Pena de morte. Polícia do Rio condena menino de onze anos

O negrinho Patrick executado pela polícia

é enterrado no dia em que faria 12 anos

 

Patrick, 11 anos

por Bernardo Costa/ Extra

 

“Parabéns para você”. Foi o que cantaram amigos e parentes de Patrick Ferreira de Queiroz pouco antes de seu sepultamento, na tarde deste sábado, no Cemitério do Catumbi. A criança faria 12 anos hoje, e o que era para ser um dia de festa, se tornou um momento de tristeza e luto para a família. Patrick foi morto por um tiro de fuzil disparado pela polícia, durante operação no Complexo do Lins, na quinta-feira.
— Toda esta gente que está aqui hoje iria jogar uma dúzia de ovos na cabeça do meu filho, para comemorar o aniversário dele. Em vez disso, meu filho está recebendo é uma pá de cal — desabafou Daniel Pinheiro de Queiroz, de 48 anos, pai de Patrick: — Revolta eu já não tenho mais. Vou entregar na mão de Deus e procurar os nossos direitos.

 

Parentes e amigos cantam ‘Parabéns para você’ antes do sepultamento Foto Fabiano Rocha

Parentes e amigos cantam ‘Parabéns para você’ antes do sepultamento Foto Fabiano Rocha

Uma vizinha, que não quis se identuificar, contou que moradores do Morro da Cachoeira Grande, onde Patrick foi morto, preparavam uma festa surpresa para ele:
— Iríamos comprar bolo, guaraná… Essas coisas de criança.
Momentos antes de cantarem “Parabéns para você”, o pai pediu que o caixão fosse aberto novamente para olhar para o rosto do filho pela última vez. Amigos e parentes aproveitaram para jogar rosas sobre o corpo, enquanto rezavam e cantavam músicas religiosas.
— Agora nós esperamos que a justiça seja feita — disse Scarlete Ferreira de Queiroz, de 20 anos, irmã de Patrick.

O velório de Patrick Foto Fabiano Rocha / Agência O Globo

O velório de Patrick Foto Fabiano Rocha / Agência O Globo

Segundo nota divulgada pela Coordenadoria de Polícia Pacificadora no dia da morte de Patrick, ele estava com uma pistola, uma mochila com drogas e um rádio transmissor no momento em que foi baleado durante uma troca de tiros. A família contesta a versão.

 

[Ninguém mais acredita na versão policial depois do caso Amarildo. Para a polícia comandada por Pezão, Patrick era o bandido mais perigoso da favela. Onze anos de criminalidade, desde quando nasceu pintado de negro]

 

‘Cadê a pistola?’, questiona pai de menino morto durante tiroteio em UPP

Moradores da Camarista Méier dizem que não havia arma perto de corpo da criança

 

por Flavio Araujo
Rio – No dia em que completaria 12 anos, Patrick Ferreira de Queiroz não vai ganhar brinquedos ou bolo de aniversário. Deverá receber apenas flores em seu enterro, que possivelmente será marcado para este sábado. O garoto levou três tiros nas costas na manhã desta quinta-feira, durante operação policial no Morro da Cachoeira Grande, Complexo do Lins. Segundo o pai do garoto, o ajudante de caminhão Daniel Pinheiro de Queiroz, 48, Patrick foi alvejado por PMs da UPP Camarista Méier.
Em nota a Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP) afirmou que houve troca de tiros com traficantes. Segundo o texto, com o garoto foi apreendida uma pistola, uma mochila e um rádio transmissor. “Cadê a pistola?”, questionou o pai do menino no Instituto Médico-Legal, onde não conseguiu liberar o corpo do filho, que foi removido sem documentação.

 

“Balearam Patrick perto da minha casa. Quando saí, ouvi que ele pedia socorro, mas os PMs isolaram o local e me ameaçaram. Disseram que se eu fosse socorrer meu filho, seria o segundo cadáver”, contou Daniel. Ele diz que não havia qualquer pistola no chão, perto do corpo do garoto. “Disseram que um morador tentou pegar a arma e a recolheram”.
O clima na comunidade ficou tenso durante todo o dia, com reforço de patrulhamento e parte do comércio fechado no Morro do Gambá, Cachoeira e Cahoeirinha, além de todo o entorno do Hospital Marcílio Dias.
A morte do menino chocou os vizinhos. A prima Denise da Silva, que mora ao lado, quase desmaiou ao ver o corpo de Patrick. “Ele tinha três buracos nas costas e o pulmão saiu pela frente do corpo”, contou.
Dois policiais da UPP Camarista Méier, que patrulhavam nesta quinta à noite a comunidade, disseram que Patrick foi apreendido na semana passada com drogas e levado para a 25ª DP (Engenho Novo). De acordo com o relato, ele teria chorado muito na delegacia, disse estar arrependido e que não trabalharia mais para o tráfico. Eles contaram também que o garoto ameaçava os PMs pelo rádio e já tinha trocado tiros com algumas guarnições.
A irmã do garoto, Scarlet Ferreira de Queiroz, 20, desmente a informação de que o ele teria ligação com o tráfico. “Era um menino medroso, não brigava na rua. Então, como ele iria enfrentar a polícia?”. A UPP Camarista Méier foi inaugurada em 2013. Em outubro do ano passado, na mesma região, dois contêineres foram incendiados, deixando três feridos. O registro foi feito na 25ª DP, que apreendeu as armas dos PMs. As investigações estão a cargo da 26ª DP (Todos os Santos). A CPP abriu Inquérito Policial Militar para apurar o caso.

— Tinha arma. Mas quem vai falar que não foram eles que colocaram?

por Rafael Soares

Patrick Ferreira Queiroz, de 11 anos, foi atingido por um tiro de fuzil na axila por volta das 15h de quinta-feira. Segundo registro de ocorrência feito na 25ª DP (Engenho Novo), com Patrick foram apreendidos uma pistola calibre 9mm, um radiotransmissor e uma mochila com maconha, cocaína e crack. O delegado Niandro Ferreira, que acompanhou a perícia, registrou o caso como morte decorrente de intervenção policial. Os três PMs envolvidos no caso relataram na delegacia que atiraram porque viram a arma da mão do menino. Quando o delegado chegou ao local, a arma já havia sido recolhida pelos policiais.

 

[Vamos supor que Patrock era o mais perigoso bandido. Por que três homens, treinados para matar, não conseguem dominar uma criança de onze anos? Já pensou esses valentões diante de um bandido de maior idade? Vão mijar nas calças. A covardia e a crueldade já estão comprovadas. Não foi “bala perdida”. Foi um tiro de fuzil de longe. E mais um, e dois, e três, quando se aproximaram do cadáver do garoto. Bandido nessa história corriqueira é a polícia de dia, que vira milícia de noite]

 

Ontem pela manhã, o pai de Patrick negou que o garoto estivesse armado quando foi morto por PMs. Daniel Pinheiro de Queiroz, de 48 anos, acusa os PMs de terem plantado a pistola que disseram estar nas mãos do menino.
— Tinha arma. Mas quem vai falar que não foram eles que colocaram? Só vi ele com uma mochila e um radinho. Como um garoto de 11 anos vai ter pistola? — disse Daniel, enquanto cuidava da liberação do corpo do menino no Instituto Médico-Legal (IML).
A Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP) sustentou, por nota, a versão de que Patrick integrava o tráfico no local e estava, além da arma, com maconha, cocaína, crack e um radiotransmissor.
Lanchonete
Segundo a família de Patrick, o menino havia abandonado a escola há seis meses, mas trabalhava numa lanchonete na favela. “Não se negava a fazer nada para ninguém. Era trabalhador. Trabalhava numa lanchonete”, afirmou o pai, que morava com Patrick e seu irmão mais velho, até este ser apreendido na Operação Elo de Paz.
Já a prima de Patrick, Denise Balu da Silva, de 24 anos, afirmou, no IML, que o menor brincava na rua quando foi morto. “Queremos uma resposta das autoridades. Vou lutar para a morte dele não ser em vão. Ele era como um filho para mim”, contou Denise, emocionada.
Scarlet Ferreira de Queiroz, de 20 anos, irmã de Patrick, criticou a ação da polícia. Segundo ela, os PMs retiraram do local do crime a pitola que diziam estar com Patrick. “A arma tinha que ficar lá. Se ninguém podia chegar perto, por que eles tiraram a arma? Não deixaram nem cobrir o corpo”, afirmou Scarlet.

 

 

pena de morte

Timur Vermes e a ironia nazista

Em nenhum momento Timur Vermes quer reabilitar a imagem do ditador. Pelo contrário, o que Ele está de volta busca é destronar as vacas sagradas, confrontando a mística social que sustenta essa aura grave do passado alemão.

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por Igor Nasf

 

 

 

A eterna dúvida sobre os limites do humor lembra o dilema existencial da vaca. Se nasce em regiões específicas da Índia, é considerada uma divindade, adorada. Se vem ao mundo no Mato Grosso, em geral é retalhada e servida em churrascarias. São usos diversos, mas a mesma vaca.

Sociedades diferentes tem escrúpulos diferentes, dizem. No Brasil, por exemplo, se convencionou que ditadura militar é um tema excessivamente grave. Fazer piada com o assunto seria equivalente a um sul-africano ironizar o apartheid, a um argentino fazer pouco das Malvinas, a um alemão escrever um livro bem-humorado sobre Hitler, certo?

Errado. Em Ele está de volta, Timur Vermes desconstrói o mito da intocabilidade do nazismo na Alemanha. Mais: não só aborda campos de concentração, nacionalismo extremo e questões raciais, como faz tudo isso de maneira mais inteligente que a média.

No romance, Hitler narra em primeira pessoa seu despertar em pleno século XXI, num parque de Berlim, depois de perder a consciência no bunker. Desorientado, caminha pela cidade, até ser acolhido pelo dono de uma banca de revista. Depois, numa sucessão de outras coincidências fantásticas, o ex-chanceler do Terceiro Reich consegue trabalho como humorista num programa de televisão, disseminando seu “discurso” ariano ao povo alemão. Novamente.

O sucesso é extraordinário. Intelectuais, jovens e parte da imprensa celebram o novo comediante como fenômeno da liberdade de expressão, descongestionador das velhas estruturas da Alemanha ocupada, essencialmente um poeta pós-moderno que vive intensamente seu personagem. O grande mérito do livro é, através de uma análise irreverente da sociedade alemã, tornar a ascensão de Hitler a ícone cultural um evento natural. Mais ou menos como deve ter sido na República de Weimar, nos anos 20 e 30.

Em nenhum momento Vermes quer reabilitar a imagem do ditador. Pelo contrário, o que Ele está de volta busca é destronar as vacas sagradas, confrontando a mística social que sustenta essa aura grave do passado alemão.

 

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A História não ensina nada, a grande pedagogia da vida é uma lição vazia. O que se aprendeu com Dachau, Belsen e outros campos de concentração? Em qualquer dia, na África e em outros lugares, são cometidas mais atrocidades do que gostaríamos de admitir. Pior: com uma indiferença da nossa parte que pode ser lida quase como aprovação.

Demolir as questões “sérias” já é manter uma atitude mais humana diante delas – diferente da obediência automática travestida de respeito, digna de androides. O grande Kurt Tucholsky (alemão massacrado pelos nazistas) já escrevia que o motivo pelo qual algumas sociedades prezam tanto por valores caninos como fidelidade, é porque o cachorro defende com entusiasmo cretino a propriedade e a autoridade, que no final só servem à redução do cachorro ao que ele é: um animal doméstico, dócil, felizmente idiota.

Como muito bem se lê no livro de Vermes, só a irreverência realmente é capaz de desafiar esses deuses que selecionam tópicos e definem o que é e o que não é. O mundo precisa ser contestado, ironizado. Experimentado, ao invés de simplesmente vivido.

 

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Falta de água de São Paulo e bem viver do povo boliviano

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por Ángel Guerra Cabrera

El Estado Plurinacional de Bolivia es uno de los pocos en América Latina y en el mundo, donde los derechos humanos son defendidos, respetados y perfeccionados por el Estado con una visión integral. Esos derechos no son vistos como el mero trámite formal de depositar el voto en cada elección sino como una activa participación de los ciudadanos y las organizaciones indígenas y populares tanto en los procesos electorales, como en general, en la decisión cotidiana de los asuntos públicos. Además, el Estado boliviano no limita el concepto de derechos humanos a los derechos políticos, sino los extiende a los económicos, sociales y culturales, tutelando su cumplimiento en la práctica como veremos más adelante.

El presidente Evo Morales se caracteriza por cumplir a cabalidad sus promesas a los electores. No es por eso sorprendente que tras nueve años en el cargo haya sido reelecto por tercera vez consecutiva con alrededor del 60 por ciento de votos, además de haberse sometido a un referendo revocatorio en 2008 donde fue confirmado con más del 67 por ciento. Evo, por consiguiente, ha derrotado la idea convencional de que el ejercicio del poder desgasta a los líderes.

En Bolivia antes de que Evo y el MAS conquistaran la presidencia y el legislativo una exigua minoría opulenta excluía, oprimía y negaba el derecho a vivir con respeto a su cultura ancestral y tradiciones a aymaras, quechuas y otros pueblos indios que forman la mayor parte de la población. Las empresas públicas creadas por la revolución de 1952, que eran orgullo nacional, habían sido privatizadas por los gobiernos neoliberales mediante escandalosos negocios urdidos entre los viejos y nuevos oligarcas y las compañías transnacionales.

