Recife Cidade Cruel

por Talis Andrade

 

INGRATA PARA OS DA TERRA

No Guia Prático da Cidade do Recife
Canta Carlinhos Manuel João e Joaquim
Joaquim foi esquecido pela cruel cidade
quem vai se lembrar de mim

 

MAKTUB

Cumprirei minha sina
dias santos e profanos
vou escrever poesia
até que chegue a hora
vão me chamar lá no céu
Carlinhos João e Manuel
– Vem em paz irmão
a gente assina teus versos

 

 

 

 

 

A FITA AMARELA

por Talis Andrade

Quando eu morrer não quero choro nem vela
quero uma fita amarela gravada com o nome dela

Quando eu morrer vou encontrar Carlinhos e Capiba
compondo versos de excelência para os bem-aventurados
que chegaram ao céu

Onde anda ela
Dizem que casou
passa o dia limpando a casa
lavando roupas e panelas

Boa de forno e fogão
onde anda ela
Dizem que passa o dia na janela
Nem hoje sabe a importância
de uma fita amarela gravada com o nome dela

Olinda é só para os olhos. Ainda permanecem as ruas poéticas

OLINDA
(Do alto do mosteiro, um frade a vê)
por Carlos Pena Filho

Igreja e Mosteiro de São Bento, Olinda

Igreja e Mosteiro de São Bento, Olinda

.

De limpeza e claridade
é a paisagem defronte.
Tão limpa que se dissolve
a linha do horizonte.

As paisagens muito claras
não são paisagens, são lentes.
São íris, sol, aguaverde
ou claridade somente.

Olinda é só para os olhos,
não se apalpa, é só desejo.
Ninguém diz: é lá que eu moro.
Diz somente: é lá que eu vejo.

Tem verdágua e não se sabe,
a não ser quando se sai.
Não porque antes se visse,
mas porque não se vê mais.

As claras paisagens dormem
no olhar, quando em existência.
Diluídas, evaporadas,
só se reúnem na ausência.

Limpeza tal só imagino
que possa haver nas vivendas
das aves, nas áreas altas,
muito além do além das lendas.

Os acidentes, na luz,
não são, existem por ela.
Não há nem pontos ao menos,
nem há mar, nem céu, nem velas.

Quando a luz é muito intensa
É quando mais frágil é:
planície, que de tão plana
parecesse em pé

OS POETAS
por Sylvio de Oliveira

.

(fragmentos)

Mas ainda permanecem
as ruas poéticas
de nomes e de poetas
que cantaram rios
exploraram ruas
e amaram tanto
a cidade sua
que entram em prantos
e quedam mudos
se recordarem
suas figuras
suas passagens
e seus poemas
como os lembrados
e sempre-vivos
(…) Manuel Bandeira
de Evocação do Recife
do Recife sempiterno
jamais do Recife Morto
Joaquim Cardoso
de Mundos Paralelos
seu mundo recifense
de muitos amigos
e calculados elos
de arquitetura urbana
Deolindo Tavares
nosso colega inquieto
da turma de Direito –
estas paisagens que encheram
meus olhos e que muito amei
Carlos Pena Filho
que em Vertigem Lúcida
a vida viveu
e súbito morreu
em floração de abismos

Recife e seus três cantores que são quatro

MINHA TERRA
por Manuel Bandeira

.

Saí menino de minha terra.
Passei trinta anos longe dela.
De vez em quando me diziam:
Sua terra está completamente mudada,
Tem avenidas, arranha-céus…
É hoje uma bonita cidade!

Meu coração ficava pequenino.

Revi afinal o meu Recife.
Está de fato completamente mudado.
Tem avenidas, arranha-céus.
É hoje uma bonita cidade.

Diabo leve que pôs bonita a minha terra!

 

 

Recife Vlademir Barbosa da Costa

 

MANUEL, JOÃO E JOAQUIM
por Carlos Pena Filho

.

 

(trechos)

Hoje a cidade possui
os seus cantores que podem
ser resumidos assim:
Manuel, João e Joaquim.
No Jardim Treze de Maio,
Manuel vai ficar plantado,
para sempre e mais um dia,
sereno, bustificado,
pois quem da terra se ausenta
deve assim ser castigado.
Dali não poderá ver
a casa do avô
e nem a rua da Aurora,
nem o mar, nem a sereia
e nem o boi morto na cheia
desse rio escuro e triste,
de lama podre no fundo
e baronesas na face,
que vem, modorra e preguiça,
parando pelas Campinas
e escorregando nos montes,
até este sítio claro,
onde cobriram seu leito
de pedra, ferro e cimento
organizados em pontes.

