ALMA PENADA

por Talis Andrade

Por que este pressentimento
de morte não se afasta
Estranha inimiga em constante tocaia
a morte está dentro e fora do nosso corpo

Será a morte uma amiga cuja ajuda se pede
quando já não se suporta a dor
que flagela o corpo
a dor que atormenta a alma

Este pressentimento de morte próxima
será apenas o medo do que está além
da porta fechada
por ilusória segurança
Por que o medo
se jamais veremos a morte
se as mãos frias
nos fecham os olhos
Nunca mais um dia de sol

Quantas oportunidades perdidas
de caminhar pela praia
pelos jardins
pelos vales verdejantes
Nunca mais a contemplação dos lírios no campo
Nunca mais

Que valem estas flores que me jogam no caixão
que desce na cova rasa para ser coberto de terra
Terra que é posse
Meu único chão
até que reine a putrefação
Terra que será ocupada
por outro sem terra

Se o corpo está morto
por que o medo
o cadáver deixe a sepultura
para uma noite de assombração
Que a alma apareça
para agourar
te buscar
Alma penada
de saudade
Alma perdida
na solidão


 


Os anjos e demônios no caminho de Woden Madruga

Ângela encontra o Anjo

por Woden Madruga

Na boca da noite me cai na bacia das almas um imeio de Ângela Almeida, artista plástica, fotógrafa, jornalista que mexe com muitos temperos na área da comunicação social, autora de uma boa penca de livros. Nas vésperas de lançar mais um: Newton Navarro – Os frutos do amor amadurecem ao sol. Trata-se de uma pesquisa que andou fazendo ao redor de trezentas obras (pintura, desenho e gravura) do grande artista que ela foi encontrar com colecionadores e em galerias. Muitos desses trabalhos estão reproduzidos no livro. Bom, mas o mote do imeio de Ângela não é Navarro. É Alex Nascimento, poeta, também pintor que pinta o sete.

A inspiração para Ângela veio do imeio em que Alex fala com carinho sobre o bar Anjo 45, publicado aqui na sexta-feira, 27. O poeta encantado com a casa que fica na antiga Rua das Virgens (Câmara Cascudo), Ribeira de todos os espantos, e com a música que lá ouviu por conta de Joca (guitarra) e Jotapê (sax). Ângela Almeida também já subiu as escadas do Anjo 45 e se diz extasiada com o que ouviu e viu por lá. Deixemos, então, que ela conte, por sua conta, essa história:

“Querido Uódi (como é escrito por Alex):

Metendo a colher aonde não fui chamada, não pude deixar de ler a sua conversa da “bacia das almas” com o Reverendo Don Alex N. Mesmo que o imeio seja por natureza curto, o dele para você nos deixou o prazer e a sensação de um retorno de lê-lo. Por isso reclamo: “Volta Alex para os nossos braços! Publique mais seus poemas, cartas e imeios….” A gente agradece.

Agora se tratando desse tal de Anjo 45, é realmente um pedaço de ‘mau caminho’. Pois bem, eu, que sou uma moça da manhã e costumo ir dormir como se dizia antigamente “com as galinhas” (a metáfora se referindo ao bicho, sem preconceito), até porque (por questão de gosto) o que mais falta nesta cidade são bons galos que despertem moças até a madrugada. E quando elas já estão no caritó, fica ainda mais difícil. De toda forma, você acredita que uma noite dessas fui arrastado até lá, por uma amiga e mais dois anjos (homens) lindos, altos, inteligentes, cultos (que gostam de galos tanto quanto eu). Caímos na “naite” e só arredei o pé do Anjo 45 quando Joca (o músico) abandonou sua guitarra e Ítalo Trindade me descobriu…

Realmente os anjos e a noite, só para os corajosos!

Volto assim pra o “galheiro” um sítio mais seguro. Pelo menos daqui leio bons imeios de outros e do Reverendo Dom Alex N.

Abraços, AA”

De Política

De Ilimar Franco, de O Globo, em sua coluna de ontem com o titulo “A fábrica dos partidos políticos”:

– O Fundo Partidário virou uma indústria de partidos nanicos. Vem aí o PL, do ministro Gilberto Kassab, e o PMP, de Valdemar Costa Neto, condenado no mensalão. Um ex-deputado, que já foi de uma sigla nanica, explica que o dinheiro do Fundo é usado por deputados e senadores, na condição de presidentes regionais de uma legenda, para manter comitês (sedes), contratar parentes (funcionários) e cabos eleitorais. Ele diz que o deputado de uma agremiação nanica não tem peso político mas está com a vida ganha.