En relación a estos cruciales problemas Evo sigue cumpliendo lo que prometió en su primera campaña electoral hace diez años pues son objetivos cuya plena realización requiere tiempo. Sus compromisos básicos con los bolivianos fueron: rechazo a las políticas neoliberales y al “libre” comercio, nacionalización e industrialización de los hidrocarburos como detonante del desarrollo económico y social, y convocatoria a una Asamblea Constituyente que propiciaría la refundación del Estado. El nuevo Estado buscaría la erradicación del colonialismo interno y sería plurinacional, reconociendo así la diversidad de la nación boliviana y abriendo los cauces para la participación de los sectores indígenas y populares.

Todo ese programa y mucho más ha sido puesto en marcha con resultados verdaderamente admirables, aunque, para llevarlo a cabo el gobierno del MAS ha debido enfrentar graves planes subversivos dirigidos por la embajada de Estados Unidos, que llegaron al intento de golpe de Estado.

La nacionalización de los hidrocarburos y la redistribución de su renta ha hecho posible que Bolivia reduzca la pobreza en un 25 por ciento y la pobreza extrema en un 43 así como subir el salario mínimo en un 87.7 por ciento. El presupuesto de salud, que en 2005 era de 195 millones de dólares había llegado en 2012 a 600 millones, con una sensible disminución de la mortalidad infantil y materna. De acuerdo con datos de 2012, médicos cubanos habían atendido gratuitamente 58 millones de consultas, realizado 33 mil partos y 134 mil cirugías no oculares; y operado de la visión a 650 mil bolivianos y bolivianas a través de la Operación Milagro. El analfabetismo ha sido erradicado y la escolarización básica es casi universal. El país marcha hacia la industrialización de los hidrocarburos y a convertirse en potencia energética.

Estos datos prueban la falsedad de quienes afirman que los logros sociales bolivianos se deben a los altos precios del petróleo pues si fuera así, otros países, como México, habrían alcanzado resultados semejantes. Basta con comparar el alza astronómica del salario mínimo en Bolivia y su estancamiento por décadas en México.

La Paz, cuya política exterior se subordinaba totalmente a la de Washington, ha pasado a ser un actor político regional e internacional de primera línea, que ostenta la presidencia pro tempore del G77 más China y habla con voz propia en los foros internacionales. Primer país en proclamar los derechos de la Madre Tierra o Pacha Mama y en enarbolar la filosofía andina del “buen vivir”, Bolivia tiene un papel de liderazgo mundial en la lucha contra el cambio climático, la más trascendental de todas las tareas que tiene por delante la humanidad.

Pacha Mama e a (falta de) água em SP

 

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por Bianca Santana

Pacha é o que há de mais simples e essencial em nós: a terra. O lugar e o tempo que habitamos, com nossas necessidades e atitudes mais instintivas. Mama, em tantas línguas, é a mãe. A fecundidade e o feminino de onde todas e todos viemos, sem exceção. Essência que costumamos ignorar por ser pouco importante frente à nossa agenda, aos nossos bens, à nossa intelectualidade. Simples demais pro nosso modelo de desenvolvimento e progresso. Para os povos andinos, nossos hermanos, a Pachamama é a divindade mais importante. De onde vem o alimento, a água, o ar. Graças a ela estamos vivos. Nas cavernas de Potosí, na Bolívia, conheci Pachamama pelo olhar forte e seguro das cholas. Mulheres com o cabelo trançado, vestindo saias longas, adornadas com roupas coloridas e brincos feitos com a prata do lugar. Muitas carregavam as crianças nas costas , amarradas por um pano, enquanto tocavam seus afazeres. Uma vida que integrava a maternidade, o trabalho, a beleza e o sagrado. Uma vida sem carro, dinheiro ou produtos caros. Mas com tudo o que é essencial à vida, até água!

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Em outubro de 2012, o primeiro presidente indígena da Bolívia, Evo Morales, promulgou uma lei que estabelece 11 direitos para a natureza, incluindo o direito à vida. A visão de mundo que dá extrema importância à Pachamama, se concretizou na chamada Lei da Mãe Terra, cujos objetivos são: “estabelecer a visão e os fundamentos do desenvolvimento integral em harmonia em equiíbrio com a Mãe Terra para Viver bem, garantindo a continuidade da capacidade de regeneração dos componentes e sistemas de vida da Mãe Terra, recuperando e fortalecendo os saberes locais e os conhecimentos ancestrais, no marco da complementaridade de direitos, obrigações e deveres, assim como os objetivos de desenvolvimento integral como meio para desenvolver o Viver Bem, as bases para o planejamento, a gestão pública e o marco institucional estratégico para sua implementação”. Na época, o ministro do exterior David Choquehuanca afirmou: “Nossos antepassados nos ensinaram que pertencemos a uma grande família de plantas e animais. Nós, povos indígenas, podemos com nossos valores contribuir com a solução das crises energética, climática e alimentar”. O dia 1º de agosto é dedicado à Pachamama. Que ela nos inspire ao equilíbrio. Que nesse ano eleitoral, governos e candidaturas acessem e reconheçam os saberes ancestrais dos povos indígenas, africanos e camponeses europeus presentes no Brasil. Que nós, cidadãs e cidadãos, coloquemos o respeito à Terra como condição para o nosso voto. E que não esqueçamos por que São Paulo está sem água.

 

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É possível explicar a predominância das brancas nas páginas das revistas brasileiras?

Sempre disse que coluna social de negra é a página policial dos jornais.

O racismo impera em todos os meios de comunicação de massa.

Para completar, existe a erotização da mulata, na criação de personagens tipo Globeleza.

Revistas excluem adolescentes negras

Isabela Reis

por Isabela Reis (*)

A invisibilidade dos negros na mídia brasileira não é assunto novo, mas as revistas para o público adolescente revelam um quadro cruel de exclusão. Em um país onde 57,8% das meninas de dez a 19 anos se declaram pretas ou pardas (categorias cuja soma é comumente usada para medir a população negra), as publicações juvenis não as enxergam. Somente as brancas estão nas páginas. Não há diversidade.
É difícil crescer lidando com produtos que não te contemplam. Como explicar para uma pré-adolescente negra, em plena formação de identidade, que ela é bonita, se a revista preferida ignora seu tom de pele? Como enaltecer a beleza afro, se o conteúdo estimula o embranquecimento? Como acreditar que o crespo é normal, se as reportagens só exibem cabelos lisos? Estamos no século 21 e parece que paramos no tempo. Nós queremos existir.
As edições de agosto das três principais revistas para adolescentes do país omitem a população negra. “Atrevida”, “Capricho” e “Todateen”: 294 páginas, apenas cinco fotos de adolescentes pretas ou pardas. Na “Capricho”, uma imagem estava em um anúncio; outra apresentava a nova integrante da equipe de leitoras que colaboram com a revista. Na “Todateen”, duas fotos estavam no mural de fãs; a terceira, como na concorrente, era da equipe de colaboradoras. E só. A “Atrevida” não trouxe uma adolescente negra. As cantoras e atrizes pretas ou pardas conseguiram espaço nas publicações pela fama, não pela cor. Foram 114 páginas de padronização e exclusão.
As redações sabem da composição do público. Quatro das cinco imagens foram enviadas por leitoras negras. Elas compram, leem, se interessam, interagem, participam, colaboram. Elas estão presente e são ignoradas. Não havia um editorial de moda com modelos negras, uma seção de penteados para cabelos cacheados e crespos ou uma dica de maquiagem para pele negra. As revistas abordam bullying, sexo, masturbação, compulsões, vícios, sempre com personagens brancas, como se as questões não afetassem ou não interessassem as negras.
O racismo também não foi pauta. Estamos em 2014, as pessoas ainda xingam negros de “macaco”, e a juventude negra está sendo massacrada. O “Mapa da Violência 2014”, da Flacso Brasil, denunciou aumento de 32,4% nos homicídios de negros de 15 a 24 anos, entre 2002 e 2012. Para cada jovem branco que morre, 2,7 jovens negros perdem a vida. E ninguém toca no assunto.
As revistas não responderam às tentativas de contato. Se retornassem, conseguiriam justificar? É possível explicar a predominância das brancas nas páginas, quando elas são apenas uma parte das meninas de dez a 19 anos? Se houvesse lógica nos números, 57,8% das imagens deveriam ser de meninas negras. Não é o que acontece.
Somos aproximadamente 9,7 milhões de cores, de cabelos com personalidade própria, de bocas grandes, de narizes largos, de sorrisos lindos, de leitoras, de público que vai pagar pelas revistas, de lucro. E ainda assim, não estamos lá. A mídia nos vende uma realidade que não existe. Vivemos no Brasil, o país da miscigenação. Ao abrir uma revista, me sinto na Rússia.
É cruel com as crianças que crescem com o sentimento de não pertencer ao universo apresentado nas revistas. É cruel com as adolescentes que se convencem que, ao alisar o cabelo e parar de tomar sol, vão se encaixar no padrão irreal. É cruel com as famílias que precisam trabalhar em dobro para promover a aceitação. Deviam ter as revistas como aliadas, mas elas são, na verdade, um desserviço.

 


* Isabela Reis é estudante de Comunicação Social da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e tem 18 anos
Publicado in UOL

Nadine Gordimer. Luchar más allá del color de la piel

“La literatura puede hablar por nosotros y el hecho de leer significa que estamos vivos”, dijo en la Feria del Libro de Guadalajara: una buena síntesis para la obra de la mujer nacida en Johannesburgo, que desde niña vio de cerca los efectos del racismo.

 

por Silvina Friera
Página 12

 

 

Nadine Gordimer

Nadine Gordimer

“La palabra vuela a través del espacio, rebota a través de los satélites y se encuentra ahora más cerca que nunca del cielo del que alguna vez se ha dicho que provino.” La escritora sudafricana Nadine Gordimer reafirmó sus convicciones literarias cuando recibió el Premio Nobel de Literatura en 1991. “El hombre es el único animal con capacidad de observarse a sí mismo y que ha sido dotado de la dolorosa capacidad de haber querido siempre saber el porqué. Y esto no es sólo la gran cuestión ontológica sobre por qué estamos aquí, a través de qué religiones o filosofías buscamos la respuesta final que distintos pueblos en distintos tiempos se han formulado, sino que desde que el ser humano comenzó esa observación de sí mismo ha buscado también la explicación de los fenómenos cotidianos, como la procreación, la muerte, el cambio de las estaciones. Los antepasados de los escritores, con ayuda de los mitos, comenzaron a investigar y formular esos misterios a través de la aprehensión de trozos de la vida cotidiana, en combinación con la fantasía.” La dama blanca de alma negra, una de las voces más comprometidas en la lucha contra el apartheid y en la defensa por “devolver la dignidad a la población negra sudafricana”, murió el domingo por la tarde a las 90 años en su casa de Johannesburgo.

Aunque no se consideraba una escritora política, el año pasado, cuando publicó el que sería su último libro, la novela Mejor hoy que mañana (Acantilado), planteó que la política “está en mis huesos, mi sangre, mi cuerpo”. Gordimer nació en Springs, una población minera cercana a Johannesburgo, el 20 de noviembre de 1923. Hija de unos inmigrantes judíos de Letonia y Reino Unido, en Springs pudo observar el conflicto entre los inmigrantes europeos, los negros que llegaban a trabajar a las minas y la población blanca local que veía que perdía sus privilegios. Esa turbulenta sociedad sudafricana de primera mitad del siglo XX, donde se fraguó el supremacismo blanco, estuvo siempre presente en su vida. Hay momentos cruciales que la memoria almacena en la estantería de los recuerdos imborrables. La niña Nadine tendría unos diez años cuando se dio cuenta de que pertenecía “a un mundo blanco opresor”. Aquella noche de la década del ’30, la policía irrumpió en su casa en busca de alcohol, prohibido a los negros, en la habitación de la criada. ¿Cuál es ese dolor que regresa con el aguijón que produce una revelación? La niña acaso nunca perdonaría a sus padres que permitieran ingresar a los uniformados sin pedir permiso. Esta escena iluminaría la distancia que separa lo importante de lo trivial. Pronto ella misma se involucraría más y más para lograr el cambio social.

Su escuela literaria fue la biblioteca del pueblo minero donde pasó su infancia y adolescencia. Proust, Chéjov y Dostoievski, dentro de una larga serie de grandes autores, fueron sus maestros. Su primer cuento, “Venga otra vez mañana”, lo publicó cuando tenía quince años en una revista sudafricana. En 1949 editó su primera colección de cuentos en Johannesburgo, Face to Face; y en 1953 llegaría su primera novela, The Lying Days, publicada en Londres. “Tú no decides ser escritora, simplemente naces con un impulso natural que no se aprende en las escuelas. Sólo hay un camino, leer, leer, leer para que se despierte el don de la escritura”, proclamaba Gordimer. Ese “don” de la escritura fue progresando a la par de la publicación de La suave voz de la serpiente (1956), Seis pies de tierra (1956), La huella del viernes (1960), obras iniciales en las que, mediante un estilo sobrio narrativo, pone en foco el apartheid, el exilio, la segregación racial y la enajenación del ser humano. La tristemente famosa masacre de Shaperville, en la que murieron 69 manifestantes negros a manos de la policía y en la que detuvieron a alguno de sus mejores amigos, fue el detonante para tomar partido contra el gobierno que oprimía las libertades sobre las que ella escribía y hablaba. A principios de la década del ’60 entró en contacto con Nelson Mandela, le escribió discursos al líder del Congreso Nacional Africano (CNA), como el histórico “Una causa por la que estoy preparado a morir” en su juicio de Rivonia, en 1964; fue una integrante destacada del CNA, escondió activistas en su casa, de-safió a la censura y se convirtió en una defensora a ultranza de la dignidad de las personas.

