E quando vier o dia melhor fechar as janelas melhor fechar os olhos

por Adriana Godoy

 

e quando vier o dia 

 

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e quando vier o dia
e quando vier o dia
os homens estarão feridos
as crianças tristes e perdidas
e violentadas as mulheres

quando vier o dia
restarão pássaros com asas queimadas
e o grito insano das cidades

estaremos sedados
a noite e as nações em pedaços
melhor fechar as janelas
e não ouvir

mas é mais forte o grito e o choro das gentes
mais forte que todo o gás que faz chorar
que todas as balas de borracha que ferem

mais forte que aviões atingidos no céu
que a violência covarde e desigual
que mata e trucida um povo

queremos não ver queremos não ouvir
mas a alma sente
e chora por essa gente
e torce e se revolta e se entristece

e alguns dirão que sempre foi assim
aplaudirão as atrocidades
melhor fechar as janelas
melhor fechar os olhos

e quando vier o dia
não haverá sol
mas nuvens de fumaça e sangue

aquarela8

 

 

sempre fica um vazio

sempre fica um vazio
um vazio abissal
que nem todos os deuses anjos ou demônios
poderão te salvar

 

Arte: Rafael Godoy

Mil noites e um abismo

por Nina Rizzi

abrianina

Há dez anos, talvez isso quase isso, conhecia Voz de Adriana Godoy. Era uma época boa quando as pessoas se visitavam e era como ter uma cadeirinha de balanço na varanda ou na janela ou na rua e a gente falava e os meninos brincavam e era boa a vida assim de se visitar quando se quer e uma florzinha no cabelo e eu joguei uma flor amarela de Adriana pra Yemaya, comovidas as duas, tanta água, tanto mar, tanto sal, tanta vida, que mesmo fodida, sobrevive e vive e é também beleza.

Beleza. Esse livro lindo que finalmente chega em papel, que me tem aos olhos com sua escrita pungente, e, o que mais se não uma escrita, uma escrita de verdade?

E como não bastasse com ilustrações do teu guri que como bem disse o Marcos Satoru “o Rafael Godoy tem o dom mesmo, tudo que ele desenha parece obra prima, e ele é obra tua.”

De verdade e – acaso? – sua verdade me chegar hoje, quando pensava o que é a dor, essa outra dor muito mais dentro, numa mulher-noite, numa mulher-abismo?

Todas as rosas mais rosas como um caminho para você caminhar essa nova estrada, Adriana – poética e pessoal.

E fico agora, mais uma vez e sempre outra vez agora no banquinho ao lado da cama sem cabeceira:

talvez o último poema ou o velho buk tinha razão

para nina rizzi

não eu não respiro poesia nem vivo por ela
não me sinto poeta nem outra coisa que o valha
vivo na rotina dos dias incansáveis
e às vezes fecho a janela para não ver a manhã
sou como tantas
talvez um pouco mais triste
e quando menos espero
sinto que as palavras vêm
e tenho que escrevê-las

mas isso não é poesia nem ser poeta
é tirar do café que tomo um gosto diferente
é olhar os carros na rua e pensar em poentes

e quando li nina hoje
me deu a sensação de que as palavras não viriam nunca mais
e olhar uma aranha na parede vai ser olhar uma aranha na parede
e nada mais

talvez esse não seja meu último poema
mas o velho buk sabia:

“se você está morto
você podia também ser enterrado
e jogar fora a máquina de escrever
e parar de se enganar com
poemas cavalos mulheres a vida:
você está entulhando a saída- portanto saia logo
e desista das
poucas preciosas
páginas.”