Independência ou morte


O ENCONTRO COM UM ARTISTA DA PALAVRA

por Manoel Onofre Jr.

 

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Conheci Talis Andrade nos idos de 1959, quando, ainda adolescente, matuto da Serra do Martins, fui morar em Natal a fim de cursar o Clássico no tradicional Atheneu Norte-rio-grandense. Talis, muito jovem, era redator de “A Republica”, diário em que mantinha a coluna “Livros & Escritores”, com a qual agitava a vida literária natalense. Surgia, então, uma nova geração de escritores, notadamente poetas que logo alçaram vôo, tornando-se grandes nomes da literatura Poti-guar. Luís Carlos Guimarães, Myriam Coeli, Augusto Severo Neto, Berilo Wanderley, Deífilo Gurgel, Dorian Gray Caldas, Walflan de Queiroz, Sanderson Negrei-ros e Nei Leandro de Castro. Outros, como Zila Mamede e Newton Navarro, já se haviam firmado, este último não só poeta, mas também contista e cronista.

No meio dessa constelação, eu, na insignificância dos meus 16 anos, alimentava veleidades literárias, sonhava tanto ver em letra de forma os meus vagidos de escrevinhador.

Foi Talis que me lançou como poeta, em sua presti-giosa coluna. Pena que fiquei tão-somente no imaturo poema, que ele, generosamente, acolheu. Minto. Anos depois, escrevi uns arremedos de poesia, dentre os quais “No Recife”, único que não renego. E desde então, tendo enveredado pela ficção e pela pesquisa da cultura regional, desfiz o meu namoro com a musa… De sorte que sou poeta de um poema só. Mas, isto não vem ao caso. Importa dizer que, ainda no começo da década de 60, perdi de vista o poeta e amigo. Soube que ele retornara ao seu Pernambuco de origem. Longos anos se passaram… Até que, recentemente, lendo no jornal “Tribuna do Norte”, de Natal, a coluna de Woden Madruga, tive notícias de Talis, e tanto bastou que eu, proustianamente, reencontrasse todo aquele pequeno mundo da cena literária natalense dos anos sessenta.

Foi muito gratificante saber da vitoriosa trajetória de Talis nas letras, no jornalismo e na publicidade. Logo procu-rei entrar em contacto com ele, e desde então temos mantido um bom intercâmbio cultural.

Mas, não estou aqui para falar do nosso relacio-namento pessoal…

Acabo de ler a sua mais nova coletânea de poemas sob o título “A Partilha do Corpo”. Não é livro de poeta para poeta, como tantos outros por aí afora. Não. Nada de herme-tismo. A linguagem poética simples e clara, ganha em comunicabilidade sem que, todavia, faça concessão de espécie alguma ao gosto do grande público ledor. Aspecto de grande importância, aliás não só neste livro, mas em toda a sua obra poética.

Assim como Manuel Bandeira, Talis Andrade sabe muito bem que “difícil é escrever fácil”. Ele deve torturar-se para obter a expressão exata, prescindindo daquela linguagem cifrada tão cara a certos poetas contemporâneos. O leitor, que se deleita com a leitura, não avalia o esforço do autor para atingir essa simplicidade e clareza.

Outro aspecto digno de especial menção, mas este não apenas de natureza formal: a presença da Morte na temática escolhida pelo autor. Tal qual leit motiv, a Indesejada das Gentes reponta ao longo da série de poemas. É impressio- nante. Em contraposição, o Amor também está presente, sem caráter obsessivo, mais forte bastante para dar sentido à Vida. Eros versus Tanatos…

Na exploração dessa temática, o poeta busca a essência da Vida – desculpem-me se digo “o óbvio ululante”.

A propósito, Rachel de Queiroz cunhou, numa de suas crônicas, uma frase muito do meu agrado: “Literatura só tem importância quando se liga à vida”.

Pois bem, este livro está cheio de vida. Não somente – ressalto – da Vida com V maiúsculo, na dimensão filosófica, mas também da própria vida cotidiana, a servidão humana que se lê nas entrelinhas, dado o caráter confessional de quase todos os poemas.

Não me proponho a analisar a obra literária de Talis Andrade, até porque me falta qualificação para tanto. Na verdade, eu ainda teria algumas palavras a dizer sobre “A Partilha do Corpo”, e não poderia deixar de, pelo menos, citar os poemas nele contidos que mais me tocaram. “O Morto” (“…uma calmaria que não é paz”), “Presença” (“…quando descer/ a úmida luz/ da lua”), “Piquenique”, “O Sol de Capricórnio”, “Encantada Natal”, “Noturna Escadaria”, “Um Cavaleiro sem Bandeira”, “Cantar Alheio”, “Jornalismo Investigativo”, “Valsa” (“Eu não lembro/ de nenhum beijo/ nos meus tempos de criança”), “Rua Enluarada”, “Um Céu de Gesso” (“Uma casa não devia impedir/ os olhos avistassem o céu”), “Liação”, “Desencanto”, “Vazio Corpo” (“Cansado corpo/ de quem se contenta/ em ficar à espreita”), “Casamento Compulsório” (“Sexo que se faz/ como um autômato/ com a técnica/ dos profissionais/ a pressa/ de quem bate o ponto”), “Os Tambores da Noite”, “Tamil”, “A Pedra”, “Cego Vôo” (“Em cada um o covarde/ a limpar a face/ do escarro do patrão”), “Sempre o Mesmo Rumo”, “O Suicida” (“…não tem o que/ perder/ senão o corpo/ que sobrou”), “O Cemitério dos Suicidas”, “Partição” (“Os olhos embevecidos/ da beleza da amante/ ofereço para transplante”), “Certeza” (“Os amigos/ deitarão por fim/ comigo/ no mesmo chão”), “A Praça”, “A Cidade” (“Quem se lembra que/ por aqui passava um beco”), “Contida Ternura”, “Da Frigidez”, “Os Velhos Brinquedos Velhos” e “O Último Pedido”. Tantos outros momentos de alta poesia… Não devo, porém, alongar-me. Creio que todo prefácio é uma excrescência.

Que o leitor vá logo ao que mais importa: o encontro com um verdadeiro artista da palavra.

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Comentários a: "Natal 1959. Surgia uma nova geração de escritores, notadamente poetas" (1)

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