“Yo intentaba leer libros de Su-dáfrica escritos por sudafricanos. Leí todos los libros prohibidos de Nadine Gordimer y aprendí mucho de la sensibilidad de los blancos”, confesó Mandela en su autobiografía. Cuando estaba preso cumpliendo cadena perpetua, su abogado George Bizos le hizo llegar un ejemplar de La hija de Burger (1979), novela en la que explora los sentimientos divididos de una mujer blanca sobre el apartheid cuando su padre comunista es encarcelado por oponerse al sistema. Mandela, en agradecimiento, le escribió una carta a la escritora. Años más tarde, en 1990, cuando salió en libertad, Gordimer fue una de las primeras personalidades de la cultura en reunirse con el líder negro.

Tres de sus libros fueron prohibidos por el apartheid: Mundo de extraños (1958), La hija de Burger y Gente de julio (1981). En El conservador (1974), que obtuvo el Premio Booker ese mismo año, narra cómo un industrial blanco, conservador y solitario explota a sus empleados negros para lucro personal y es abandonado por su familia, que no soporta la violencia con la que quiere detener la historia. La riqueza de su producción literaria cosechaba prestigio internacional. Los intentos del régimen sudafricano por silenciar su obra, a causa de la implícita denuncia de la crueldad del apartheid, potenciaron la importancia de su literatura y sus intervenciones en la arena política. En Gente de julio (1981) retrata a una familia blanca que logra huir de una guerra civil gracias a la ayuda de sus criados negros. En La historia de mi hijo (1990), un joven negro intenta comprender los conflictos de la vida privada y pública de su padre.

Gordimer publicó más de treinta libros, a los que hay que agregar, entre otros títulos, Nadie que me acompañe (1994), El encuentro (2002) y Atrapa la vida (2006). Los escribió en inglés, uno de los once idiomas oficiales en Sudáfrica, entre los que se cuenta el afrikaans (derivado del holandés) y lenguas de origen bantú. El jurado del Premio Nobel de Literatura la eligió “por sus magníficas obras épicas” que han aportado “eminentes servicios a la humanidad”. Entonces, en diciembre de 1991, cuando recibió el Nobel, la narradora sudafricana recordó a Roland Barthes cuando, a la pregunta de qué es lo que caracteriza al mito, respondió que es la capacidad de darle forma a un pensamiento. “La forma en que los escritores se han acercado y se acercan a las fuerzas de la existencia ha sido, y lo es hoy más que nunca, objeto de estudio para el conocimiento científico de la literatura. Las relaciones del escritor con la realidad perceptible y la que está más allá de lo perceptible están en la base de esos estudios.” Además mencionó a distintas generaciones de escritores, como William Butler Yeats, James Joyce y Gabriel García Márquez, que a través de infinitas formas se han aproximado al laberinto de la existencia humana.

Miembro honorario de la Academia Americana de las Artes (1978), entre los galardones que recibió, además del Nobel de Literatura, figuran el Premio W. H. Smith de Literatura (1961), Thomas Pring de la Academia Inglesa Sudafricana (1975) y el Premio CNA de Literatura (1975, 1979 y 1981). También fue distinguida con más de doce doctorados honoris causa, entre otros, de las universidades estadounidenses de Yale, Harvard y Columbia, además de la británica de Cambridge, la belga de Leuven o la sudafricana de Ciudad del Cabo. La autora sudafricana también llamó la atención del mundo sobre la necesidad de combatir la pobreza a escala internacional, especialmente tras su nombramiento como embajadora de buena voluntad del Programa de Naciones Unidas para el Desarrollo (PNUD), en 1998.

Comparte con Mandela el hecho de haber sido escogida una de los 21 iconos sudafricanos en un proyecto del fotógrafo Adrien Stein. “Odio esa palabra –aseguró la escritora–, es como si fuéramos una estatua de mármol.” Mejor hoy que mañana, su último libro, empieza en la Su-dáfrica democrática, con unos líderes políticos entregados a la corrupción y que han defraudado y traicionado la vieja causa, en la que la autora militó. Los protagonistas, Steve y Jabu, un matrimonio formado por un químico blanco y una abogada negra, se mantienen en la lucha, pero de manera distinta a sus tiempos en la clandestinidad. Cuando imperaba el régimen supremacista blanco, ellos eran fugitivos que sabían lo que querían y quién era el enemigo, pero una vez se ha acabado con la institucionalización del racismo “les pesan sus pasados diferentes”. Uno reniega de su blanca familia, a pesar de que aceptan su relación con Jabu, mientras que ella se acerca aún más a su padre, un pastor anglicano que tras haberle abierto las puertas a una buena educación le reclama tradición. La tensión narrativa se acrecienta cuando asisten atónitos a cómo antiguos compañeros se dejan vencer por el dinero y el poder. La pobreza y el desempleo azotan a los negros, como la epidemia del sida que, durante los primeros años de democracia, fue banalizada por el gobierno. El complejo cuadro se completa con la llegada de inmigrantes de países africanos a Sudáfrica, víctimas de la xenofobia de los más desfavorecidos de la sociedad, los mismos que sufrieron las injusticias racistas del apartheid.

La escritora negó que esos luchadores, con Mandela a la cabeza, hayan pecado de “ingenuidad” en los años ’90. “Estábamos totalmente concentrados en devolver la dignidad a los negros, en los derechos humanos, en acabar con las leyes del apartheid y en evitar una guerra civil. Sabíamos lo que hacíamos, pero no vimos qué iba a ocurrir”, aclaraba la escritora. A pesar de la democratización y del “triunfo de la pequeña clase media negra”, cuestionaba la “impresentable brecha social” sudafricana. El actual presidente, Jacob Zuma, “un antiguo héroe ahora misteriosamente hambriento de poder y un absoluto corrupto”, en opinión de Gordimer, ilustraba los “desastres de la gestión de los líderes negros”.

La Fundación Nelson Mandela manifestó su “profunda tristeza por la pérdida de la gran dama de la literatura de Sudáfrica”. “Hemos perdido una gran escritora, una patriota y una voz fuerte por la igualdad y la democracia en el mundo”, agregó. En los últimos años, Gordimer participó activamente en la lucha contra el sida recaudando fondos para Treatment Action Campaign, un grupo que ayuda a los enfermos sudafricanos a obtener medicinas gratuitas para salvar sus vidas. Hace un mes volvió a criticar a Zuma, el presidente sudafricano, al oponerse a un proyecto de ley que limita la publicación de información considerada sensible por el gobierno. “La reintroducción de la censura es impensable cuando tenemos en cuenta lo que sufrió la gente para deshacerse de la censura en todas sus formas”, argumentó Gordimer.

“La literatura puede hablar por nosotros y el hecho de leer significa que estamos vivos”, ponderó Gordimer cuando se presentó en la Feria Internacional del Libro de Guadalajara en 2006. “Es tremendamente importante en el desarrollo de nuestra comprensión del otro, del mundo, y también para poder comparar y tomar nuestras propias decisiones. Porque al leer sobre la vida de otras personas aprendemos de ellas, de cómo manejan sus emociones, sus problemas y de las sociedades en las que viven sus vidas. Si vives en un país que está en paz, ¿cómo sabrás qué es vivir en un país en guerra?” Predicaba con fervor que la lectura es determinante para entender el mundo. Cuando estaba por cumplir 90 años, el año pasado, para quitarle peso al número dijo: “No es nada, una casualidad que el cuerpo dure tanto”. No le gustaba hablar de la muerte ni de su vida amorosa: “Todo lo que el lector debe conocer sobre mí está en mis libros”.

 

Vídeo revela Guarda Indígena, criada durante a ditadura, realizando tortura em público

A Comissão da Verdade em Minas apurou quem foi o preso que foi torturado ao vivo durante um desfile na Academia de Polícia Militar no Prado na década de 70 ?

Vídeo apresentado pela TV Folha revela a prática de tortura em público durante o desfile da Guarda Rural Indígena, criada pelos militares durante a Ditadura. Essa tropa tinha a missão de “executar o policiamento ostensivo das áreas reservadas aos silvícolas”. No desfile estavam presentes autoridades da época, como o governador Israel Pinheiro e o ex-vice presidente José M. Alkmin.
Alkmin.

Link para a reportagem

 

 

Os negros levatam a voz

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Vítimas de racismo se encorajam a denunciar atitudes de discriminação. A última sentença condenou o supermercado Walmart a pagar 20.000 reais a um cliente que foi chamado de “negrinho ladrão”

por María Martín/ El País/ Espanha

Robson na comunidade onde mora em Carapicuíba. / M. MARTÍN

Robson na comunidade onde mora em Carapicuíba. / M. MARTÍN

Cauã era apenas um bebê quando seu tio Robson deu uma passada no supermercado, na frente do seu trabalho, para aproveitar a oferta de um litro de leite longa vida a um real. Comprou duas caixas, ajeitou o avental da lanchonete onde trabalhava e atravessou a rua para voltar à cozinha. Mas os gritos que se ouviram às suas costas o detiveram. Entre a gritaria, três palavras se repetiram: “negrinho”, “ladrão” e “safado”.

Duas funcionárias seguraram Robson pelo braço e o acusaram de roubar o leite. Ele mostrou o comprovante de compra e elas se desculparam. Mas a supervisora do estabelecimento, uma loja da rede Walmart, em Carapicuíba, na Grande São Paulo, colocou a cereja do bolo nesse tumulto: “Desculpa, te confundimos com um outro negrinho ladrão”. Robson tremia no meio do estacionamento, quase às lágrimas.

Acostumado a ser seguido pelos corredores das lojas que frequenta, o jovem negro decidiu não apresentar boletim de ocorrência sobre o assunto. Mas, um veterano advogado da região que o conhecia de vista o convenceu a entrar na Justiça.

Passados cinco anos, quando Cauã já é capaz de segurar nos braços sua irmã mais nova – e com Robson, aos 26 anos, se acostumando ao apelido de “negrinho do leite”, dado pelos vizinhos -, um juiz condenou a multinacional americana a pagar 20.000 reais ao seu cliente. A sentença considera os danos morais sofridos pela atitude ilícita e discriminatória das funcionárias. Robson, segundo o Tribunal de Justiça de São Paulo, “sofreu humilhação pública” e foi “motivo de escárnio”pela cor da sua pele.

Com o dinheiro que reste depois de bancar as despesas do processo, Robson quer terminar de construir o barraco de tijolo que levantou no que era um campo de futebol enlameado.

O caso do Walmart, que já tinha sido condenada em 2009 por um outro caso de racismo contra uma cliente negra acusada de ladra, foi o último a se tornar publico. Mas, uma sequência de episódios parecidos marcaram os últimos meses, num país onde quase 51% da população se declara negra ou parda.

“Há uma crescente demanda de ações trabalhistas, embora ainda tímida, com pedidos de indenização por danos morais. Há trabalhadores demitidos ou que foram obrigados a se demitir diante do racismo no ambiente de trabalho”, diz Maria Aparecida Vargas, diretora de Secretaria da 64 Vara do Trabalho de São Paulo, que acompanhou o caso de Robson. “Algumas vezes os empregados sofrem apelidos pejorativos por parte de colegas ou do próprio superior, como também são preteridos nas promoções em detrimento de um colega não mais competente que ele, mas de cor branca”, completa.

Carmen Dora, presidente da Comissão Racial da Ordem de Advogados do Brasil em São Paulo, também acredita que as denúncias estão aumentando. “Tentamos fazer uma estatística porque recebemos muitas reclamações, mas não há dados oficiais e ainda não conseguimos concluí-la. Parece que é um assunto que não interessa. Todos, inclusive a imprensa, temos que ser mais incisivos para acabar com o falso discurso de que o Brasil não é um país racista”, disse.

Em fevereiro, a condenação de uma idosa a pagar 14.000 reais por chamar três clientes de um shopping de “negros imundos” e “macacos” marcou um precedente porque a juíza ordenou o ingresso imediato da réu à prisão. A legislação prevê punição severa contra este tipo de crime, qualificando-o como hediondo e inafiançável, e o agressor preso em flagrante não tem direito ao pagamento de fiança. Mas o fato da acusada ter 72 anos poderia ter atenuado a pena. O advogado da idosa finalmente conseguiu o habeas corpus para sua cliente, mas uma das vítimas, a corretora Karina Chiaretti, afirma que não vai parar até ver a mulher atrás das grades. “Eu só acredito que este episódio vai servir para alguma coisa quando essa pessoa for presa. Enquanto não tiver ninguém que pare essas atitudes, elas vão continuar acontecendo”, disse Chiaretti.

A mesma perseverança demonstrou o casal branco, Priscila Celeste e Ronald Munk, ao denunciarem, no ano passado, o funcionário de uma concessionária da BMW no Rio de Janeiro, que mandou seu filho negro, de sete anos, sair da loja. O casal, para preservar ao menor, decidiu não apresentar boletim de ocorrência, mas sua história ganhou tal repercussão que a própria Secretaria do Estado de Assistência Social e Direitos Humanos levou o caso à Justiça. Perderam por falta de provas, mas o casal se tornou ativista pelo respeito à diversidade racial.

“Chega uma hora em que você não vai mais a um lugar porque as pessoas não param de olha para seu filho, porque não pode deixá-lo sozinho, porque sabe que vai ser parado pensando que está roubando. Tem que ouvir no clube que ele não é sócio, senão filho de funcionário…”, explicou a mãe, em entrevista por telefone. O pequeno, adotado pela família de classe media alta, é, segundo a mãe, o único negro da escola, da piscina, do clube, das festas de aniversário… “Hoje sei que não ir à delegacia foi um erro. Eu que denunciar, se não estou protegendo o agressor. Mas, na época era ignorante, não conhecia a lei”, conta Celeste.

Para ela, como para os outros protagonistas de discriminação, “a coragem de contar vem da vontade de mudar as coisas” e porque a percepção de seu filho é muito maior do que eles pensavam. O pequeno, lembra a mãe, lhe disse um dia: “Mãe, eu queria tirar essa pele e colocar uma da cor de vocês”.

