Terrorismo contra a liberdade de expressão no Brasil

Jean Gouders

Jean Gouders

 

Condenado a indenizar o diretor da Globo Ali Kamel, jornalista disse que “é evidente que a série de ações de grupos de mídia contra jornalistas blogueiros são não apenas um atentado à liberdade de expressão, como um profundo fator de desequilíbrio em um dos pilares da democracia brasileira: o mercado de opinião”.

Acrescenta este Jornaleiro: As ações vingam porque a Justiça aceita e condena os jornalistas a pagar multas. Permite que jornalistas apodreçam nos cárceres sem julgamento. Tivemos na campanha eleitoral de 2013 as prisões políticas de jornalistas a mando dos candidatos Aécio Neves, em Minas Gerais, e de Eduardo Campos em Pernambuco. Quando a Justiça foi mais do que conivente. Foi cúmplice.

As ações são de vingança. De censura. E contra a liberdade de expressão como aconteceu na revista Charlie Hebdo. E envergonham o Brasil, campeão em assédio judicial.

 

NASSIF: AÇÕES CONTRA BLOGS SÃO ATENTADO À LIBERDADE DE EXPRESSÃO

 

Duque

Duke

247 – Um dia depois da notícia da condenação do blogueiro Luís Nassif, obrigado a indenizar em R$ 50 mil o diretor da Globo Ali Kamel, por danos morais, o jornalista publicou um post em seu blog, o Jornal GGN, sobre “a série de ações de grupos de mídia contra jornalistas blogueiros”, que chamou de “não apenas um atentado à liberdade de expressão, como um profundo fator de desequilíbrio em um dos pilares da democracia brasileira: o mercado de opinião”.

Em seu texto, ele ressalta que a blogosfera e as redes sociais foram o único contraponto dos últimos anos, “mesmo com todos os abusos de um sistema difuso e não controlável”. “Mesmo com exageros de uma luta radicalizada, foi a ascensão da blogosfera e das redes sociais que permitiu o contraponto, o freio necessário para impor limites às ações abusivas dos grupos de mídia”, disse. Leia a íntegra:

O atentado à liberdade de opinião nas ações contra blogs

Não vou discutir sentença judicial através do Blog. Digo isso a propósito da condenação que me foi imposta pela justiça do Rio de Janeiro em ação movida pelo jornalista Ali Kamel, das Organizações Globo.

Mas é evidente que a série de ações de grupos de mídia contra jornalistas blogueiros são não apenas um atentado à liberdade de expressão, como um profundo fator de desequilíbrio em um dos pilares da democracia brasileira: o mercado de opinião.

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Em uma democracia, um dos pressupostos básicos são os freios e contrapesos – o sistema de equilíbrio que impede o exercício do poder absoluto.

Quando, a partir de 2005, os grupos de mídia resolveram atuar em forma de cartel no mercado de opinião, acabaram criando um poder quase absoluto de construir ou destruir reputações.

Não se trata de um poder trivial. No mercado de opinião movem-se todos os agentes sociais, políticos e econômicos. É nele que se constroem ou destroem-se reputações. E é também o palco para embates corporativos, para grandes disputas empresariais. Todos são afetados positiva ou negativamente por ele, juízes, ministros, políticos, celebridades, médicos, líderes populares.
E os grupos de mídia reinam de forma absoluta nele.

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Ora, grupos de mídia são empresas com interesses próprios, nem sempre transparentes. E com prerrogativas constitucionais de atuação garantidas pelos princípios da liberdade de imprensa – frequentemente confundido com garantias constitucionais, como liberdade de expressão e direito à informação.

Na maioria das vezes esses interesses se escondem por trás de reportagens enviesadas, de escândalos fabricados, de fatos banais transformados em grandes escândalos, quase todos imperceptíveis a quem não seja do meio jornalístico.

Em um ambiente competitivo, espera-se que funcionem mecanismos de auto regulação. Quando os grupos montaram a cartelização, esse controle deixou de existir. E o resultado foram abusos de toda espécie. Basta conferir “O Caso de Veja” onde descrevo vários episódios da revista.

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Nos últimos anos o único contraponto existente foi o da blogosfera e das redes sociais, mesmo com todos os abusos de um sistema difuso e não controlável.

Foi a blogosfera que primeiro acudiu em defesa da juíza Márcia Cunha, alvo de um crime de imprensa, uma tentativa de assassinato de reputação, do ex-Ministro do STJ Edson Vidigal, ambos os assassinatos a serviço dos interesses do banqueiro Daniel Dantas.

