Um novo tipo de agente literário

Alfredo Martirena

Alfredo Martirena

Sobre o texto publicado na Folha pela Luciana Villas-Boas, condenando a política de tradução do autor brasileiro, achei grosseiro inclusive no modo como se dirige aos escritores. O que é até certo ponto explicável pelo fato de ter sido empregada durante tanto tempo de casa ligada ao comércio editorial, quem sabe os patrões falavam assim com ela o tempo todo.
Estamos precisando no Brasil de um novo tipo de agente, sem subserviência mercantilista às empresas e com um desenho literário sustentado em qualidade estética e identidade singular.
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A submissão operosa desse tipo de agentes às editoras não adianta de nada porque afinal terminam levando o mesmo pontapé (veja-se a mais recente das ex-Record) e o que os escritores desejam na verdade é serem respeitados e levados mais em conta no sentido que a Villas-Boas e suas colegas fossem mais altivas e ao menos desenhassem um perfil de qualidade literária em suas gestões profissionais.
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Outro dia mesmo fiquei pasma ao saber que uma outra ex- empregada de editora deu um estranho mini-curso no Rio pretendendo ensinar aos escritores os passos necessários como agradar a esses estabelecimentos comerciais para ter seus livros aceitos à publicação: o nome disso é mediocridade capitalista mesmo. É banalização vazia da arte e nada tem a ver com a verdadeira literatura.
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Como evitar a maior queima de livros do Brasil

“Livros a mão cheia e manda o povo pensar”

Instante Estante, em Brasilia

Instante Estante, em Porto Alegre

Raquel Cozer publicou importante reportagem sobre “Encalhe, destruição: a superprodução de livros no Brasil”.

Informou:“A eliminação de sobras de livros é tema abordado com cautela por empresários, mas a prática de ‘transformar em aparas’, como eles preferem, é bem menos rara do que se possa pensar, em especial neste momento em que o mercado editorial brasileiro produz muito mais do que consegue vender”.

Por que os governantes brasileiros, via centenas de secretarias municipais e estaduais e Ministério da Cultura não evitam essa “queima de livros”.

Se estes livros estão para ser vendidos como se faz com jornais velhos e qualquer papel jogado no lixo, por que nossos governantes não compram no peso para distribuir com o povo?

O povo tem fome de livros. Mas não tem dinheiro. O livro voltou a ser artigo de luxo. Fazia parte dos inventários das grande fortunas até a Idade Moderna.

A distribuição seria fácil. A poetisa Sandra Santos pode ensinar. Veja como funciona o inteligente e criativo projeto Instante Estante .

“Bendito é aquele que semeia livros,
livros a mão cheia e manda o povo pensar;
o livro caindo na alma, é germe que faz a palma,
é chuva que faz o mar”.

Castro Alves

QUEIMA DE LIVROS

“Encalhe, destruição: a superprodução de livros no Brasil”

Este o título de impressionante reportagem de Raquel Cozer.

“A eliminação de sobras de livros é tema abordado com cautela por empresários, mas a prática de ‘transformar em aparas’, como eles preferem, é bem menos rara do que se possa pensar, em especial neste momento em que o mercado editorial brasileiro produz muito mais do que consegue vender”.

Isso me lembra os produtores agropecuários que, como forma de protesto, derramam leite, ou jogam na rua frutas, verduras, farinha, carne, enquanto o brasileiro morre de fome.

Como aumentar os preços no país do mais alto custo de vida?
Como comer três refeições – o “pão nosso de cada dia” – quando a maioria dos trabalhadores recebe um congelado salário mínimo do mínimo?
Em um Brasil escravocrata, cruel, desumano, injusto, desigual, que paga aposentadorias e pensões humilhantes e degradantes?

Eu acredito, também, na fome de livros.
Qual deveria ser o piso salarial de um professor, de um jornalista, para citar duas profissões que têm o livro como ferramenta de trabalho?

Leia. Leia sempre Raquel Cozer.