Lágrimas de Pierrô

por Gustavo Krause

Gustavo-Krause

 

 

Quarta-feira de cinzas é um dia triste. Devia amanhecer sempre sob chuva torrencial para lavar corpos e almas que se entregaram aos apelos mundanos do carnaval. É dia de ressaca orgânica da viagem ao êxtase da fantasia e, na tradição cristã, é o momento de elevação espiritual porque simboliza a fragilidade da vida. Assim, cessada a chuva, seria celebrado o encontro do sol interior com o sol da natureza.

Como não brinco o carnaval na terça-feira gorda (acredite quem quiser), começo a quarta de cinzas, bem cedo, com os pensamentos em caminhada pelo Parque da Jaqueira. Este ano, na entrada que fica do lado da Av. Rui Barbosa, dei de cara com um resto de carnaval: o pierrô encolhido no banco da praça, abraçando as próprias pernas que davam sustentação à cabeça.

Ele chorava copiosamente. O primeiro impulso foi respeitar a solidão da tristeza; o segundo impulso foi consolar aquela alma penada que, supus, estava de coração partido por causa de uma colombina. Aquela lágrima desenhada no rosto triste do pierrô, cristalizada como um pingente, se transformara numa catarata de sentimentos incontidos.

Cedi à convicção de que o pierrô, personagem herdado da commedia dell´arte do teatro popular italiano, sofria da cornice universal da traição amorosa. No entanto, estranhei as cores da fantasia: o preto e o branco deram lugar ao verde/amarelo.

Pierrô e Colombina, por Antonio Gomide

Pierrô e Colombina, por Antonio Gomide

Fui direto ao ponto: – Por que tanto choro e tanto sofrimento, amigo pierrô? Você já sabia o fim do enredo: arlequim se aproveitaria de sua ingenuidade, de sua crença na bondade humana, e a colombina já era. – Não choro por colombina – balbuciou, sem levantar a cabeça, e entre soluços, completou – choro pela pátria amada, Brasil.

Surpresa! Refeito, argumentei que contivesse aquela angústia contagiante. – O Brasil, florão da América, é hoje uma das dez maiores economias do mundo; moeda estável; 40 milhões de brasileiros incorporados ao mercado de consumo; as instituições democráticas funcionando livremente e…

Senti que ele não queria ouvir e desatou a falar. – Choro pela impunidade. A sabedoria popular tem razão: nada como dias atrás de outros e um Toffoli no meio. E o que dizer da teoria da chavasca que desquadrilha a quadrilha e abre alas para o bloco dos sujos passar? Tem mais: o cara que tem cara de artista de cinema mudo, contracenando, em terreno lodoso, com outro canastrão que mais parece galã de novela mexicana, liquidam a esperança do “Moleiro de Sans-Souci” segundo a qual “ainda existem juízes em Berlim”.

Tentei contra-argumentar, mas o pierrô não interrompeu a catarse. – Que economia? A do pibinho? Atrás dos emergentes, do Chile, do Peru, da Colômbia? O Brasil do 85º lugar no IDH? O Brasil da segunda pior distribuição de renda em ranking da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)? O Brasil de baixíssima produtividade que compromete a capacidade de competir no mercado globalizado? O Brasil cujo Estado monstruoso nós carregamos nas costas e nos devolve ineficiência generalizada na prestação de serviços? O Brasil da infraestrutura estrangulada? Da contabilidade maquiada? Das contas externas desequilibradas?

O Pierrô fez uma pausa para respirar, aí aproveitei. – Houve grandes avanços: a redução de taxa de mortalidade infantil, o aumento da expectativa de vida, universalização do ensino… Fui interrompido abruptamente. – Choro pelos 50 mil mortos por homicídio doloso todo ano e, por favor, não me venha falar em educação: segundo o Relatório de Capital Humano do Fórum Econômico Mundial, o Brasil ocupa o 88º lugar entre 122 países e, na qualidade do ensino de matemática e ciência, tem o 15º pior desempenho do mundo. Na avaliação do relatório PISA, entre 65 países, o Brasil obteve o 55º lugar em leitura, 58º em matemática e 59º em ciências. Sem falar no silencioso e perverso analfabetismo funcional: muita gente sabe ler, chega a ter diploma, mas não entende o que lê.

Concluí: seria inútil o esforço para aliviar a dor patriótica do Pierrô. Sugeri uma saída amigável e poética: – Vamos “tomar vermute com amendoim” como receitava Noel Rosa em “Pierrô Apaixonado” para “romper a esfera dos astros”, proposta de Manuel Bandeira em “A Canção das Lágrimas de Pierrot”. Ele aceitou. – Seu nome? – Apenas, pierrô .

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Publicado por blogflaviochaves

Carnaval pelo mundo (fotos)

Carnaval tradicional de Elzach, um grupo de pessoas fantasiadas de Schuttig, que é a figura tradicional deste carnaval alemão PATRICK SEEGER (AFP)

Carnaval tradicional de Elzach, um grupo de pessoas fantasiadas de Schuttig, que é a figura tradicional deste carnaval alemão PATRICK SEEGER (AFP)

Carnaval tradicional de Elzach, um grupo de pessoas fantasiadas de Schuttig, que é a figura tradicional deste carnaval alemão PATRICK SEEGER (AFP)

Carnaval tradicional de Elzach, um grupo de pessoas fantasiadas de Schuttig, que é a figura tradicional deste carnaval alemão PATRICK SEEGER (AFP)

 O carnaval de Los Indianos que ocorre em Santa cruz da Palma, Espanha. A origem do 'dia dos indianos' tem suas raízes na emigração de habitantes das Ilhas Canárias para a América Latina, em especial para Cuba. PABLO BLÁZQUEZ DOMÍNGUEZ (GETTY)

O carnaval de Los Indianos que ocorre em Santa cruz da Palma, Espanha. A origem do ‘dia dos indianos’ tem suas raízes na emigração de habitantes das Ilhas Canárias para a América Latina, em especial para Cuba.
PABLO BLÁZQUEZ DOMÍNGUEZ (GETTY)

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O Recife em transe por um Galo

por Manuel Carvalho/ Público/ Portugal

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Há dois dias que o Galo da Madrugada ocupara, imponente, uma das pontes que cruzam o rio Capibaribe e ligam o bairro do Recife ao resto da cidade. Ontem, pela manhã, a majestade dos seus 27 metros de altura e as suas três toneladas conferiam-lhe um ar grandioso mas inocente, como se todos os esforços para a sua construção e instalação não tivessem passado de um capricho pueril. A cada hora que passava, porém, a sua presença começava a fazer cada vez mais sentido. Aos poucos, milhares, dezenas de milhar, centenas de milhar, seguramente mais de um milhão de pessoas começaram a concentra-se à sua volta. Os mais ousados fizeram questão de lhe passar por baixo, de o fotografar de todos os ângulos, de aparecer na fotografia como seu fosse uma figura pública, de o comentar, elogiar, ou de forma velada idolatrar. Outros esperaram ao longe, no recato, como se acumulassem energias para a luta.