Se não fosse a Blogosfera, a Abril teria esmagado um concorrente no mercado de cursos apostilados; a Globo e a Editora Santillana (que controla o jornal El Pais) teriam liquidado com editoras nacionais independentes, que concorriam em áreas de seu interesse (http://tinyurl.com/n6h97rd).

Dessa falta de limites não escaparam presidentes de Tribunais de Justiça, Ministros do Supremo, como Ricardo Lewandowski e Celso de Mello. E levaram o então presidente do TRF3, Newton de Lucca, a pregar um “habeas mídia, justamente para evitar o poder absurdo e as interferências das notícias plantadas.

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O conforto trazido pela cartelização levou grupos de mídia a se associarem até a organizações criminosas, como foi o caso da revista Veja com Carlinhos Cachoeira.

Antes, sem o contraponto das redes sociais, a maioria dos grandes grupos de mídia logrou acordos espúrios com governos de plantão, que os livraram de condenações fiscais, renegociaram débitos com bancos públicos em condições vantajosas, blindaram grandes anunciantes, esconderam mazelas de aliados.

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Mesmo com exageros de uma luta radicalizada, foi a ascensão da blogosfera e das redes sociais que permitiu o contraponto, o freio necessário para impor limites às ações abusivas dos grupos de mídia.

A possibilidade de contrapontos ampliou o direito do público à informação, à liberdade de expressão, permitiu ao leitor confrontar opiniões, bater informações para chegar às suas próprias conclusões.

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A tentativa de generalizar, tratando todos os críticos como “chapa branca”, é manobra ilusionista, para não explicitar a razão do verdadeiro incômodo: os limites impostos às jogadas comerciais, às guerras empresariais, aos assassinatos de reputação.

O CNJ (Conselho Nacional de Justiça) criou um grupo de trabalho para impedir ações judiciais danosas contra grupos de mídia; o mesmo fez a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), cujo atual presidente foi vítima de ataques vis de jornais.

Seria importante que se abrisse o debate sobre os atentados à liberdade de expressão e ao direito à informação por parte dessa massa de ações judiciais impondo montantes elevados nas condenações.

 

 

 

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Recepção a calouros de universidade mineira terá oficina sobre masturbação feminina

siririca

 

Preparada pelos veteranos de Serviço Social da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), a recepção destinada aos novatos do curso ganhou repercussão além dos muros da institução. Tudo por causa da “Oficina de Siririca” criada por alunas para debater a masturbação feminina. Mas, segundo as organizadoras, não se trata de uma aula prática coletiva e é destinado apenas às calouras. Na conversa, as meninas serão convidadas a falar sobre suas experiências com a masturbação, o tabu que cerca o relacionamento das mulheres com seus corpos, além de dicas, como explica Gabriela Pereira, de 25 anos.

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Aluna do 2º período do curso de História, Gabriela pretende trabalhar no campo de gênero e sexualidade e faz parte de um grupo de estudos sobre feminismo e classes sociais na UFOP. Além da “oficina de siririca”, também será exibido o documentário “Clítoris Prazer Proibido”.

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— É uma roda de conversa para falar sobre masturbação, prática, como a gente começou, como é para cada uma, um espaço para gente conversar. Quem quiser dicas, pode dividir, quem não quiser não precisa. Realmente, é um tabu, ninguém conversa. Desde que surgi com essa ideia, pelo menos quatro moças vieram falar comigo que nunca se masturbaram, outra me disse que nunca chegou ao orgasmo. Como que em pleno século 21 anos tem uma galera que não consegue se tocar? É muito tabu. A gente não tem espaço para discutir isso. A gente vê como é tabu que uma roda de conversa teve essa repercussão toda nas redes sociais e na mídia — destaca Gabriela.

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O cartaz de divulgação do evento tem sido compartilhado nas redes sociais por mulheres de todo país. De acordo com Gabriela, a maior parte das pessoas apoiou a oficina, embora ela também tenha recebido críticas e piadas de mal gosto por parte de alguns alunos. Para a universitária, o espaço acadêmico é o ambiente propício para este tipo de debate.

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— A universidade é um palco para gente conversar, descontruir e construir novamente as coisas. Alguns homens, do curso de Exatas principalmente, ficaram muito chocados, fizeram muitas brincadeiras de cunho machista. Mas ouvi muita gente apoiando, várias meninas de outros estados vieram falar comigo. Tivemos até um convite para expandir essa oficina para outros campus. O ambiente acadêmico está ficando mais diverso e é importante a gente mostrar que tem cada vez mais mulheres na universidade e existem essas demandas. (Extra)

 

Visões d’amor (& amizade) 3

muro

O amor não tem muro que separe. O verdadeiro amor vence o tempo e o espaço. Não tem essa obrigação ou lei ou costume de ser da mesma tribo, da mesma cor, da mesma faixa etária, da mesma classe social, da mesma religião, do mesmo gênero e outros mesmismos. O amor é livre.
Talis Andrade

 

A TECNOLOGIA SEPARA AS PESSOAS?

