Francisco Bandeira de Mello e Ariano Suassuna: Em que ponte do Recife se esconde o inimigo

SINTAXE
Francisco Bandeira de Mello

.

Sentir
o eixo
da palavra

sentir
o valor
axial
de tudo

e não
achar
nada

 

Ladyanne Nascimento

Ladyanne Nascimento

ENCONTRO COM CARONTE
por Talis Andrade

.

Na tarde avulsa
Francisco Bandeira de Mello
serenamente caminha
embora esteja acesa
a chama amarela do perigo

Chegou a hora precisa
de salvar Ariano
o imperador da Pedra do Reino
Chegou a hora de salvar o amigo
das mãos do velho Caronte
que amarrou o barco
em uma das mil pontes
do Recife

Na tarde avulsa
o franciscano Francisco
serenamente caminha
O importante
o saber pela intuição
não pelo instinto
Conhecer em que ponte
se esconde o inimigo

 

Fotografia Ladyanne Nascimento

Noturno de Ariano Suassuna

Ariano

Têm para mim Chamados de outro mundo
as Noites perigosas e queimadas,
quando a Lua aparece mais vermelha
São turvos sonhos, Mágoas proibidas,
são Ouropéis antigos e fantasmas
que, nesse Mundo vivo e mais ardente
consumam tudo o que desejo Aqui.

Será que mais Alguém vê e escuta?

Sinto o roçar das asas Amarelas
e escuto essas Canções encantatórias
que tento, em vão, de mim desapossar.

Diluídos na velha Luz da lua,
a Quem dirigem seus terríveis cantos?

Pressinto um murmuroso esvoejar:
passaram-me por cima da cabeça
e, como um Halo escuso, te envolveram.
Eis-te no fogo, como um Fruto ardente,
a ventania me agitando em torno
esse cheiro que sai de teus cabelos.

Que vale a natureza sem teus Olhos,
ó Aquela por quem meu Sangue pulsa?

Da terra sai um cheiro bom de vida
e nossos pés a Ela estão ligados.
Deixa que teu cabelo, solto ao vento,
abrase fundamente as minhas mão…

Mas, não: a luz Escura inda te envolve,
o vento encrespa as Águas dos dois rios
e continua a ronda, o Som do fogo.

Ó meu amor, por que te ligo à Morte?

Seleta de Thereza Rocque da Motta

A literatura brasileira perde três criadores em seis dias

‘VIVA O POVO BRASILEIRO’

BRA^BA_COR imortal

por Marcia Carmo/ El Clarin

 

 

A morte do escritor paraibano Ariano Suassuna, de 87 anos, nesta quarta, 23 de julho, após o falecimento do escritor baiano João Ubaldo, aos 73 anos, na sexta, 18, e do mineiro Rubem Alves, de 80 anos, no sábado, 19, causou comoção entre artistas, escritores e leitores nas redes sociais. Os personagens que criaram retrataram algumas das várias faces do Brasil.

Suassuna deixou livros e obras de teatro, TV e cinema que ajudam a entender, principalmente, o nordeste brasileiro. Uma região com uma cultura popular riquíssima da linguagem, aos gestos, história, gastronomia e outros costumes. Entre seus clássicos está “O auto da compadecida”, que é uma peça teatral escrita em 1955 e que em 2000 virou filme estrelado pela atriz carioca Fernanda Montenegro.

A obra é cômica e ao mesmo tempo dramática – outras características do nordeste brasileiro, onde muitas vezes nas casas, à sua maneira, riem mesmo diante de uma desgraça.

E foi a vida nordestina – até os 15 anos no estado da Paraíba e depois em Recife, em Pernambuco -que deu o combustível para Suassuna. Ele inovou. Criou também o Teatro Nacional do Nordeste, em 1960, e integrou a Academia Brasileira de Letras (ABL), inaugurada por Machado de Aiss em 1897.

Ali, na ABL, no centro do Rio de Janeiro, foi velado Ubaldo. Colunista do jornal O Globo, morava no Rio, e tinha o dom do observador bem humorado que retratava em seus textos.