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Até que lá para a uma da tarde quente de ontem todos aqueles artifícios explodiram. Lá ao fundo, começa-se a ouvir o barulho de fundo do trio eléctrico do Galo da Madrugada e foi como se um rastilho se tivesse acendido. Primeiro ao longe, a “muvuca” ganha força, contagia as margens da Avenida Guararapes, irrompe pelas paralelas, instala-se nas ruas particulares e o Carnaval toma conta da multidão. Seria assim, sempre assim, nas muitas horas seguintes. A cada passagem de um dos previstos 30 trios eléctricos (camiões transformados em palcos gigantescos, decorados com colunas nas laterais e na parte traseira), as canções repetiam-se e a multidão acentuava o seu transe. “Chegueeei, Recife/Foi a saudade que me trouxe pelo braço…”, “Quando a maré encher/toma banho de canal quando a maré encher”, “Ai que calô, ôôô, ôôô”.

No eixo da avenida uma imponente força policial acentuava a tensão, o clima de risco, como se fosse necessário um outro acelerador da adrenalina. Nos camarotes de gente VIP, prolongavam-se as danças que vinham do pavimento. No asfalto, a multidão foi ficando cada vez mais compacta. Quando os camiões passavam, grupos de homens musculados esticavam uma corda à sua frente para forçar as pessoas a comprimirem-se ainda mais contra os edifícios. Os corpos suados eram forçados a colarem-se, a vontade de seguir uma direcção de pouco valia face à força da corrente humana, que apesar de tudo dançava, cantava, erguia as mãos em gesto de permanente celebração. Como se tivesse entrado em transe provocado pelo calor, pela música debitada em caudais de decibéis que faziam os ouvidos zumbir e o peito baquear.

É difícil imaginar o que uma multidão possuída pelo Carnaval pode sofrer para seguir um trio eléctrico e dançar. Dançar contra a falta de espaço, contra as calcadelas, os empurrões, o desvario dos mais endiabrados pode ser um sacrifício com que se cumpre a promessa do Carnaval.

No meio daquela quase loucura que ajuda a explicar os lados mais irracionais das multidões, porém, havia uma rede invisível que não aparece nos relatos oficiais do Carnaval do Recife. A das centenas de homens e mulheres que se mantinham no meio da loucura com as suas caixas de esferovite cheias de gelo e de cervejas geladas. Ou ainda a teia logística de homens que com caixas de latas e sacos de gelo conseguiam vencer os muros da multidão para as abastecer. Se os foliões merecem o Galo da Madrugada pelo empenho com que o devotam, essa rede de homens e mulheres têm o direito de reclamar para si o heroísmo de lhes tornar o seu dia bem mais suportável.

Por que tanto homem se fantasia de mulher? As virgens de Olinda

Virgens de Olinda

Virgens de Olinda

O Carnaval de Pernambuco é aberto pelas Virgens de Olinda, uma semana antes da data oficial.

O bloco foi fundado em 1953, e dele só participam homens travestidos de mulher. O Bloco Carnavalesco Anárquico das Virgens de Olinda foi fundado pelos frequentadores da orla marítima. Uma brincadeira que começou com 28 amigos que jogavam futebol fantasiados de mulher, e não pára de ganhar adeptos.

É durante a aparição das virgens em Olinda que homens vindos de várias partes do Brasil incorporam personagens femininos, e desafiam-se no concurso de fantasias irreverentes: a virgem mais dengosa, mais sapeca, mais charmosa e a mais velha.

Já considerei o bloco de homofóbico, porque os 28 decretaram  proibidos de participar: os gays, bi e travestis.

Até mudou o nome para Bloco das Virgens de Verdade.

Por que tanto homem se fantasia de mulher?

Botar peruca, maquiagem e salto alto no Carnaval serve para exorcizar a fragilidade masculina do dia-a-dia

Eles quase sempre se fantasiam de periguete. Por que é tão divertido assim? (Foto: Monica Imbuzeiro/ O Globo)

Eles quase sempre se fantasiam de periguete. Por que é tão divertido assim? (Foto: Monica Imbuzeiro/ O Globo)

por Ruth de Aquino/ Época

Eles são héteros, muito machos, mas no Carnaval soltam a franga. Essa expressão significa “desinibir-se, geralmente assumindo um lado feminino, alegre”. Não é novidade, e acontece no Brasil inteiro. Eles não se fantasiam de mulher discreta. Precisa ser vulgar e desejável. Salto alto, seios pontudos, maquiagem pesada, decotes… e rebolation. No Bloco das Piranhas ou no Bloco das Virgens, nosso vizinho circunspecto fica irreconhecível até a Quarta-Feira de Cinzas. É tão divertido assim ser mulher?

Não existem blocos de mulheres fantasiadas de homens. Se a mulher quiser se desreprimir, a última fantasia será a de homem. “Mulher já pode se vestir de homem no dia a dia, usar calça comprida, camisa social, mocassim…e ninguém põe em dúvida sua sexualidade. Já o homem…”, diz o psiquiatra Luiz Alberto Py. “Quando Gilberto Gil e Caetano Veloso apareceram de pareô, a reação foi supernegativa. Em 1956, um artista plástico, Flávio de Carvalho, fez um desfile com homem de saia no Viaduto do Chá, em São Paulo, e foi vaiadíssimo.”