 

Fotografia: Wlademir Barbosa da Costa

Carlos Pena Filho e Joaquim Cardozo na estação de águas do Rio Capibaribe

MENINA
por Joaquim Cardozo

.

Os teus olhos de água,
Olhos frios e longos,
Esta noite penetraram.
Esta noite me envolveram.

Bem querida madrugada…

Olhos de sombra, olhos de tarde
Trazem miragens de meninas…
Bundas que parecem rosas.

Sob o caminho de muitas luas
O teu corpo floresceu.

 

The Cat of La Mediterranee by Balthus

 

GUIA PRÁTICO DA CIDADE DO RECIFE
por Carlos Pena Filho

.

(fragmentos)

(…) vieram de longe as águas
que aqui no Recife estão,
já começaram areia e pedra
lá bem perto do sertão
e é por isso, talvez,
que escuras e tristes são.
Porém não foi só tristeza
sua peregrinação,
em seu trajeto tiveram
a farta satisfação
de dar de beber a secos
homens, cavalos e bois
e em seu incerto caminho
ainda viram depois
os sítios cheios de sombra,
onde dorme o sonho espesso
do poeta Joaquim que foi
fazer uma estação de águas
nos olhos do seu amor
e trouxe nos seus, acesos,
os cajueiros em flor.

 

Ilustração Window Balthus galeria aqui 

Rio Capibaribe de João Cabral de Melo Neto e Carlos Pena Filho

PAISAGEM DO CAPIBARIBE
por João Cabral de Melo Neto

.

A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada
O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão,
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.
Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul.
da fonte cor-de-rosa
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.

 

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Pontes_do_Bairro_do_Recife_Antigo

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GUIA PRÁTICO DA CIDADE DO RECIFE
por Carlos Pena Filho

.

(fragmentos)

(…) tudo o que for do rio,
água, lama, caranguejos,
os peixes e as baronesas
e qualquer embarcação,
está sempre a todo instante
lembrando o poeta João
que leva o rio consigo
com um cego leva o cão.

 

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“O Recife vai marchando”

CHOPE
Carlos Pena Filho

Na avenida Guararapes,
o Recife vai marchando.
O bairro de Santo Antonio,
tanto se foi transformando
que, agora às cinco da tarde,
mais se assemelha a um festim.
Nas mesas do Bar Savoy,
o refrão tem sido assim:
São trinta copos de chope,
são trinta homens sentados,
trezentos desejos presos,
trinta mil sonhos frustrados.
Ah, mas se a gente pudesse
fazer o que tem vontade:
espiar o banho de uma,
a outra, amar pela metade
e daquela que é mais linda
quebrar a rija vaidade.
Mas como a gente não pode
fazer o que tem vontade,
o jeito é mudar a vida
num diabólico festim.
Por isso no Bar Savoy,
o refrão é sempre assim:
São trinta copos de chope,
são trinta homens sentados,
trezentos desejos presos,
trinta mil sonhos frustrados

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Os Moicanos tomam cama
por Talis Andrade
(trechos)

Bebiam os jornalistas
bebiam os poetas
indiferentes ao cerco
da polícia de Barbosa Lima
Etelvino e Agamenon

Na Casa de Tobias
Carlos Pena Filho
pintava o azul
o claro azul
sobre o quadro-negro
da ditadura

A liberdade é azul
azul o céu
azul o mar
azul o rio
azuis os cabelos
de Santa Ifigênia
e Mãe Iemanjá

 

 

Carlos Pena Filho e Audálio Alves

O FIM
por Carlos Pena Filho

 

Recife, cruel cidade,
águia sangrenta, leão.
Ingrata para os da terra,
boa para os que não são.
Amiga dos que a maltratam,
inimiga dos que não,
este é o teu retrato feito
com tintas do teu verão
e desmaiadas lembranças
do tempo em que também eras
noiva da revolução.


QUARTETOS DA ELEGIA QUARTA
de Audálio Alves

 

(Estudo ao pé do túmulo de Carlos Pena Filho,
à data comemorativa do seu aniversário)

 

Carlos Pena Filho

Maldito quem me lembre e quem te esqueça,
Amigo,
Quando falo de amigo, quero vê-lo.
Insone tenho o polvo da memória.