Depende de como é usada. Em poucas semanas no face, reencontrei amigos, me aproximei de muitas pessoas que admiro, fiz centenas de novas amizades. Ontem, que para mim ainda é hoje, pois só chego amanhã (trabalhando, registre-se) recebi aqui tantas manifestações de carinho, tantas palavras bonitas, tantos incentivos que posso dizer foi o aniversário mais curtido da minha vida (desculpem o trocadilho, foi sem querer).
Viva a tecnologia que aproxima as pessoas.
Graças à internet, você só é uma ilha se quiser.
José Nivaldo Júnior

 

Todos os amigos são especiais, os de ontem, os de hoje, os de sempre.
Amigos de longa data, amigos feitos numa troca de olhar ou e mail.
Amigos cujas palavras soam como torrões de açúcar ou como trovoadas.
Amigos que partiram, amigos que sucumbiram as vicissitudes da vida…
A todos os amigos o meu bem querer, que ele jamais se esgote.
Núbia Nonato

 

MEDIDA

A medida do amor é ser deserto

e retomar a ausência inicial

de parte da memória devorada

do inconsciente profundo

axial

porque o real do amor é fragmentar-se

No decorrer do ciclo indefinido

em espirais do tempo diluído

à lembrança inconsútil

desvelar-se

Terêza Tenório

 

para-estar-junto

 

metaplágio para mítienka, em lugar de carta

enamorei-me

parece fizemo-nos sofrer mutuamente
mas tudo acabou. saindo
rebentei em riso e ainda
agora penso nisso muito alegremente

mas como podia eu saber
que não queria nenhum pouco?

é entretanto a pura verdade

como gostava e gozava tal amor!
como lhe quero bem ainda!
parto sem pesar! ah que saudades eu sinto!
mas talvez isso seja fanfarronice minha

há tanto tempo que te amo
talvez… não fosse amor […]

Nina Rizzi

 

Nina Rizzi, por Talis Andrade

Nina Rizzi, por Talis Andrade

Chão de Estrelas
Minha vida era um palco iluminado
Eu vivia vestido de dourado
Palhaço das perdidas ilusões
Cheio dos guizos falsos da alegria
Andei cantando a minha fantasia
Entre as palmas febris dos corações
Meu barracão no morro do Salgueiro
Tinha o cantar alegre de um viveiro
Foste a sonoridade que acabou
E hoje, quando do sol, a claridade
Forra o meu barracão, sinto saudade
Da mulher pomba-rola que voou
Nossas roupas comuns dependuradas
Na corda, qual bandeiras agitadas
Pareciam estranho festival!
Festa dos nossos trapos coloridos
A mostrar que nos morros mal vestidos
É sempre feriado nacional
A porta do barraco era sem trinco
Mas a lua, furando o nosso zinco
Salpicava de estrelas nosso chão
Tu pisavas os astros, distraída,
Sem saber que a ventura desta vida
É a cabrocha, o luar e o violão
Sílvio Caldas

 

 

 

 

Amor Estranho Amor de Xuxa

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No programa Altas Horas, que vai ao ar neste sábado (7) na TV Globo, Xuxa Meneghel comentou as declarações do deputado Pastor Eurico, em uma sessão que discutia o projeto da Lei Menino Bernardo. “Ele já teve o seu momento de fama. Acho que quanto mais falamos disso, mais vamos colocar ele em evidencia”, rebate. “Ele pode não gostar de mim, mas agora ele não pode usar violência contra criança, porque é lei”, declara.

Xuxa também falou sobre o polêmico filme Amor Estranho Amor. “Tem gente que fala do filme que fiz, mas uma coisa não tem nada a ver com a outra. Eu tinha 18 anos e fazia uma menina de 15. Se quiserem comparar o filme, que tem eu beijando o menino, comparem com a cena de um pai de 40 anos batendo em uma filha de 2 anos e vejam o que é mais vergonhoso, então vamos ser justos”, afirmou.

No dia 21 de maio, o deputado Pastor Eurico (PSB-PE) durante a acalorada discussão sobre o projeto de lei que pune agressões a crianças em ambiente familiar, a chamada Lei da Palmada, afirmou: “nem falo sobre a violência que passa na TV todos os dias. A conhecida rainha dos baixinhos protagonizou em 1982 a maior violência contra as crianças quando fez um filme pornô”, disse o deputado. Ele se referia ao filme considerado erótico, no qual Xuxa contracena com um adolescente de 12 anos. À época, Xuxa ainda não era apresentadora infantil.