Luxúria

Ele escreveu sobre a luxúria no livro ‘A Casa dos Budas Ditosos’, traduzido para o espanhol, onde uma baiana fogosa de 68 anos pratica seu erotismo numa vida apaixonada no Rio de Janeiro.

Ubaldo foi também o autor do clássico ‘Viva o povo brasileiro’, outro traduzido para o espanhol, que mistura realidade, ficção, heroismo, drama e comédia em diferentes etapas, passando pelo século XIX, com, por exemplo, a Guerra do Paraguai e a Guerra de Canudos, na Bahia.

Em outra vertente da literatura brasileira, Rubem Alves era teólogo, psicanalista, educador e autor de livros infantis. Ele é apontado como uma das sementes da Teologia da Libertação.

Para ele, a alegria era a essência da educação – algo que com seus estilos particulares bem entendiam e traduziam Suassuna e Ubaldo. “Matar padre dá um azar danado. Sobretudo para o padre”, diz um dos seus personagens em o Auto da Compadecida.

Mas provavelmente essa aqui foi uma das mais frases de Suassuna mais lembradas nas redes sociais nesta quarta. “O otimista é um inocente. O pessimista um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso.”

otimista

O Pensador

Faleceu na manhã deste sábado (19), às 11h50, o escritor Rubem Alves, aos 80 anos. A informação foi confirmada ao UOL pela assessoria de imprensa do Hospital Centro Médico de Campinas, onde Rubem estava internado desde o último dia 10 de julho.

Segundo o hospital, Rubem veio a óbito por falência múltipla dos órgãos. Ele estava na UTI por apresentar insuficiência respiratória devido a uma pneumonia. O escritor, psicanalista, teólogo e educador era considerado um dos maiores pensadores contemporâneos da educação no Brasil.

amor

Nascido em 15 de setembro de 1933 na cidade mineira de Dores da Boa Esperança, e autor de uma bibliografia de mais de 120 títulos, Rubem Alves é conhecido por sua grande contribuição à educação e por seus livros infantis.

Quando jovem estudou no seminário Presbiteriano do Sul, um dos mais conhecidos da América Latina, e tornou-se pastor de uma comunidade no interior de Minas Gerais. Acusado de subversivo pelo governo militar por pregar melhores condições de vida através da religião, e ficou exilado até 1968 nos Estados Unidos.

Em 1969 ingressou na Faculdade de Filosofia de Rio Claro, onde lecionou até 1974, quando foi para a Filosofia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), onde fez a maior parte da sua carreira acadêmica até se aposentar nos primórdios da década de 1990. Fez um curso para formação em psicanálise nos anos 1980 e manteve sua clínica até 2004.

rubem

Ariano Suassuna, o Imperador da Pedra do Reino

correio_braziliense. O Quixote

por Talis Andrade

Certa vez citei o nome oficial da capital da Paraíba. Ariano Suassuna disse: – “A cidade que nasci merece um nome honrado e digno”. Então brinquei: – Que tal Compadecida? Hoje defenderia a volta do Nossa Senhora das Neves, ou novos nomes como Augusto dos Anjos e Ariano, que conheci como secretário de Cultura do prefeito Antonio Farias (1975 – 1079). Eu, de Imprensa.

O projeto de Ariano, secretário da Cultura do Recife, foi colocar em prática o Movimento Armorial, definido como uma iniciativa artística, com o objetivo de criar uma arte erudita a partir de elementos da cultura popular do Nordeste Brasileiro.

Minha admiração por Ariano começou pela leitura do seu Teatro. Tenho as primeiras edições de O Castigo da Soberba (1953), O Rico Avarento (1954), Auto da Compadecida (1955), O Santo e a Porca (1957). Não conhecia a sua poesia, que passo a valorizar cada vez mais.

Apesar de todo o noticiário da mídia, da exploração política do nome, pode entrar em qualquer livraria do Recife, que não vai encontrar nenhum livro de Ariano e, principalmente, sua poesia.

