Chovia uma triste chuva na poesia de Bandeira e Drummond

POEMA SÓ PARA JAIME OVALLE
por Manuel Bandeira

.

Quando hoje acordei, ainda fazia escuro
(Embora a manhã já estivesse avançada).
Chovia.
Chovia uma triste chuva de resignação
Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.
Então me levantei,
Bebi o café que eu mesmo preparei,
Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei
[pensando…
– Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei…

.

INTIMIDADE

drummond-sentado carlos

por Carlos Drummond de Andrade

.

O poeta prepara seu café
com a ciência de uma dona de casa.
O poeta faz sorvete de café
com a competência de um profissional.
O poeta compõe uma estrofe
como só ele sabe.

.

Manuel Bandeira: Pura ou degradada até a última baixeza/ Eu quero a estrela da manhã

A ESTRELA
por Manuel Bandeira

Aquarela de Santa Rosa para Estrela da Manhã de Manuel Bandeira

Aquarela de Santa Rosa para Estrela da Manhã de Manuel Bandeira

.

Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.

Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.

Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alto luzia?

E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.

estreladamanha_manuelbandeira

.

Estrela da Manhã
por Manuel Bandeira

Eu quero a estrela da manhã

Onde está a estrela da manhã?

Meus amigos meus inimigos

Pocurem a estrela da manhã

Ela desapareceu ia nua

Desapareceu com quem?

Procurem por toda parte

Digam que sou um homem sem orgulho

Um homem que aceita tudo

Que me importa?

Eu quero a estrela da manhã

Três dias e três noites

Fui assassino e suicida

Ladrão, pulha, falsário

Virgem mal-sexuada

Atribuladora dos aflitos Girafa de duas cabeças

Pecai por todos pecai com todos

Pecai com os malandros

Pecai com os sargentos

Pecai com os fuzileiros navais

Pecai de todas as maneiras

Com os gregos e com os troianos

Com o padre e com o sacristão

Com o leproso de Pouso Alto

Depois comigo

Te esperarei com mafuás novena cavalhadas comerei terra e direi coisas de uma ternura tão simples

Que tu desfalecerás

Procurem por toda parte

Pura ou degradada  a até a última baixeza

Eu quero a estrela da manhã

Fernand Loyen Du Puigaudeau

Fernand Loyen Du Puigaudeau

ESTRELA
por Carlos Drummond de Andrade

.

Estrela da manhã,
estrela da tarde,
estrela da noite,
estrela do tempo inteiro,
da vida inteira,
fixa, imutável
pairando
sobre o poeta.

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(Mosaico de Manuel Bandeira
in Bandeira a vida inteira)

Teadoro, Teodora

NEOLOGISMO
por Manuel Bandeira

manuel bandeira consoada

Beijo pouco, falo menos ainda.
Mas invento palavras
Que traduzem a ternura mais funda
E mais cotidiana.
Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.
Intransitivo:
Teadoro, Teodora.

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O CHARADISTA
por Carlos Drummond de Andrade

drummond

Amas palavras cruzadas
e também os logogrifos,
pois a poesia, bem sabes,
é emoção filtrada em signos
de grifos e de hipogrifos,
e te divertes buscando
a chave obscura do verbo,
a chave esconsa do amor,
a chave enigma – do ser.

Canções de exílio de Murilo Mendes e Carlos Drummond de Andrade

CANÇÃO DE EXÍLIO
por Murilo Mendes

.

Minha terra tem macieiras da Califórnia
onde cantam gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas,
os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir
com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado
em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
nossas frutas mais gostosas
mas custam cem mil réis a dúzia.

Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
e ouvir um sabiá com certidão de idade!

Murilo Mendes, por Flávio de Carvalho, 1951

Murilo Mendes, por Flávio de Carvalho, 1951

MURILO MENDES
HOJE/AMANHÃ
por Carlos Drummond de Andrade

.

(fragmentos)

O poeta elabora sua personagem,
nela passa a viver como em casa natal.
E não é a casa natal?

Faz a caiação da personagem,
cobre-a de azul celeste e púrpura de escândalo,
adorna-a de talha de ouro e asas barrocas,
burila-a, murila-a
(alfaiate de Deus talhando para si mesmo),
viaja com ela pelo universo.