Como não é parlamentar, Xuxa Meneghel não pôde falar, mas respondeu ao deputado com um coração feito com as mãos. Em seguida outros parlamentares da própria bancada evangélica se solidarizaram com a apresentadora. “Gostaria de deixar claro que essa é a opinião dele. Não é posição da bancada evangélica”, disse o deputado Anthony Garotinho (PR-RJ). Fonte: Portal Terra

 

Publica Wikipédia: Amor Estranho Amor é um filme brasileiro, filmado e lançado em 1982, dirigido por Walter Hugo Khouri e estrelado por Marcelo Ribeiro, Xuxa Meneghel, Tarcísio Meira e Vera Fischer. Foi o primeiro filme de Xuxa.

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Sinopse
Hugo, um homem de meia idade, guarda na memória a infância realmente singular. Em 1937, ainda um garoto, sai de Santa Catarina com a avó e desembarca em São Paulo, onde é deixado em frente a um palacete, na verdade um bordel de luxo. Ali mora e trabalha Anna, sua mãe, uma prostituta e amante do Dr. Osmar Passos, um poderoso político paulista. O garoto irá conviver daí em diante nesse ambiente com outras garotas de programa como Tamara – uma ninfeta atrevida. Depois de ter leiloada a sua falsa virgindade entre os frequentadores mais ricos, ela seduz Hugo – e inicia o adolescente nos prazeres do sexo. Como pano de fundo no filme, o momento político do país às vésperas do golpe que instituiu a ditadura do Estado Novo.

Filme

Polêmica
Amor Estranho Amor causou certa polêmica devido à participação de Xuxa no elenco. Sua personagem tem relações sexuais com um adolescente de 12 anos, interpretado pelo ator Marcelo Ribeiro.

O video de Amor Estranho Amor tem sua comercialização e distribuição proibidas no Brasil. Todavia, o filme foi lançado em DVD nos Estados Unidos em 2005 e pode ser adquirido por qualquer brasileiro em sites estrangeiros por importação. A produtora norte-americana não vendeu os direitos a Xuxa, que chegou a entrar com ação judicial nos EUA em 1993, mas perdeu.

Em 2006, Marcelo Ribeiro foi encontrado com 39 anos e deu várias entrevistas, tendo também publicado um livro de como tudo aconteceu na época, incluindo conversas nos bastidores com a atriz. Em 2007, aproveitando de sua popularidade momentânea, fez um filme pornográfico.

Em 2011, o produtor Anibal Massaine trava batalha na justiça na tentativa de comercializar o filme, aproveitando a fama da artista.

 

Premiações
Por sua atuação, Vera Fischer ganhou dois prêmios de Melhor Atriz no Festival de Cinema Brasília e no Prêmio Air France de Cinema, 1982. Xuxa também ganhou um prêmio de revelação mirim no Premio Air France De Cinema

[Um filme premiado ser velado só acontece no Brasil, uma monarquia da rainha Xuxa e do rei Pelé. Assista o filme aqui, que toda censura é inimiga da democracia, da liberdade e da verdade. O filme faz parte da história do cinema brasileiro. E não se pode apagar o nome do cineasta Walter Hugo Khouri, que dirigiu 25 longas-metragens, com prêmios nacionais e internacionais, inclusive Amor Estranho Amor]

 

 

 

 

 

 

 

 

A ditadura do pensamento único

Francisco, por Miguel Villalba Sánchez (Elchicotriste)

Francisco, por Miguel Villalba Sánchez (Elchicotriste)

 

«Também hoje existe a ditadura do pensamento único». Se não pensarmos de um determinado modo não somos considerados modernos, abertos. E pior ainda acontece «quando alguns governantes pedem uma ajuda financeira» e lhe respondem «mas se tu quiseres esta ajuda deves pensar deste modo e deves fazer esta ou aquela lei».

O risco do pensamento único que ameaça a relação com Deus esteve no centro da homilia do Papa Francisco durante a missa celebrada na manhã de quinta-feira, 10 de Abril, em Santa Marta. «O fenómeno do pensamento único» sempre causou «desgraças na história da humanidade» afirmou o Santo Padre, recordando também as tragédias das ditaduras do século XX. Mas, disse, é possível reagir: rezando e vigiando.

