Eu chuva poesia de Mauri König

Hoje choveu bastante em Curitiba
O que não é novidade
Todos sabem
Curitiba é feita de chuva
A chuva de hoje, no entanto
Fez brotar em mim um espanto
Eu queria ser a chuva
Ela vem e vai quando quer
Ela nos lava a alma
Nos suja de barro
Estraga sapatos
Desarranja cabelos
Mas faz brotar uns sentimentos…
Que, sei lá, nos põem doidos varridos
Eu queria ser chuva
Queria poder chover onde quisesse
Sem medidas nem restrições
Eu queria chover a cântaros
Molhar todas as almas para além dos corpos
Queria lavar a alma suja de toda gente
Queria lavar a minha alma encardida
Queria regar a infância
A infância perdida de quem já não brinca na chuva
Queria escorrer pela sarjeta
E levar para o fosso toda a sujeira do mundo
A chuva que choveu hoje
Fez brotar em mim um espanto
Queria me multiplicar em um trilhão de gotas
Esses trilhão de coisas que imagino ser
Viver a ilusão da liberdade
A liberdade enquanto bailo no ar
Ao sabor dos ventos
Até encontrar a realidade do chão
O chão de cimento
(onde foram parar as ruas de terra da minha infância?)
A chuva de hoje foi mais real que a de ontem
Era linda e no entanto
Fez brotar em mim um espanto
Não posso ser chuva
Eis que sou barro

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BRASIL Poema do Chiqueiro

por Rafael Rocha

O meu país é outra república de bananas
nele a verdade vai pra baixo do tapete
deputados e senadores são sacanas
mas, realmente, eles têm grande topete
tudo porque vem dos seus eleitores
que escolhem sem olhar rosto no espelho
os ignorantes senhoras e senhores
como se cada eleito fosse um fedelho
filho da mãe e do pai e da velha putaria
e depois choram e arrancam os cabelos
devido à própria falta de sabedoria.

O meu Brasil é uma casa de meretrício
onde se goza do norte/nordeste até ao sul.
Os governados adoram um estrupício
e se deliciam quando vão tomar no cu.
O meu país é uma república de safados
criada pelos portugas d’além mar
com uma cruz cristã de zumbis desesperados
professores da velha arte de roubar
e que sempre (triste sina) marcam dias
que ao tentarmos torná-los em alegrias
servem agora só para lamentar.

O meu país é uma terra de escravos
que aplaudem todo dia seus senhores.
A casa grande hoje é “casa dos bravos”
e a senzala o “covil dos malfeitores”.
O meu Brasil não é país de homens sérios.
É a piada do eternamente universal
onde até os alienígenas de momentos
zombam das leis e dos grandes mandamentos
e se ajoelham para os deuses do dinheiro
por terem parte nesse grande chiqueiro
Judiciário, Legislativo e Senatorial.

Do livro “Poemas Escolhidos”

ROSADOS LÁBIOS

por Talis Andrade

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Suave beleza
de uma menina
beijando outra

Suaves pétalas
macios toques dos lábios
Bocas que se juntam
para um salivado fôlego
de náufragas

Rosados molhados lábios
que os beija-flores sugam
línguas que lambem
a calda de um doce no ponto
a calda viscosa
saborosa seiva
do toque de línguas
na troca de saliva
que vai se tornando mel

NO MEIO DO CAMINHO

por Talis Andrade

A morte vem
com estardalhaço
salva de girândolas
retreta na praça

A morte vem
num tremor de terra
quando se abrem
as sete bocas
do inferno

A morte vem
quando você
atravessa a rua
e tropeça que
no meio do caminho
tem uma pedra
no meio do caminho
uma pedra
um carro sem freios
um cavalo em disparada

A vida uma andança
e mais que se ande
nunca se passa
do meio do caminho

Pra quê pressa
come devagarinho