Esta semana em uma emotiva entrevista, o árbitro Márcio Chagas da Silva contou à TV que foi chamado de “macaco selvagem” durante uma partida entre Esportivo e Veranópolis, times do Rio do Grande do Sul. Ele encontrou a lataria do seu carro amassada e coberta de bananas quando foi buscá-lo no estacionamento. Era a segunda vez que o xingavam em um jogo por ser negro e, por segunda vez, o divulgou. “Tenho que mostrar a meu filho a importância que eu, como pai, tive ao denunciar uma prática que acontece seguidamente no Brasil”, disse Chagas da Silva, à Globo News. O procurador Alberto Franco levará o Esportivo ao Tribunal de Justiça Desportiva por discriminação racista.

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Polícia despreparada

Quando Robson estava mais calmo, depois de ser abordado no supermercado e acusado de ladrão, ligou para a polícia. “Demoraram mais de uma hora em chegar, quando a loja estava quase fechando”, explica Robson. “Ao invés de falar comigo, forma direto falar com a supervisora e depois pediram meu RG, mas para ver meus antecedentes!”, reclama.

As pessoas envolvidas nos processos contra racismo ouvidas por este jornal concordam com o despreparo da polícia na hora de lidar com uma ocorrência sobre a discriminação de um cidadão. “As autoridades policiais não estão devidamente qualificadas para receber este tipo de denúncia, o que já intimida o agredido a comparecer perante uma delegacia de polícia”, lamenta Maria Aparecida Vargas a Diretora de Secretaria da 64 Vara do Trabalho de São Paulo, que levou o caso de Robson.

“Você vê que desde a polícia, passando pelo próprio negro agredido até o segurança estão despreparados. Um dos maiores Estados do país não está preparado para a questão racial”, critica Karina Chiaretti. “Ao chegar na delegacia me convidaram a ir embora porque a senhora já tinha quatro processos e não tinham dado em nada. O policial não sabe que isso é racismo. Eles não sabem lidar com a situação. O agente que tinha que levar a senhora para a delegacia acabou levando ela para casa”.

O racismo nosso de cada dia

Por Roberto Ponciano*

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Onde você guarda seu racismo? O Brasil é um país racista, muito racista, de um racismo estrutural, excludente e genocida. Desde a abolição da escravatura se perpetuou o credo do “brasileiro cordial” e da “democracia racial”. Ali Kamel não inventou nada, ele só repete a mentira das elites de que uma mentira dita mil vezes vira uma verdade. Afinal, não tivemos Klu Klux Klan (KKK), nem negros queimados na cruz, não precisamos fazer uma luta pelas liberdades civis ou algum movimento “Black is Beautiful”. No Brasil todos são tratados com respeito. Mentira, mentira, mentira, mil vezes mentira!

Os negros são 60% da população de baixa renda (e talvez mais, por conta do “embranquecimento” dos questionários), mas apenas 30% da classe média e 17% da classe alta. Ou seja, no Brasil, a classe dominante se declara 83% branca. Com as distorções derivadas dos questionários, isso implica em um sentimento de classe dominante, que é racista e vê com ojeriza e raiva a ascensão social de negros. Basta olhar a raiva pelo Bolsa Família. Se há uma preconceito social disseminado e feroz contra a ascensão social de qualquer pobre, o Bolsa família representa a verdadeira raiva que a elite tem. E, quando se é negro, a dificuldade é dobrada, aí o preconceito é duplo. Por isso as cotas raciais nas universidades geram tanta fúria.

O Brasil não pagou o passivo da escravidão, a República não pagou e nossa Nação tem esta dívida para com os negros. Ora, se é justo (e é justo) pagar indenização para quem foi perseguido, preso, exilado ou pagá-la a quem foi morto pela ditadura, o que dizer aos familiares descendentes de escravos que tiveram seus avós arrancados á força de suas casas, submetidos a um trabalho brutal, suas mulheres estupradas e usadas como mucamas? Tudo foi “apagado” pela abolição? Não, não foi! Os descendentes dos que foram raptados na África foram submetidos á mais crassa miséria nos guetos e favelas do Brasil. A escravidão não foi abolida, ela foi extinta por ser economicamente inviável. “Livre do açoite da senzala, preso na miséria da favela”, cantava a Mangueira (quilombo urbano) no centenário da Abolição (samba de Hélio Turco, Jurandir e Alvinho).

As cotas servem para acender o debate do racismo, para mostrar que os negros são maioria na favela, na prisão, mas minoria na universidade. Não espanta que uma jornalista dissesse que “esta médica cubana parece com minha empregada doméstica”, tirando o racismo da declaração, parece mesmo. Os negros são empregados domésticos não apenas nas novelas da Globo, que propaga e dissemina o racismo com seu padrão de beleza nórdico. Médico negro, no Brasil, é minoria. Me emocionei e fui quase às lágrimas conversando com médicos negros cubanos, quatro deles, todos negros, que explicaram que mesmo em Cuba era assim. Antes da Revolução, negro era engraxate, motorista, porteiro, agora é médico, cientista, general.

O racismo brasileiro é pérfido, é mudo e “cordial”; desde que o negro saiba de seu lugar na sociedade; desde que não queira revirar a sociedade de ponta-cabeça; desde que não queira ocupar lugar de branco, de sinhozinho. O Brasil ainda é a sociedade da casa grande e da senzala, lugar de sinhozinho é no Alto Gávea, na universidade pública, nos cursos de ponta, ou nas PUC e nos melhores empregos. Negro? Ora, com o lugar que sempre teve, e agradeça ao fato de o Brasil ser uma democracia racial e não haver racismo – afinal, vivendo com os piores salários, em empregos informais ou ganhando salário mínimo, morando nas favelas -, ainda assim não são espancados pela elite branca.

Já dizia Candeia: “E cante o samba na universidade, aí sim tu verás que teu filho será livre de verdade”, o grande poeta sabia que ou o negro fazia sua emancipação ou continuaria escravo da elite branca. Não são? E quem é revistado pela polícia? Quem é expulso pelas remoções? Quem é morto no grande genocídio que se faz ano a ano no Brasil?

Efetivamente, este artigo não serve apenas para isso, para reclamar. Se assim fosse, cairia no lugar-comum, afinal, tudo que eu disse acima, muita gente já disse. Mas digo mais, somos racistas e perpetuamos o racismo. A esquerda brasileira que se diz “progressista” e contra homofobia, o racismo, o machismo etc, não é a mesma esquerda que, nas cátedras da universidade, principalmente as públicas, exclui trabalhadores de seus cursos em nome da “excelência acadêmica”? Ora, cerca de 20% dos universitários trabalham, ou seja, 80% não trabalham (ou melhor, não precisam trabalhar), isso mantém e perpetua o racismo ou o machismo estruturais.

Universidade branca, de classe média para homens e mulheres que não precisam trabalhar. A sanha de nossa “esquerda revolucionária” contra os cursos de período único, manhã ou noite, ou contra pós-graduandos que trabalham, atingem no coração e excluem exatamente quem mais precisa. Cerca de 40% dos lares são mononucleares comandados por mulheres. São essas mulheres que têm que cuidar de seus filhos e, dentre elas, as que não tem com quem deixá-los, a maioria é negra e pobre. Os trabalhadores que não podem parar de trabalhar (maioria de negros, também), em nome do preconceito revestido de “excelência” acadêmica, também são excluídos das universidades. Mas a esquerda que comanda esses cursos e essas cátedras, assim como Ali Kamel, não vê nenhum racismo nisso. São brancos falando, pregando e estudando o racismo e evitando que os negros entrem na universidade para também estudá-lo.

E isso é apenas um exemplo de como entre o discurso e a prática medeia uma grande distância. Há certo “pragmatismo revolucionário” de algumas correntes que acreditam que o problema do racismo é o capitalismo. Outra mentira! Rússia e Cuba fizeram a revolução e em poucos lugares no mundo há tanta homofobia quanto na Rússia. Em Cuba a homofobia somente começou a ser debatida e combatida faz pouco tempo, e o machismo do cubano é continentalmente famoso. Estas pautas transversais não se resolvem por si só. O racismo é bem combatido em Cuba, tanto na estrutura, quanto no discurso, mas teve e tem que ser combatido, ele não é simplesmente uma pauta que se resolverá por si só no socialismo. Afirmar isso é o mesmo que jogar a sujeira para debaixo do tapete. Na ideologia dominante, o negro não tem religião, tem seita; não tem cultura, tem folclore. Tudo que seja referente ao negro é de uma beleza “exótica”, “folclórica”, ou “culto de tradição”. O que é uma imensa bobagem e uma forma de manutenção de racismo disfarçado de concessões à cultura negra.

A mitologia afro-brasileira é tão rica quanto a greco-romana. Sua religião é uma religião, não uma seita, que não aceita ser demonizada ou vista como menor ou inferior. E esse debate tem de ser feito agora, desde o primeiro momento e não jogado-o para uma messiânica revolução futura.

Poucos sabem quem foram os negros e os índios que ensinaram higiene ao branco que, baseado em preconceitos religiosos instituídos por um preconceito do corpo católico, simplesmente não tomavam banho. O banho diário e o cuidado do corpo, sem preconceito de nudez e sem culpa sexual, eram elementos da cultura negra e indígena, sinais inequívocos de avanço contra o preconceito medieval.

Para terminar, organizando um debate, um seminário nacional de racismo numa federação de servidores do Judiciário, que já tem 25 anos, há dois dias do debate da questão negra, temos 12 pessoas inscritas. Isso em uma federação que tem sindicatos em 26 estados. Na pesquisa que fizemos na base do Rio de Janeiro, somente 5% responderam que eram “negros”. É claro que os negros no Judiciário são minoria, mas os índices das respostas estão abaixo de qualquer questionário racial, inclusive feito na classe dominante. Isto demonstra inequivocamente o nosso racismo. Temos os “crespinhos”, os “marrons”, os “queimadinhos”, os “moreninhos” e uma dezena de designações chulas que disfarçaram a negritude desde que o dono de engenho estuprou as mucamas e gerou filhos bastardos que, para todos os fins, seriam “não negros”. Os índices mínimos de negros no Judiciário, 5%, mostram um “embranquecimento” forçado das consciências e diminuta participação no seminário (levando-se em conta que qualquer debate jurídico junta todos os 26 estados da Fenajufe) mostrando claramente que conservamos à Ali Kammel, o racismo nosso de cada dia.

Ao se falar da questão do racismo, se fala entre dentes, ironicamente, diretores do Sisejufe já disseram, na minha cara, que “levei a macumba ao sindicato” ao convidar o Jongo da Serrinha para fazer espetáculos. Aliás, numa direção de 24 diretores, apenas três se inscreveram no debate do racismo, o que demonstra que, inclusive, no meu sindicato, o racismo é uma questão menor. Mas não é somente no meu sindicato. É no meu e em todos os demais!

Imaginem que um dos sindicatos enviou brancos que estavam em outro evento para “prestigiar o seminário”. Prestigiar de verdade seria convocar os negros da base do sindicato para debater o racismo no seminário; um outro da base da federação, no dia da semana negra, chamou um debate com acadêmicos brancos e não mandou seus negros que desejavam debater o que sofrem com o racismo, ao debate que lhes interessava. Casagrande mesmo, tutelando a senzala e dizendo, inclusive para ela, como se deve debater o racismo.

Onze inscritos em um seminário nacional de racismo mostra que guardamos, a sete chaves e como segredo nosso, o racismo nosso de cada dia.

*Roberto Ponciano é diretor do Sisejufe e da Fenajufe e mestre em Filosofia

‘Polícia deve proteger rolezinho’, diz americano que estudou flashmobs

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A discussão em torno de causas, efeitos e desdobramentos dos “rolezinhos” feita atualmente em São Paulo ocorreu há cerca de dois anos na pequena Kansas City, cidade de 460 mil habitantes no estado de Missouri (meio-oeste dos EUA), após uma onda de “flashmobs” que terminaram em confusão.

No episódio mais grave, em agosto de 2011, três jovens foram feridos a tiros em um confronto durante um “flashmob” no elegante shopping Country Club Plaza, em área nobre de Kansas City.

 

Depois disso, o Consórcio de Pesquisas Educacionais da cidade conduziu uma pesquisa, entrevistando 50 jovens entre 15 e 24 anos, entre participantes de “flashmobs” e de perfil socioeconômico semelhante.

Desde então, a cidade mudou sua abordagem ao problema, explica à BBC Brasil J. Brian Houston, professor-assistente de comunicação da Universidade de Missouri e um dos autores da pesquisa.

BBC Brasil – O senhor comenta em seu estudo que os jovens se diziam entediados, queriam ser vistos, chamar atenção. É essa a motivação principal por trás dos “flash mobs”?

J. Brian Houston – É uma confluência de fatores. Os jovens participantes dos “flashmobs” em geral vinham de partes de Kansas City com poucos serviços, negócios. Os jovens sentiam que não havia muita coisa para fazer em suas comunidades.

Esse tédio parece estar associado a decidir fazer um encontro em um determinado local – no caso, um shopping center elegante.

Diante de uma grande quantidade de jovens de áreas pobres se reunindo em uma área nobre, com episódios de violência e brigas, Kansas City ficou muito alarmada.

E os jovens com os quais conversamos disseram: “Esse tipo de coisa (brigas e violência) acontece o tempo todo em nossos bairros, e ninguém parece se importar. Mas assim que vamos para uma parte melhor da cidade, daí vira um problema”. Achei isso uma observação interessante, de que a questão é tolerada se ocorrer em alguns bairros, mas captura a atenção da cidade se ocorrer em outros.