Referindo-se às leituras do dia o Papa frisou que a liturgia «nos faz ver a promessa de Deus a Abraão nosso pai». A referência é relativa ao trecho do Génesis (17, 3-9), no qual Deus promete a Abraão que se tornará «pai de muitas nações. E «o povo de Deus a partir daquele momento – explicou o Santo Padre – começou a caminhar» fazendo com que se realizasse esta promessa, fazendo com que se tornasse realidade. É «uma promessa que, também da parte de Abraão com Deus, tem a forma de aliança». Com efeito, Deus diz a Abraão. «Por tua vez deves observar a minha aliança, tu e a tua descendência depois de ti, de geração em geração». Portanto, é necessário «respeitar a aliança».

E assim, continuou o Papa, «compreende-se que os mandamentos não são uma lei fria; os mandamentos nasceram desta relação de amor, desta promessa, desta aliança». E, inspirando-se na passagem evangélica de João (8, 51-59) proclamado na liturgia hodierna, o Pontífice prosseguiu a sua reflexão indicando que «o erro destes doutores da lei que não eram bons e queriam lapidar Jesus – contudo, naquele tempo haviam também fariseus e doutores da lei bons – consistiu em separar os mandamentos da promessa, da aliança». Ou seja, «separar os mandamentos do coração de Deus, o qual ordenou que Abraão que caminhasse sempre em frente».

Na opinião do Papa Francisco «o erro destas pessoas» nasceu do facto de não ter «percebido o caminho da esperança: pensavam que com os mandamentos tudo fosse pleno, tudo estivesse cumprido». Mas «os mandamentos que nascem do amor desta fidelidade de Deus são regras para ir em frente, indicações para não errar: ajudam-nos a caminhar, até chegar ao encontro com Jesus». Ao contrário, as pessoas sobre as quais nos fala hoje o Evangelho continuam a repetir: «existem leis que devemos respeitar».

Eis então, observou o Pontífice, «o drama do coração fechado, o drama da mente fechada. E quando o coração está fechado, ele fecha a mente. E quando coração e mente estão fechados não há lugar para Deus». Eis que, explicou o Papa, existimos «só nós» e estamos convictos de fazer exactamente «o que indicam os mandamentos». Mas «os mandamentos trazem uma promessa e os profetas despertam esta promessa».

Face à «mente fechada, para Jesus não é possível convencer, não é possível dar uma mensagem de novidade». Que, aliás, «não é nova» mas «é quanto foi prometido pela fidelidade de Deus e pelos profetas». Todavia os interlocutores de Jesus «não compreendem, o pensamento deles não está aberto ao diálogo, à possibilidade que haja algo mais, à possibilidade que Deus nos fale e nos indique como é o seu caminho, como fez com os profetas».

Certamente, acrescentou ainda o Pontífice, estas pessoas não ouviram os profetas nem Jesus. Contudo, a sua atitude vai além da simples teimosia. É algo mais! É idolatira do próprio pensamento.

O «fenómeno do pensamento único» causou sempre «desgraças na história da humanidade», afirmou o Pontífice. «No século passado as ditaduras do pensamento único acabaram por matar muitas pessoas».

Mas «também hoje – admoestou o Papa – há a idolatria do pensamento único. Hoje devemos pensar assim e se alguém pensar de forma diferente não é considerado moderno, não é aberto». Portanto, hoje existe a mesma ditadura sobre a qual fala o Evangelho. A forma de agir é a mesma. São pessoas que «pegam nas pedras para lapidar a liberdade dos povos, das pessoas, das consciências, da relação do povo com Deus. E hoje Jesus é crucificado de novo».

E assim, acrescentou o Papa, «esta não é uma história daquele tempo, dos fariseus malvados, destas pessoas fechadas. É uma história de hoje». E «o conselho do Senhor perante esta ditadura é sempre o mesmo: vigiar e rezar».

O Pontífice concluiu exortando a «não ser ingénuos», a não comprar coisas que não servem. E a «ser humildes e a rezar para que o Senhor nos dê sempre a liberdade do coração aberto para receber a sua palavra que é promessa e alegria! É aliança! E com esta aliança ir em frente».

“A poesia tem o poder…”

por 

Ilustração de Fernando Vicente para 'De los álamos el viento'.

Ilustração de Fernando Vicente para ‘De los álamos el viento’.