Minissaia, vestido de alcinha, frente única, tomara que caia, sandália, shortinho. É tudo ótimo no calor. Mulher tem um enorme leque de variações no vestuário. Homem é mais conservador. As novidades na roupa masculina desde os anos 60 foram a bermuda, a bata e a camiseta regata. Mesmo assim… Vários lugares noturnos e restaurantes admitem mulher de sandália, mas homem não. Mulher de short sim, mas homem de bermuda não.

Mas a roupa é só o visível. A fantasia de piranha desnuda outras fantasias. “O Carnaval é um rito profano e sagrado. O homem se veste de mulher porque quer ser mais afetivo de maneira escancarada, sair beijando todos, de qualquer sexo. Homem afetivo, nos outros dias do ano, é coisa de gay”, afirma o psicoterapeuta Sócrates Nolasco. “É um contraponto. Um momento do ano em que ele não precisa afirmar sua masculinidade. Mulher pode ser afetiva, carinhosa, extrovertida, dada, e nem por isso será tachada de ‘piranha’.”

Não se duvida que uma mulher seja mulher. Ela pode até ter relações amorosas ou conjugais com outra. Continua sendo mulher, caso não imite machos. Ela pode beijar amigos e amigas, abraçar, fazer carinho publicamente. Isso não fará dela “piranha” ou lésbica ou mesmo bissexual. A mulher pode, no trabalho, assumir atitudes estereotipadas masculinas – isso não fará dela um homem. O inverso é mais complicado.

É como se esses homens que se equilibram com pernas cabeludas sobre saltos altíssimos aproveitassem o Carnaval para exorcizar sua dificuldade de mostrar afeto ou fragilidade no dia a dia. Tudo é permitido porque é fingimento. No filme Se eu fosse você, em que Tony Ramos e Gloria Pires trocam de alma e papéis, as plateias o acham muito mais engraçado que ela. Porque Tony Ramos não se comporta exatamente como a sua mulher no filme. “A compulsão por futilidades e os trejeitos exagerados lembram mais o comportamento de um gay afeminado”, diz Nolasco. Para virar homem, Gloria Pires fala grosso, não abaixa a tampa do vaso e faz embaixadinhas – ela muda bem menos.

Os homens que se fantasiam de mulher para zoar à vontade fazem do Carnaval uma catarse de seus fetiches. Claro que só saem em bando. Coisa de macho mesmo. Porque sair sozinho vestido de mulher pode dar origem a outras interpretações.

“Todos, homens e mulheres, temos um lado homossexual”, diz Py. “A sexualidade é uma limitação brutal. A percepção de que a gente pertence a um sexo significa não pertencer ao outro, o que de certa forma nos rouba uma parte da humanidade. A mulher tem uma versatilidade comportamental muito maior. O homem não pode nem fazer carinho em outro homem. O Carnaval é a transgressão inocente, o liberou geral para desfrutar seu lado feminino sem perigo.”

Simpatizo com esses bandos de homens fantasiados de mulheres fálicas em tantos blocos espalhados pelo Brasil. Por um instante, eu me lembro de Freud. O pai da psicanálise dizia que a mulher sentia inveja do pênis. Não seria o contrário?

* Esta coluna foi escrita e publicada por mim na revista há exatos 4 anos, no Carnaval de 2010. Ontem, um francês me perguntou, em Paris, onde estou, fugida dos tamborins, por que tanto homem machão e cabeludo brasileiro se fantasia de mulher nos blocos de rua. Lembrei-me desse artigo e decidi republicá-lo. Continua atual.

 

Secretos de los disfraces de la Gran Parada de Comparsas del Carnaval

Tradicionales marimondas, en el desfile de la Gran Parada de Tradición, em Bogotá.  Foto: Carlos Capella / EL TIEMPO

Tradicionales marimondas, en el desfile de la Gran Parada de Tradición, em Bogotá. Foto: Carlos Capella / EL TIEMPO

 El simbolismo de las plumas, las lentejuelas y maquillaje en general

por Alberto Salcedo Ramos

Digámoslo sin rodeos: los seres humanos creamos el carnaval para legitimar el derecho a disfrazarnos y, de ese modo, descansar un rato de nuestros propios rostros. Ricardo Rodríguez podría suscribir tal hipótesis.

Durante 361 días al año es un peluquero introvertido que paga oportunamente los servicios públicos y expresa su homosexualidad de manera moderada. En los cuatro días de la fiesta, animado por la disolución de las normas sociales, se transforma en una hembra bullanguera de ancas grandes. Entonces, ataviado con su pollerón de vendedora de frutas –la piel ennegrecida con betún, los labios pintarrajeados de morado– recorre las calles zarandeando el cuerpo al ritmo de la cumbiamba.

Al maquillarse y enfundarse en su falda larga, Rodríguez se pone a tono con la picaresca típica del Carnaval de Barranquilla. Y se emancipa del papel de sujeto apocado que le impone la rutina. Curiosamente, la mujer negra en la cual se convierte, aunque es un personaje construido para la farsa, le permite cumplir un deseo reprimido desde la infancia. Las caretas –ya lo decía Oscar Wilde– resultan a menudo más reveladoras que las caras. Quienes las usan no se encubren: se muestran. Todo ser enmascarado está habitado por la criatura a la cual pretende imitar con su disfraz.

La oruga arrinconada que es Ricardo Rodríguez durante sus días de peluquero contiene a la mariposa expansiva en la que se transmuta cuando empieza la fiesta. En tiempos de carnaval es común volverse lo contrario de lo que se es: el mendigo se viste de rey, el timorato blande una espada, el virtuoso se pervierte, el lampiño se torna barbudo, el conejo ruge como león.

El hombre que adopta un rostro ajeno no renuncia al suyo propio: tan solo lo reafirma. Esto es posible porque el artificio, en la medida en que distorsiona la apariencia física, deja al descubierto las fantasías más íntimas.

Ahora bien: al enmascarado le importa poco que sus pasiones secretas se transparenten a través de la careta, pues a fin de cuentas lo único que él quiere esconder es su fachada. Escudado en el capuchón, el hombre adquiere el anonimato necesario para desinhibirse y realizar, impunemente, ciertos actos que no se atrevería a llevar a cabo si tuviera el rostro descubierto. Para empezar, puede confrontar, como ya dije, a sus demonios interiores.

