Os quatro nomes e pecados da deusa Bruna Lombardi

 

ELOGIO DO PECADO
por Bruna Lombardi

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Ela é uma mulher que goza
celestial sublime
isso a torna perigosa
e você não pode nada contra o crime
dela ser uma mulher que goza

você pode persegui-la, ameaçá-la
tachá-la, matá-la se quiser
retalhar seu corpo, deixá-lo exposto
pra servir de exemplo.
É inútil. Ela agora pode resistir
ao mais feroz dos tempos
à ira, ao pior julgamento
repara, ela renasce e brota
nova rosa

Atravessou a história
foi queimada viva, acusada
desceu ao fundo dos infernos
e já não teme nada
retorna inteira, maior, mais larga
absolutamente poderosa.

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SEGUNDA CANÇÃO DE MARIO QUINTANA
por Talis Andrade

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A ti e ao teu poder invoco ó deusa
Tu podes conceder tudo que eu pedir
Teus passos se encaminhem para mim
Para mim se alarguem teus passos iluminando os caminhos
com sete raios azuis sete raios brancos sete raios vermelhos
Vem ó deusa incorporada em uma de tuas sacerdotisas
Patrícia Romilda Maria Teresa
Vem ó deusa das quatro faces dos quatro nomes terrenos
dos quatro mares das quatro luas das quatro partes do mundo
Vem ó deusa teus passos se encaminhem para mim

 

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Quando publiquei o Elogio do Pecado, no Jornalismo de Cordel, Antonio F. Nogueira, que assinava um blogue no portal Sapo, Portugal, comentou:

“A maioria realiza uma leitura totalmente errada deste poema de Bruna Lombardi. Que está, praticamente, em todas as antologias de poesia erótica. Não é nenhum poema maldito. Ou sensual. Escuto um canto que lembra um hino à Astarte, deusa do amor. Sua imagem mais conhecida: nua, quadris largos e mãos em concha abaixo dos seios arredondados. Adorada com diferentes nomes em todas civilizações antigas. Mãe e filha. Esposa e amante. Deusa da fertilidade, da vida e da morte. Astarte permanece representada nas seis deusas gregas”.

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Deusa Ishtar, estatueta representativa do século IV a.C.

Ilustrações: Diferentes representações da deusa

Tocaia de Bruna Lombardi

TOCAIA
por Bruna Lombardi

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Que o amor nos possuísse
no meio de um descampado
num jogo que não tem regra
nem pecado

Numa tortura lenta
com ritual absoluto
que o amor nos possuísse
doce e bruto

Que houvesse fuga e corrida
e grito agudo na boca
Que a dança fosse selvagem
e louca

Com maldade instintiva
guerra de unha e dente
todo impulso desmedido
corpo quente

Depois na hora do cerco
firmes os cinco sentidos
vem o animal e se envolve
atraído

Pra que dure mais o jogo
ora foge ora se entrega
se joga se abre provoca
depois nega

Cúmplice do adversário
de manso se defendendo
vai pouco a pouco à cilada
cedendo

Corpo todo se espalhando
no meio do descampado
na luta que não domina
é dominado

E aí segura a corrente
manseia cavalo brabo
na luta quem não é senhor
é escravo

Chegada a hora da posse
o momento mais violento
novilha presa arqueia
sem movimento

No meio do seu combate
foi afinal possuída
e geme pra essa morte
melhor que a vida

Se enrosca sentindo o gosto
de ter sido capturada
sabendo que foi vencedora
e derrotada

E depois de tudo resta
um cansaço ainda melhor
sorriso dentro do corpo
fora o suor

Que o amor nos possuísse
com sensação de perigo
no meio do descampado
como a dois inimigos.

Alain Chartier, por Edmun Blair Leighton (1903), sendo beijado por Margarida de Escocia

Alain Chartier, por Edmun Blair Leighton (1903), sendo beijado por Margarida de Escocia

 

 

TERCEIRA CANÇÃO DE MARIO QUINTANA
por Talis Andrade

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Deusa e musa abelha rainha
Abelha que beijou os lábios de Píndaro quando criança
predestinando-lhe a sina de poeta
Abelha que representa Krishna
A abelha azul sobre a fronte de Krishna
Ó deusa com teu mel as ninfas
no cume do Monte Ida alimentaram Zeus
Inebriante mel dos lábios de Margarida da Escócia
Mel concedido ao poeta Alain Chartier
que a bela Margarida encontrou dormindo
o sonho iniciatório das viagens imaginárias
o sonho místico dos visionários
o sonho profético da fala divina
o sonho revelado em versos
A um cortesão que pediu explicação
lembrou a radiosa rainha da França
Não beijei o homem Beijei a boca da qual saíram
e brotaram palavras boas e virtuosas
Ó deusa quem ousaria tanto

 

 

 

Bruna Lombardi uma mulher atriz, cineasta, poeta e jornalista

UMA MULHER
por Bruna Lombardi

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Uma mulher caminha nua pelo quarto
é lenta como a luz daquela estrela
é tão secreta uma mulher que ao vê-la
nua no quarto pouco se sabe dela

a cor da pele, dos pelos, o cabelo
o modo de pisar, algumas marcas
a curva arredondada de suas ancas
a parte onde a carne é mais branca

uma mulher é feita de mistérios
tudo se esconde: os sonhos, as axilas,
a vagina
ela envelhece e esconde uma menina
que permanece onde ela está agora

o homem que descobre uma mulher
será sempre o primeiro a ver a aurora.

