NO MEIO DO CAMINHO

por Talis Andrade

A morte vem
com estardalhaço
salva de girândolas
retreta na praça

A morte vem
num tremor de terra
quando se abrem
as sete bocas
do inferno

A morte vem
quando você
atravessa a rua
e tropeça que
no meio do caminho
tem uma pedra
no meio do caminho
uma pedra
um carro sem freios
um cavalo em disparada

A vida uma andança
e mais que se ande
nunca se passa
do meio do caminho

Pra quê pressa
come devagarinho

Os quatro nomes e pecados da deusa Bruna Lombardi

 

ELOGIO DO PECADO
por Bruna Lombardi

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Ela é uma mulher que goza
celestial sublime
isso a torna perigosa
e você não pode nada contra o crime
dela ser uma mulher que goza

você pode persegui-la, ameaçá-la
tachá-la, matá-la se quiser
retalhar seu corpo, deixá-lo exposto
pra servir de exemplo.
É inútil. Ela agora pode resistir
ao mais feroz dos tempos
à ira, ao pior julgamento
repara, ela renasce e brota
nova rosa

Atravessou a história
foi queimada viva, acusada
desceu ao fundo dos infernos
e já não teme nada
retorna inteira, maior, mais larga
absolutamente poderosa.

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SEGUNDA CANÇÃO DE MARIO QUINTANA
por Talis Andrade

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A ti e ao teu poder invoco ó deusa
Tu podes conceder tudo que eu pedir
Teus passos se encaminhem para mim
Para mim se alarguem teus passos iluminando os caminhos
com sete raios azuis sete raios brancos sete raios vermelhos
Vem ó deusa incorporada em uma de tuas sacerdotisas
Patrícia Romilda Maria Teresa
Vem ó deusa das quatro faces dos quatro nomes terrenos
dos quatro mares das quatro luas das quatro partes do mundo
Vem ó deusa teus passos se encaminhem para mim

 

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Quando publiquei o Elogio do Pecado, no Jornalismo de Cordel, Antonio F. Nogueira, que assinava um blogue no portal Sapo, Portugal, comentou:

“A maioria realiza uma leitura totalmente errada deste poema de Bruna Lombardi. Que está, praticamente, em todas as antologias de poesia erótica. Não é nenhum poema maldito. Ou sensual. Escuto um canto que lembra um hino à Astarte, deusa do amor. Sua imagem mais conhecida: nua, quadris largos e mãos em concha abaixo dos seios arredondados. Adorada com diferentes nomes em todas civilizações antigas. Mãe e filha. Esposa e amante. Deusa da fertilidade, da vida e da morte. Astarte permanece representada nas seis deusas gregas”.

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Deusa Ishtar, estatueta representativa do século IV a.C.

Ilustrações: Diferentes representações da deusa

Da presença da luz em João Cabral de Melo Neto e Joaquim Cardozo

 

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DA PRESENÇA INVISÍVEL
de Joaquim Cardozo

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Através do quadro iluminado da janela
Olho as grandes nuvens que chegaram do Oriente
E me lembro dos homens que seriam meus amigos
Se eu tivesse nascido em Cingapura.

E aqueles que estiveram comigo nas horas concluídas
Ainda impressionam o ar
— Todos eles perderam-se no mar.

Agora, na praia deserta estou sozinho
— Caminho
Com os pés descalços na areia.

Nesta tarde morta o perfume das almas
Invade as enseadas, estende-se sobre os rios, paira sobre as colinas
— A Natureza assume a precária presença de um sonho;
Um trem corre sereno na planície dos homens ausentes;
Do fundo de minha memória sobe um canto de guitarras confusas;
Sinto correr de minha boca um rio de sombra,
A sombra contínua e suave da Noite.

 

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Joaquim Cardozo

Joaquim Cardozo e o Rio Capibaribe

Joaquim Cardozo e o Rio Capibaribe

A LUZ EM JOAQUIM CARDOZO
por João Cabral de Melo Neto

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Escrever de Joaquim Cardozo
só pode quem conhece
aquela luz Velásquez
de onde nasceu e de que escreve.

A luz que das várzeas da Várzea
onde nasceu, redonda,
vem até o ex-Cais de Santa Rita
que viveu: luz redoma,

luz espaço, luz que se veste,
leve como uma rede,
e clara, até quando preside
o cemitério e a sede.

