As favelas do Recife na poesia de Gustavo Krause e Sylvio de Oliveira


A DESPASAIGEM
por Sylvio de Oliveira

.

(fragmentos)

A água é quente
de muitos verdes
tão cristalina
que os arrecifes
que a contêm
bordam piscinas
que os olhos beijam
e os braços têm
em praias brancas
onde o mar lava
como alimenta
até nos mangues
a vária gente
e cuja fome
tão atrasada
e envelhecida
antes se tece
– não se arrefece –
nos arrecifes
do bom Recife
mas se extravasa
na despaisagem
de nus mocambos
na maré rasa
como a exibir
em seus molambos
os crus despojos
da subgente
sobrevivente

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COMPR(0)MISSOS COM A FAVELA
por Gustavo Krause

.

(trechos)

TODA CIDADE TEM A FAVELA QUE MERECE.
TODA FAVELA TEM A CIDADE QUE MERECE.

FAVELA NÃO É CIDADE

N
E
C
E
S
S
I
D
A
D
SÓ E SÓ
S

(…)

O HOMEM É DOENTE, A MULHER É DOENTE.
O MENINO É DOENTE.
É PRECISO TER DÓ

D
O

E
N
T
E

ESTE SER NÃO VIVE O DILEMA HAMLETIANO.
VIVE DO DILEMA

D
O

N
Ã
O

SER

O MOCAMBO NÃO É CASA.
O BARRACO NÃO É ABRIGO.
O SOL É BRASA.
A CHUVA É CASTIGO

(…)

E ENTRE MORTOS E FERIDOS
NÃO SOBRA NEM A BONECA DO MARACATU

RAÇÃO NÃO É COMIDA.

CORPO E CARNE CARCOMIDA.

O ESQUELETO ANDA, FALA, E RI.

SIM, RI.

DO

S
I
R
I

QUE NA VIDA É CAÇA E NA MORTE
CAÇ(A)DOR

ÁGUA SUJA NÃO É BEBIDA.
NÃO HIDRATA, DESIDRATA.

ENGORDA
A
O
S
POUQUINHOS

O PASTO DA LAMA
QUE CLAMA, RECLAMA

O

C
O
R
P
DOS
A
N
J
I
N
H
O
S

HÁ QUEM PENSE (E MUITOS PENSAM)
QUE NESTE MUNDO NÃO VIVE GENTE

.

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