E eles se sentiam no direito de ir (à área nobre) e tinham raiva pelo fato de isso ser mal visto.

BBC Brasil – Desde então, mudou algo na forma como Kansas City lida com a questão?

Sim, a cidade e a Prefeitura têm se esforçado para dar mais oportunidades aos jovens em algumas partes da cidade, investindo em centros e programas voltados ao público jovem, com mais opções de lazer.

Acho que se você oferece mais oportunidades seguras aos adolescentes, coisas que despertem o seu interesse, vai reduzir a sensação de falta do que fazer – mesmo que não a elimine completamente.

Não tivemos grandes “flashmobs” desde que a cidade começou a levar a questão mais a sério. O aumento de centros comunitários e atividades ajudou, ainda que haja muito a ser feito; muitos jovens que ainda não têm oportunidades suficientes.

BBC Brasil – Muitos “flashmobs” terminaram em violência nos EUA. Esses encontros foram organizados com intuito violento?

Acho que a maioria dos jovens que participa dos encontros não tem a intenção de participar de nenhum ato violento. Querem ir para onde todos estão indo, querem ser vistos.

Mas se você junta jovens que não se conhecem, de bairros e escolas diferentes, podem surgir brigas, mesmo que não planejadas. Além disso, há alguns “maus elementos” dentro do grupo, gente que (vai ao encontro) querendo causar problemas. Isso rapidamente sai do controle.

É preciso algum engajamento (envolvendo) a cidade, a polícia e as escolas, dizendo (aos jovens) “não queremos que isso aconteça mais e o que podemos fazer para impedir”, e iniciar um diálogo preventivo, alegando que (a violência) não ajuda ninguém.

BBC Brasil –Pela sua experiência, qual deve ser o papel das autoridades?

A reação inicial em Kansas City foi impor toques de recolher, impedindo jovens de estar nas ruas a partir de um determinado horário. É uma reação comum, que para muitos faz sentido. Mas isso trata apenas um sintoma do problema.

Os problemas que identificamos nas entrevistas eram o tédio, a pobreza – que é o que precisa ser enfrentado, com mais investimentos em serviços e centros, em vez de bater o pé e criar limitações à circulação dos jovens. Até porque não queremos uma cidade restritiva e proibitiva. Queremos que os jovens se divirtam, mas não queremos que isso cause problema.

BBC Brasil – Houve algum debate sobre como a polícia deve agir nos “flashmobs”?

Uma das questões é polêmica: a polícia deve monitorar os jovens nas redes sociais, para saber onde vão se reunir? Sabendo isso, a polícia pode se preparar e ir ao local.

Eu acho que essa pode ser uma boa estratégia, (mas) se a polícia estiver lá para dialogar com os jovens, garantir sua segurança e não apenas puni-los.

Muitos dos jovens com quem conversamos não gostavam da polícia, não queriam diálogo. Mas muitos outros diziam gostar de saber que havia policiamento e segurança nos locais que frequentam.

Nem sempre esse diálogo com a polícia vai funcionar ou será fácil, mas é (um esforço parecido com o) da polícia comunitária. Daí acho que a abordagem da polícia (nos “flashmobs”) pode funcionar.

BBC Brasil – E quanto aos shopping centers e lojistas, qual foi a reação?

Eles ficaram alarmados e surpresos, sobretudo quando houve violência. Mas eles são parte da comunidade, e precisamos de soluções comunitárias para esses problemas, que envolvam a cidade, a polícia, os shoppings no diálogo.

De fato, vemos muitos (lugares nos EUA) que não permitem jovens em grupo. Essas reações são compreensíveis, mas não funcionam no longo prazo.

BBC Brasil – E qual é a melhor abordagem no curto prazo para impedir que esses encontros acabem em violência?

Quando entrevistamos os jovens, percebemos que vários deles estavam dispostos a dialogar e buscar soluções. A maioria não quer estar envolvida em violência, e podemos criar oportunidades para diminuir as chances de que isso aconteça.

Esses “flashmobs” podem parecer algo novo, por envolverem novas tecnologias (de comunicação) que permitem grandes reuniões, mas as coisas por trás disso são antigas. Nos anos 1950, tínhamos aqui nos EUA grupos de jovens que saíam fazendo bagunça. É a mesma coisa, de jovens querendo ver e serem vistos, só ganhou escala maior agora.

BBC Brasil – Em dezembro, houve mais um “flashmob” no Brooklyn (NY), que terminou em violência. O senhor acha que eles continuarão a ocorrer?

O verão costuma ser a estação na qual esses encontros mais acontecem, como parece ser o caso no Brasil agora. Os jovens estão fora de casa, precisam de locais públicos.

Cidades e comunidades tendem a não ser proativas quanto a esse tipo de coisa, daí algo acontece e todos reagem. Onde houver tédio e falta de oportunidades entre os jovens, isso vai acontecer.

Quando líderes e comunidades começarem a pensar a respeito dessas questões, antecipar necessidades e possíveis soluções, a chance é menor. As cidades precisam pensar de maneira construtiva, e não apenas restritiva.

BBC Brasil – E que papel o shopping tem nessa discussão, como um espaço de consumo?

O shopping center escolhido para os “flashmobs” de Kansas City é um lugar nobre, bonito, uma área aberta. Dá para entender por que alguém ia querer se reunir ali.

A ida de jovens pobres para lá e os problemas causados acrescentaram uma dimensão de classe social à discussão, tornando-a mais tensa.

Se tivesse acontecido em um shopping menos nobre, de um bairro mais simples, teria ocorrido o mesmo? Acho que teria havido alguma reação, mas não igual.

Você menciona o consumo, mas vejo mais como uma questão social.

BBC Brasil – E de raça também?

Houve questões de raça – havendo jovens afro-americanos envolvidos (nos “flashmobs”), isso acabou sendo descrito na mídia como “jovens afro-americanos causando violência”.

Para muitos, isso causou preocupação e temor de que se contribuísse para o preconceito e para piorar a situação para os próprios jovens.

 

 

Fonte: BBC Brasil

Os novos “vândalos” do Brasil

por Eliane Brum/ El País, Espanha

 

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O rolezinho, a novidade deste Natal, mostra que, quando a juventude pobre e negra das periferias de São Paulo ocupa os shoppings anunciando que quer fazer parte da festa do consumo, a resposta é a de sempre: criminalização. Mas o que estes jovens estão, de fato, “roubando” da classe média brasileira?

 
O Natal de 2013 ficará marcado como aquele em que o Brasil tratou garotos pobres, a maioria deles negros, como bandidos, por terem ousado se divertir nos shoppings onde a classe média faz as compras de fim de ano. Pelas redes sociais, centenas, às vezes milhares de jovens, combinavam o que chamam de “rolezinho”, em shopping próximos de suas comunidades, para “zoar, dar uns beijos, rolar umas paqueras” ou “tumultuar, pegar geral, se divertir, sem roubos”. No sábado, 14, dezenas entraram no Shopping Internacional de Guarulhos, cantando refrões de funk da ostentação. Não roubaram, não destruíram, não portavam drogas, mas, mesmo assim, 23 deles foram levados até a delegacia, sem que nada justificasse a detenção. Neste domingo, 22, no Shopping Interlagos, garotos foram revistados na chegada por um forte esquema policial: segundo a imprensa, uma base móvel e quatro camburões para a revista, outras quatro unidades da Polícia Militar, uma do GOE (Grupo de Operações Especiais) e cinco carros de segurança particular para montar guarda. Vários jovens foram “convidados” a se retirar do prédio, por exibirem uma aparência de funkeiros, como dois irmãos que empurravam o pai, amputado, numa cadeira de rodas. De novo, nenhum furto foi registrado. No sábado, 21, a polícia, chamada pela administração do Shopping Campo Limpo, não constatou nenhum “tumulto”, mas viaturas da Força Tática e motos da Rocam (Ronda Ostensiva com Apoio de Motocicletas) permaneceram no estacionamento para inibir o rolezinho e policiais entraram no shopping com armas de balas de borracha e bombas de gás.

Se não há crime, por que a juventude pobre e negra das periferias da Grande São Paulo está sendo criminalizada?

Primeiro, por causa do passo para dentro. Os shoppings foram construídos para mantê-los do lado de fora e, de repente, eles ousaram superar a margem e entrar. E reivindicando algo transgressor para jovens negros e pobres, no imaginário nacional: divertir-se fora dos limites do gueto. E desejar objetos de consumo. Não geladeiras e TVs de tela plana, símbolos da chamada classe C ou “nova classe média”, parcela da população que ascendeu com a ampliação de renda no governo Lula, mas marcas de luxo, as grandes grifes internacionais, aqueles que se pretendem exclusivas para uma elite, em geral branca.

Antes, em 7 de dezembro, cerca de 6 mil jovens haviam ocupado o estacionamento do Shopping Metrô Itaquera, e também foram reprimidos. Vários rolezinhos foram marcados pelas redes sociais em diferentes shoppings da região metropolitana de São Paulo até o final de janeiro, mas, com medo da repressão, muitos têm sido cancelados. Seus organizadores, jovens que trabalham em serviços como o de office-boy e ajudante geral, temem perder o emprego ao serem detidos pela polícia por estarem onde supostamente não deveriam estar – numa lei não escrita, mas sempre cumprida no Brasil. Seguranças dos shoppings foram orientados a monitorar qualquer jovem “suspeito” que esteja diante de uma vitrine, mesmo que sozinho, desejando óculos da Oakley ou tênis Mizuno, dois dos ícones dos funkeiros da ostentação. Às vésperas do Natal, o Brasil mostra a face deformada do seu racismo. E precisa encará-la, porque racismo, sim, é crime.

“Eita porra, que cheiro de maconha” foi o refrão cantado pelos jovens ao entrarem no Shopping Internacional de Guarulhos. O funk é de MC Daleste, que afirma no nome artístico a região onde nasceu e se criou, a zona leste, a mais pobre de São Paulo, aquela que todo o verão naufraga com as chuvas, por obras que os sucessivos governos sempre adiam, esmagando sonhos, soterrando casas, matando adultos e crianças. Daleste morreu assassinado em julho com um tiro no peito durante um show em Campinas – e assassinato é a primeira causa de morte dos jovens negros e pobres no Brasil, como os que ocuparam o Shopping Internacional de Guarulhos.

A polícia reprimiu, os lojistas fecharam as lojas, a clientela correu. Uma das frequentadores do shopping disse a frase-símbolo à repórter Laura Capriglione, na Folha de S. Paulo: “Tem de proibir este tipo de maloqueiro de entrar num lugar como este”. Nos dias que se seguiram, em diferentes sites de imprensa, leitores assim definiram os “rolezeiros” (veja entrevista abaixo): “maloqueiros”, “bandidos”, “prostitutas” e “negros”. Negros emerge aqui como palavra de ofensa.

“As novelas já vendiam uma vida de luxo há muito tempo, só que nelas os ricos eram os que pertenciam ao mundo de riqueza. Nos videoclipes de funk ostentação, são os pobres que aparecem neste mundo.”

rolezinho ostentacao


O funk da ostentação, surgido na Baixada Santista e Região Metropolitana de São Paulo nos últimos anos, evoca o consumo, o luxo, o dinheiro e o prazer que tudo isso dá. Em seus clipes, os MCs aparecem com correntes e anéis de ouro, vestidos com roupas de grife, em carros caros, cercado por mulheres com muita bunda e pouca roupa. (Para conhecer o funk da ostentação, assista ao documentário aqui). Diferentemente do núcleo duro do hip hop paulista dos ano 80 e 90, que negava o sistema, e também do movimento de literatura periférica e marginal que, no início dos anos 2000, defendia que, se é para consumir, que se compre as marcas produzidas pela periferia, para a periferia, o funk da ostentação coloca os jovens, ainda que para a maioria só pelo imaginário, em cenários até então reservados para a juventude branca das classes média e alta. Esta, talvez, seja a sua transgressão. Em seus clipes, os MCs têm vida de rico, com todos os signos dos ricos. Graças ao sucesso de seu funk nas comunidades, muitos MCs enriqueceram de fato e tiveram acesso ao mundo que celebravam.

Esta exaltação do luxo e do consumo, interpretada como adesão ao sistema, tornou o funk da ostentação desconfortável para uma parcela dos intelectuais brasileiros e mesmo para parte das lideranças culturais das periferias de São Paulo. Agora, os rolezinhos – e a repressão que se seguiu a eles – deram a esta vertente do funk uma marca de insurgência, celebrada nos últimos dias por vozes da esquerda. Ao ocupar os shoppings, a juventude pobre e negra das periferias não estava apenas se apropriando dos valores simbólicos, como já fazia pelas letras do funk da ostentação, mas também dos espaços físicos, o que marca uma diferença. E, para alguns setores da sociedade, adiciona um conteúdo perigoso àquele que já foi chamado de “funk do bem”.

A resposta violenta da administração dos shoppings, das autoridades públicas, da clientela e de parte da mídia demonstra que esses atores decodificaram a entrada da juventude das periferias nos shoppings como uma violência. Mas a violência era justamente o fato de não estarem lá para roubar, o único lugar em que se acostumaram a enxergar jovens negros e pobres. Então, como encaixá-los, em que lugar colocá-los? Preferiram concluir que havia a intenção de furtar e destruir, o que era mais fácil de aceitar do que admitir que apenas queriam se divertir nos mesmos lugares da classe média, desejando os mesmo objetos de consumo que ela. Levaram uma parte dos rolezeiros para a delegacia. Ainda que tivessem de soltá-los logo depois, porque nada de fato havia para mantê-los ali, o ato já estigmatizou-os e assinalará suas vidas, como historicamente se fez com os negros e pobres no Brasil.