 

 

 

Versos para superar a guerra. Versos para aliviar o Alzheimer. Versos que só chegam às terças-feiras. Versos com cinco palavras. Numa época crítica para os escritores profissionais — nem falemos para os que se dedicam à lírica –, a internet é um viveiro crescente para a poesia. As partes em que se divide esse viveiro são múltiplas. Há aquelas com pretensões generalistas, como Poetry Foundation, web da revista Poetry de Chicago, com quase 100.000 fãs no Facebook, onde pode-se procurar poemas por tema, por data comemorativa e até por países (embora, por enquanto, haja alguns sub-representados, como a Espanha, que só tem dois). E há aquelas tão específicas como uma seção da web da editora digital bartebly.com, que acolhe 151 poemas de 101 autores que viveram, de todas as frentes, a I Guerra Mundial, cujo centenário se comemora neste 2014.

Mas o que mais prolifera são sites em que os internautas se transmutam em poetas. Para Charles Olsen e Lilián Pallarés,webmasters de Palavras Emprestadas, em Madri, tudo começou num aeroporto da Sardenha com cinco palavras: algas, poeta, vinho, clínica e metafórico. “Como estávamos entediados no aeroporto, pedi a Charles cinco palavras para fazer um poema. Ele se entusiasmou tanto que me pediu outras cinco”. As cinco palavras que Pallarés deu a Olsen se transformaram nesse poema:

Na clínica de San José um poeta espirra versos metafóricos… frases como vinho tinto com corpo de algas infinitas.

Charles Olsen, Palabras prestadas

Dali a fundar uma web que propõe a qualquer poeta, profissional ou amador, o desafio das cinco palavras, com a possibilidade de logo sair publicado em papel na antologia anual que reúne os poemas da página web e que em sua primeira edição contou com 15 poemas. Lilián Pallarés não disfarça seu entusiasmo pelo crescente projeto: “Nos atrevemos a dizer que Palavras Emprestadas é um aeroporto de ideias, de palavras, de poemas, uma metáfora aérea”.

A poesia pode ser também bálsamo para doenças terríveis. Gary Glazner, poeta norte-americano de 57 anos, sabe muito bem disso. Ele leva quase 30 anos, desde 1997, lutando contra o Alzheimer com o lirismo através da fundação Alzheimer’s Poetry Project, que compila em sua web poemas criados pelos pacientes numa tentativa de salvar versos do esquecimento. Glazner não se esquece de uma anedota da primeira sessão em que experimentou o método de, recitar versos clássicos com os enfermos e logo animá-los a criarem os seus próprios: “Um homem estava de cabeça baixa, sem participar, parecendo totalmente a margem de tudo o que acontecia a sua volta. Eu estava recitando um verso de Longfellow: ‘Lancei uma flecha ao ar’. Seus olhos se abriram e ele disse: ‘Caiu na terra, não sei onde’. De repente ele estava outra vez conosco e era capaz de participar. Fique assombrado. Isso me mostrou o quão poderosos podiam ser os poetas clássicos. Quão útil pode ser a poesia para ajudar essa comunidade”. Dos muitos poemas que os pacientes escreveram, Glazner escolhe um em castelhano com o título Besos (Beijos).

 

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‘Beijos’ desde o Alzheimer

Beijos. Nem carinho nem beijos. Quando eu era criança, pedia pão e queijo aos meus pais. Não podiam me dá-los. Mas podiam me dar amor. Meu primeiro namorado me pegou a mão. O amor é maior que pão e queijo. Quando fui ao mercado, não houve pão nem queijo. Mas havia uma moça para beijar. Eu esperava ao lado do rio. Minha namorada vinha pegar água para a sua família, e ali nos beijávamos. As moças não me beijam. Elas me rejeitam. Ninguém nunca me amou, nunca. Só mamãe me amava um pouco. Mamãe me dizia: “Eu te dou pão e queijo e se tu não comeres, não te beijo.” Isso significa que se tens um namorado ou namorada que queres beijar, tampouco recebes pão. Eu disse a ele, podes me beijar aqui (aponta com o dedo a bochecha). Podes me beijar aqui (aponta com o dedo os lábios). Mas, abaixo daqui não podes me beijar. (Desenha uma linha através do pescoço). Quando se é jovem, aos 14, 15, 16 anos, sonhas muito, mas aos 18 já sabes dizer sim ou não e podes comer a sobremesa.

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Por que essa necessidade de experimentar com a lírica na web? O poeta Manuel Vilas – Resurrección (Visor, 2005), Gran Vilas (Visor, 2012) – explica que é porque as webs cobrem o nicho mais independente. “A internet é o novo underground. E só pode crescer mais e mais. É um lugar de liberdade absoluta onde a pessoa pode pirar. É uma ferramenta ideal para experimentar com poesia”. O próprio Vilas somou-se aos versos online. Colabora com a revista malaguenha online Obituario, que dedica cada número a alguma celebridade morta, de Francis Scott Fitzgerald a Johnny Cashy. E em seu livro Listen to me(La Bella Varsovia, 2013), ele misturou seu Facebook e seu blog num diário online que pretendia chegar ainda mais longe: “Queríamos incluir todos os comentários dos usuários. Mas era uma confusão porque seria preciso pedir autorização a cada pessoa. Mas para mim o ideal era isso”.