 

Bruna

bruna 2

 

QUARTA CANÇÃO DE MARIO QUINTANA
por Talis Andrade

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Envia ó deusa uma de tuas sacerdotisas
para que as fadas não me seduzam
no rito de passagem e no estado transitório
eu não escute nenhum canto de sereia
Ó deusa eu pise a terra destinada de Pat Patite
Ó deusa que eu não me desvie da pureza da poesia

 

 

 

 

Bruna Lombardi: Que me venha esse homem

 

QUE ME VENHA ESSE HOMEM
por Bruna Lombardi

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Que me venha esse homem
depois de alguma chuva
que me prenda de tarde
em sua teia de veludo
que me fira com os olhos
e me penetre em tudo.

Que me venha esse homem
de músculos exatos
com um desejo agreste
com um cheiro de mato
que me prenda de noite
em sua rede de braços
que me perca em seus fios
de algas e sargaços.

Que me venha com força
com gosto de desbravar
que me faça de mata
pra percorrer devagar
que me faça de rio
pra se deixar naufragar.

Que me salve esse homem
com sua febre de fogo
que me prenda no espaço
de seu passo mais louco.

 

Poeta Mario Quintana em sessão de autógrafos na Feira do Livro ao lado de sua musa, Bruna Lombardi. Foto Correio do Povo

Poeta Mario Quintana em sessão de autógrafos na Feira do Livro ao lado de sua musa, Bruna Lombardi. Foto Correio do Povo

 

PRIMEIRA CANÇÃO DE MARIO QUINTANA
por Talis Andrade

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As mãos postas sobre a harpa
eu canto a ti embriagado de tua perfeição e poesia
Eu canto a ti exclusivamente
Recompensa o meu canto com a tua presença
Teus raios me iluminem no meio do nevoeiro
Teus raios me iluminem eu teu cavaleiro
na mais bela vestidura de guerreiro
uma túnica azul calcada de bronze
uma túnica de capuz com bordados vermelhos
Eu teu cavaleiro minha espada com punho de ouro
tem o teu nome gravado
e o nome da minha espada seja mais exaltado
que o nome altaneiro de Excalibur
Vem ó deusa de radiante beleza
vem receber no teu regaço a moeda divina
a dívida sagrada

 

 

Bruna Lombardi: “…E eu molhei os lábios sensualmente e pensei por que não?”

POR QUE NÃO?
por Bruna Lombardi

eu olhei e pensei por que não
dezesseis anos mais velho, seguro
homem de opinião e nenhum caráter
o velho truque do maduro
um ator na vida, e eu pensei por que não
vai ver é um menino com medo
vai ver se atrapalha
não, acho que não
deve ser um pouco canalha como todos são
um cruzar de pernas, um olhar grave
não sei direito o que se faz pra ser querida
uma posição mais provocante
uma atitude mais desinibida
logo eu que morro de vergonha
de tentar ser um pouco atrevida
logo eu
que o que cometo em sonhos
seria incapaz de cometer na vida

mas pensei por que não o estímulo de uma aventura
o prazer de ceder à tentação
é tão raro acontecer esse desejo, dura
tão pouco isso
a novidade
e depois não tem o compromisso da paixão

come e depois espalha pra cidade
aquela coisa machista insuportável
estilo gosta de levar vantagem
— chega de pensar bobagem —
não é possível que ele seja assim
ele é sensível, inteligente, um homem que chora
só falta agora um sopro de coragem, uma insinuação

e se ele for um sujeito compulsivo
maníaco depressivo, do tipo que atormenta
astral anos sessenta
e eu me arrepender profundamente
— o ruim do porre é a ressaca —
se for um cara babaca desses dose pra analista
se ainda for comunista do antigo pecezão
não, claro que não
ele é brilhante, contemporâneo, atuante
ativo da linha de frente
e eu molhei os lábios sensualmente
e pensei por que não?

 

 

bruna_lombardi

 

O UIVO
por Talis Andrade

Todas às vezes
que vejo Bruna
salivo como um cão
lascivo de Pavlov

Todas às vezes
que vejo
a foto nua de Bruna
uivo como um cão
uiva para a lua

 

 

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Poeta José Aloise Bahiaconciso. preciso. uivante. amante. com um ar e sabor de bruna… nota 10… gostei muito… 

 

Sob o Signo da Inquietação

por Bruna Lombardi

O susto em nós foi avançar
muito para dentro do proibido.
Muito para perto de uma zona perigosa
A boca da noite… o desconhecido…
Vagos caminhos de uma via nebulosa.

Vários conceitos para falar da mesma coisa
O susto em nós foi descobrir porteiras
de territórios nunca antes percorridos
No fundo de todos nós um visitante
No fundo, a falta de sentido…

Visitantes de nós mesmos cometíamos
a imprudência de quase enlouquecer
Para chegar à compreensão.
E uma coisa afiada nos conduzia
através da trilha da poesia
e do difícil trajeto da paixão….