E porque me ignoro é que te lembro,
digo a morte contrária, inverto a vida,
tenho mortos meus pés, onde começas,
com a língua a dizer que já não cessas.

Mas com garras, com asas, com espinhos,
venho
clamar com tigres e chorar com águias
ante o porto do homem o seu embarque.
Reconheço o silêncio que nos cerca.
Meço a morte impassível, reconheço:
em mistura com a terra, aqui cultivas
o silêncio imortal que não conheço.

Eternize-se a terra como serva
de quem se uniu em pêlo à sempre-viva:
Porque em vida louvaste o ar e a erva,
dê ramo a solidão definitiva.

Saberei se me escutam quando falo
apenas de meus lábios a meus dentes,
pois agora direi secretamente:
Eu a morte recuso, quando venha.

A morte não entende se ao trazer-te,
aqui
e além dessas prisões enfileiradas,
não beijou tuas mãos, prostrada ao solo.

Vinhas barco,
vinhas vindo encalhar entre hortelãs:
essa frota de cruzes, esse ar,
esse mastro à deriva das manhãs.

Mas hoje és tu, tão jovem e tão descido.
Por isso trago às mãos os artefatos
de descer e subir, e trago as chamas
que me hão de queimar para encontrar-te:

Malditos pois carneiros e cavalos
– maldito
o quanto paste aqui, levante os olhos
ao acenar da relva em desespero

 

O velho Bar Savoy

por Murilo Guerra

 

Juarez Machado

Juarez Machado

São trinta copos de chope, são trinta homens sentados, trezentos desejos presos, trinta mil sonhos frustados, poetava Carlos Pena Filho descrevendo o Bar Savoy, antigo ponto de encontro da boêmia pernambucana, frequentado por poetas, jornalistas, radialistas, cantores, mulheres e homens da noite e desocupados de todo gênero!

Pois é, neste final se semana lembrei do velho Savoy. Conduzido, por uma amiga, conheci o Bar Terraço. Um grande salão coberto de mesas, com decoração de mau gosto. Ao fundo um palco improvisado com um microfone e duas caixas de som. Os frequentadores, em sua maioria profissionais liberais, exibiam certa intimidade com o ambiente, e a mesma cúmplice intimidade entre eles. Todos aparentavam mais de sessenta anos, pareciam frequentar com hábito os sábados cantantes do Terraço. Se não estou enganado, as mulheres eram em maior número do que os homens, uns e outros animados, cantavam, dançavam, bebiam sem cuidado!

Os cantores, boêmios frequentadores do Terraço, se revezavam no palco, cantando canções que iam do frevo pernambucano aos boleros americanos da década de oitenta, invariavelmente acompanhados pelo público desafinado.

Alguém por perto, me chama atenção, para o salão cantante. Prato cheio para o imaginário estético realista de Nelson Rodrigues. Creio que ali não havia casal, todos solteiros ou quase, todos haviam vivido mais da metade de suas vidas!

Alguns exibiam no palco suas frustrações amorosas, outros tantos seus desenganos profissionais. Em grande medida tinham boa voz, eram afinados, faziam pose e trejeitos de domínio de palco.

Não faltava no salão coreografia sensual, com direto a olhos nos olhos. Os mais ousados, se conduziam com certa libertinagem juvenil, ainda que respeitando o ambiente .

Todos pareciam carregar na alegria daquelas horas, as marcas de suas vidas tristes, a solidão , as frustrações, o abandono, sonhos desfeitos, desencontros, enfim, suas vidas gastas.

Sabem que não encontrarão ali mas do que a alegria daqueles momentos, a insanidade lúcida. E isso era tudo !

Não sei, embora os frequentadores não guardem tantas semelhanças, penso que o Terraço cabe nos versos de Carlos Pena Filho, recitados em homenagem tão bem dita, tão definitiva, tão eterna, ao velho Bar Savoy …

 

 

Carlos Pena Filho (soneto e fado)

Edward Hopper

Edward Hopper

 
A Solidão e Sua Porta

Quando mais nada resistir que valha
a pena de viver e a dor de amar
E quando nada mais interessar
(nem o torpor do sono que se espalha)
Quando pelo desuso da navalha
A barba livremente caminhar
e até Deus em silêncio se afastar
deixando-te sozinho na batalha

Arquitetar na sombra a despedida
Deste mundo que te foi contraditório
Lembra-te que afinal te resta a vida

Com tudo que é insolvente e provisório
e de que ainda tens uma saída
Entrar no acaso e amar o transitório.