Velhice chegando e eu chegando ao fim

Ninguém Me Ama
Antônio Maria

Antonio Maria

Antonio Maria

Ninguém me ama, ninguém me quer
Ninguém me chama de meu amor
A vida passa, e eu sem ninguém
E quem me abraça não me quer bem

Vim pela noite tão longa de fracasso em fracasso
E hoje descrente de tudo me resta o cansaço
Cansaço da vida, cansaço de mim
Velhice chegando e eu chegando ao fim

O menino Manuel Bandeira, o gordo Antônio Maria, o magro Willy Lewin, uma constelação em tríade na Rua da União

NINGUÉM ME AMA
Antônio Maria
e Fernando Lobo

.

Ninguém me ama, ninguém me quer
Ninguém me chama de meu amor
A vida passa, e eu sem ninguém
E quem me abraça não me quer bem

Vim pela noite tão longa de fracasso em fracasso
E hoje descrente de tudo me resta o cansaço
Cansaço da vida, cansaço de mim
Velhice chegando e eu chegando ao fim

 

 

 Rua da União, n º 263, Recife. Casa do avô de Manuel Bandeira, onde o poeta passou a infância

Rua da União, n º 263, Recife. Casa do avô de Manuel Bandeira, onde o poeta passou a infância

 

RUA DA UNIÃO
J. Gonçalves de Oliveira

.

Na rua da União,
criaturas existiram
e existem na direção
intemporal dos espíritos.

Bandeira (Manoel menino),
o gordo Antônio Maria,
o magro Willy Lewin,
uma constelação em tríade.

Entre cantatas de Bach
que Tombinha dedilhava
ao piano familiar,
outra música ansiava.

Aquela de ritmo atávico
no sangue, já imaginada,
do poeta que mais tarde
em belas canções cantava.

Um Essenfelder havia,
sempre aberto e conivente,
sorrindo antecedências
nas mãos de Antônio Maria.

Sensitiva parceria,
Fernando Lobo dizia,
nesse tempo, certo e ancho:
foi coisa de amor eu apronto.

É que ele também sabia
partilhar toda a sintaxe
da coisa amada e eivada
de existências eletivas.

São dessas metamorfoses
lúcidas que sobrevivem
a cidade, sua memória
que nem mesmo o tempo elide.

 

Poesia e música do jornalista Antônio Maria cantada por Nat King Cole

Antonio Maria

Antônio Maria, na Rua Bom Jesus,

NINGUÉM ME AMA

Ninguém me ama, ninguém me quer
Ninguém me chama de meu amor
A vida passa, e eu sem ninguém
E quem me abraça não me quer bem

Vim pela noite tão longa de fracasso em fracasso
E hoje descrente de tudo me resta o cansaço
Cansaço da vida, cansaço de mim
Velhice chegando e eu chegando ao fim

 

 

 

 

 

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SUAS MÃOS

As suas mãos onde estão?
Onde está seu carinho?
Onde está você?

Se eu pudesse buscar
Se eu soubesse onde está
Seu amor, você.

Um dia há de chegar
Quando, eu não sei
Você vai procurar
Onde eu estiver
Sem amor, sem você.

 

 

 

 

 

 

Na Rua do Bom Jesus existe uma escultura de Antônio Maria. Não poucas vezes, andando pelo Recife, paro diante da figura do cronista fundamental. Ali a vontade que me assalta é de chamar as pessoas que passam e com elas conversar sobre ele. Começaria por um “você sabe quem é?”, em lugar de um “você sabe quem foi”. No entanto, jamais poderia imaginar uma conversa involuntária que tive sobre Antônio Maria, impossível de reprimir. In Dicionário Amoroso do Recife de Urariano Mota. Veja links

Crueldade pernambucana: “Patrimonio Vivo” só tem valor quando morre

O Frevo é um Patrimônio Imaterial da Humanidade. Mas em Pernambuco só é cantado e dançado no Carnaval.
As secretarias estadual e municipais de Cultura promovem shows todos os finais de semana, mas riscam o Frevo da programação.
Os donos dos grandes e_ventos estão interessados em gastar. O bom tem que ser caro. Com essa visão capitalista estão destruindo o nosso rico patrimônio artístico-cultural.
Ninguém toca mais Capiba, Nelson Ferreira, Antonio Maria, Edson Rodrigues, inesquecíveis nomes da música brasileira.
Outro eterno, Duda, Patrimonio Vivo de Pernambuco, dá o seguinte testemunhal
Duda