 

 

 

 

Uma pedra no meio do caminho de Carlos Drummond de Andrade

NO MEIO DO CAMINHO
por Carlos Drummond de Andrade

 

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

 

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E s c o l h a
por Fabio Rocha

A D r u m m o n d

O meu Fábio é Fabio.
Nem nasci, tropeçavam em mim.

Tive então duas escolhas:
Ser pedra ou poeta.

 

 

(En)cena por Elienai Ferreira de Oliveira:

Carlos Drummond de Andrade:
o mito do homem que se fez poesia
Leia aqui

A voz de Luiz Alberto Machado

MINHA VOZ
de Luiz Alberto Machado

Quando minha voz é coragem de amar
No ultraje dos desencontros
E eu sou navio com rota esquecida
E naufrágios muitos
Quando um nublado olhar
Pousa em meu rio
É presságio que paira
No ventre da paixão
Quando minha voz é torrente de dor
No exagero sombrio de uma canção
Não é nada, é tempestade que passou
E deixou danos
Quando minha voz é a coragem de amar
Não é a sombra de um vendaval
É a sujeição de um eterno pavio
Que nunca se apagará.

 

POR ONDE CAMINHARMOS
de Meimei Corrêa

Luiz Alberto Machado 3

(Pra você, amado Luiz Alberto)

A voz, o riso, o canto
Cada dia que passa, meu encanto
Teu rastro me caça, tu me abraças
No dia que se manifesta
Na noite que em ti sou festa
És rio em meu mar
Sou mar, luar, sou teu amar
És meu florescer, viver
Sonho das madrugadas
Real existir
E vivo a sorrir pelos cantos
Mas também sou lágrimas, sou pranto
Se a saudade toma o teu lugar
És lenha na minha fogueira
Sou brasa na tua lareira
Somos par, sonhar, amar
Caminho a todo instante em tua direção
E tu me vens de encontro, dá-me tuas mãos
E pelas estradas da vida seguimos
Estou em ti, estás em mim
Sorrimos, vivemos, existimos
(Um no outro, por onde caminharmos).

 

Permanecer, caminhar, alegrar-se: palavras de ordem do Papa Francisco

Três verbos como orientação no caminho da vida: permanecer, caminhar, alegrar-se. Esta a proposta feita hoje pelo Papa Francisco a milhares de membros da Ação Católica Italiana, num efusivo encontro neste sábado, no Vaticano, na conclusão da 15.a Assembleia nacional que decorreu desde 30 de abril, tendo como tema “Pessoas novas em Cristo Jesus, corresponsáveis da alegria de viver”.
Primeiro verbo proposto pelo Papa: permanecer. “Convido-vos a permanecer com Jesus, a gozar da sua companhia. Para serdes anunciadores e testemunhas de Cristo, ocorre antes de mais permanecerdes perto d’Ele”.
Segundo verbo: caminhar. “Caminhar pelos caminhos das vossas cidades e aldeias e anunciar que Deus é Pai”. Encontrar o homem onde quer que se encontre, ali onde ele sofre e espera, escutando as suas verdadeiras interrogações, os desejos do seu coração.
Finalmente, alegrar-se, rejubilar. “Exultar sempre no Senhor! Ser pessoas que cantam a vida, que cantam a fé, pessoas capazes de reconhecer os próprios talentos e os limites, e de ver, mesmo nos dias mais sombrios, os sinais da presença do Senhor”.E o Papa contextualizou: “No atual contexto social e eclesial, vocês, leigos da Ação Católica, são chamados a renovar a ação missionária, aberta aos horizontes que o Espírito indica à Igreja, como expressão de uma nova juventude do apostolado laical. As paróquias precisam do seu entusiasmo apostólico, da sua plena disponibilidade e do seu serviço criativo”.

 

Isto significa, explicou o Pontífice, assumir o dinamismo missionário para que atinja a todos, sobretudo os que estão mais distantes e os mais fracos, esquecidos pela sociedade. Trata-se de abrir as portas para deixar Jesus sair pelas ruas.

 

 

Caminhos

por Carla Dantas

 

Carla Dantas

Carla Dantas



Essa é uma palavra que me arrebata
Absorve
Há aqueles que não precisam de pés (visíveis)
Há caminhos invisíveis no corpo
Há objetos que falam por si
Há momentos já vividos

Essa é uma palavra que aquece
Rastreia
Há caminhos na pele
Há aqueles estreitos
cortantes
que desenham os próximos passos
Há caminhos que abrem portais
e veem além do olho

 

Seleta de Antonio Nelson