Me transformei em um jornalista que divulgava as notícias do Movimento Armorial, repetindo o jornalista Gladstone Belo, também excelente poeta, que sucedi na Secretaria de Imprensa, pelo poder da indicação dele, que deixou o cargo para exercer o comando dos Associados.

As personagens de Ariano, no Nordeste moderno, foram moldadas em barro por Vitalino; em pedra, por Manoel Cazé, o maior escultor de Pernambuco, que permanece desconhecido de tudo e de todos.

Cazé construiu o Parque das Esculturas, em Fazenda Nova, idéia de um amigo do Jornal do Comércio, jornalista Plínio Pacheco (governo Nilo Coelho), que encontrou no poeta Francisco Bandeira de Mello, secretário de Cultura de Pernambuco (governos de Marco Maciel, Roberto Magalhães e Gustavo Krause), o patronato.

Ariano Suassuna não desconhecia os movimentos libertários nos sertões nordestinos, considerados heréticos no Brasil Colônia e no Brasil dos imperadores Pedros I e II; monarquistas, na República Velha; comunistas, no Governo Vargas; comunistas e subversivos nos 21 anos da ditadura iniciada em 1964, que persiste na grande mídia e nos quartéis das polícias militares.

Movimentos proféticos da resistência indígena catequizada, que ressurgem com as profecias do “herético” padre Vieira, e combatidos a ferro e fogo. Uma guerra “santa” que continua n’ O Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, e na segunda maior cidade da Bahia, construída por Antonio Conselheiro.

Na pregação deste reino, o Ariano revolucionário (quixotesco para a direita) disfarçado em monarquista: sendo armorial o conjunto de insígnias, brasões, estandartes e bandeiras de um povo. “A heráldica é uma arte muito mais popular do que qualquer coisa. Desse modo o nome adotado significou o desejo de ligação com essas heráldicas raízes culturais brasileiras”.

Que venha o governo do Imperador da Pedra do Reino.

Ariano e a Carnaúba

São José dos Campos

São José dos Campos

por Woden Madruga

Confesso a minha inquietude, aflição mesmo, acompanhando as notícias sobre o estado de saúde de Ariano Suassuna, internado num hospital em Recife, vítima de um acidente vascular cerebral. É grave o quadro. O grande escritor está com 87 anos. Fim de semana que passou andei por seus pagos, indo à Fazenda Carnaúba, município de Taperoá, na Paraíba, onde Ariano despertou para as artes: dramaturgo, romancista, poeta, ensaísta, artista plástico. Passei pelo terreiro de sua casa, menos de 100 metros dos alpendres do primo Manoel Dantas, Manelito, o anfitrião. Carnaúba realizava um grande festa por conta do seu “2º Leilão” onde se negociou bovinos das raças Guzerá, Sindi e Gado Pé Duro (sotaque de português, andar de piauiense), nove raças nativas de caprinos e sete de ovinos.

Só o empório (de acordo com o falar de Manelito) dessas cabras e bodes, ovelhas e carneiros, já é uma festa maior, nada igual por este Nordeste afora. Fantástico o trabalho de melhoramento genético dessas raças feito em Carnaúba. E é preciso dizer que tudo isso começou numa parceria de Manelito com Ariano, vaquejando cabras e ovelhas brasileiras pelos sertões nordestinos. O cenário da Fazenda Carnaúba, seus currais de pedra, suas baias, seus galpões, seus cercados que vão até ao pé das serras circundantes, aqui e acolá, as emas cruzando com as ovelhas Morada Nova e das Cabras Azuis, já acarinha e comove o visitante. Paisagem que lembra um castelo ibérico erguido em terras pedregosas da Galícia.

Lá estavam criadores e técnicos (agrônomos, zootecnistas, veterinários) de várias partes do Brasil. Muitos sotaques, prosas deliciosas, encontros e reencontros de velhos companheiros. Fazia frio em Taperoá e caia uma chuvinha fininha, peneirando. Tempo para uma, tantas doses de cachacinha ou três dedos de uísque. Fazia frio, mas os negócios foram quentes. Preços bons para o gado Sindi, um pouco menos para o Guzerá, ótimos para as cabras e ovelhas. O resultado deve ter sido do agrado de Manelito e de seus meninos.