Duda

Aposentadoria Forçada. Maestro Duda reclama da falta de convites para se apresentar

por Camila Souza

Já faz tempo que o arranjador e compositor José Ursicino da Silva, o Maestro Duda, abandonou o convívio diário com os instrumentos. “Já não dá mais vontade. São tantas as injustiças com a nossa cultura”, confessa. A maior delas, com o frevo, acredita o músico. “O formato do carnaval restringiu as grandes orquestras do gênero aos palcos. Saímos das ruas. Nos afastamos do público. E tocar durante o ano é ainda mais difícil. Depois de fevereiro, me apresentei uma única vez no Recife em 2013”, revela. Em 2014, ele fará apenas dois show durante o carnaval: no domingo, na Lagoa do Araçá, e na terça, no Ibura, além de reger uma música do orquestrão, no encerramento, no Marco Zero.
Na contramão da agenda, Duda conserva a mente criativa em ritmo frenético, ao lado da mulher, dona Mida, “a razão de tudo”. Há pouco, fez o arranjo de um frevo-canção inédito de Alceu Valença, Beija-flor apaixonado, gravado em dueto com Fafá de Belém.
Desenhou a versão de Qui nem jiló, gravada por Zeca Pagodinho no CD Minha metade, de Maciel Melo. “Eu ainda tenho muito gás”, garante. Os 78 anos recém-completados em dezembro – deles, 70 foram dedicados à música – trazem na bagagem prêmios e incursões em gêneros variados. Compôs choros gravados por Severino Araújo e sambas cantados por Jamelão, além de musicar peças de teatros, como Um americano no Recife, dirigida por Graça Melo.
O frevo veio como uma vocação. “Estava no meu sangue”, acredita. Ainda menino, em Goiana, Duda tomou gosto pela música. O pai, Lídio Pereira da Silva, era baterista da Banda Saboeira, uma das mais antigas em atividade no mundo. De tanto ouvi-lo, traçou passos parecidos. Aos oito anos, escolheu o sax horn para dominar. “Era o instrumento mais fácil. Eu queria tocar de qualquer jeito.” Aos 12, escreveu o primeiro frevo, Furacão. “Por incrível que pareça, não consigo lembrar dele. Já tentei encontrá-lo, mas nada. Só me recordo de tê-lo chamado assim porque era o nome de um filme em cartaz no Cine Polytheama na época”, conta.
Três anos depois, já no Recife, o maestro ingressou na Jazz Band Acadêmica. A partir daí, foi uma escalada de sucessos. Tocou nas orquestras das rádios Tamandaré e Jornal do Commercio, até conseguir uma vaga na Sinfônica do Recife. Precisou aprender oboé e corne inglês durante aulas na Universidade Federal de Pernambuco.
“Foi quando eu amadureci o dom. Até então, eu era um autodidata, curioso. Depois da OSR, passei a ver a música com outros olhos”, conta. Em pouco tempo, Duda se tornou arranjador da orquestra. E, mais tarde, um dos maiores de todos os tempos no que diz respeito ao frevo.
Há mais de 30 anos, o músico esteve envolvido, ao lado de Carlos Fernando, no projeto
que revolucionou o gênero, o Asas da América. Muitas das músicas nascidas tinham seu dedo. “Nós mudamos a história do frevo. Demos uma outra roupagem. E é ela que está nas ruas até hoje. Não houve qualquer renovação. E não é por que não surgiram novas músicas. É porque não existe divulgação”. Ele recorda uma canção de Dudu do Acordeom, Baile celestial, cujo arranjo assina. “A faixa foi uma das vitoriosas do I Festival de Frevo da Humanidade (em 2013). No entanto, dificilmente, ‘você’ ouvirá. As rádios não tocam. Assim é impossível renovar”, arremata.
Depoimentos
Considero Maestro Duda um gênio. É uma das pessoas responsáveis por manter viva a alma de um povo. Possivelmente, neste segundo semestre, lançaremos o filme Sete corações, com direção de Andrea Ferraz. E Duda é um desses corações. Para mim, ele tem o poder de fazer uma coisa bela, emocionante e simples. Ele tem esse poder. Sou fã incondicional. Sempre que possível, eu o plagio”
– Spok
Maestro Duda é um dos maiores nomes do frevo. É extremamente competente. Desde que comecei a pesquisar e compor frevo, tomei nota de vários artistas. O nome dele é um dos primeiros. Ele é referência para todo mundo. Tive a sorte de tê-lo como arranjador da música Baile celestial, o que contribuiu para a música ser uma das vitoriosas do I Festival de Frevo da Humanidade”
– Dudu do Acordeom
É uma das referências vivas que ainda temos no nosso carnaval. Precisamos valorizá-lo não somente pelo que ele fez no passado, mas pelo que ele continua fazendo até hoje pelo frevo. Além de ser um megamaestro, é uma pessoa de coração generoso. Nunca fez a música pernambucana para si. Ele, acima de tudo, quis mostrar seus passos e sua arte. Só somou para a gente”
– Almir Rouche
Patrimônio Vivo
Em 2010, o Maestro Duda foi agraciado com o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco. Desde então, recebe uma bolsa vitalícia no valor de R$ 1021,72. Como tem feito poucas apresentações, o auxílio governamental é a principal fonte de renda do músico, além de uma aposentadoria de R$ 724.

