa do porvir, de um futuro provavelmente muitíssimo distante, quando as armas serão transformadas em arados, quando o leão e a ovelha puderem conviver em harmonia, quando cada homem, mulher e criança, todo ser humano, sem distinção de sexo, etnia, cor ou convicção religiosa, for livre, fraterno e gozar de absoluta igualdade de direitos e oportunidades.

Em 1868, durante uma caçada, Castro Alves sofreu um acidente. Feriu um pé. Os recursos da medicina de seu tempo, evidentemente, eram bastante precários. Não existiam as técnicas de assepsia de hoje e muito menos os antibióticos. O ferimento arruinou e agravou o estado geral da sua já precária saúde. O pé teve que ser amputado. Sabe-se lá as condições dessa amputação!