Jefferson Luís, 20 anos, organizador do rolezinho do Shopping Internacional de Guarulhos, foi detido, é alvo de inquérito policial, sua mãe chorou e ele acabou cancelando outro rolezinho já marcado por medo de ser ainda mais massacrado. Ajudante geral de uma empresa, economizou um mês de salário para comprar a corrente dourada que ostenta no pescoço. Jefferson disse ao jornal O Globo: “Não seria um protesto, seria uma resposta à opressão. Não dá para ficar em casa trancado”.

Por esta subversão, ele não será perdoado. Os jovens negros e pobres das periferias de São Paulo, em vez de se contentarem em trabalhar na construção civil e em serviços subalternos das empresas de segunda a sexta, e ficar trancados em casas sem saneamento no fim de semana, querem também se divertir. Zoar, como dizem. A classe média até aceita que queiram pão, que queiram geladeira, sente-se mais incomodada quando lotam os aeroportos, mas se divertir – e nos shoppings? Mais uma frase de Jefferson Luiz: “Se eu tivesse um quarto só pra mim hoje já seria uma ostentação”. Ele divide um cômodo na periferia de Guarulhos com oito pessoas.

Neste Natal, os funkeiros da ostentação parecem ter virado os novos “vândalos”, como são chamados todos os manifestantes que, nos protestos, não se comportam dentro da etiqueta estabelecida pelas autoridades instituídas e por parte da mídia. Nas primeiras notícias da imprensa, o rolezinho do Shopping Internacional de Guarulhos foi tachado de “arrastão”. Mas não havia arrastão nenhum. O antropólogo Alexandre Barbosa Pereira faz uma provocação precisa: “Se fosse um grupo numeroso de jovens brancos de classe média, como aconteceu várias vezes, seria interpretado como um flash mob?”.

“A ideia da imaginação como uma força criativa apresenta-se fortemente no funk ostentação.”

Por que os administradores dos shoppings, polícia, parte da mídia e clientela só conseguem enquadrar um grupo de jovens negros e pobres dentro de um shopping como “arrastão”? Há várias respostas possíveis. Pereira propõe uma bastante aguda: “Será que a classe média entende que os jovens estão ‘roubando’ o direito exclusivo de eles consumirem?”. Seria este o “roubo” imperdoável, que colocou as forças de repressão na porta dos shoppings, para impedir a entrada de garotos desarmados que queriam zoar, dar uns beijos e cobiçar seus objetos de desejo nas vitrines?

Para nos ajudar a pensar sobre os significados do rolezinho e do funk da ostentação, entrevisto Alexandre Barbosa Pereira nesta coluna. Professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), ele dedica-se a pesquisar as manifestações culturais das periferias paulistas. Em seu mestrado, percorreu o mundo da pichação. No doutorado, mergulhou nas escolas públicas para compreender o que é “zoar”. Desde 2012, pesquisa o funk da ostentação. Mesmo que os rolezinhos, pela força da repressão, se encerrem neste Natal, há muito que precisamos compreender sobre o que dizem seus protagonistas – e sobre o que a reação violenta contra eles diz da sociedade brasileira

– O rolezinho aparece ligado ao funk da ostentação. Em que medida há, de fato, essa ligação?

Alexandre Barbosa Pereira – O funk ostentação é uma releitura paulista do funk carioca, feita a partir da Baixada Santista e da Região Metropolitana de São Paulo, na qual as letras passam a ter a seguinte temática: dinheiro, grifes, carros, bebidas e mulheres. Não se fala mais diretamente de crime, drogas ou sexo. Os funkeiros dessa vertente começaram a produzir videoclipes inspirados na estética dos videocliples do gangsta rap estadunidense. Mas o mais curioso desse movimento é a virada que os jovens fazem ao mudar a pauta que, até então, era principalmente a criminalidade para o consumo. As músicas deixam de falar de crime para falar de produtos que eles querem consumir. Assim, ao invés de cantarem: “Rouba moto, rouba carro, bandido não anda à pé” (Bonde Sinistro), os funkeiros da vertente ostentação cantam: “Vida é ter um Hyundai e um hornet, dez mil para gastar, rolex, juliet. Melhores kits, vários investimentos. Ah como é bom ser o top do momento” (MC Danado). Deste modo, os MCs começaram a ter mais espaços para cantar em casas noturnas e passaram a produzir videoclipes cada vez mais elaborados, com mais de 20 milhões de acessos no YouTube, o que levou a um sucesso às margens da mídia tradicional. Alguns MCs chegaram a alcançar grande repercussão entre um segmento do público jovem, sem nunca ter aparecido na televisão. Vi meninas chorando por MCs em bailes, mesmo antes de o funk ostentação alcançar o destaque que conseguiu na grande mídia. Surgiram empresas especializadas na produção de clipes no estilo ostentação, como a Kondzilla e a Funk TV, claramente inspirados no gangsta rap, em que os jovens aparecem em carrões e motos, exibindo-se com roupas, dinheiro e mulheres. Uma reflexão interessante a se fazer é como a mídia tradicional, que antes execrava o chamado funk proibidão, que falava de crime, drogas e sexo abertamente, agora começa a elogiar o funk ostentação, denominando-o até como “funk do bem” e ressaltando a trajetória econômica e social ascendente dos MCs.

Pergunta. Fazendo um parêntese aqui, antes de chegar ao rolezinho, qual é o caminho para um jovem pobre ter acesso ao consumo de luxo, segundo o olhar do funk da ostentação? Esta virada que você mencionou…

Resposta. Primeiro que esse bem de luxo não é tão de luxo assim, afinal uma garrafa de uísque a 60 ou 80 Reais não é nenhum absurdo. É sempre possível comprar uma réplica daqueles óculos escuros que custam mais de mil reais. Nas casas noturnas de funk que observei, este era o preço. Pensemos num grupo de pelo menos quatro amigos dividindo o valor da compra. Não sai tão caro brincar de ostentar. Agora, tem os carros. Estes sim estão fora do alcance da maioria desses jovens. Mas aí há uma explicação interessante, que Montanha, um produtor e diretor de videoclipes da Funk TV, em Cidade Tiradentes, sabiamente me deu. Ele me disse que as novelas já vendiam uma vida de luxo há muito tempo, só que nelas os ricos eram os que pertenciam ao mundo de luxo. Nos videoclipes de funk ostentação, são os pobres que aparecem como um mundo de “riqueza” ou de “luxo”, com carros, mansões, roupas de marcas mais caras. Os jovens agora poderiam, segundo afirmou Montanha, ver-se como parte de um mundo de prestígio, daí a grande identificação. O crime pode ser um caminho para acessar esse mundo de luxo ou o que esses jovens entendem por um mundo de luxo, mas não é único. Esta é a lição que muitos MCs de funk têm tentando passar em suas falas na grande mídia. Eles de certa forma mostram um outro caminho, que, aliás, sempre esteve presente para esses jovens da periferia: tornar-se famoso pela música ou pelo futebol. Aliás, esses são caminhos que aparecem como os mais possíveis para os jovens negros e pobres das periferias do país imaginarem um futuro de sucesso. Num mundo em que há uma forte divisão entre trabalho intelectual e manual, com a extrema valorização do primeiro, o uso do corpo em formas lúdicas como meio de ganhar dinheiro mostra-se como opção para uma transformação da vida. “Crime, futebol, música, caralho, eu também não consegui fugir disso aí”, esse é o Negro Drama cantado pelos Racionais MC’s. Os MCs de funk ostentação estão tentando dizer que é possível construir uma vida de sucesso pela música. E o que era ficção, os videoclipes com carros importados emprestados ou alugados, com dinheiro cenográfico jogado para o ar, começa a tornar-se realidade. Muitos deles começam a ganhar uma quantidade razoável de dinheiro com os shows. Acho que a ideia da imaginação como uma força criativa apresenta-se fortemente no funk ostentação.

“Será que a classe média entende que os jovens estão ‘roubando’ o direito exclusivo de eles consumirem? Direito que, por sua vez, vinha sendo roubado desses jovens pobres há muito tempo.”

rolezinho prisão 2
Por outro lado, é preciso destacar que masculinidades pautadas pelo desejo de possuir um automóvel ou uma motocicleta não foram construídas pelo funk ostentação. Já existia há um tempo. Para os meninos da periferia, possuir um bom carro, bonito e potente, é uma das metas principais de vida. A posse do carro é, no imaginário desses jovens, mas também da população em geral, um indicativo de sucesso econômico e social, garantindo, consequentemente, sucesso com as mulheres.

Neste caldo cultural, o consumo é cada vez mais exaltado como espaço de afirmação e de reconhecimento para os jovens. É, inclusive, bastante complexa a forma como se dá a relação entre criminalidade e consumo no funk. Na virada que produziram, parece que há o recado de que essas duas ações sociais podem constituir dois lados de uma mesma moeda. Eles não deixam de falar do crime. Acabam citando-o indiretamente, como nas músicas do MC Rodofilho, nas quais ele celebra: “Ai meu deus, como é bom ser vida loka!”. O importante é entender como o crime e o consumo são pautas constantes nas relações de sociabilidade dos jovens da periferia. Os mais pobres também querem que ipads, iphones e automóveis potentes façam parte de seu mundo social. Ainda preciso observar e refletir mais sobre isso, mas acho que tanto no caso do crime, como no do consumo temos que atentar mais para o modo como se dão as relações entre pessoas e coisas. Fico pensando que a busca de realização apenas pelo consumo envolve sentimentos e posturas extremas de um egoísmo hedonista e de um profundo desprezo pelos outros humanos. As mercadorias, ou as coisas almejadas, de certa forma têm conformado as subjetividades contemporâneas. E nessas novas subjetividades, pautadas pelo instantâneo e o instável, parece não haver muito espaço para a solidariedade. Há uma nova tendência na discussão antropológica afirmando que não podemos entender as coisas apenas como representação ou resultado do social. Precisamos pensar também em como as coisas fazem as pessoas e mesmo o social, como as coisas, ou as mercadorias mais desejadas hoje, motivam tanto um consumismo desenfreado, irracional e egoísta, quanto o ingresso de jovens na criminalidade. Sempre fico espantado quando vejo as imagens, em outros países, das pessoas correndo desesperadas para comprar um novo lançamento de smartphone, videogame ou tablet… Mas não só isso, tais coisas também motivam e determinam formas de estar, pensar, relacionar-se e sentir no mundo contemporâneo.

Penso muito nisso quando parte da classe média critica o consumo desses jovens, dizendo que apenas eles – da classe média que, supostamente, pagaria os impostos – têm direito a consumir, ou se relacionar com certos produtos. Será que, desse modo, a classe média entende que os jovens estão roubando o direito exclusivo de eles consumirem ou de se relacionarem com esses objetos de prestígio? Direito que, por sua vez, vinha sendo roubado desses jovens pobres há muito tempo?

Essa crítica pode vir inclusive de certa classe média mais intelectualizada e mesmo com ideias políticas progressistas, mas que acha que sabe o que é melhor para os pobres. Aí fazem a crítica, a partir dos seus ipads e iphones, ao que entendem como um consumo irracional dos mais pobres, que deveriam poupar ao invés de gastar com produtos que não seriam para o nível econômico deles. Enfim, tem aí um jogo de perde e ganha e também de busca de satisfações individuais que envolve o roubo do direito de alguns ao consumo, que é preciso aprofundar para entendermos melhor essas dinâmicas contemporâneas. Todos têm o direito a consumir o que quiserem hoje? E seria viável, hoje, todos consumirem em um alto padrão? Que implicações ambientais teríamos? E se não é sustentável ou viável que todos consumam em tamanha intensidade, por que incentivamos tal consumismo? Com isso, o que quero dizer é que não se pode pensar a relação entre crime e consumo apenas entre os pobres, mas creio que precisamos também olhar para as classes médias e altas e para os crimes que, historicamente, têm sido cometidos contra os mais pobres e o meio ambiente para proteger o consumo dos ricos.

P. É neste ponto que os rolezinhos aparecem e criam uma tensão das mais reveladoras neste Natal?

R. Os rolezinhos nos shoppings estão ligados diretamente a esse contexto. Não sei dizer como surgiram efetivamente, mas me parece que despontaram por essas novas associações que as redes sociais permitem fazer, de forma que uma brincadeira possa virar algo sério. De repente, uma convocatória feita na internet pode levar centenas de jovens a se encontrarem num shopping, local onde podem ter acesso a esses bens cantados nas músicas, ainda que apenas por acesso visual. Agora, o que é importante ressaltar é que não foram os rolezinhos nem o funk ostentação que criaram essa relação de fascinação com consumo. Esta já existia há muito tempo. Os Racionais, há mais de dez anos, já cantavam sobre isso, com afirmações como: “Você disse que era bom e a favela ouviu, lá também tem uísque, red bull, tênis nike e fuzil” ou “Fartura alegra o sofredor”

“É importante perceber que os shoppings onde os rolezinhos ocorreram estão em regiões mais periféricas. Eles não têm ido aos templos maiores do consumo de luxo na cidade.”

 
P. Algumas análises relacionam os rolezinhos a uma ação afirmativa da juventude negra e pobre, a uma denúncia da opressão e a uma reivindicação de participação, neste caso no mundo do consumo. Como você analisaria este fenômeno tão novo?