O Dia D da Fazenda não foi somente de venda de bois, vacas, cabras e ovelhas. Num de seus galpões (pé direito de três metros) montou-se uma exposição de arte com a pintura de Manoel Suassuna Dantas, a tapeceira de Ariano e Zélia Suassuna, o artesanato de couro dos artesãos de Cabaceiras e seus arredores, a feirinha dos famosos queijos e cremes (leite de cabra) da Carnaúba e as geleias, doces e compotas (mangaba, umbu-cajá, araçá, manga, pitanga, goiaba, jaca, caju com pimenta rosa, maracujá, ubaia e eteceteras) fabricadas pela Sobores da Vivenda, tempero potiguar da Fazenda Vivenda do Vale, que fica em Ceará Mirim, e que pertence ao casal Fernanda e Gustavo Câmara, agrônomos. Seus produtos fizeram o maior sucesso. Completando os espaços do grande galpão a cozinha montada por Adriana Lucena, peagadê em culinária e pimentas. Filas para seus sanduíches e os pratinhos feitos com carnes de cabrito, cordeiro e de porquinhos meide Piauí criados na Carnaúba, acompanhados de arroz da terra, batata doce, purê de jerimum caboco e farofinha.

Foi no galpão que conversei com o pintor Manoel Suassuna Dantas sobre o seu pai. Ariano retomara suas aulas-espetáculo, estava concluindo o novo romance e fora convidado para a Flipipa de agosto. Me presentou com o catálogo da exposição com a qual inaugurou em agosto de 2011 a sua Oficina Cabeça de Cabro, em Taperoá. No catálogo tem um texto manuscrito assinado por Ariano e Zélia. Manoel Dantas divide o tempo de artista entre Recife e Taperoá. Ultimamente executa o projeto “Pelo Caminho Sagrado”, seguindo as trilhas de Antônio Conselheiro, de Quixeramobim, no Ceará, a Belo Monte/Canudos, na Bahia. No documentário, Manoel Suassuna Dantas se veste de Antônio Conselheiro.

Falou ainda de outro projeto. Documentar os caminhos percorridos por Ariano por vários lugares do Nordeste, alguns também trilhados pelo avô João Suassuna. No Rio Grande do Norte lembrava de três lugares: Natal, Mossoró, Lajes e Martins.

Sempre é um encanto uma ida a Carnaúba.

ARIANO SUASSUNA (MESTRE DA CULTURA POPULAR). EITA PARAIBANO ARRETADO !!!

BRA_JP ariano paraíba

NO PALCO ETERNO DO MUNDO DISTANTE DO BERÇO PRIMEIRO

por Walter Santos

Sobre Ariano Suassuna nada mais precisa ser dito. O Planeta intelectual brasileiro já o fez ao assimilar o Mestre das palavras e dos enredos, por isso pouco acrescentará de agora em diante. Mas há um vazio histórico registrando 87 anos de angústia e de desprezo dele para com seu passado quando se trata de relacionar-se com a referência de João Pessoa (o personagem, sobretudo) respingando na sua relação com a aldeia Paraiba levando-o aos braços de Pernambuco, onde quis guardar seus restos. Mesmo que não queira, agora é tarde, a História o faz personagem de vida iniciada na então Parahyba nascendo no Palácio da Redenção, na Capital Paraibana, só que isso de nada mais adiantou enquanto apelo afetivo. Será o Nego da bandeira, a cultura de caranguejo ou nossa má sorte de ter nossos Heróis cultuados nos braços dos outros, mesmo fortes como Pernambuco? De qualquer forma, nada supera a dor e o amor que seus conterrâneos devotaram e hão de devotar para sempre.

ariano na platéia

REFLEXÕES SOBRE JOÃO GRILO

por Celso Marconi Lins

Ariano deitado num leito de hospital, sofrendo com as dores de um AVC, é um momento fundamental para a reflexão, pois há dois dias atrás ele estava palestrando no Teatro Souto Dourado, em Garanhuns, falando sobre o seu amigo compositor Capiba e, inclusive, falando que o seu personagem João Grilo não é nenhum anti-herói, mas sim um herói, pois ele vence todos os componentes do espectro social como o padre e o bispo, a religião e o fazendeiro, e o dono da padaria e da farmácia, e todos os demais integrantes da burguesia. Então, por que ele não seria um herói?