Os versos online partem dos cinco continentes. Toda terça-feira, Mary McCallum e Claire Beynon fazem, desde a Nova Zelândia, o upload de versos novos de 30 poetas de todo o mundo em Tuesday Poem. A iniciativa começou com uma ideia de McCallum que pretendia simplesmente se obrigar a escrever: “Fiz isso para me concentrar na minha escrita, de verdade: para me lembrar que na terça-feira eu tinha que postar poemas e como uma forma de construir uma comunidade lírica. Achei que ter o título seria uma boa maneira de me lembrar dessedia da poesia, especialmente quando a vida te oprime”. Quatro anos mais tarde, poetas da França, Estados Unidos, Nova Zelândia, Lesoto e da África do Sul se animam para a poesia a cada terça-feira.

   Todas essas palavras, dentes afiados cravando-se no ventre cheio de vida – Aí está! ‘Mãe’. Uma e outra vez.

Mary McCallum, Tuesday Poem

O porquê de existir a poesia gratuita tem múltiplas respostas. O prazer para Lillián Pallarés e Charles Olsen. A solidariedade para Gary Glazner. O experimentalismo e a tertúlia para Manuel Vilas. O amor pela poesia em todos os casos. Mas também a reivindicação da situação pela qual as letras e as pessoas estão passando: “Em um mundo cada vez mais adoecido por estruturas econômicas falidas, pelo colapso político, o separatismo ecológico e a destruição do meio ambiente, as artes continuam sendo um lugar onde é possível um intercâmbio autêntico e sem complicações”, afirma Mary McCallum. “A poesia tem o poder de dissolver barreiras entre as pessoas, propiciar a mudanças, oferecer prazer e humor, ser voz de protesto, de luta pela paz, pela educação, a saúde e a conexão entre as pessoas”.

A prisão do dono do ‘Novo Jornal’

por José de Souza Castro

 

 

Paolo Lombardi

Paolo Lombardi

No dia 17 deste janeiro, uma quinta-feira, a juíza substituta da 2ª Vara Criminal de Belo Horizonte, Maria Isabel Fleck, decretou a prisão preventiva do proprietário do Novo Jornal, Marco Aurélio Flores Carone, em atendimento a pedido do Ministério Público. Em nenhum momento, nas 11 páginas da sentença, cogitou a juíza da questão do direito à liberdade de expressão. Ela teve o cuidado de sublinhar, em negrito, que o mandado de prisão deveria ser remetido “com urgência” ao setor policial encarregado de seu cumprimento. E assim se fez, com uma rapidez pouco característica. Na segunda-feira (20/1), ao chegar à sede do seu jornal virtual, Carone foi preso. Quando há empenho, justiça e polícia podem ser muito eficientes.

A denúncia foi apresentada no dia 12 de novembro de2013 pela Promotoria de Combate ao Crime Organizado e Investigações Criminais. Na edição de 13/12/2013, a revista IstoÉ publicou reportagem a respeito. Nos dias seguintes, diários mineiros deram a notícia. A prisão de Carone foi noticiada com destaque pelos jornais, rádios e televisões. Tal qual a juíza Maria Isabel Fleck, nenhum veículo se preocupou, nesse caso, com a questão da liberdade de imprensa.

Apesar de ter sido dono de diários impressos no passado, antes de fundar o jornal virtual, Marco Aurélio nunca teve acesso ao limitado clube dos donos de jornais mineiros. Ele vem de uma família de políticos. Um avô, Jorge Carone, foi prefeito da cidade mineira de Visconde do Rio Branco. O pai, Jorge Carone Filho, elegeu-se prefeito de Belo Horizonte em 1962, mas foi cassado em janeiro de 1965. Lançou então a candidatura da mulher, Nísia, para deputada federal, pelo então MDB. Eleita, foi cassada pelo AI-5, em 1969. Um irmão do dono do Novo Jornalfoi deputado estadual, outro vereador da capital, pelo PMDB.

Achincalhando e ofendendo

A prisão de Marco Aurélio não mereceu dos colegas empresários na imprensa qualquer movimento de solidariedade. O Novo Jornal não a noticiou. Apesar de algumas notícias de que ele seria fechado, jornal continuava na web na quinta-feira (23/1), quando este artigo foi redigido. Com uma discreta tarja, em letras vermelhas e fundo negro: “Estamos censurados”. E sem noticiar em nenhum momento a prisão do dono.

