Independência ou morte


Uns os consideram indecisos. Outros alegam ser perversão. Alguns vão além e os acusam de maquiar a homossexualidade. No entanto, para eles, ter relações com ambos os sexos é a libertação de paradigmas sócio-culturais.

João amava Teresa, que amava Ana, que amava Raimundo e também Lili, que não amava ninguém. Parodiando o poema de Carlos Drummond de Andrade, que assim ficaria se adaptado ao universo dos bissexuais, onde um único objeto do desejo pareceu ser pouco. Uns os consideram indecisos. Outros alegam ser perversão. Alguns vão além e os acusam de maquiar a homossexualidade. No entanto, para eles, ter relações com ambos os sexos é a libertação de paradigmas sócio-culturais, que restringiam a sexualidade dúbia. Assim sendo, a atração, antes limitada a oito ou oitenta, representa magnetismo puro e simples, não importando o gênero. Será isso apenas uma fase ou a nova tendência? É possível ter prazer com o mesmo sexo e o oposto? Em meio a uma infinidade de questionamentos, eis a solução: fomos direto à fonte para desvendar de uma vez por todas o mistério do ainda obscuro caminho do meio.

Estar sempre aberto a novas experiências. Esse é o lema dos que se auto-intitulam bissexuais, pessoas que gostam tanto do sexo oposto quanto do mesmo sexo, com maior ou menor preferência por cada um. Segundo eles, a questão é se permitir. Foi com essa mentalidade que a publicitária Alexandra Dionízio, ainda adolescente, se deixou seduzir por uma amiga e… pronto! Viu que dois era bom. “A primeira vez foi com uma amiga que me ‘comeu’. Foi leve e engraçado. Depois, comecei a freqüentar festas gays e fui seduzida por mais algumas”, conta Alexandra que, ainda que atraída por mulheres, faz questão de frisar sua preferência pelo sexo oposto. “A diferença entre estar com um homem e com uma mulher é enorme. A mulher é mais delicada, sutil nas carícias, no cheiro e gosto. Com o homem, envolve penetração e, por isso, mais tesão, gozo intenso”, explica a publicitária.

Movimento de libertação

Para ela, a bissexualidade é um movimento de abertura, aceitação – ou respeito –, e vontade, que só tende se expandir. “Acho que estamos mais conscientes de que outras formas de amar são possíveis. Vejo uma curiosidade em passar por novas experiências, principalmente entre os jovens. A cultura está mudando”, argumenta Alexandra, que acredita que o desejo estava enrustido nas pessoas, esperando uma abertura da sociedade. “Não estou falando de homossexualismo, e, sim, de gostar de dois sexos, de uma atração física, com a visão e o olfato; e psicológica, através admiração pelas pessoas”, diz Alexandra.

Ela reconhece sua preferência por homens, mas confessa que não descartaria a possibilidade de viver um romance bem, digamos, feminino. “Acho as mulheres lindas, não tenho problemas em achá-las um tesão. Só que me dou melhor sexualmente com os homens. Gosto dos assuntos, da beleza, do cheiro, do corpo, e me sinto mais mulher com eles, mais completa. Fomos criados para procriar, ter filhos, construir família”, opina a publicitária, absolutamente avessa a preconceitos e julgamentos. “Quem não experimentou e está dizendo que não gosta, pode até ser mesmo o caso, porém não se pode ser cruel com as possibilidades. Sou livre dessas amarras sociais. Bissexualidade é se permitir gostar do outro. E se houver tesão, por que não?”, coloca Alexandra.

Uma questão de prazer

Para quem pensou que ser bissexual era estar em cima do muro, sem saber para que lado ir, nossa amiga provou que não é bem assim. De acordo com ela, trata-se de liberdade de pensamento. Já a estudante de psicologia Paula Smith, talvez influenciada pela disciplina que cursa, acredita que, mais do que cabeça aberta, a sexualidade se molda pela trajetória. “Todo mundo nasce bissexual. Porém, cada pessoa vai ter um desenvolvimento particular. A sociedade ensina que a mulher tem que se relacionar com o homem, mas não é necessariamente assim. É uma questão de identificação, de afinidade, entre outros fatores”, avalia a estudante, que diz gostar dos dois sexos, apesar de preferir o feminino.

Ao contrário de Alexandra, Paula percebeu a atração pelo mesmo sexo por circunstâncias do destino, e não pelo espírito, digamos, aventureiro, de viver novas experiências. “Eu descobri a atração por mulheres porque comecei a ter um carinho diferente por uma amiga. Felizmente, ela sentia o mesmo. Com o passar do tempo, vi que havia elementos que sinalizavam isso no passado e que eu inibia”, comenta Paula. Olhando por esse ângulo, dá até para concluir que não se trata de bi, mas de homossexualismo. No entanto, Paula explica que não fechou a porta para o tradicional arroz com feijão, embora em seus relacionamentos com mulheres também ocorra penetração. “A gente tem que enxergar o ser não pela figura física. A mulher é mais sensível, me atrai mais fisicamente pela delicadeza. Porém, é tudo uma questão de envolvimento. Estou sempre me construindo e desconstruindo”, diz Paula.