Antonio Maria

Bola no fotógrafo
.
por Urariano Mota
Antonio Maria

Antonio Maria

A memória da gente anda muito esquecida. Quase ninguém lembrou os 88 anos do nascimento de Antonio Maria. Se em toda a grande e média imprensa nada se disse, não foi por falta da importância de um certo Antonio Maria, que se apresentava como “cardisplicente”, mistura de doente do coração com displicente. E tanta coisa havia e há para falar sobre ele!

Nascido no Recife em 17 de março de 1921, se apenas fosse compositor, deveria ter merecido registros e especiais no rádio, na televisão e nos jornais. Autor de 62 músicas, de canções eternas como Frevo número 1, Ninguém me ama, Manhã de carnaval, Menino grande, Suas mãos, O amor e a rosa, Valsa de uma cidade, e, de passagem, digamos assim, autor desta vã promessa, “nunca mais vou fazer o que o meu coração pedir, nunca mais ouvir o que o meu coração mandar”, haveria muito o que falar sobre esse compositor de letras que são a ternura em quintessência.

Num coluna de revistas de curiosidades e fofocas, poderia ser dito que foi marido de Danuza Leão, roubada por ele do seu patrão, o grande jornalista Samuel Wainer. E que, ao receber o troco mais adiante, ficando só, morreu de fossa e de amor, em uma madrugada três e cinco, talvez. Que feio, grande e gordo, conquistava mulheres pelo poder da lábia e da inteligência. Que foi ameaçado por Sérgio Porto (sim, o Stanislaw), por ter servido de conselheiro sentimental a uma namorada de Sérgio. E que ao se apresentar como Carlos Heitor Cony a uma madame, levou-a para a cama, para depois contar ao verdadeiro Heitor, “Cony, você broxou”. 

Mas ele poderia ter sido lembrado, reverenciado, e lido principalmente por suas crônicas, que estão entre as maiores e melhores já escritas no Brasil. Suas crônicas, quase dizia, suas mãos, misturam humor, crueldade e lirismo, a depender dos dias e da sua vida, que não eram iguais, para ele ou para ninguém. Como neste perfil arguto de Aracy de Almeida: 

“Não é bonita, sabe disso e não luta contra isso. Não usa, no rosto, baton, rouge ou qualquer coisa, que não seja água e sabão. Ultimamente corta o cabelo de um jeito que a torna muito parecida com Castro Alves… Faz de cada música um caso pessoal e entrega-se às canções do seu repertório como quem se dá um destino. Não sabe chorar e não se lembra de quando chorou pela última vez. Mas a quota de amargura que traz no coração, extravasa nos versos tristes de Noel: `Quem é que já sofreu mais do que eu?/ Quem é que já me viu chorar?/ Sofrer foi o prazer que Deus me deu´… e vai por aí, sem saber para onde, ao frio da noite, na espera de cada sol, quando o sono chega, dá-lhe a mão e a leva para casa”