Não se sabe quantos jornalistas Marco Aurélio emprega, mas não seriam muitos. O Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais divulgou na terça-feira (21), em seu site, nota de repúdio à ameaça que pesa sobre os que trabalham no único jornal mineiro, virtual ou não, que faz oposição aberta ao governo estadual – um grande anunciante que não anuncia no Novo Jornal. Diz a nota que “tanto a prisão quanto a ordem de retirar do ar o site configuram ataques ao direito e à liberdade de expressão” e que o Sindicato “vem a público reafirmar sua posição intransigente na defesa da Democracia, da Justiça e das Liberdades Civis e Individuais”.

Só há um equívoco nessa manifestação: na sentença da juíza, não existe ordem de retirar o site do ar, embora tenha sido pedido pelo Ministério Público. Nisso, ela preferiu se omitir.

Na opinião do Ministério Público, que desde 2008 tenta fechar a publicação (ver remissões abaixo), não se trata propriamente de um jornal, mas de um balcão de negócios cujo dono deve ser preso. E foi o que a juíza substituta decretou, “tendo em vista a necessidade de garantia da ordem pública, por conveniência da instrução criminal e para garantia da ordem econômica”. Afirma Maria Isabel Fleck, em sua decisão: “Ao verificar o site do ‘novojornal’, fica patente que o mesmo é utilizado para lançar ofensas à honra de autoridades públicas, achincalhando e ofendendo a todos que se posicionam contra os interesses do grupo, imputando verdades àqueles que cumprem seus deveres funcionais.” Entre os quais, diz a juíza, desembargadores, juízes de Direito, membros do Ministério Público e delegados de polícia.

Quem manda

Para respaldar sua decisão, a juíza relaciona 16 ações penais contra Marco Aurélio, nenhuma julgada em última instância. A maioria por calúnia, injúria ou difamação contra autoridades, nenhuma delas tidas como adversárias do senador Aécio Neves. Mas há dois acórdãos do Tribunal de Justiça para impedir “a veiculação de notícias pelo ‘novojornal’ em relação ao deputado federal Alexandre Silveira de Oliveira” e ao desembargador mineiro José do Carmo Veiga. Nenhuma relação, por suposto, com a proibição judicial de notícias sobre um empresário maranhense ligado à política que ainda vigora para o Estado de S.Paulo e que tanta indignação suscitou, nos últimos anos, na grande imprensa.

Se está havendo censura judicial ao Novo Jornal, a imprensa mineira não percebeu. Ao contrário do bloco parlamentar Minas Sem Censura, que reúne deputados estaduais do PT, PMDB e PRB, partidos de oposição ao governo estadual. Um de seus integrantes, o deputado petista Rogério Correia, raciocina: “Ora, se você estabelece a prisão preventiva para evitar a publicação de material jornalístico, está oficializada a censura prévia”. E acrescenta:

“Quando do surgimento da Lista de Furnas, encaminhei o relatório à Polícia Federal e, por isso, o vice-presidente nacional do PSDB tentou a cassação do meu mandato. É a mesma situação. A censura tem agentes no Ministério Público e no Judiciário, mas, quando é com a imprensa, quem organiza a perseguição é a própria irmã do senador, Andréa Neves.”

Extorsão de políticos e empresários

Blogs contrários à candidatura de Aécio Neves à presidência da República aproveitam esse movimento do Ministério Público e do Judiciário mineiro para criticar o senador, apontado como o mais forte concorrente de Dilma Rousseff nas eleições de outubro. Mas há blogs que divulgam a notícia da prisão sem tecer comentários, sobretudo em Minas, ou que até mesmo aplaudem.

Se alguns imaginaram que a prisão do dono do Novo Jornal iria intimidar os blogueiros mineiros, eles devem estar felizes. É possível que os jornalistas mineiros permaneçam abaixados em suas trincheiras, intimidados por alguns juízes atentos à defesa das autoridades contra ataques oposicionistas. A menos que o réu Marco Aurélio Fores Carone, vulgo “Marco Florzinha” – como se lê na sentença da juíza Maria Isabel Fleck e na peça acusatória do Ministério Público, mesmo que poucos o conheçam por esse apelido – consiga provar que não faz parte de uma organização criminosa dedicada a extorquir dinheiro de políticos e empresários. E que seu jornal, como todos os outros, encontra amplo amparo na Constituição de 1988, que formalizou o fim da ditadura no Brasil.

 

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