Asumirlos, sacarlos a flote. Puede, además, denunciar al jefe corrupto, festejar el traspié del vecino arrogante, desear a la mujer del prójimo. El disfraz libera y, después, concede licencia para la transgresión. El tigre de Bengala y la osa malaya que en el baile de máscaras se acarician impúdicamente, quizá sean dos conocidos nuestros que se aprovechan de la ocasión para cometer a mansalva una infidelidad.

Como en las fiestas dionisiacas de los griegos, en el Carnaval de Barranquilla mucha gente falsifica su identidad para pecar sin preocuparse y, en consecuencia, alcanzar la purificación.

Entre los disfraces ingeniados por los barranquilleros con el propósito de camuflarse, ninguno tan hermético como el de ‘Monocuco’. La ancha túnica de satín borra las formas del cuerpo, por lo cual es imposible saber si quien va adentro es un hombre o una mujer.

Luego, para tapar el rostro, están la capucha y el antifaz. Según la leyenda, este disfraz fue hecho a la medida de los señores ricos que se adentraban en los barrios marginales de la ciudad para retozar en el catre de algunas muchachas pobres.

Había que proteger el anonimato costara lo que costara, y tal vez por eso el ‘Monocuco’ lleva en las manos, desde sus orígenes, una vara para espantar sin contemplación a los indiscretos. Al atrincherarse en el traje de ‘Monocuco’, el individuo se siente seguro, invulnerable. Tan especial ha sido este disfraz para el imaginario colectivo, que los jerarcas de la Real Academia de la Lengua Callejera lo establecieron para denotar el estado anímico de quien se considera a salvo. No es gratuito que, cuando a un barranquillero de la vieja guardia se le pregunta si todo en su vida marcha bien, responda:

–Sí, todo bien, todo ‘monocuco’.

* * *

La careta y el ropón de raso son tan solo la expresión material del disfraz. Pero, más allá de tales piezas, el Carnaval es una gran mascarada. En los cuatro días que dura la fiesta todo se vuelve simulación, parodia. Subvertido el orden del universo, los preceptos son letra muerta. La vida es, entonces, una chifladura monumental, en la cual se tornan normales los sucesos que durante el resto del año resultarían inauditos.

La gallina hostiga al zorro, el pez chico se come al grande, el simio se aparea con la jirafa, el blanco se cimbrea con el tambor del negro, el mendigo corteja a la princesa, la monja conduce una ambulancia, los policías llegan a tiempo, el magnate paga sus impuestos, el constructor responde por las casas que vendió y que luego se desmoronaron, Bill Clinton es el marido más fiel, Hugo Chávez gana el casting para reemplazar a Cantinflas, Tarzán se casa con Chita, Batman y Robin admiten que son amantes, el Coyote captura por fin al Correcaminos, Supermán sobrevive a la kriptonita, don Ramón le devuelve la bofetada a doña Florinda.

La alteración del orden preestablecido obedece, en parte, a la intención de hacer reír a la gente, lo cual se consigue, frecuentemente, mediante los retruécanos más simples: el patrón anda a pie mientras el jornalero conduce el Ferrari; el butifarrero es un mujeriego infalible en Hollywood, mientras Brad Pitt suda la gota gorda vendiendo empanadas en el paseo Bolívar.

En ocasiones, la hilaridad del público no se logra trastrocando el destino acostumbrado de los elementos, sino exagerando, mediante la representación cómica, los mismos sucesos de siempre: Atlético Junior no puede poner en práctica la prueba de alcoholemia porque sus indisciplinados jugadores se encuentran tan atiborrados de licor que la sangre se les evapora en las jeringuillas. También hay comedias sobre los arroyos que en las épocas de lluvia atormentan a los habitantes y sobre el tendero de barrio que adultera la báscula. De repente, los problemas cotidianos, enfocados desde la perspectiva de la burla, ya no provocan penas sino jolgorio. El Carnaval es eso, precisamente: un acontecimiento en el cual se suspende el tiempo de los lamentos y se desata el del gozo. Sin embargo, va mucho más allá del mero hedonismo: abre espacios para que el pueblo exprese su inconformidad y ejerza el derecho a la crítica.

Las calles, transformadas entonces en un inmenso teatro al aire libre, permiten escenificar el saqueo de las arcas públicas, señalar al político bandido. No es casual que las marimondas, esas figuras socarronas de narices fálicas y orejas de elefante, hagan sonar sus estridentes pitos –conocidos con el gráfico nombre de ‘pea pea’– justamente cuando se tropiezan en el camino con ciertos personajes nefastos de la ciudad.

El carnaval es una mascarada de principio a fin –dije– porque en él todo se vuelve disfraz, incluso el lenguaje. Antes y después de esta fiesta, la palabra asalto es sinónimo de “atraco a mano armada”, y tan solo se usa para hablar de la inseguridad urbana. En carnaval significa que algunos amigos han invadido sin previo aviso la casa de un compañero para realizar una pachanga.

Antes y después de esta fiesta, un decreto es un comunicado que oficializa cierta decisión –casi siempre fastidiosa– del gobernante de turno. En carnaval es el discurso jocoso que pronuncia la reina para contagiar de alegría a sus conciudadanos. Durante estos cuatro días de arrebato colectivo la realidad entera, con todos sus seres y enseres, resulta trocada por la farsa: se enmascaran los rostros, se camuflan los cuerpos, se transforma el idioma. El cosmos, en términos generales, queda envuelto en una gran máscara que lo distorsiona.

Los seres humanos apelan a esta ficción para ayudarse a soportar los desencantos de su realidad cotidiana. Inventamos las novelas para poder resistir las noticias. Bien decía François de la Rochefoucauld, en uno de sus célebres epigramas, que ni el sol ni la muerte se pueden mirar fijamente.

El carnaval le permite al hombre darles una ojeada oblicua a sus propios conflictos. El zapato que nos aprieta a lo largo del año, al ser puesto de revés durante los carnavales se convierte en motivo de risa. Lo que antes era congoja, en carnaval es argumento para la picaresca.

Entonces nos resulta posible contemplar el sol sin encandilarnos. Con la muerte sucede lo mismo: antes de la fiesta aparecía en nuestros pensamientos como una señora hosca y temible; ahora es un personaje juguetón, que se entrevera con nosotros, sin intimidarnos, en cada desfile callejero.