R. Não me arriscaria a dizer que há um movimento político muito claro. Pode indiretamente constituir-se como uma ação afirmativa da juventude negra e pobre. Talvez a tensão que se criou com a criminalização desses jovens, durante os rolezinhos, possa levar a algum tipo de reflexão e ação política maior, mas é difícil prever. Em um livro intitulado Cidadania Insurgente, (o antropólogo americano) James Holston analisa o surgimento das periferias urbanas no Brasil, particularmente em São Paulo, apontando a discriminação contra certas espécies de cidadãos no Brasil. Esse autor mostra como, historicamente, as formulações de cidadania elaboradas pelos mais pobres se deram a partir de sua ocupação dos bairros nas periferias das grandes cidades. Noções e práticas próprias de cidadania que se produziram, ao mesmo tempo, por meio das experiências de tornar-se proprietário, de participar de movimentos sociais por melhorias dos bairros e de ingressar no mercado consumidor. Primeiro se ocupou os bairros, mesmo sem estrutura mínima. Depois, ocorreram as reivindicações pela legalização dos terrenos ocupados. E, enfim, vieram as lutas pela chegada da energia elétrica, saneamento básico e asfalto. Acho sempre muito interessante, em conversas com lideranças antigas dos bairros periféricos de São Paulo, observar que elas indicam a chegada do asfalto como o grande marco de transformação do bairro e a integração deste ao espaço urbano.

Encaro, portanto, ações como estas, dos rolezinhos, do ponto de vista dessa “cidadania insurgente”, referindo-se a associações de cidadãos que reivindicam um espaço para si e, assim, se contrapõem ao grande discurso hegemônico ou, se não se dissociam do discurso hegemônico, ao menos provocam ruídos nele. Trata-se de uma reivindicação por cidadania, participação política e direitos que, historicamente, foi feita na marra, pelos mais pobres, muitas vezes nas costuras entre o legal e o ilegal, e que começou com a própria ocupação dos bairros na periferia da cidade de São Paulo, como forma de habitar e sobreviver no mundo urbano. Essa cidadania não necessariamente se apresenta como resistência, mas pode também querer, em muitos casos, associar-se ao hegemônico, produzindo dissonâncias.

O que são o funk ostentação e os rolezinhos se não essa reivindicação dos jovens mais pobres por maior participação na vida social mais ampla pelo consumo? Estas ações culturais parecem situar-se nessa lógica, que não necessariamente se contrapõe ao hegemônico, na medida em que tenta se afirmar pelo consumo, mas provoca um desconforto, um ruído extremamente irritante para aqueles que se pautam por um discurso e uma prática de segregação dos que consideram como seus “outros”.

P. Como definir este desconforto? O que são os “outros” neste contexto? E que papel estes “outros” desempenham?

R. O desconforto em ver pobres ocupando um lugar em que não deveriam estar, como o de consumidores de certos produtos que deveriam ser mais exclusivos. É um tipo de espanto, que indaga: “Como eles, que não têm dinheiro, querem consumir produtos que não são para a posição social e econômica deles?”. Estes “outros” são os considerados “subalternos”. Podem ser funkeiros, pobres e pardos da periferia, mas podem ser também as empregadas domésticas, os motoboys, os pichadores, entre outros “outros”, que muitas vezes são utilizados como bode expiatório das frustrações de uma parcela considerável da classe média.

“Há uma tendência de perceber os jovens pobres a partir de três perspectivas: a do bandido, a da vítima e a do herói.”

rolezinho prisão
Os rolezinhos não são protestos contra o shopping ou o consumo, mas afirmações de: “Queremos estar no mundo do consumo, nos templos do consumo”. Entretanto, por serem jovens pobres de bairros periféricos, negros e pardos em sua maioria, e que ouvem um gênero musical considerado marginal, eles passam a ser vistos e classificados pela maioria dos segmentos da sociedade como bandidos ou marginais. Vamos pensar que, na própria concepção do shopping, não está prevista a presença desse público, ainda mais em grupo e fazendo barulho. Pergunto-me se fosse em um shopping mais nobre, com jovens brancos de classe média alta, vestidos como se espera que um jovem deste estrato social se vista, se a repercussão seria a mesma, se a criminalização seria a mesma. Talvez fosse considerado apenas um flash mob. Há uma tendência, por parcela considerável da classe média, da mídia e do poder público de perceber os jovens pobres a partir de três perspectivas, quase sempre exclusivistas: a do bandido, a da vítima e a do herói.

P. Como funcionam estas três perspectivas – bandido, vítima e herói?

R. São muito mais formas de enquadrar esses jovens por aqueles que querem tutelá-los do que categorias assumidas pelos próprios jovens. Por isso, são contextuais. Dependendo da situação e dos atores sociais com quem dialogam, o jovem pode ser entendido a partir de uma dessas categorias. O pichador, por exemplo, é um agente que pode mobilizar todas essas classificações, dependendo do contexto e dos interlocutores: a polícia, a secretaria de cultura, os pesquisadores acadêmicos ou a ONG que quer salvar os jovens da periferia da violência. No caso do funk, por exemplo, já há comentários e mesmo textos de pessoas mais politizadas vendo os rolezinhos como uma ação afirmativa ou extremamente contestatória. Para estes, os protagonistas dos rolezinhos são vítimas que se tornaram heróis. Outros, como a polícia, a administração dos shoppings e a clientela, mas também seus vizinhos, que moram lá nos bairros pobres da periferia, enxergam neles principalmente vilões e mesmo bandidos.

Jovens como estes que estão nos rolezinhos não necessariamente aceitam se encaixar nesses rótulos, mas, em alguns casos, podem também se encaixar em todos eles ao mesmo tempo. Não se pode simplificar um fenômeno como este. Porém, se pensarmos esse movimento que surge principalmente com o hip hop, de valorizar a periferia como espaço político e de afirmação positiva, é possível ver, sim, ainda que em menor intensidade, uma certa ação política. De dizer: “Somos da quebrada e temos orgulho disso”. Um movimento de reversão do estigma em marca positiva.

P. Mas há, de fato, uma ação consciente, organizada, com um sentido político prévio? Ou o sentido está sendo construído a partir dos acontecimentos, o que é igualmente legítimo?

R. Olha, sinceramente, é difícil dizer se há um sentido político, direto, consciente e/ou explícito. Talvez por parte de alguns, mas pelo que vi nas redes sociais, não da maioria. Se o movimento persistir ou tomar outras formas, pode ser que tal sentido político fique mais forte. Por enquanto é difícil analisar esse ponto. O antropólogo (indiano) Arjun Appadurai analisa há algum tempo as mudanças que se processam no mundo por causa do avanço das tecnologias de comunicação e de transporte. Segundo este autor, as pessoas cada vez mais se deslocam no mundo atual, e não apenas fisicamente, mas também e talvez principalmente pela imaginação, por causa de meios de comunicação como a televisão e, mais recentemente, pela internet. Hoje é possível imaginar-se nos mais diferentes lugares do mundo, mas também em diferentes classes sociais. O que são os videoclipes de funk da ostentação que não imagens/imaginações que os jovens produzem sobre o que seria pertencer a outra classe social ou possuir melhores condições econômicas para o consumo?

“O que são os videoclipes de funk ostentação que não imagens que os jovens produzem sobre o que seria pertencer a outra classe social?”

Essa imaginação, segundo esse autor, pode constituir-se como um projeto político compartilhado, mas pode também ser apenas uma fantasia, como algo individualista e egoísta, sem grandes potenciais políticos. Parece-me que o funk da ostentação em São Paulo e movimentos como o dos rolezinhos nos shoppings têm intensamente essas duas potências. Difícil saber se alguma delas irá prevalecer ou tornar-se hegemônica.

P. A escolha da música do MC Daleste, assassinado num show em Campinas, para o rolezinho promovido no Shopping Internacional de Guarulhos, pode ter um significado a mais?

R. A escolha da música do MC Daleste na entrada dos jovens no shopping de Guarulhos me pareceu bastante significativa, por vários motivos. Principalmente, porque a morte dele no palco, cantando funk, de certa forma construiu um marco para esse funk da ostentação. O seu assassinato acabou por dar ainda mais visibilidade a esta vertente do funk paulista. MC Daleste cantava proibidão antes e, assim, essa relação confusa entre crime e consumo manifesta-se de modo bastante forte no que o MC Daleste representa. Há no seu próprio nome artístico essa afirmação de um certo orgulho do lugar de onde vem e de ser da periferia, que tanto o funk quanto o hip hop expressam. Não é por acaso que ele é “Da Leste”. Lembremos que Guarulhos também está à leste da Região Metropolitana de São Paulo.

P. Hoje, uma parte significativa da geração que se criou nas periferias com movimentos contestatórios como o hip hop e a literatura periférica ou marginal tem, pelo funk da ostentação, assumido os valores de consumo das classes médias e alta. Como você analisa este fenômeno e o insere no contexto histórico atual do Brasil?

R. O que um evento como esse parece evidenciar é, por um lado, esse anseio por consumir e por afirmar-se pelo consumo que esses jovens vêm demonstrando já há algum tempo, pelas letras dos funks, mas que também já é visto no hip hop. Apesar das críticas de certos segmentos do hip hop, não sei se o funk ostentação rompe com o hip hop mais politizado dos anos 1980 e 1990 ou se oferece uma das muitas possíveis continuidades a esse movimento cultural. Parece-me que o funk ostentação é uma releitura paulista, muito influenciada pelo hip hop, do funk carioca. Muitos MCs de funk eram MCs de hip hop, muitos deles, além dos funks, cantam também raps, e músicas dos Racionais são ouvidas nos shows. Trechos de letras de músicas dos Racionais podem ser encontrados facilmente nas letras do funk. Agora, o fato é que o funk não é tão marcado pela questão política como o hip hop. O Montanha, de Cidade Tiradentes, disse-me algo interessante, certa vez, de que, na verdade, o hip hop ofereceria um espaço de expressão política que faltava aos jovens, já o funk é um espaço de lazer e de sociabilidade. Parece-me uma reflexão interessante. Não que o hip hop não possa conter lazer e sociabilidade também, nem o funk, protesto político, mas que as duas vertentes tendem para um dos polos. O funk, aliás, ganhou esse grande espaço junto aos jovens das periferias de São Paulo porque, nessa articulação de um espaço de lazer, configurou-se um espaço para as mulheres que, no hip hop, era mais difícil. As mulheres são presença fundamental nos bailes funks. O protagonismo da dança sempre foi delas. Ainda que os meninos também dancem e as meninas participem cada vez mais como MCs. O hip hop sempre foi muito mais masculino, da dança ao estilo de se vestir.

P. Mas qual é a diferença, na sua opinião, entre a forma como, por exemplo, os Racionais falam em consumo e os MCs da ostentação falam de consumo?

“Devemos questionar não a ação dos meninos, mas as relações sociais fomentadas na contemporaneidade que se pautam cada vez mais pela busca do reconhecimento pelo consumo, pela posse de bens.”

R. Há aí duas perspectivas. Quando digo que os Racionais já cantavam isso, quero dizer que eles já identificavam essa necessidade de consumir da juventude. E de consumir o que eles achavam que era bom, nada de consumo consciente. Por isso digo que os Racionais já faziam, há mais de dez anos, uma leitura desse anseio por consumir dos jovens pobres. Por outro lado, há essa dimensão de movimentos como o dos escritores da periferia, promovendo produtos da periferia, pela periferia. O funk ostentação começa sem se preocupar com essa questão diretamente. Ele não tem dor na consciência por cantar o consumo em suas músicas e aderir ao sistema, por exemplo. Porém, indiretamente, se acaba chegando a um outro ponto, na medida em que uma parcela considerável de jovens da periferia passa a possuir algum tipo de renda com a produção do funk. Sejam os meninos que gravam os videoclipes, os próprios MCs, mas também empresários, produtores, técnicos e mesmo alguns MCs tornando-se empreendedores e criando seus próprios negócios. Como o MC Nego Blue, que observando de perto o sucesso das roupas de grife entre os jovens, criou a Black Blue, uma loja de roupas cujo símbolo é uma carpa colorida. Hoje, além de possuir lojas próprias, já vende suas roupas em lojas multimarcas, ao lado de camisas da Lacoste ou de outras marcas famosas que os meninos procuram, e por um preço muito parecido. Uma das empresas que agencia shows de funk em Cidade Tiradentes chama-se justamente “Nóis por nóis”.

Os rolezinhos parecem dizer: não apenas queremos consumir, mas queremos ocupar em massa e se divertir aí nos seus shoppings, nos seus ou nos nossos. É importante perceber também que os shoppings onde os eventos ocorreram estão em regiões mais periféricas, provavelmente próximos ao próprio bairro de moradia dos jovens. Por enquanto, eles não têm ido aos templos maiores do consumo de luxo na cidade, na região dos Jardins, Faria Lima, Marginal Pinheiros etc. Pode haver aí também um componente de um termo que surgiu muito forte para mim na pesquisa que fiz em escolas de ensino médio, no meu doutorado, que é a ideia do “zoar”. Eles querem zoar, que é chamar a atenção para si e se divertir, namorar, brincar e, se for preciso, brigar.

P. Por que, neste momento, o lazer se impõe como uma reivindicação desta geração, acima de questões como saúde, educação e transporte de qualidade?

R. Acho que não há uma reivindicação política bem formuladinha como acontecia com o hip hop: queremos mais saúde, educação e lazer. Eles simplesmente querem estar nos shoppings para zoar e vão. Não há essa reflexão mais elaborada que o hip hop produz, é mais espontâneo. Esse talvez possa ser um ponto de distinção. E o próprio funk é, por si só, lazer e diversão, um dispositivo poderosíssimo para dançar e motivar paqueras. O zoar pode ser lido como um ato político, mas não me parece intencional. Acho que cria uma tensão que é política, que é de disputa de poder pelos espaços da cidade, mas não há um manifesto pela zoeira ou pelos rolezinhos, como houve, por exemplo, no caso do manifesto da arte periférica dos escritores.

P. Há também um movimento maior para sair dos guetos e ocupar os guetos da classe média? Em massa e não mais individualmente, como quando um grupo de rap aparecia numa TV, mesmo sendo a MTV, ou um escritor do movimento literário marginal ou periférico publicava numa grande editora? Esta é uma novidade importante?