Só que Macunaíma também vence todos os participantes que lhe passam à frente, inclusive vence o preconceito brabo racial, passando de preto para um legítimo representante dos brancos, e no filme de Joaquim Pedro de Andrade, Macunaíma é primeiro representado por Grande Otelo, preto, e depois pelo branco Paulo José, inclusive com os cabelos louros, mas nem por isso deixa de ser um anti-herói porque anti-herói é o herói que vence, mas não pelos termos oficiais. Vence sub-repticiamente. Vence pela valentia que aparenta uma covardia, e não pelas posições que o oficialismo tem como vitoriosas. João Grilo vence pela astúcia, pela força do mais fraco, mas muito mais sabido e mais inteligente.

O personagem criado por Ariano, através da figura popular de João Grilo e, também, de Xicó, vem do folheto de cordel numa brilhante adaptação e numa verdadeira apropriação da cultura popular riquíssima.

Talvez as suas origens burguesas façam com que Ariano não veja que seu teatro chegou até mesmo onde talvez sua ideologia não poderia ter seguido, mesmo que, externamente, seu desejo seja ir muito além no caminho do popular e não se fechar.

Bairro novo Olinda, 22 julho 2014

Ariano Suassuna, nacionalista e popular

Diário reinando mágico

por Urariano Mota

Ariano Suassuna, pelo menos há mais de 30 anos, esteve sempre em pleno exercício da glória. Contrariando o adágio de que ninguém é profeta em sua terra, Ariano Suassuna é, foi querido em Pernambuco, na Paraíba, no Brasil e no mundo. Sem deixar Pernambuco. Sem deixar o bairro de Casa Forte, onde morava. Ainda a semana passada em Garanhuns, no Festival de Inverno da cidade do interior de Pernambuco, para ouvi-lo as filas dobravam esquinas, ou quarteirões, como se chamam em São Paulo.

Caso raro também de escritor, ele sabia falar, tão bem ou melhor que escrevendo. Ele usava a fala, o dom de contar estórias, como poucos atores já vi até hoje. Os atores de palco, os humoristas de profissão, até mesmo os do gênero que chamam agora de comédia stand-up, um nome que Ariano teria horror, stand-up, fiquem de pé, em pé, por favor, para melhor estudá-lo. E não adianta fazer dele a caricatura, os traços exteriores, porque o fundamental do escritor, a complexidade do ser, a cultura e vivência são irreproduzíveis.

Ele dizia: “A minha voz é feia, fraca, baixa e rouca, eu tenho essa dificuldade”. E ganhava de imediato o auditório, com um sem se dar importância, como um ótimo ator e estudioso da psicologia humana, do público, que ele mantinha na rédea, à mão. “Eu sou um palhaço frustrado”, ele dizia nas palestras. Insuperável em contar histórias, todas acontecidas. Como a história dos doidos, na inauguração de um hospital para loucos na Paraíba. Na inauguração do sanatório, que aplicava a psicoterapia do trabalho, os doidos entraram em fila com os carros de mão. Um deles entrou com o carro invertido, virado. Ao ser recriminado, o louco diferente respondeu: “eu sei, doutor, que o meu carro está errado. Mas se eu botar o carro certo, eles botam pedra pra eu carregar”. E Ariano dizia que admirava os loucos porque eles têm um ponto de vista original, como os escritores devem ter.

Noutra, ele contava que o doido oficial de Taperoá, terra natal, ficou uma vez com o ouvido colado num muro da cidade, e as pessoas começaram a imitá-lo, pondo o ouvido no muro também. Até que uma pessoa normal, com o ouvido no muro, reclamou pro doido oficial: “eu não estou ouvindo nada”. Ao que o doido oficial respondeu: “Não é? Desde manhã que tá assim”. Era um sucesso absoluto no auditório.