Por eso el Carnaval es catarsis. Nos depura, nos alivia. Nos predispone para enfrentar, con las energías renovadas, los 361 días de rutina que comenzarán el Miércoles de Ceniza, veinticuatro horas después de la conclusión de la fiesta.

Cuando nos quitemos las caretas y descorramos la gran máscara que le pusimos a nuestra propia realidad, nos toparemos de frente con las mismas contrariedades de siempre: la intolerancia, el desamor, las deudas, las tareas aplazadas, las fragilidades del cuerpo, los pesares del alma, los miedos. Menos mal que dentro de un año, cuando nos enfundemos de nuevo en nuestros disfraces, la vida volverá a ser una fiesta. Descansaremos de nuestros rostros, convertiremos a la muerte en una marioneta inofensiva y nos animaremos a contemplar el sol que, a pesar de todo, todavía

Alberto Salcedo Ramos, Premio Internacional de Periodismo Rey de España, Premio Ortega y Gasset de Periodismo y Premio a la Excelencia de la SIP. Cinco veces ganador del Premio Simón Bolívar. Especial para EL TIEMPO, publicado hoy

Rio, samba, suor e frenesi

A previsão meteorológica anuncia pancadas de chuva dispersas e suaves durante os dias de Carnaval, o que, ao contrário do que se poderia imaginar, é uma notícia fantástica para os milhões de pessoas que sairão às ruas do Rio para se contorcerem ao som do samba e das velhas marchinhas que se repetem como um mantra durante todo o festejo. Os termômetros registram máximas de 40 graus em vários pontos da cidade, e o sol que anuncia a reta final da canícula fustiga inclemente uma multidão, regada a álcool e com pouca roupa, que se junta em redemoinhos ao redor das batucadas.

Neste ano as novidades são poucas, pois a realização da Copa do Mundo, a partir do próximo mês de junho, já significa uma atração por si só. A cidade está tomada pelos meios de comunicação de todo o planeta, ávidos por mostrarem a idiossincrasia de um país que promete realizar a “Copa das Copas”.

A avenida Marquês de Sapucaí, onde fica o popular sambódromo, desenhado há 30 anos pelo falecido arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer, será mais uma vez o cenário de um dos mais emocionantes espetáculos televisivos do planeta. Ao longo dos seus 700 metros de comprimento desfilarão durante as noites de domingo e segunda-feira as doze escolas de samba que competem no chamado Grupo Especial (a “primeira divisão” do Carnaval), em um novo esbanjamento de alegria, ritmo e dinheiro (os estratosféricos orçamentos de uma escola de samba podem superar os 18 milhões de reais).

O obscuro mundo das escolas de samba não esteve isento de polêmicas nas últimas décadas, e sobre ele recai tradicionalmente uma sombra de dúvida a respeito das suas formas de financiamento. Não são poucos os presidentes dessas agremiações que foram vítimas de ajustes de contas ou que acabaram nas capas dos jornais sob graves acusações de envolvimento com negócios turvos, como o narcotráfico e as redes clandestinas do jogo do bicho.

Seja como for, o trigésimo aniversário do sambódromo está sendo celebrado em grande estilo no Rio. As autoridades cariocas estão cientes de que o desfile das escolas projeta uma imagem espetacular da cidade, dando a volta ao mundo com transmissões ao vivo ou gravadas em mais de 150 canais de televisão. O investimento é enorme, mas os benefícios gerados são provavelmente maiores.

“Por aqui passaram muitas histórias, muitas alegrias, muitos acidentes, que também fazem parte do maior espetáculo do planeta, mas certamente também aconteceu muita aprendizagem, já que muitas pessoas que não têm acesso à cultura acabam tendo através do Carnaval”, explica, na avenida, Wilson Neto, coroado como Rei Momo carioca 2014.

Wilson se refere, em certa forma, às 2.500 pessoas que trabalham em tempo integral na Cidade do Samba para construir os carros alegóricos e as fantasias que desfilarão pelo sambódromo. O Carnaval é um negócio em si mesmo, que dá formação e emprego a muita gente humilde e que tem suas próprias leis de oferta e demanda. Por exemplo, quem quiser arrumar ingressos de última hora para o desfile das escolas tem de pagar quantias obscenas no mercado negro.

Até a próxima Quarta-Feira de Cinzas, 492 blocos estão autorizados a desfilarem nas ruas do Rio. Essas charangas conseguem arrastar autênticas marés humanas, como é o caso do tradicional Cordão do Bola Preta, que está acostumado a reunir a mais de 1,5 milhão de pessoas no centro da cidade. Este é o Carnaval de quem não tem interesse ou dinheiro para se deleitar com os ouropéis do sambódromo; um carnaval plebeu e de rua, desterrado durante décadas da agenda oficial e dos guias de turismo, mas que veio ganhando mais protagonismo até se tornar o verdadeiro leitmotiv de quem vem para o Rio querendo esquecer suas agruras.

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Neste ano, uma conhecida marca de preservativos decidiu redobrar a aposta no que já é por si só uma das festas mais libertinas do planeta, instalando uma cápsula flutuante em que os casais poderão dar rédea solta ao seu ardor carnal sobre milhares de almas embaladas por samba, suor e frenesi. [Transcrevi trechos]

Recife. E a festa tão ansiada começou

por Manuel Carvalho
Público/ Portugal

Pela manhã, um dos jornais diários do Recife titulava a toda a capa: “Que felicidade”. Raramente uma manchete de um jornal consegue acertar com tanta precisão antes do acontecimento como a do Diário de Pernambuco. Uma fotografia de uma pessoa em pose eufórica, com um gesto algures entre o devaneio e a celebração era apenas uma boa antecipação do que se preparava para acontecer nessa noite no Marco Zero, o epicentro da geografia e, por afinidade, da cultura do Recife e de Pernambuco. Depois do final da tarde, centenas de milhar de pessoas invadiram o bairro antigo para serem felizes, para dançarem como se nunca tivessem dançado, para rirem como se tivessem esperado, para se abraçarem como se despedissem para longas ausências.

rosto carnaval

E difícil descrever o que é o Carnaval no Recife. Por causa dos semblantes, do movimento, da forma como se dança, sem dúvida. Mais ainda por causa da impossibilidade de descrever tantos odores, de queijo coalho na prancha, das espetadas, do suor, da maconha, do esgoto fugaz mas insistente. Ou da música, do som dionisíaco das orquestras de frevo, do estilo forró que sai dos palcos, do maracatu que cruza as ruas ou dos trios ou quartetos de homens tisnados do sol que vêm do interior apenas para tocar numa esquina do carnaval. Como de Bosco, que veio do Lajedo com o seu grupo de bombo, caixa, flauta e pratos para colonizar uma esquina com aquele ritmo irresistível da miscigenação cultural do Brasil. Após tantas dimensões impenetráveis do Carnaval do Pernambuco fica uma certeza: é um dos maiores festivais de World Music do mundo.