Uma pedra no meio do caminho de Carlos Drummond de Andrade

NO MEIO DO CAMINHO
por Carlos Drummond de Andrade

 

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

 

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E s c o l h a
por Fabio Rocha

A D r u m m o n d

O meu Fábio é Fabio.
Nem nasci, tropeçavam em mim.

Tive então duas escolhas:
Ser pedra ou poeta.

 

 

(En)cena por Elienai Ferreira de Oliveira:

Carlos Drummond de Andrade:
o mito do homem que se fez poesia
Leia aqui

De Hilda Hilst um beijo em morse para Carlos Drummond de Andrade

O POETA INVENTA VIAGEM,
RETORNO E MORRE DE SAUDADE
por Hilda Hilst

Se for possível, manda-me dizer:
– É lua cheia. A casa está vazia –
Manda-me dizer, e o paraíso
Há de ficar mais perto, e mais recente
Me há de parecer teu rosto incerto.
Manda-me buscar se tens o dia
Tão longo como a noite. Se é verdade
Que sem mim só vês monotonia.
E se te lembras do brilho das marés
De alguns peixes rosados
Numas águas
E dos meus pés molhados, manda-me dizer:
– É lua nova –
E revestida de luz te volto a ver.

 

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Poema de Carlos Drummond de Andrade
para Hilda Hilst

Abro a folha da manhã
Por entre espécies grã-finas
Emerge de musselinas
Hilda, estrela Aldebarã.

Tanto vestido enfeitado
Cobre e recobre de vez
Sua preclara nudez
Me sinto mui perturbado.

Hilda girando boates
Hilda fazendo chacrinha
Hilda dos outros, não minha
Coração que tanto bates.

Mas chega o Natal
e chama a ordem Hilda.
Não vez que nesses teus giroflês
Esqueces quem tanto te ama?

Então Hilda, que é sab(ilda)
Manda sua arma secreta:
um beijo em morse ao poeta.
Mas não me tapeias, Hilda.

Esclareçamos o assunto.
Nada de beijo postal
No Distrito Federal
o beijo é na boca e junto.

 

 

Carlos Drummond de Andrade canta Manuel Bandeira

POÉTICA
Manuel Bandeira

.

Estou farto do lirismo comedido
do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo

Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar as mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare

– Não quero saber do lirismo que não é libertação.

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ODE NO CINQÜENTENÁRIO DO POETA BRASILEIRO
de Carlos Drummond de Andrade

.

Esse incessante morrer
que nos teus versos encontro
é tua vida, poeta,
e por ele te comunicas
com o mundo em que te esvais.

Debruço-me em teus poemas
e neles percebo as ilhas
em que nem tu nem nós habitamos
(ou jamais habitaremos)
e nessas ilhas me banho
num sol que não é dos trópicos,
numa água que não é das fontes
mas que ambos refletem a imagem
de um mundo amoroso e patético.

Tua violenta ternura,
tua infinita polícia,
tua trágica existência
no entanto sem nenhum sulco
exterior – salvo tuas rugas,
tua gravidade simples,
a acidez e o carinho simples
que desbordam em teus retratos,
que capturo em teus poemas,
são razões por que te amamos
e por que nos fazes sofrer…
Certamente não sabias
que nos fazes sofrer…

(…)

Não é o canto da andorinha, debruçada nos telhados da Lapa,
anunciando que tua vida passou à toa, à toa.
Não é o médico mandando exclusivamente tocar um tango argentino,
diante da escavação no pulmão esquerdo e do pulmão direito infiltrado.
Não são os carvoeirinhos raquíticos voltando encarapitados nos burros velhos.
Não são os mortos do Recife dormindo profundamente na noite.
Nem é tua vida, nem a vida do major veterano da guerra do Paraguai,

(…)

és tu mesmo, é tua poesia,
tua pungente, inefável poesia,
ferindo as almas, sob a aparência balsâmica,
queimando as almas, fogo celeste, ao visita-las;
é o fenômeno poético, de que te constituíste o misterioso portador

(…)

Que o poeta nos encaminhe e nos proteja
e que seu canto confidencial ressoe para consolo de muitos e esperança de todos,
os delicados e os oprimidos, acima das profissões e dos vãos disfarces do homem.
Que o poeta Manuel Bandeira escute este apelo de um homem humilde.