Na homenagem que faço a ele, no Dicionário Amoroso do Recife, escrevi:

“…tudo o que Chico Anysio, Lima Duarte e Rolando Boldrin tentam fazer na televisão, conversando, há muito Ariano vem fazendo: ele é um humorista narrador de casos, ajeitados à feição de vivíssimos causos. Ele é um showman sem smoking, metido em roupa de caroá, ou em calça e camisa de brim cáqui… (Mas em se tratando de Ariano Suassuna, melhor dizê-lo palhaço sem fantasia na vestimenta)

a gente não sabe se Ariano Suassuna criou o seu personagem, ele próprio, Ariano, ou se o seu personagem criou o narrador de auditório, Ariano. Conversando, ou melhor, somente ele falando, parece que conversa, porque ele narra de um modo que nos mergulha no meio da sua narração. Ele gera a ilusão da conversa pela comunhão, até mesmo pela cumplicidade, com os fatos narrados.

Ariano, ‘conversando’, é ator de picadeiro sem trejeitos ou caretas, que substitui pelos movimentos da voz, pelas inflexões na fala, pela escolha de palavras chãs, pelo rasgo de olhos pícaros que nos fitam, acompanhando o efeito das armadilhas que lança. Ele narra nesse ator – ele próprio – pela ambientação que situa, uma ambientação absolutamente econômica de cenários, cenários só personagens, e, o que reforça a ilusão de conversa, ele aparenta ser também ouvinte, quando na verdade faz pausas de radar, para ver como se refletiram aqueles sinais que lançou”.

Foi um nacionalista sem trégua. Amante do povo brasileiro, amante incurável, sem remédio ou subserviência. Dizia ele, lembrando Machado de Assis: “ ‘No Brasil existem dois países: o Brasil oficial e o Brasil real’. Eu interpreto”, dizia Ariano Suassuna, “que o Brasil oficial é o nosso, dos privilegiados. E o país real é o do povo. E Machado dizia: ‘o país real é bom, revela os melhores instintos. Mas o país oficial é caricato e burlesco’”. Falava mais Suassuna: “a classe dirigente do Brasil quer que o Brasil seja uns Estados Unidos de segunda ordem. Eu não quero nem que seja Estados Unidos de primeira. Eu quero que o Brasil seja o Brasil de primeira..”. Amado por todos, até mesmo pela vanguarda, que ele mais de uma vez hostilizou. É verdade, ele era um conservador em matéria de costumes e de arte. Pra se ter uma ideia, ele nunca aceitou o teatro de Nelson Rodrigues, por achá-lo um amontoado de perversão e perversidade. Mas isso pouco importa agora. O mais importante é destacar que ele era um humanista, um conhecedor de humanismo clássico, um homem cultíssimo, que falava sobre a literatura picaresca na Espanha antes de Cervantes. Um erudito que se disfarçava bem na fala de sertanejo, no sotaque pernambucano, nordestino entranhado.

No seu amor pelo povo, no nacionalismo que busca o melhor da civilização brasileira, era um exemplo a ser seguido por todos escritores brasileiros.

O cavaleiro Ariano Suassuna

por José Inácio Vieira de Melo

 

Inácio

O cavaleiro Ariano Suassuna, montou no seu alazão e, conduzido pelo mestre Dominguinhos, encantou-se pelas plagas dos céus, foi encontrar com a Compadecida e com seu pai, João Suassuna, para quem fez este extraordinário soneto:

A ACAUHAN – A MALHADA DA ONÇA
(com mote de Janice Japiassu)

Aqui morava um Rei, quando eu menino:
vestia ouro e Castanho no gibão.
Pedra da sorte sobre o meu Destino,
pulsava, junto ao meu, seu Coração.

Para mim, seu Cantar era divino,
quando, ao som da Viola e do bordão,
cantava com voz rouca o Desatino,
o Sangue, o riso e as mortes do Sertão.