Foram quase três horas de concerto no palco grande, no Marco Zero, onde passaram cantores indígenas e anónimos e pernambucanos conceituados como Lenine – Elba Ramalho não é pernambucana de nascimento, mas foi adoptada e por lá passou também. Mas se na sua órbita gravitavam os corpos em movimento de milhares de pessoas, a quintessência do Carnaval recifense passava-se nas ruas do interior do bairro primordial da cidade. Era lá que esse enorme caos controlado melhor se expressava. Grupos de jovens em correria, homens e mulheres de idade provecta, crianças, pretos, brancos, pardos e de todas as outras tonalidades do Brasil, rapazes que carregavam caixas de esferovite com cerveja e outras bebidas frescas, pobres que apanhavam as latas ou as garrafas plásticas do chão, mascarados ou anódinos, o enorme torvelinho do Carnaval fazia ali todo o sentido no seu aparente caos.

E porquê? Porque, talvez, tudo aquilo era colado por uma cultura que todos partilham e um estado de espírito que todos comungam. Uma obrigação voluntária, passe o contra-senso. É difícil entender esse Carnaval porque se nota que se incrustou nas pessoas que, como uma criança com os seus quatro anos que integrava um dos blocos de maracatu, batem nos tambores desde que são o que são. Aos de fora, não há muita oportunidade para perceber tanta música, tanta gente, tanto odor, tanto riso e tanta paixão. O melhor mesmo é seguir o bloco, deixar-se guiar pelo frevo e reconhecer ao menos que aquela é uma festa que sublinha a felicidade e tudo o que há de melhor do género humano.

pífano carnaval

PÃO E CIRCO!

pao circo

Quem não gosta de pão? Quem não gosta de circo?

O vendedor de pão, com o balaio na cabeça, gritava: – Pão de bico suiço e doce! Dentro de casa, mamãe nos acordava reinventando o mote,  dizendo: – Pão de bico suicidou-se! O humor soava como um despertador mágico. Todos acordavam rindo e desejosos de tomar café com um pãozinho quente e gostoso. Pão de bico, pão de ló, pão doce, pão francês, pão disso, pão daquilo. Pão com banha era outra coisa.

Havia o pão profano e o pão religioso. Aos domingos, na missa, o pão se transformava no corpo de Jesus Cristo. Comungar era, e continua sendo, comer o pão sagrado. No sermão, do púlpito, o padre lembrava que Deus tinha expulsado o homem do paraíso dizendo: “Comerás o pão com o suor do teu rosto”.

O pecado foi ter comido maçã. Pão pode, maçã não pode. A maçã era fruta de rico. E era mais fácil um camelo passar no fundo de uma agulha do que um rico entrar no céu. Está na Bíblia.

Quando alguém passava por uma situação difícil, dizia-se: “Está comendo o pão que o diabo amassou”. A vida era e é um pão nosso de cada dia.

No rádio a jovem guarda cantava: Ele é um pão, é um pão, é um pão… As meninas gostavam de pão. Bons tempos…

Bom, conheci a maçã e o camelo na igreja. Nas histórias de José do Egito e nos livros de Malba Tahan. O pão conheci em casa, no café da manhã.
Até hoje gosto de pão. Maçã e camelo, nem tanto.

Quanto ao circo, bom, pra que falar sobre política se hoje é carnaval. Aliás, carnaval ou campanha eleitoral? O carnaval está se tornando, em época de eleição, no pré-guia pré-eleitoral. E, com certeza, o guia eleitoral será o pão que o diabo, dos outros, amassou.

pouco pao

 

 

Cumprindo a profecia bíblica continuaremos comendo o pão com o suor do nosso rosto e vendo o circo pegar fogo na nossa Roma particular. O apocalipse é o outro.

E, como dizia Jorge Amado: COM CARNAVAL, SUOR E CERVEJA!
AXÉVOÈ !!!

“Estupro cultural” proibir maracatu

maracatu

 

Inacreditável, o maracatu que, recentemente (vide link), foi reportagem internacional, vem sendo perseguido pela polícia do governador Eduardo Campos.

Nenhum desses artistas, contratados pelo governo do Estado e prefeituras, para cantar, tocar e dançar no carnaval de Pernambuco, tem o valor artístico-cultural do maracatu.

Informa o maestro Siba: Nesta próxima quarta feira, dia 5 de fevereiro, os Maracatus de Baque Solto de Nazaré da Mata estão intimados a comparecer a uma audiência na sala da Promotoria de Justiça de Pernambuco.

O documento de intimação, ao qual tive acesso, não discrimina o motivo, mas diz-se que tem a ver com a proibição, em plena aplicação na região, dos Maracatus de Baque Solto realizarem festa até o amanhecer do dia.

O assunto rima com o “Carnaval Cinderela” que deve parar às 2 horas [da madrugada], anunciado em breve para o Recife.

Na Mata Norte, a arbitrariedade atinge em cheio uma tradição secular que representa as pessoas mais pobres.
Compartilho a primeira matéria a que tive acesso até agora, que trata do fato acontecido na festa da Cambinda Brasileira, onde estive presente.

Tenho acompanhado muito de perto o problema na região, e posso facilmente classificar o que se passa em Nazaré da Mata e cidades vizinhas como um “Estupro Cultural”.

Siba transcreve a seguinte notícia do blogue de Josué Nogueira:

No Facebook, produtores culturais, artistas e pessoas ligadas às artes denunciam que a Polícia Militar terminou a festa de 96 anos do maracatu Cambinda Brasileira, na madrugada deste domingo (03.02).

