QUANDO O TEMPO PARA

de Talis Andrade

Nenhum pregão dos ambulantes
na feira
nem a alegria das brincadeiras
das crianças no parque
nem a voz de um transeunte perdido
nem o sussurro dos amantes
escondidos

Nenhum som de chuva
no telhado
de ventania nas janelas
Nenhum bater de asas

Fora e dentro da casa
o desgosto
o silêncio do abandono

Na solidão da casa vazia
os espelhos não refletem
nenhum rosto
Não existem fantasmas
na solidão

Quase cem anos de solidão

por Talis Andrade

  MANIFESTO

            A verdadeira poesia nasce livre
livre da métrica
da rima
do fanatismo

            Força que arrebata
contraditória força que en
leva ao azul
claro azul do céu

            ou nos atira na solidão extrema
de doloroso profundo abismo

O NÍVEL DO VAZIO

A condenação da régua
da solidão
o nível do vazio

Não há sensação de frio
de calor
Não há sensação
de sede de fome
e dor

Há esta ausência
do Eu
da alma
e de Deus

OS PREDADORES 

      Viver conviver entre parceiros
Os caçadores dividem o butim
Os caçadores o tiro certeiro
partilham a carne ensanguentada
a vermelha carne dos inocentes
a sacrificada carne do holocausto
Eu vim para ser sozinho

            DA RESIGNAÇÃO

            Um cigarro
depois do outro
Uma mulher
depois da outra
Entre taças de vinho
mil copos de chope
fui desfiando a vida
sem medo dos espias
e dos mensageiros
das notícias ruins

            Não faltarão juízes
o cochicho dos delatores
o testemunho invejoso
– Irresponsavelmente desperdiçou
fortuna e sinecura
em bares e vaginas

            Os homens enterrem
botijas de ouro
As mulheres envelheçam
longe de mim

            Que me arranjo sozinho

  A VIA REAL

      Somos errantes
eternos andantes
de uma alongada/
curta jornada

      Somos sozinhos
eternos errantes
nunca saberemos
entre tantos caminhos
se estamos percorrendo
a via real

      Na peregrinação para Lourdes
Mariazell Santiago de Compostela
pelos caminhos de Jerusalém
continuaremos sozinhos
sempre esperando
o convite amigo Vem
Vem comigo

 POR TRÁS DO ESPELHO

      Há muito tempo
me fragmento
por trás do espelho

      Há muito tempo
não me animo
sair para rua

      O isolamento vicia

      Há muito tempo
se aparecesse
uma companhia
não saberia
compartir
os espaços
do dia

      Há muito tempo
o tormento
de um isolamento
que nenhum deus vigia

—-
Seis poemas de livros inéditos

Velhice chegando e eu chegando ao fim

Ninguém Me Ama
Antônio Maria

Antonio Maria

Antonio Maria

Ninguém me ama, ninguém me quer
Ninguém me chama de meu amor
A vida passa, e eu sem ninguém
E quem me abraça não me quer bem

Vim pela noite tão longa de fracasso em fracasso
E hoje descrente de tudo me resta o cansaço
Cansaço da vida, cansaço de mim
Velhice chegando e eu chegando ao fim

Vigília Pascal: Água e fogo em cerimônia simbólica

Celebração central do calendário litúrgico é a mais antiga e importante na Igreja Católica

ressurreicao

A Igreja Católica celebra nas últimas horas deste Sábado Santo e nas primeiras de Domingo de Páscoa o principal e mais antigo momento do ano litúrgico, a Vigília Pascal, assinalando a ressurreição de Jesus.

Esta é uma celebração mais longa do que habitual, em que são proclamadas mais passagens da Bíblia do que as três habitualmente lidas aos domingos, continuando com uma celebração batismal e a comunhão.

A vigília começa com um ritual do fogo e da luz que evoca a ressurreição de Jesus; o círio pascal é abençoado, antes de o presidente da celebração inscrever a primeira e a última letra do alfabeto grego (alfa e ómega), e inserir cinco grãos de incenso, em memória das cinco chagas da crucifixão de Cristo.

A inscrição das letras e do ano no círio são acompanhadas pela recitação da fórmula em latim ‘Christus heri et hodie, Principium et Finis, Alpha et Omega. Ipsius sunt tempora et sæcula. Ipsi gloria et imperium per universa æternitatis sæcula’ (Cristo ontem e hoje, princípio e fim, alfa e ómega. Dele são os tempos e os séculos. A Ele a glória e o poder por todos os séculos, eternamente).

O ‘aleluia’, suprimido no tempo da Quaresma, reaparece em vários momentos da missa como sinal de alegria.

A celebração articula-se em quatro partes: a liturgia da luz ou “lucernário”; a liturgia da Palavra; a liturgia batismal; a liturgia eucarística.

A liturgia da luz consiste na bênção do fogo, na preparação do círio e na proclamação do precónio pascal.

