Independência ou morte

EM NOME DOS PAIS


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por Gustavo Krause

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Em nome dos pais,
a natureza submeteria os seres vivos
a um único ritmo:
nascer, crescer, envelhecer e morrer.

Em nome dos pais,
a natureza seria regida por uma lei
com um artigo único:
“os filhos não morrerão antes dos pais”.

Em nome dos pais,
a criança seria eterna,
lambuzada em leite e mel,
de calças curtas, curtindo o desobedecer.

Em nome dos pais,
o rapaz imberbe seria terno,
envolto em rebeldia adolescente,
de sonhos largos, consumindo o amanhecer.

Em nome dos pais,
sua criatura seria um doce anjo.
Sem asas, não voaria para longe.
Caminharia sobre as nuvens da terra.

Em nome dos pais,
não haveria a morte injusta
da flor contida, da estrofe incompleta,
do poema inacabado, da vida por viver.

Em nome dos pais,
não subsistiria, no álbum da família,
a improcedência de um olhar sem brilho,
compondo a saudade do quadro.

Em nome dos pais,
mulher alguma sentiria a dor
da amputação total que é a dor
do “revés do parto”.

Em nome do Pai, dos filhos, dos santos espíritos,
da mão amiga, do verbo solidário,
Marcos Vilaça, pai, Maria, mater dolorosa,
continuam a amar; continuam a continuar

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Gustavo Krause, in livro Cantos & Contos, p. 228
Editora Expressão e Cultura, 2002

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