Afirmando que cumpriam uma lei que determina o silêncio a partir das 2h, PMs foram até o Engenho Cumbe, em Nazaré da Mata, no meio do canavial, e puseram fim às comemorações.

Símbolo máximo da cultura do corte da cana e sempre explorado pelo marketing do carnaval do estado, o maracatu e seu cortejo real estão sob a mira de uma lei que condena uma manifestação secular cuja tradição é promover a sambada até o dia raiar.

Sobre o assunto a coluna Diario Urbano (Diario) deste domingo traz comentário sobre a tal proibição de shows e eventos culturais depois das 2h da manhã.

Assinada pelo jornalista André Duarte, o texto informa que não há lei alguma sobre o tema e sim um “entendimento” não justificado nem assumido pelo poder público.

A coluna enfoca o carnaval do Recife em cujas novas “regras” está o limite das 2 horas. Mas, como se viu no caso do Maracatu Cambinda Brasileira, a ordem é estadual.

Quer dizer, a secretaria de Defesa Social está seguindo uma política em vigência em Pernambuco – não importam as exceções como o respeito e a preservação das tradições.

É preciso que o estado e o Ministério Público – a quem se atribui a tal determinação – justifique a apresente o embassamento legal para a medida.

Confira a coluna Diario Urbano:

Continua mal explicada a determinação de encerrar as apresentações do Carnaval do Recife às 2h. Anunciada como resultado de acordo entre órgãos públicos e influenciada por uma suposta recomendação do Ministério Público, a medida falta em detalhes e carece de justificativa consistente. Se, em tese, a prefeitura não teria nenhuma vantagem política em limitar o horário dos shows e desfiles de blocos, ainda cabe explicar o porquê da restrição, que futuramente pode atingir os polos afastados do Marco Zero, sobretudo os da periferia, abrindo um precedente preocupante para um evento que ainda levanta o estandarte democrático. A violência não foi apresentada, até o momento, como motivação para o fechamento dos palcos na alta madrugada.  A única recomendação do Ministério Público que se tem notícia sobre o tema diz respeito às prévias carnavalescas, mas não especifica horários ou locais em que o som deve ser desligado mais cedo. O documento, expedido em dezembro no ano passado, tinha intenção de coibir a poluição sonora e a degradação do patrimônio público no entorno dos desfiles dos blocos, mas não cita o Bairro do Recife ou qualquer outro polo descentralizado da festa. A programação oficial deste ano revela que, na prática, os horários dos shows não mudaram muito em relação ao ano passado, o que deixou a questão ainda mais confusa e esquentou o debate nas redes sociais, onde a festa já é chamada de “carnaval da Cinderela”. O fato é que nenhum integrante do grupo de trabalho responsável pela nova agenda da festa quis passar recibo. Procurada na última sexta-feira, a assessoria da Fundação de Cultura do Recife informou que apenas a Secretaria de Defesa Social (SDS) poderia se manifestar, já que a determinação teria partido de uma reunião sobre o Pacto Pela Vida. Já a SDS repassou a querela para a Polícia Militar, que, por sua vez, alegou que apenas cumpre as deliberações da Prefeitura do Recife e dos órgãos de defesa social que integram o grupo. O Ministério Público não tinha localizado nenhuma recomendação específica sobre limite de horário no carnaval.

 

 

Pernambuco: Maracatu feminino se prepara para o Carnaval

por Ivan Maurício/ O Nordeste.com

Em Nazaré da Mata, a terra dos maracatus, a 65 km de Recife (capital de Pernambuco) mulher não tinha vez. No carnaval, elas só podiam observar a típica dança masculina. Tudo mudou a partir de 2004, quando a Associação das Mulheres de Nazaré da Mata, a Amunam quebrou um tabu e criou o grupo Maracatu Coração Nazareno – o primeiro feminino do gênero no mundo

maracatu feminino

No espaço montando na parte interna da Associação das Mulheres de Nazaré da Mata – Amunam, na Zona da Mata de Pernambuco, elas pintam e bordam ajustando todos os detalhes do maracatu. As roupas coloridas começam pouco a pouco a ganhar forma para ir às ruas nos festejos de momo. O Maracatu de Baque Solto Coração Nazareno é composto especialmente por mulheres, as quais produzem as próprias indumentárias para Carnaval.

Em Nazaré da Mata, a terra dos maracatus, a 65 km de Recife (capital de Pernambuco) mulher não tinha vez. No carnaval, elas só podiam observar a típica dança masculina. Tudo mudou a partir de 2004, quando a Associação das Mulheres de Nazaré da Mata, a Amunam quebrou um tabu e criou o grupo Maracatu Coração Nazareno – o primeiro feminino do gênero no mundo. A estréia oficial foi realizada no ano seguinte no Encontro de Maracatus na Cidade Tabajara em Olinda.

A vez da mulher

De meninas de sete anos a senhoras de setenta anos, mulheres de todas as faixas etárias apresentam a mesma alegria nos encontros para se preparar para as apresentações e garantir a continuidade desse folguedo popular para as novas gerações.

Nas oficinas de arte, elas confeccionam toda a fantasia e adornos para o desfile de maracatu, com predominância da cor rosa nas roupas, no estandarte e até nas perucas. Um dos desafios das mulheres foi confeccionar roupas um pouco mais leves, porque alguns acessórios, como os dos guerreiros dos maracatus costumam pesar até 30 quilos. Elas conseguiram diminuir para 16 kg, sem descaracterizar a vestimenta.

Pregando lantejoulas e outros adereços, elas discutem as chamadas “loas”, composições poéticas geralmente curtas, que levam o público a refletir por meio de versos sobre cidadania, gênero e violência. O canto entoado no carnaval expressa a memória local influenciada pela cultura africana.

“O Maracatu Coração Nazareno é umas das formas que a Amunam encontrou para levar a delicadeza, a leveza, feminilidade e a fortaleza da mulher a um ambiente masculino”, afirma a coordenadora Eliane Rodrigues. “É uma forma de elas se tornarem agentes culturais e também de contribuir com o orçamento doméstico, confeccionando indumentárias ou com os cachês das apresentações artísticas”.