A liturgia da Palavra propõe sete leituras do Antigo Testamento, que recordam “as maravilhas de Deus na história da salvação” e duas do Novo Testamento: o anúncio da Ressurreição segundo os três Evangelhos sinópticos (Marcos, Mateus e Lucas), e a leitura apostólica sobre o Batismo cristão.

A liturgia batismal é parte integrante da celebração, pelo que mesmo quando não há qualquer Batismo, se faz a bênção da fonte batismal e a renovação das promessas.

Do programa ritual consta, ainda, o canto da ladainha dos santos, a bênção da água, a aspersão de toda a assembleia com a água benta e a oração universal.

Cristo e NSenhora

Nesse dia a Igreja toda guarda luto pela morte de Jesus. Neste dia se faz também a comemoração das Dores de Nossa Senhora. É uma celebração que relembra todos os sofrimentos de Nossa Senhora desde o nascimento de Jesus, culminando com a dor infinita à qual se viu exposto o coração de Maria, ao deixar seu divino Filho no sepulcro.

Por maior que seja a solidão que algum coração humano já sentiu, por certo, sequer aproximará do amargor, do infinito abandono que se apossou do coração da mãe do Divino Amor. Na Solene Vigília Pascal da noite será celebrada a Missa da Ressurreição. Essa missa é precedida pela bênção do Fogo Novo e do Círio Pascal, benção da água Batismal e Renovação das Promessas do Batismo.

Todos os fiéis devem levar velas.

Fogo: Sinal da presença de Deus na história, em suas manifestações de salvação. Ligado ao fogo, temos o círio pascal que aceso no fogo novo lembra o Cristo ressuscitado.

Luz: Símbolo da vida. Representa a presença de Cristo que é vida e oferece vida e salvação ao homem. Jesus atravessa as portas da mansão dos mortos, vencendo e trazendo a luz para a humanidade.

Água: Também é sinal da vida que é comunicada ao cristão quando ele renasce pelo batismo para um mundo novo.

“Na crueldade da tua paixão, Senhor, vemos a crueldade dos nossos corações e das nossas ações. No teu sentimento de abandono, vemos todos os abandonados pelos familiares, pela sociedade, dos que estão privados de atenção e da solidariedade”

metro_quito. semana santa quito

 

Ao concluir a Via-Sacra desta Sexta-feira Santa, no Coliseu de Roma, perante milhares de pessoas, Francisco falou das “traições diárias” dos crentes à mensagem de Jesus.

“Na crueldade da tua paixão, Senhor, vemos a crueldade dos nossos corações e das nossas ações. No teu sentimento de abandono, vemos todos os abandonados pelos familiares, pela sociedade, dos que estão privados de atenção e da solidariedade”, referiu.

Para Francisco, a “negligência e indiferença” da sociedade estão na origem de muitos homens e mulheres “abandonados ao longo da estrada”

“Imprime no nosso coração sentimentos de fé, esperança, caridade, de perdão pelos nossos pecados”, rezou.

Neste contexto, o Papa argentino desejou que a conversão das “palavras” se transforme “em vida e obras”.

As tentações da corrupção e do mundanismo

Francisco pediu ainda que Jesus reforce a “esperança” das pessoas para que estas não esmoreçam com as “tentações do mundo” nem se deixem “enganar pela corrupção e mundanidade”.

O Papa denunciou o “silêncio cúmplice” dos que assistem com indiferença ao massacre de cristãos “perseguidos, decapitados e crucificados” por causa da sua fé.

Ao longo das 14 estações a cruz foi transportada, entre outras pessoas, por uma família numerosa; um casal italiano que adotou dois irmãos no Brasil; duas irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Siena, no Iraque; católicos da Síria, Nigéria, Egito e a China.

As reflexões que recordaram os cristãos perseguidos e a escravatura moderna foram escritas por D. Renato Corti, bispo emérito de Novara, Itália, a pedido do Papa.

O trabalho que se torna escravidão

“Há homens e mulheres que são presos, condenados ou até mesmo trucidados, só porque são crentes ou comprometidos em prol da justiça e da paz. Não se envergonham da vossa cruz. São, para nós, admiráveis exemplos a imitar”, referiu o texto apresentado durante a celebração.

Na evocação da prisão, julgamento e condenação à morte de Jesus rezou-se pelo “direito fundamental à liberdade religiosa” lembrando “situações terríveis” da humanidade de hoje, como: “O tráfico de seres humanos, a condição das crianças-soldado, o trabalho que se torna escravidão, as crianças e os adolescentes despojados de si mesmos, feridos na sua intimidade, barbaramente profanados”.

 

Papa adverte que abandonar idosos é “pecado mortal”.

O papa advertiu hoje que abandonar os idosos é um “pecado mortal” e sem “honrar os idosos” não há “futuro para os jovens”

 

 

Cecigian

Cecigian

Francisco falava na audiência geral das quartas-feiras, perante milhares de fiéis concentrados na praça de São Pedro.

“Os idosos deviam ser para toda a sociedade uma reserva de sabedoria”, sublinhou.