Ou aqui, dias antes de morrer:

“Há poucos minutos, em meu quarto, na mais completa escuridão, a carência era tanta que tive de escolher entre morrer e escrever estas coisas. Qualquer das escolhas seria desprezível. Preferi esta (escrever), uma opção igualmente piegas, igualmente pífia e sentimental, menos espalhafatosa, porém. A morte, mesmo em combate, é burlesca…

Só há uma vantagem na solidão: poder ir ao banheiro com a porta aberta. Mas isto é muito pouco, para quem não tem sequer a coragem de abrir a camisa e mostrar a ferida”.

E por fim aqui, nestas considerações sobre o sono:

“** Ah, que intensos ciúmes, no passado e no futuro, sobre a nudez da amada que dorme! Só você a viu, só você a verá assim tão bela!

** Nas mulheres que dormem vestidas há sempre, por menor que seja, um sentimento de desconfiança.

** A amada tem sob os cílios a sombra suave das nuvens.

** Seu sossego é o de quem vai ser flor, após o último vício e a última esperança.

** Um homem e uma mulher jamais deveriam dormir ao mesmo tempo, embora invariavelmente juntos, para que não perdessem, um no outro, o primeiro carinho de que desperta.

** Mas, já que é isso impossível, que ao menos chova, a noite inteira, sobre os telhados dos amantes”

A boa memória conta que Antonio Maria exclamava no rádio, ao ver um jogador chutar fora do gol: Bola no fotógrafo!.Nesse último 17 de março, para a mídia que não o lembrou, também vale dizer: bola no fotógrafo.
(Publicado no Literário)
 

Frevos de Antonio Maria

am 1

Ai, ai, saudade
Saudade tão grande
Saudade que eu sinto
Do Clube dos Pás, dos Vassouras
Passistas traçando tesouras
Nas ruas repletos de lá
Batidas de bumbo
São maracatus retardados ‘
Que voltam pra casa cansados
Com seus estandartes pro ar
Quando eu me lembro
O Recife tá longe
A saudade é tão grande
Eu até me embaraço
Parece que eu vejo
O Haroldo Matias no passo
Valfrido e Cebola, Colasso
Recife tá perto de mim
Saudade que eu tenho

São maracatus retardados
Que voltam pra casa cansados
Com seus estandartes pro ar

 

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antonio-maria

.

Ai que saudade vem do meu Recife
Da minha gente que ficou por lá
Quando eu pensava, chorava, falava
Dizia bobagem, marcava viagem
Mas não resolvia se ia
Vou-me embora
Vou-me embora
Vou-me embora
Pra láMas tem que ser depressa
Tem que ser pra já
Eu quero sem demora
O que ficou por lá
Vou ver a Rua Nova,
Imperatriz, Imperador
Vou ver, se possível
Meu amor.
.
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3
Alexandre Nix:  Antonio chutava corações – normalmente o próprio

Alexandre Nix:
Antonio chutava corações – normalmente o próprio

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Sou do Recife com orgulho e com saudade
Sou do Recife com vontade de chorar
O rio passa levando barcaça pro alto mar
E em mim não passa essa vontade de voltarRecife mandou me chamarCapiba e Zumba a essa hora onde é que estão
Inês e Rosa em que reinado reinarão
Ascenso me mande um cartão
Rua antiga da Harmonia
Da Amizade, da Saudade, da União
São lembranças noite e dia
Nelson Ferreira toque aquela introdução.
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DITADURA DO DIALETO GLOBAL INVADE CULTURA NORDESTINA