O outro lado

Tudo bem, que elas andem no meio dos dois caminhos, isso é uma opção. Só que, a menos que sempre se relacionem com bissexuais, vai haver uma discrepância de preferências e até de estilos de vida. No caso, uma mulher bissexual pode, muito bem, se envolver com um homem hetero ou com uma mulher homo. Confusão? Bem-vinda à realidade em que tudo é possível, ainda que haja ressalvas dos consortes que só vão por uma via. O ilustrador João Augusto Andrade, heterossexual e careta assumido, se sentiu incomodado ao saber, depois de algum tempo, que a menina de seus olhos teve experiências com outras meninas. “Eu sou um pouco travado para esses assuntos, e saber disso foi estranho. Como já tinha acontecido fora da minha ‘gestão’, engoli e tento não pensar muito nisso”, explica João que, perguntado se não sentia duplo ciúmes da sua namorada, respondeu: “Não há duplo risco ou duplo ciúmes, há risco e ciúmes. Eu não namoro a bissexual, e, sim, a pessoa que ela é”, afirma João.

Já o namorado da nossa entrevistada Alexandra, mesmo sendo hetero, não só levou numa boa, como embarcou na onda do seu par em uma nova aventura um tanto quanto prazerosa, segundo ela. “Despertou no meu gatinho a curiosidade de transar com um homem e comigo. Então, em uma das noites de loucura de carnaval, encontrei com um amigo que tem toda a pinta de gay – mas não é. Ficamos juntos a noite inteira na rua, e o meu namorado propôs que transássemos a três. Foi um tesão! Eles só se tocaram, não houve penetração”, relembra Alexandra, que acrescenta ainda que a experiência uniu o casal.

Entendendo a bissexualidade

Depois desses depoimentos, a pergunta que não quer calar parece gritar dentro de cada um dos que se encontram alheios a esse universo cada vez maior. Todos querem saber se é possível sentir atração por homens e mulheres ao mesmo tempo. Para a sexóloga e ginecologista Glene Rodrigues, apesar de o bissexualismo ser pouco estudado e, por isso, ainda não é considerado uma opção sexual, gostar de transar com os dois gêneros é perfeitamente aceitável. “Apesar de não haver pesquisas que consolidam o assunto, a bissexualidade existe. É possível, sim, sentir atração pelos dois sexos”, diz a sexóloga. De acordo com ela, a bissexualidade feminina é mais aceita, talvez pela fantasia dos homens em transar com duas mulheres. Já a masculina acaba caindo no preconceito. “No entanto, em ambos os gêneros, ela é mais freqüente do que se imagina. Pessoas casadas são, e existem casais em que um é bi e o outro, hetero, que aceita”, avalia a Dra. Glene.

Opa! Parece que estamos diante de um impasse. Como o tema é pouco estudado, entre especialistas também há divergências de posicionamentos. O sexólogo Arnaldo Risman, por exemplo, acredita que a bissexualidade nada mais é do que um recurso de defesa dos gays. “Na minha vivência profissional, quando um paciente diz que é bissexual, ele está mascarando a sua homossexualidade. Se você perguntar em quem ele pensa quando se masturba, a maioria fala que é no mesmo sexo”, analisa o sexólogo. Se guiando por esse raciocínio, não é preciso muito esforço para prever o futuro da situação. “Essas pessoas se casam com o sexo oposto e vão buscar relações homossexuais posteriormente. Falar bi é bonito, já dizia a máxima de que um é pouco e dois é bom. A pessoas estão se libertando dizendo que são bissexuais, mas eu não acredito nisso. Homens e mulheres podem até transar com os dois sexos, porém gostar dos dois, não”, opina Arnaldo.

Pelo menos em um ponto todos concordam: a sociedade em que estamos inseridos exerce grande influência na formação da sexualidade do sujeito. Estando esta mais liberal, é claro que essas questões estarão em voga, sobretudo entre os jovens. “As pessoas precisam assumir sua preferência sexual, porque assim revelam também sua identidade. E a bissexualidade não é uma preferência, mas uma atividade sexual”, coloca o sexólogo Arnaldo Risman. A sexóloga Glene Rodrigues, por sua vez, não considera a sociedade mais liberal. “Hoje, as pessoas podem falar mais nisso, no entanto, o preconceito ainda existe. A bissexualidade vai ser o sexo do futuro. Se, hoje, o homo é considerado uma opção sexual e não mais um desvio, o mesmo vai ocorrer com a bissexualidade. Homo, hetero ou bi, não interessa. O importante é estar bem com a sua opção”, conclui a sexóloga. In Bolsademulher

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