– Esse político pegou, a título de exemplo, o Solidariedade, presidido pelo deputado Paulo Pereira da Silva (SP), e que tem 16 parlamentares. No ano passado, a sigla recebeu R$ 7 milhões. Esses recursos garantem aos seus deputados manterem campanha permanente durante o mandato.

– A lei permite que esse dinheiro seja gasto também com propaganda política, criar e manter instituto ou fundação de pesquisa. A cota do PSL, R$ 1,8 milhão, serve a um deputado. A do PTC, R$ 2,2 milhões, atende a dois; e a do PMN, R$ 2,5 milhões, a três. Os especialistas eleitorais afirmam que a renda desses partidos, e dos seus, é maior com a venda do tempo de propaganda na TV, viabilizada pelas coligações partidárias.

 

 

Stella Leonardos e Cruz e Sousa

 

 

CÁRCERE DAS ALMAS

por Cruz e Sousa

.

Ah! Toda a Alma num cárcere anda presa,
soluçando nas trevas, entre as grades
do calabouço olhando imensidades,
mares, estrelas, tardes, natureza.

Tudo se veste de uma igual grandeza
quando a alma entre grilhões as liberdades
sonha e sonhando, as imortalidades
rasga no etéreo Espaço da Pureza.

Ó almas presas, mudas e fechadas
nas prisões colossais e abandonadas,
da Dor no calabouço, atroz, funéreo!

Nesses silêncios solitários, graves,
que chaveiro do Céu possui as chaves
para abrir-vos as portas do Mistério?!

 

Alma de vermelho, Leonor Fini

Alma de vermelho, Leonor Fini

.

 

EXERCÍCIO SOBRE “O EMPAREDADO”
(PROSA POÉTICA DE CRUZ E SOUSA)

por Stella Leonardos

.

Quem nega que essas pedras emparedam
– tantas e tantas pedras cumuladas –
são cúmulos de céus apedrejados,
asas de astros partidos que se empedram?

Entre as penas do pássaro apresado
e cada pedra posta sobre pedra
repercute teu solo negregado.

Com tal ritmo, metal, sonoridade,
que consegues romper paredes pétreas,
que gravas na prisão a sombra grave
de um pássaro apenado e te libertas.

ENCOSTO

por Talis Andrade

Üzeyir Lokman Çayci

Üzeyir Lokman Çayci

Estranho poder

me toma o corpo

Tudo acontece

como se me

transformasse

em uma outra pessoa

.

Na carne que rasteja

na carne que lateja

o meu corpo age

como que possuído

por indefinida

invisível força

.

Estranho poder

me toma o corpo

doendo em mim

como um encosto

maligno e ruim

.

Dor ferida

camuflada

de vidas passadas

.

Errática

dor referida

atípica

que fustiga

.

Dor cansada

antiga

que nunca termina

Cobiça

Líria Porto

 

 

li

eu olho a boca de beijo
que sorte daquela moça
a que detém tua boca
e sabe dos teus segredos
aqueles que só revelas
bem debaixo das cobertas
entre suas coxas

eu olho os olhos negros
que sorte daquela dona
a que te olha nos olhos
e sabe dos teus anseios
aqueles que depositas
nas madrugadas de inverno
entre seus seios

eu olho o teu retrato
que sorte daquela zinha
a que me mata de inveja
pelos apelos do corpo
por tua alma que é dela
não minha

 

—-

 

“Teu cabelo não nega mulata. Tens a alma cor de anil”

 

Lamartine Balbo e os Irmãos Valença cantavam em 1931:

O teu cabelo não nega mulata
Porque és mulata na cor
Mas como a cor não pega mulata
Mulata eu quero o teu amor

Tens um sabor bem do Brasil
Tens a alma cor de anil
Mulata mulatinha meu amor

O jornalista Paulo Henrique Amorim foi processado por chamar o apresentador de telejornalismo Heraldo Pereira de negro de alma branca. A frase terminou numa briga  que envolve os arautos do golpismo e petistas e tucanos.

Se Paulo Henrique tivesse dito que Heraldo Pereira é um negro de aura azul?

Para os que defendem  o politicamente corrreto afrobrasileiro, chamar cabelo crespo de pixaim é racismo?  E encarapinhado?

Por que gastar tanto dinheiro para alisar cabelos crespos e ondulados? As formas de se alisar o cabelo, prós e contras.

Veja vídeo de belos penteados negros 1

Vídeo 2

African hair style from the beginning of time vídeo

Escute a marchinha Teu cabelo não nega (vídeo)