por Gilberto Prado
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

“Atirei o pau no ga-to-tô, mas o gato-to-tô, não morreu-rreu-rreu. Dona Chi-cá-cá, admirou-ssé-ssé com o miau, o miau, que o gato deu”…
Quando criança, cantava assim. Soltava uma bela gargalhada infantil (contava minha mãe) após o grito final:
– Miau!!!
Hoje, se o tempo retroagisse, não poderia fazer o mesmo. Os “pacotes” de CDs vindos do Centro-Sul acabaram com o “miau”. Dona Chica-cá agora se admira do “berrô” que o gato deu”.
O pobrezinho do gato deixou de miar. Sequer “berra” feito cabrito. Dá “berrô”. Conforme as crianças que trocaram o carinhoso “mãínha” pelo “mãê”.
Um pouco mais crescido, “empinava papagaio” pelos descampados do então bucólico bairro da Estância.
A vida campestre da querida Estância, no entanto, desapareceu. Foi transformada em “selva de pedra”. O progresso levou seu romantismo. Para complementar, lá não mais se “empina papagaio”.
Uma ditadura dialética jogou meu papagaio fora. Agora “soltam-se pipas”.
Já perto da adolescência, meu pai, presenteou-me com uma bicicleta. Atualmente não mais faria isso.
Dar-me-ia uma “bike”.
E assim a partir dessa ditadura de sotaque, nossa cultura começa a ser agredida. Principalmente depois da televisão. Uma agressão progressiva à nossa Região.
por Gilberto Prado
Estão tirando, por exemplo, o “ó” aberto de Olinda. Na televisão é “Ôlinda”.
Colocaram um “chapeuzinho” no “é” de Petrolina. Os locutores falam diretamente de “Pêtrolina”. Inclusive os nativos.
Mais grave se torna a agressão quando chega a nossa literatura histórica, com o aval de supostos órgãos culturais.
Na homenagem feita ao compositor,  jornalista e radialista Antônio Maria, em trecho do “Frevo Número 2 do Recife”, lê-se: “(…) parece que vejo Valfrido Cebola no passo, Haroldo Matias, Colaço”…
Ora, não é “Haroldo Matias”, como está escrito no monumento sob a (ir)responsabilidade da Prefeitura. Na Rua do Bom Jesus. É Haroldo “Fatia”, apelido do inesquecível radialista Haroldo Praça cuja memória é homenageada pelo autor e desrespeitada pela Fundação de Cultura (?) Cidade do Recife.
No outro lado do Rio, na Praça da República, um monumento consegue, no lugar de homenagear, vilipendiar uma das mais belas obras do poeta Augusto dos Anjos: “As cismas do destino”.
Logo no início.
“Recife. Ponte Buarque de Macedo.
Eu, indo em direção à casa do Agra,
Assombrado com a minha sombra magra,
Pensava no Destino e tinha medo!”
Ora, o poeta paraibano, adepto da temática sobre a morte, nunca se dirigiu essa tal “casa do Agra”. Seu destino era a Casa Agra, funerária famosa existente na Rua do Imperador. Apenas uma preposição – do – tira o sentido da obra.
O equívoco é agravado no fato de estar oficializado por um órgão cujo rótulo é de cultura. Municipal ou Estadual.
Explicando melhor:
O então estudante de Direito Augusto dos Anjos assustou-se com o seu físico (magro), através da sombra. Lembrou que o seu caminho (destino) o levava a uma funerária e ficou com medo. Medo da morte.
Um detalhe:
Considerando o sotaque nordestino, fosse correto o acréscimo da preposição do editor, certamente sulista, o poeta paraibano iria à “casa de Agra”, com “dê-é-dé”, e nunca “à casa do”, com “dê-o-dó”.
Daí, embora levado pelo sentimento, não estranhar o abandono do Cine Teatro do Parque, com tanta história na cultura recifense.
O mais grave é que, a distância, apenas vejo um vereador se movimentando pela preservação do Parque, através de retórica. Nenhum sentido prático.
No outro lado, um silêncio provavelmente estratégico sobre o assunto, por parte dos grupos teatrais.
Principalmente os chamados promotores culturais que falam alto para pedir verbas, algumas desprovidas de lisura. Por isso não deve ser ser boa política irritar os setores públicos, supostamente comprometidos com o mundo das artes.
O poeta Manuel Bandeira, na sua “Evocação do Recife”, exaltava os nomes das ruas do Recife (da Aurora, da União, do Sol…) e o seu temor de uma delas passar a se chamar “Rua Doutor Fulano de Tal”.
Peço licença para ampliar esse temor do poeta com referência ao Parque.
Não duvido se um dia vou ler notícia sobre a implosão do velho teatro para transformá-lo em Igreja Universal de Edir Macedo.