R. Acho que abre, sim, para fora do gueto, do bairro onde se vive, mas não para muito longe, pois, afinal, os shoppings para os quais eles vão estão do lado de suas casas. Neste sentido, acho que o hip hop, apesar de falar mais do gueto, abre-se muito mais para fora do gueto, na medida em que conquista um espaço importante nas políticas públicas de cultura, por exemplo.

“É como se a sociedade dissesse: ‘Vocês, pobres, podem consumir, mas ir ao shopping em grandes grupos, só para zoar e cantar funk, aí já é vandalismo’.”

 
Claro que esse espaço de lazer é problemático e conflitivo mesmo dentro dos bairros das periferias onde moram esses jovens. Se entrevistarmos os seus vizinhos, certamente a maioria vai se posicionar totalmente favorável à proibição das festas de rua que eles organizam, com som alto que muitas vezes toma a madrugada toda. Por isso, acho importante não tomar o funk nem como um movimento libertador, nem como o grande vilão ou o grande movimento de corrupção da juventude contemporânea, como setores mais moralistas, à esquerda e à direita, tendem a fazer.

A questão do consumo também me parece problemática. O desejo pelo consumo sempre existiu. Bem antes do governo Lula, o processo de urbanização induz a esse apego maior ao consumo. Porém, não dá para se negar que houve, nos últimos anos, também uma melhora econômica para segmentos que antes estavam bastante afastados do mercado. Porém, acho que reduzir o sucesso do funk da ostentação a isso é simplificar demais o movimento e esquecer que ocorreram e ocorrem movimentos juvenis parecidos em outras partes do mundo, como o próprio gangsta rap, nos Estados Unidos, no qual os videoclipes se inspiram.

Devemos questionar não a ação dos meninos, mas as relações sociais fomentadas na contemporaneidade. É preciso conceder aos jovens, e não apenas aos pobres, mas aos de classe média e alta também, outros espaços de reconhecimento e de estabelecimento de relações sociais que não sejam pautados pela afirmação por meio da posse e do consumo de bens. Porque, afinal, como dizem os Racionais, mais uma vez: “Quem não quer brilhar, quem não? Mostra quem. Ninguém quer ser coadjuvante de ninguém”. De repente, para alguns, ter um tênis caro, um smartphone de última geração ou ir ao shopping para zoar, pode ser uma forma encontrada para tentar brilhar.

P. Ao ocupar os shoppings, os adeptos do funk da ostentação estariam promovendo sua primeira atitude de insurgência contra o sistema, no sentido de: “Vou ocupar o espaço que me é negado ou onde não me querem”. É isso? Ou as próprias letras das músicas, interpretadas, em geral, como adesão ao sistema, já seriam, de fato, uma insurgência, na medida que se apropriam, simbolicamente, dos valores da elite e da classe média e, agora, com os rolezinhos, também de seus espaços físicos?

R. Sim, acho que essa é a maior irritação da classe média com esses movimentos. Basta ver os comentários aos videoclipes no YouTube, irritados com os meninos ostentando e exibindo-se com produtos mais caros, que não deveriam estar com aqueles meninos, pobre e negros, em sua maioria. Esta é a principal insurgência que eles provocam. A classe média, de uma maneira geral, a mais pobre ou a mais rica, a mais ou menos intelectualizada, irrita-se bastante quando os subalternos compram bens caros, mesmo antes deles. Já ouvi comentários indignados, do tipo: “Minha empregada comprou uma televisão de última geração, melhor do que a minha”. Isso tem antecedentes históricos que parecem refletir até hoje. James Holston, ainda no livro sobre cidadania insurgente, que citei anteriormente, traz como exemplo a legislação colonial portuguesa, que proibia aos negros o uso de joias e artigos considerados finos…

P. Parece que os “rolezeiros” dos shoppings estão ocupando o mesmo lugar simbólico dos “vândalos” nas manifestações, na narrativa feita por parte da grande mídia e pelas autoridades instituídas. Como você interpreta essa reação?

“Os comentários em sites e redes sociais revelam esse profundo racismo entranhado em parcela considerável da população brasileira.”

R. O que me assustou de verdade nessa história toda foram as reações, de mídia e de polícia, condenando e mandando prender, mesmo em casos em que disseram que não houve arrastões, mas correrias. Fico questionando quem provocou a correria: os jovens ou a ação dos seguranças e da polícia? Eventos como estes revelam também uma faceta complicada e extremamente preconceituosa da classe média brasileira. Dei uma entrevista curta para o site de um grande grupo de comunicação e fiquei assustado ao ler os comentários dos leitores, de um ódio terrível contras os meninos e meninas que foram aos shoppings, contra os pobres, contra mim, que tive uma fala dissonante na entrevista, ressaltando a forma preconceituosa com que tal tema vinha sendo tratado. Ao falarem do evento, algumas palavras utilizadas como categorias de acusação contra os jovens e as jovens foram bastante reveladoras do preconceito, e mesmo do racismo, deste segmento social: “favelados”, “maloqueiros”, “bandidos”, “prostitutas” e “negros”. Nesse último caso, inclusive, fica evidente o racismo que aparece em muitos comentários dessa notícia, mas também nas comunidades dos rolezinhos que os jovens criaram nas redes sociais. Um dos comentários pede para que os jovens voltem para a África. Isso é muito grave. Revela esse profundo racismo entranhado em parcela considerável da população. Como se tal sociedade dissesse, por meio dos representantes dos shoppings, da mídia e da polícia, brincando um pouco com a questão das manifestações de junho: “Vocês, pobres, podem consumir, mas ir ao shopping em grandes grupos, só para zoar e cantar funk, aí já é vandalismo”.

P. A classe média é racista?

R. O que chamamos de classe média não é um todo homogêneo. É possível segmentá-la em diferentes níveis e a partir de diferentes contextos, é possível pensar em uma classe média intelectualizada ou não intelectualizada. Contudo, parece-me que a divisão mais importante para se pensar a classe média em São Paulo é a que se dá por critérios socioeconômicos e espaciais. Há a classe média que está concentrada principalmente no entorno do eixo central, que vai do Centro a Pinheiros, passando pela Avenida Paulista e bairros próximos. Esta, em sua maioria, vive numa bolha e tem poucos contatos com outras classes sociais, com exceção dos trabalhadores subalternos: porteiros, empregadas domésticas etc. Para esta, em grande medida, o Shopping Itaquera pode estar mais distante do que Paris ou Londres.

Porém, há também certa classe média baixa que vive na periferia. Citando novamente o Holston, ele fala de uma diferenciação que se produziu nas periferias de São Paulo entre aqueles que compraram seus terrenos, ainda que por meio de contratos obscuros, e aqueles que ocuparam os espaços da cidade, formando as favelas. Essa pequena diferença não cria um grande abismo econômico, mas produz uma profunda diferenciação, por meio do qual um grupo estigmatiza o outro. Já vi um indivíduo desta classe média da periferia questionando programas como o bolsa família, porque tinha visto potes vazios de iogurte no lixo da favela. Este indivíduo afirmava que nem ele consumia iogurte com tanta frequência, como eles se davam ao direito de consumir tal produto, que era um luxo, raro, mas sobre o qual ele detinha certa exclusividade?

A questão do auxílio aos mais pobres, principalmente o bolsa família, é um forte fator de estigmatização por parte desses diferentes segmentos da classe média, mas principalmente por parte dessa classe média da periferia. Estive, recentemente, em uma escola pública próxima a uma grande favela de São Paulo. Segundo os professores, um dos problemas daquela escola era o fato de que 90% dos alunos vinham da favela vizinha. E que, hoje, esses alunos estavam muito acomodados, pois viviam de bolsas e na favela tinham tudo muito fácil, com a grande quantidade de projetos presentes por lá. Inclusive, projetos de música, ressaltou um professor. É muito importante refletir sobre isso, porque esses professores, se não moram na favela, são vizinhos dela. Mas, ainda assim, permitem-se diferenciar-se dos jovens por questões muito pequenas. E são estes professores os responsáveis por formar esses jovens. Será que, com este olhar, são capazes de lutar para que a escola se torne um espaço de convivência, afirmação e reconhecimento para os jovens?

P. Como você, que tem acompanhado o cotidiano de escolas públicas, em São Paulo, percebe a educação?

“Para uma parcela da classe média de São Paulo, o Shopping Itaquera pode estar mais distante do que Paris ou Londres.”

R. É necessário pensarmos em uma educação para as diferenças, para que não caiamos mais na armadilha da intolerância e das análises apressadas e preconceituosas de setores das elites e das camadas médias, ao se referirem aos “subalternos”. Lembro-me de um documentário português, que vale a pena ser assistido, sobre a história de um arrastão que não existiu. Chama-se: “Era uma vez um arrastão” (assista aqui). Nele, conta-se do dia em que jovens caboverdianos ou descendentes de caboverdianos resolveram frequentar a nobre praia de Carcavelos, em Portugal. A polícia, ao ver a concentração de jovens de origem africana, assustou-se e resolveu intervir, provocando uma grande correria, que foi noticiada como arrastão. Mas, de fato, os jovens fugiam da repressão policial gratuita. Isso talvez nos ensine algo sobre os arrastões que estamos a criar todo dia, criminalizando jovens pobres cotidianamente.

Quando estive pesquisando em escolas públicas da periferia de São Paulo, era comum ouvir dos professores que, naquela escola, os alunos eram todos bandidos ou marginais. O discurso da criminalização é efetivo e poderoso e condena muita gente ao fracasso escolar e mesmo ao crime. O sociólogo polonês Zygmunt Bauman, num livro sobre educação e juventude, ressalta a necessidade cada vez mais premente, na contemporaneidade, de desenvolvermos a arte de conviver com os estranhos e a diferença. Em especial num mundo no qual as migrações tendem a aumentar cada vez mais. No nosso caso, não foi preciso a chegada de estrangeiros para a expressão das mais brutais formas de preconceito, pois os estrangeiros éramos nós, os brasileiros. Mas brasileiros que moram muito, muito distante, ainda que vizinhos. Moram em Guaianazes, Capão Redondo, Grajaú, Cidade Ademar, Cidade Tiradentes, Vila Brasilândia…

P. Em que medida, na sua opinião, os rolezinhos se ligam às manifestações de junho?

R. Acho que não há uma ligação direta. Mas, indiretamente, é possível perceber a reivindicação comum do uso do espaço público e de quebra das marcas da segregação. Lembro-me que, antes das manifestações de junho, para a imprensa conservadora era um tabu ocupar a Avenida Paulista. Os movimentos sociais mostraram que não apenas não era um tabu, como era um direito, o direito de ir às ruas e ocupá-las para protestar. Os rolezinhos não parecem ter uma pauta tão clara, mas também estão, ainda que indiretamente, dizendo: “Vocês não disseram que era bom consumir? Pois bem, nós também queremos!”

P. Essa ocupação de espaços que supostamente pertenceriam a “outros”, tanto no caso das manifestações como no caso dos rolezinhos, parece marcar uma novidade importante. O que está acontecendo?

R. Acho que a novidade está aí, mas é difícil dizer o que está acontecendo ou o que acontecerá. Pode ser apenas um surto – algo parecido com o que foi a revolta da vacina como reação às propostas políticas opressoras de reforma sanitária do Rio de Janeiro, por exemplo – ou pode ser uma nova forma de pensar os espaços públicos e privados nas cidades brasileiras. Porém, é difícil prever. Os rolezinhos podem ter acabado nesta semana, por exemplo. E movimentos como os de junho não se repetiram com tanta intensidade e repercussão. Contudo, o que movimentos como estes garantem é a possibilidade de se tensionar essa ocupação dos espaços urbanos, amplamente negada até então.

“Aqui não foi preciso a chegada de estrangeiros para a expressão das mais brutais formas de preconceito, pois os estrangeiros éramos nós, os brasileiros que moram em Guaianazes, Capão Redondo, Grajaú, Cidade Ademar, Cidade Tiradentes, Vila Brasilândia…”

P. Por que este nome, rolezinho? E que significados ele contém?

R. Rolezinho é um termo que está diretamente ligado à ideia de lazer. De sair para se divertir e usufruir da cidade. Os pichadores, com os quais realizei pesquisa no mestrado, também usam a ideia de rolê, para se referirem às suas pichações. Com isso estão dizendo que pichar é dar voltas para conhecer e se apropriar da cidade. Parece que, por este termo, indiretamente, podemos entender uma reivindicação pelo direito de se divertir na cidade.

P. Divertir-se na cidade não seria um ato de insubordinação para jovens pobres e negros? Talvez até o maior ato de insubordinação?

R. Sim, principalmente numa sociedade em que pobres e negros têm que trabalhar – e apenas trabalhar – sem reclamar. Lembremos de que a ROTA, no final do regime militar, atuava nas periferias abordando os moradores e cobrando-lhes a carteira profissional como prova de que eram trabalhadores e não vagabundos. Devotados, portanto, ao trabalho e não à diversão. Agora, claro que esses jovens não estão pensando exatamente nisso. Querem muito mais é se divertir.

P. Como entender este fenômeno, que é, ao mesmo tempo, uma insubordinação e uma adesão ao sistema?

R. Acho que a melhor palavra é paradoxo. O funk da ostentação em São Paulo é paradoxal: não dá para situá-lo num polo ou noutro, dentro do modo tradicional de pensar a política. Conservador ou revolucionário? Nenhum dos dois, mas com possibilidade para os dois ao mesmo tempo.

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Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua e A Menina Quebrada e do romance Uma Duas. Email: elianebrum@uol.com.br . Twitter: @brumelianebrum