Mas mataram meu Pai. Desde esse dia,
eu me vi, como um Cego, sem meu Guia,
que se foi para o Sol, transfigurado.

Sua Efígie me queima. Eu sou a Presa,
Ele, a Brasa que impele ao Fogo, acesa,
Espada de ouro em Pasto ensanguentado.

 

 

Governador João Suassuna

Governador João Suassuna

ARIANO VILAR SUASSUNA
(Nossa Senhora das Neves – PB, 16/06/1927 – Recife-PE, 23/07/2014)

Francisco Bandeira de Mello, um poeta armorial e homem público de exemplar pernambucanidade

Francisco Bandeira de Mello

Francisco Bandeira de Mello

 

No fatídico dia 7 de outubro de 2011, o Jornal do Comércio publicou a seguinte notinha: “O poeta, escritor e jornalista Francisco Austerliano Bandeira de Mello, 75 anos, morreu na madrugada desta sexta-feira (7), no Recife, vítima de um ataque cardíaco. Francisco estava internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Santa Joana.

Durante décadas, foi articulista do Jornal do Comércio, onde relatava suas memórias. Bandeirinha, como era conhecido, participou do projeto do Centro de Convenções de Pernambuco (Cecon) e foi secretário de turismo, cultura e esportes”.

A notinha comprova que o JC perdeu toda sua grandeza, e virou um jornaleco de secos & molhados para, no balcão dos negócios obscuros, vender os interesses imobiliários de seu proprietário, um enriquecido coronel de asfalto.

Centro de Convenções 1

Centro de Convenções

Centro de Convenções

Francisco Bandeira de Mello jamais foi conhecido como “Bandeirinha”, e assim era chamado pelos mais íntimos amigos e familiares.

Escreveu Vicente do Rego Monteiro: “Queremos incluir entre os poetas da Escola do Recife, o nome do autor da “Máquina de Orfeu”, pequena máquina à retardement com percussão a distância e teleguiada. Francisco Bandeira de Mello que: ‘traz na bainha uma flecha de ouro,/ no brasão, em velhíssimo vermelho,/ um hierofante, uma moça nua”.

Ariano outro amigo, escreveu o seguinte poema:

BANDEIRA POETA ARMORIAL

Bandeira, poeta cortesão,
Bandeira, poeta armorial,
ó claro bardo provençal,
de galo, peixe e hierofonte,
de fauno bêbado e bacante,
do sal, do sol, do mar, do mal.

Bandeira canta como moço
e à morte fala como velho
– mago Bandeira, águr do só!
Do espinho, sol quase vermelho,
do condenado ao pé do espelho,
do solo amargo, do negro pó.

Bandeira fiel a sua amada,
Bandeira fiel ao seu amigo.
Cantar de amor, cantar de amigo
e a morte sempre desejada,
chama amarela do perigo.

Estás e estamos todos na ponte
do velho diabo, nosso inimigo.
Já chega a barca de Caronte:
Bandeira – arqueiro, poeta, fonte,
quero salvar-me mas não consigo!

Bandeira sim, nunca Bandeirinha. Ariano podia, nas conversas amigas, talvez usasse, carinhosamente, Bandeirinha.

A notínha esquece que Francisco Bandeira de Mello foi Secretário de Cultura e Turismo dos governos Marco Maciel, Roberto Magalhães e Gustavo Krause. E secretário de Josué de Castro, participou da equipe que criou a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO).

Transcrevo do verbete Francisco Bandeira de Mello da Enciclopédia Nordeste:

Poeta, jornalista, advogado, nasceu no Recife em 24 de abril de 1936.

Presidente da Empresa Pernambucana de Turismo e, depois, secretário de Turismo, Cultura e Esporte do Estado de Pernambuco.

Em 1955: prêmio de Poesia do Estado de Pernambuco, com o livro “Pássaro Narciso”.

Redator do Jornal do Comércio do Recife.

Publicou, entre outros, o livro de poemas “A máquina de Orfeu”, “O Sol Amargo” e “Poemas Didáticos”.