 

 

Noite de Natal de Vinicius, Graça Graúna, Juliana Stefani, Bandeira, Drummond, Adélia Prado, Talis Andrade e Ascenso

Natividade, 1969, óleo sobre tela, de  Aldemir Martins (1922-2006)

Natividade, 1969, óleo sobre tela, de
Aldemir Martins (1922-2006)

 

 

NATAL 
Vinicius de Moraes

De repente o sol raiou
E o galo cocoricou:
— Cristo nasceu!

O boi, no campo perdido
Soltou um longo mugido:
— Aonde? Aonde?

Com seu balido tremido
Ligeiro diz o cordeiro:
— Em Belém! Em Belém!

Eis senão quando, num zurro
Se ouve a risada do burro:
— Foi sim que eu estava lá!

E o papagaio que é gira
Pôs-se a falar: — É mentira!

Os bichos de pena, em bando
Reclamaram protestando.
O pombal todo arrulhava:
— Cruz credo! Cruz credo!

Brava
A arara a gritar começa:
— Mentira! Arara. Ora essa!

— Cristo nasceu! canta o galo.
— Aonde? pergunta o boi.

— Num estábulo! — o cavalo
Contente rincha onde foi.

Bale o cordeiro também:
— Em Belém! Mé! Em Belém!

E os bichos todos pegaram
O papagaio caturra
E de raiva lhe aplicaram
Uma grandíssima surra.

 

YES
Graça Graúna

Yes,
natal
que é natal
tem que ter estrela
bem no topo da árvore,
de preferência, banhada
de purpurina. Enfeites, efeitos
grifes, beijinhos, velas, guardanapos,
CDs, framboesas, cartões de crédito, postais
e poemas que não falem do absurdo presépio
sob o viaduto
em construção

 

POEMA DE NATAL
Juliana Stefani

Dorme,
que a fome passa
e se não passa
Grita
que a palavra mata
na dúvida
de quem cala
Dorme.
que a ceia que provas
é a fome da espera

Dorme.
que não és tato.
Não és faro.
És o olhar do menino
na poça d’água
… Um reflexo de Natal
Pode estar também na vidraça
onde arqueias com o dedo: “Felicidade”.
Dorme,
que do outro lado, na rua
quem lê
lê ao avesso
e se vai.

 

CANTO DE NATAL 
Manuel Bandeira

.
O nosso menino
Nasceu em Belém.
Nasceu tão-somente
Para querer bem.

Nasceu sobre as palhas
O nosso menino.
Mas a mãe sabia
Que ele era divino.

Vem para sofrer
A morte na cruz,
O nosso menino.
Seu nome é Jesus.

Por nós ele aceita
O humano destino:
Louvemos a glória
De Jesus menino.

 

NATAL
Carlos Drummond de Andrade

.
Menino, peço-te a graça
de não fazer mais poema
de Natal.
Uns dois ou três, inda passa…
Industrializar o tema,
eis o mal.

 

ORFANDADE
Adélia Prado

“Meu Deus,
me dê cinco anos.
Me dê um pé de fedegoso com formiga preta,
me dê um Natal e sua véspera,
o ressonar das pessoas no quartinho.
Me dê a negrinha Fia pra eu brincar,
me dê uma noite pra eu dormir com minha mãe.
Me dê minha mãe, alegria sã e medo remediável,
me dá a mão, me cura de ser grande.
Ó meu Deus, meu pai,
meu pai.”

 

MISSA DO GALO
Talis Andrade

Tocam os sinos
de Belém alegrando
fandangos e marujadas
Pela televisão
o Papa reza a Missa do Galo
a chamar o dia
afugentando a madrugada

Tocam os sinos de Belém
consagrados sinos
fundidos com ligaduras
de ouro cobre mercúrio
estanho ferro e chumbo
Nos quatro cantos do mundo
o povo canta esperando um prodígio

o Anjo que não vem

Em todos os recantos da cidade
espocam fogos de artifício
espocam os champanhes
Em todos os recantos da cidade
tocam os sinos de Belém

eu sem ninguém

 