“Os idosos são abandonados, não só em condições materiais precárias, mas também enfrentam numerosas dificuldades que devem ultrapassar para sobreviver numa sociedade que não quer a sua participação”, declarou.

O papa referiu que, graças ao progresso da medicina, “a vida humana aumentou, mas o coração não cresceu” perante a realidade dos idosos.

Francisco denunciou a sociedade atual, referindo-se mais uma vez à “cultura do descartável”, que “abandona os idosos” e onde muitos deles “vivem com angústia esta situação de abandono”.

“Os idosos são homens e mulheres, pais e mães, que estiveram antes de nós no nosso caminho, na nossa mesma casa, na nossa batalha quotidiana por uma vida boa. Homens e mulheres de quem recebemos muito”, sublinhou.

“O idoso não é um ser estranho, o idoso somos nós. Dentro de muito ou pouco (tempo), é inevitável. Se não aprendermos a tratar bem os idosos, assim seremos tratados”, acrescentou.

O papa frisou que uma sociedade “sem proximidade é uma sociedade perversa” e a Igreja, “fiel à palavra de Deus”, não pode tolerar essa sociedade. Agência Lusa/ Jornal I

 

Os idosos somos nós

Na audiência geral o Papa Francisco fala da importância dos avós e da sua condição problemática 

Payam Boromand

Payam Boromand

«A atenção dada aos idosos distingue uma civilização»: foi a admoestação lançada pelo Papa Francisco na audiência geral de quarta-feira 4 de Março. Ao encontrar na praça de São Pedro doze mil fiéis provenientes de todas as partes do mundo, o Pontífice prosseguiu o ciclo de reflexões dedicadas à família e analisou a «actual condição problemática» dos avós, face a tantas situações de abandono e indiferença. E definiu «perversa» «uma sociedade sem proximidade» em relação «a esta fase da vida».

Acrescentando, como de costume, algumas considerações pessoais ao texto preparado, o Papa explicou que «os idosos são uma riqueza, não se podem ignorar», porque «esta civilização só irá em frente se souber respeitar» a sua sabedoria. Com efeito, prosseguiu com uma imagem forte, «uma civilização na qual os idosos são descartados porque causam problemas tem em si o vírus da morte».

Inspirando-se na sua experiência durante o ministério episcopal em Buenos Aires, o Pontífice recordou a situação de uma idosa abandonada pelos filhos que não se lamentava não obstante tivessem passado oito meses depois da última visita deles. «Isto chama-se pecado mortal» comentou. Em seguida repropôs a história – que lhe foi contada pela sua avó – de uma família na qual um idoso que «se sujava quando comia» foi relegado para «a cozinha para que não fizessem má figura quando os amigos vinham almoçar ou jantar». A narração prossegue com o cenário de um pai de família que poucos dias mais tarde, quando voltou para casa, encontrou o filho a brincar com madeira, martelo e pregos. Quando o pai lhe perguntou o que estava a fazer, o menino respondeu: «Construo uma mesa para quando tu fores idoso, assim podes comer ali». Demonstrando, frisou Francisco, que na relação com os idosos «as crianças têm mais consciência do que nós».

Onde não são honrados os idosos, não há futuro para os jovens

 Ramses Morales Izquierdo

Ramses Morales Izquierdo

Figuras importantes na família são os avós, a reserva sapiencial da vida. Infelizmente uma certa cultura do lucro insiste em fazer aparecer os idosos como um peso, que se deve descartar. Isto não se diz abertamente, mas é assim que se procede. Com o progresso da medicina, foi possível alongar a vida, mas a sociedade não soube “alargar-se” para a acolher e rejubilar com ela. A Igreja não pode nem quer conformar-se com o modelo consumista actual que olha com impaciência, indiferença e desprezo para a velhice. Os idosos são homens e mulheres, pais e mães que percorreram, antes de nós, as mesmas estradas, estiveram na mesma casa, travaram a mesma luta diária por uma vida digna. São homens e mulheres de quem muito recebemos. Temos de despertar o sentimento colectivo de gratidão, apreço, hospitalidade, que faça sentir o idoso como parte activa da sua comunidade. O idoso é cada um de nós daqui a alguns anos; inevitavelmente, embora não pensemos nisso. Todos os idosos são frágeis; mas há alguns que o são de modo particular porque sem ninguém e a braços com a doença: dependem absolutamente dos cuidados e da solicitude dos outros. Mas, por esse motivo, vamos abandoná-los? Uma sociedade, onde a gratuidade e o afecto desinteressado vão desaparecendo – mesmo para com os de fora da família –, é uma sociedade perversa. A Igreja, fiel à Palavra de Deus, não pode tolerar tais degenerações. Uma comunidade cristã, onde deixassem de ser consideradas indispensáveis a proximidade e a gratuidade, com elas perderia a sua alma. Onde não são honrados os idosos, não há futuro para os jovens. Copyright – Libreria Editrice Vaticana