Antonio Maria

Bola no fotógrafo
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por Urariano Mota
Antonio Maria

Antonio Maria

A memória da gente anda muito esquecida. Quase ninguém lembrou os 88 anos do nascimento de Antonio Maria. Se em toda a grande e média imprensa nada se disse, não foi por falta da importância de um certo Antonio Maria, que se apresentava como “cardisplicente”, mistura de doente do coração com displicente. E tanta coisa havia e há para falar sobre ele!

Nascido no Recife em 17 de março de 1921, se apenas fosse compositor, deveria ter merecido registros e especiais no rádio, na televisão e nos jornais. Autor de 62 músicas, de canções eternas como Frevo número 1, Ninguém me ama, Manhã de carnaval, Menino grande, Suas mãos, O amor e a rosa, Valsa de uma cidade, e, de passagem, digamos assim, autor desta vã promessa, “nunca mais vou fazer o que o meu coração pedir, nunca mais ouvir o que o meu coração mandar”, haveria muito o que falar sobre esse compositor de letras que são a ternura em quintessência.

Num coluna de revistas de curiosidades e fofocas, poderia ser dito que foi marido de Danuza Leão, roubada por ele do seu patrão, o grande jornalista Samuel Wainer. E que, ao receber o troco mais adiante, ficando só, morreu de fossa e de amor, em uma madrugada três e cinco, talvez. Que feio, grande e gordo, conquistava mulheres pelo poder da lábia e da inteligência. Que foi ameaçado por Sérgio Porto (sim, o Stanislaw), por ter servido de conselheiro sentimental a uma namorada de Sérgio. E que ao se apresentar como Carlos Heitor Cony a uma madame, levou-a para a cama, para depois contar ao verdadeiro Heitor, “Cony, você broxou”. 

Mas ele poderia ter sido lembrado, reverenciado, e lido principalmente por suas crônicas, que estão entre as maiores e melhores já escritas no Brasil. Suas crônicas, quase dizia, suas mãos, misturam humor, crueldade e lirismo, a depender dos dias e da sua vida, que não eram iguais, para ele ou para ninguém. Como neste perfil arguto de Aracy de Almeida: 

“Não é bonita, sabe disso e não luta contra isso. Não usa, no rosto, baton, rouge ou qualquer coisa, que não seja água e sabão. Ultimamente corta o cabelo de um jeito que a torna muito parecida com Castro Alves… Faz de cada música um caso pessoal e entrega-se às canções do seu repertório como quem se dá um destino. Não sabe chorar e não se lembra de quando chorou pela última vez. Mas a quota de amargura que traz no coração, extravasa nos versos tristes de Noel: `Quem é que já sofreu mais do que eu?/ Quem é que já me viu chorar?/ Sofrer foi o prazer que Deus me deu´… e vai por aí, sem saber para onde, ao frio da noite, na espera de cada sol, quando o sono chega, dá-lhe a mão e a leva para casa”

Ou aqui, dias antes de morrer:

“Há poucos minutos, em meu quarto, na mais completa escuridão, a carência era tanta que tive de escolher entre morrer e escrever estas coisas. Qualquer das escolhas seria desprezível. Preferi esta (escrever), uma opção igualmente piegas, igualmente pífia e sentimental, menos espalhafatosa, porém. A morte, mesmo em combate, é burlesca…

Só há uma vantagem na solidão: poder ir ao banheiro com a porta aberta. Mas isto é muito pouco, para quem não tem sequer a coragem de abrir a camisa e mostrar a ferida”.

E por fim aqui, nestas considerações sobre o sono:

“** Ah, que intensos ciúmes, no passado e no futuro, sobre a nudez da amada que dorme! Só você a viu, só você a verá assim tão bela!

** Nas mulheres que dormem vestidas há sempre, por menor que seja, um sentimento de desconfiança.

** A amada tem sob os cílios a sombra suave das nuvens.

** Seu sossego é o de quem vai ser flor, após o último vício e a última esperança.

** Um homem e uma mulher jamais deveriam dormir ao mesmo tempo, embora invariavelmente juntos, para que não perdessem, um no outro, o primeiro carinho de que desperta.

** Mas, já que é isso impossível, que ao menos chova, a noite inteira, sobre os telhados dos amantes”

A boa memória conta que Antonio Maria exclamava no rádio, ao ver um jogador chutar fora do gol: Bola no fotógrafo!.Nesse último 17 de março, para a mídia que não o lembrou, também vale dizer: bola no fotógrafo.
(Publicado no Literário)
 

Frevos de Antonio Maria

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Ai, ai, saudade
Saudade tão grande
Saudade que eu sinto
Do Clube dos Pás, dos Vassouras
Passistas traçando tesouras
Nas ruas repletos de lá
Batidas de bumbo
São maracatus retardados ‘
Que voltam pra casa cansados
Com seus estandartes pro ar
Quando eu me lembro
O Recife tá longe
A saudade é tão grande
Eu até me embaraço
Parece que eu vejo
O Haroldo Matias no passo
Valfrido e Cebola, Colasso
Recife tá perto de mim
Saudade que eu tenho

São maracatus retardados
Que voltam pra casa cansados
Com seus estandartes pro ar

 

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antonio-maria

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Ai que saudade vem do meu Recife
Da minha gente que ficou por lá
Quando eu pensava, chorava, falava
Dizia bobagem, marcava viagem
Mas não resolvia se ia
Vou-me embora
Vou-me embora
Vou-me embora
Pra láMas tem que ser depressa
Tem que ser pra já
Eu quero sem demora
O que ficou por lá
Vou ver a Rua Nova,
Imperatriz, Imperador
Vou ver, se possível
Meu amor.
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Alexandre Nix:  Antonio chutava corações – normalmente o próprio

Alexandre Nix:
Antonio chutava corações – normalmente o próprio

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Sou do Recife com orgulho e com saudade
Sou do Recife com vontade de chorar
O rio passa levando barcaça pro alto mar
E em mim não passa essa vontade de voltarRecife mandou me chamarCapiba e Zumba a essa hora onde é que estão
Inês e Rosa em que reinado reinarão
Ascenso me mande um cartão
Rua antiga da Harmonia
Da Amizade, da Saudade, da União
São lembranças noite e dia
Nelson Ferreira toque aquela introdução.
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