Membro da Academia Pernambucana de Letras.

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O HOMEM DE PEDRA

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Hoje deu-me náuseas

a arte: força é cantar

os ritmos do escuro

as rosas sepulcrais

o nosso barro imóvel?

.

O mundo: caos e ordem.

E os nossos olhos flamam

de sonhos, no sal longínquo

dos lagos da espera.

.

Apagam-se as rosas

belas e verdes, na noite.

Ficamos sós embebidos

de esperanças e cinzas.

.

Quem estamos nós

quando estamos sozinhos?

que sol corrói nossa alma

perfumada e escura?

.

Prisioneiros, um dia

vestimos nossa mão de luta

de roxas desilusões

e pálidos abismos.

.

Prisioneiros, um dia

vestimos nossa mão

de luta, comícios de pedra.

(A máquina de Orpheu)

 

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VELHO TEMA

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Só eu sinto o que sinto

e mais ninguém

(e isto me consola também).

.

Quando eu vou pelas nuvens

de acanto

solitário e tranquilo

que coisas pergunto

além do meu brilho?

.

Porque bebo tanta cinza

se já sou maior

se já tenho patente

de ser o que sou?

.

Vou pela estrada sem brilho

sozinho sem ninguém

como se das trevas extrair

pudesse

a lembrança de alguém.

.

Depois eu sei que sou um quarto

do que poderia ser

uma estrela que brilha

com tal estribilho

que não sei viver.

(A máquina de Orpheu)

(Extraído da antologia A NOVÍSSIMA POESIA BRASILEIRA. Seleção de Valmir Ayala. Rio de Janeiro: 1962. (Série Cadernos Brasileiros, 2)

 

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O EQUILIBRISTA

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Tocávamos clarinete na corda bamba

subíamos às altas torres do Egito

passeávamos de pára-quedas

no sol sem fim dos dias de fogo

subíamos à capota do avião

por cima das nuvens

recitávamos poemas à lua

tocando nela.

.

Andávamos nos parapeitos dos edifícios

de um pé só na balaustrada dos abismos

não caíamos dos fios metálicos do circo

andando de cabeça para baixo

nem do alto da torre Eiffel correndo

sonâmbulo.

Só na vida é que não nos equilibrávamos.

 

Fonte: antoniomiranda

 

Francisco Bandeira de Mello exerceu diferentes funções no Jornalismo, numa redação do Jornal do Comércio repleta de poetas, de nomes como Carlos Pena Filho, Eugênio Coimbra Jr, Audálio Alves e Ladjane Bandeira.

Secretário de Cultura, contrariou os interesses da agiotagem imobiliária, promovendo o tombamento de sítios históricos, além de rua e casarios.

Promoveu a interiorização do turismo pernambucano, incentivando a construção de hotéis nas principais cidades, e criando um calendário de eventos.

 

Parque das Esculturas Nilo Coelho 2

Parque das Esculturas

Parque das Esculturas

UM HOMEM NO MUNDO

por Talis Andrade

A Francisco Bandeira de Mello

Na tarde avulsa
no longo hoje de cada dia
o franciscano Francisco
Bandeira de Mello
serenamente caminha

Andanças no mundo
com Josué de Castro
andanças no Recife
com João Cabral de Melo Neto

Andanças de cavaleiro andante
desejoso de viver o seu tempo
enchendo-o de coisas
Andanças de retirante
com a fome endêmica de sua gente
fome de sonhos precisamente

Andanças de menestrel
que pretende imortalizar
os viventes dos alpendres e ruas
preferencialmente os que possuem
o amargo sol do nordeste

Andanças de construtor
No Parque das Esculturas
deu vestes de pedra
aos habitantes do deserto
E no longo hoje de cada dia
possível ver
cantadores e violeiros
beatos e benzedeiras
cangaceiros e mulheres rendeiras
nos ermos da terra agreste

 

Publicado in Literário

e Vinho Encantado, Talis Andrade, Livro Rápido, Olinda, 2004