Woden Madruga: “Tem que ter ‘literatura nordestina’ no palanque principal. Sou um aldeão, mais ou menos radical


A Poesia continua

Iara Maria Carvalho

Iara Maria Carvalho

por Woden Madruga

Findou a Festa Literária da Praia de Pipa, ontem a última noite, onde, numa das mesas da Tenda dos Autores, se discutiu a “Literatura e o Sertão”, mote que levava a outro: “O regional e o universal”. O papo ficou por conta de dois escritores nordestinos, ambos sertanejos: Aldo Lopes, paraibano, e Demétrio Diniz, norte-rio-grandense, intermediados por outro matuto, Tácito Costa, de Santana do Matos. Tenho certeza que a literatura nordestina – sobretudo potiguar/tabajara – esteve muito bem representada. Sou daqueles que ainda insistem que festa ou festival ou feira literária tem que ter “literatura nordestina” no palanque principal. Sou um aldeão., mais ou menos radical.

Teve um russo, chamado Léon Tolstoi, admirado no mundo inteiro e muito citado nas altas rodas literárias com acentuado sotaque acadêmico, que gravou numa das pedras do seu burgo: “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”. O russo apontava o caminho que, lá na frente, seria seguido pelo poeta português universal, Fernando Pessoa: “O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia/ Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia/ Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.”

Bom, a festa literária da aldeia de Pipa terminou ontem mas outros acontecimentos literários continuarão acontecendo em agosto por estas aldeias daqui. A literatura, a poesia, o livro permanecem vivos. Viva! Esta semana, já amanhã terça-feira, vai haver o lançamento em Natal do livro Saraivada da poeta Iara Maria de Carvalho. Ela é seridoense, nascida em Currais Novos, onde vive. O livro tem o selo da editora Sarau de Letras, de Mossoró (mais uma aldeia notável) e o lançamento acontecerá na Livraria Nobel da Salgado Filho, coisa das 19 horas.

“tenho flores roxas na língua / e hematomas líquidos rolando/ pelos meus versos. // pedaços de palavras/ me amor-/ tecem.// (dentro do trem/ que carrega no vazio do fundo/ em chamas por não encher)/ a poesia mora:/ úmida, cascuda, fria… // e eu desapareço enorme/ no interior da caverna/ onde o verbo dorme.” É de Iara Maria de Carvalho no poema “Belicosa”.
A sua poesia me encantou. Grata surpresa deste agosto tão literário. Foi a primeira vez que li Iara que também comete versos eróticos: “não quero colo/ nem calo: // quero um falo/ entre as telhas/ do meu mel aguado. // coar o vinho pastoso/ com a minha fenda oblíqua./ e acender poesia/ com a flama recolhida.

É Currais Novos, a mesma aldeia de Luís Carlos Guimarães e de José Bezerra Gomes, grandes poetas, que já se encantaram. Currais Novos de Francisco Ivan, outro poeta, admirador e cultor de James Joyce, e que acaba de lançar Signos in Excelsis, percorrendo os seus sertões seridoenses (“nas caatingas do sertão / bromélias bromélias / o chão cheio delas / brilha”).

Natal feliz

Luís Carlos Guimarães

Luís Carlos Guimarães

Natal, tempo de uma cidade feliz. É o título de um livro do poeta Luís Carlos Guimarães, obra póstuma, que acaba de ser publicado. Foi organizado pelo seu filho, o biblioteconomista Ricardo Luís Lins Guimarães, que não chegou a ver livro impresso. Ricardo faleceu ano passado. Já o poeta se encantou no dia 1º de julho de 2001, lá se vão 14 anos de muitas saudades. O livro saiu agora em julho pela 8 Editora. Não haverá lançamento. Mas pode ser encontrado em livrarias e em algumas bancas de jornais e revistas.

O livro, que tem apresentação de Nelson Patriota e prefácio de Ticiano Duarte, projeto gráfico de Waldelino Duarte, reúne crônicas que Luís Carlos publicou em jornais daqui, incluindo esta TN, revistas, no sempre saudoso jornal “O Galo”, da FJA, e antologias. Outros textos que serviram de apresentação de exposições de artistas plásticos, entre eles Thomé Filgueira, Assis Marinho e Túlio Fernandes. No livro tem ainda o discurso de posse de Luís Carlos na Academia Norte-Rio-Grandense, sucedendo a Newton Navarro.

Andei por estes dias passando as suas páginas com uma parada mais demorada no seu discurso, boa parte dele dedicado a Navarro. É um verdadeiro canto. Invenção mesmo de poeta. Luís Carlos passa e repassa a vida do amigo, o poeta, o pintor, o desenhista, o escritor, o agitador cultural. Ás folhas tantas, ele escreveu e falou assim sobre Navarro:
“Desconheço quem tenha demonstrado tamanha vocação de artista. Múltiplo, dominava com igual talento todas as áreas da atividade intelectual. Embora sua projeção maior tenha sido como artista plástico, realizou-se em plenitude como escritor, nos gêneros da poesia, novela, crônica, conto, jornalismo, teatro, oratória, conferência”.

O pôr do sol
Luís Carlos Guimarães era um amante, com tempo integral e dedicação quase exclusiva, de Natal. A confissão está declarada na crônica que tem o título de “Como um pôr de sol”.

Começa assim:

“Aprendi a te amar, Natal, no primeiro encontro, quando pisei teu chão no começo dos anos cinquenta. Horizontal na sua desambição de voos mais altos, a Natal daquele tempo cabia entre as dunas, o rio e o mar, deitada no seu casario baixo, poucas ruas calçadas, enfeitada do verde perfumando de tantas árvores. O tempo feliz de uma cidade feliz, que assistia de cadeiras nas calçadas, numa espera embevecida, o nascimento da lua cheia nos morros do Tirol.

Entre perplexo e alumbrado me enredei nas malhas do tem encantamento. O olhar fixava na memória uma nesga de céu vista do ângulo pouco propício de uma janela, as ruas estreitas inclinadas como se fossem despencar no rio Potengi ao crepúsculo de todos os entardeceres, uma alvoroçada e repentina chuva de verão, um bonde desaparecendo na curva breve de uma esquina.
Em amorosa intimidade desbravei seu território, prisioneiro de ter sortilégio. Descobri o mar do alto da balaustrada da Avenida Getúlio Vargas, onde a visão da beleza se associa à certeza de que a terra é redonda. Ali, reparei bem, como em nenhum outro lugar do mundo, o céu desce sobre o mar como uma concha e o horizonte se fecha como um arco ao nosso olhar contemplativo.”

Luís Carlos termina a crônica assim:

“A cidade inchou, transbordou suas margens, ganhou novos bairros, avançou pros lados da Redinha e Parnamirim. A gana imobiliária constrói uma nova cidade vertical, que sobe ao céu no gume dos edifícios. A cidade feliz não existe mais. Talvez um tanto volúvel no teu vestido novo, numa coisa és a mesma, Natal: guarda as marcas de tua feminilidade. Ainda sou o mesmo no meu querer, Cidade do Natal, e trago o coração acesso de ternura para dizer-te do meu amor nesta manhã de domingo.”

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