A FESTA
Ascenso Ferreira

.
O altar armado da igreja à porta,
Tão lindo como nunca vi,
Cheirava a cravos, cheirava a rosas,
Cheirava a flor do bogari…

As barraquinhas adornadas
Com lanternas de muitas cores,
Vendiam coisas cheias de odores:
Broas, pastéis, doces, geladas,
Jinjibirra, abacaxis…

Um pouco abaixo o cosmorama,
Onde espantado a gente via,
Quadros de guerras encarniçadas,
Vistas de terras encantadas,
– Terras de Oropa, França e Bahia…

A gente ia pro carrossel,
Nos seus cavalos esquipar!
O realejo triste gemia,
Mas, dentro em nós quanta alegria.
E, quando o carrossel se ia,
Ai! que tristeza de matar!

Ganhava a gente roupas novas,
Novo sapato, novo chapéu,
E tudo, nossos pais compravam,
Com um carinho especial;
Nada de Papais Noéis!
Nada de árvores de Natal!

Sinos tocavam dentro da noite,
Fogos subiam riscando o céu!
Jesus brilha de luz num halo
– “Meia-noite canta o galo
Dizendo: – Cristo nasceu!”

Hoje tudo broma, falsete,
Não sendo para admirar,
Que o rádio diga sobre o presepe,
Jesus estava up-to-date
E Nossa Senhora very kar…

Minha filhinha, Papai Noel,
É uma figura tragicômica!
Não te iludas com seus enredos
Pois que no meio de seus brinquedos,
Virá um dia a bomba atômica!
……………………………………..

O altar armado da igreja à porta,
Tão lindo como nunca vi,
Cheirava a cravos, cheirava a rosas,
Cheirava a flor do bogari.

 

“E Paris é outro dia” cantada por Leo Lobos e filmada por Woody Allen

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Uma visita ao zoológico fantasma

por Leo Lobos

Livre da enfermidade, embora em meio à enfermidade
Yagyu Munenori

Tenho visto tanta merda de cão
nas ruas de Paris que devo
caminhar com cuidado à noite
é quando me parece então
escutar meninos e meninas fantasmas
rirem na fila de entrada do
zoológico que para eles ali se levanta:
um desfile de elefantes brancos cruza
a praça do Louvre fazendo
malabarismos com obras de arte e restos
de arqueologias extraterrestres, girafas
correm pelos Campos Elíseos comendo
as luzes natalinas que crescem em
suas árvores, baleias, delfins,
patos selvagens nadam pelo Sena
tragando turistas desprevenidos
que acendem flashes em seus narizes
leões copulam famintos
sobre os telhados como relíquias
de cristal de uma cidade iminente…
Hipopótamos ébrios se encalham em suas
ruas serpenteantes, em seus arcos triunfais,
em sua torre famosa…
Galeristas confusos
correm atrás de cavalos livres de
carrossel que levam gravada uma estrela
de ouro em seu flanco…
Bandos de aves tropicais cobrem a lua
de plumas de plástico que
ursos vestidos à la mode sopram
com ventiladores nucleares de
globos que intermitentes sobem
e descem por escadas invisíveis
que águias cegas trazem
de Nôtre-Dame…
Sinosnuvens carregados de
perfumes humanos chovem
no final desta noite sobre
o zoológico de plasma e tudo
retorna nos olhos de um gato
sabiamente
a ser luz solar
e Paris
é outro dia

—-

Entre os consagrados fantasmas literários filmados em Meia-Noite em Paris: Leo Lobos.

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Críticos viram Leo e Rimbaud caminhando de mãos dadas. Outros afirmaram que não. E sim Leo e Pablo Neruda confidenciando cenas picantes de amor e sexo vividas por Carlos Drummond de Andrade e Greta Garbo.

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Este aparecer apenas em cenas subliminares foi exigência do poeta chileno, conforme contrato assinado com Woody Allen.

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https://www.youtube.com/watch?v=fnNl7rjSNO0

 

 

A bunda, que engraçada

por Carlos Drummond de Andrade

 

picasso
A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica

Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora – murmura a bunda – esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.

A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.

A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.

Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.

A bunda é a bunda,
redunda

 

 

—-

Ilustração: Desenho de Picasso