És claridade prato de amor deixado à minha porta


TERCEIRO POEMA DE CARNAVAL
por Walmir Ayala

Nublado estou de ti. Os curtos dias
rodam cheios de sombra, e és claridade
prato de amor deixado à minha porta
com plumagem precoce e rude garra.

E me nublas. Promessa anunciada
em meu escuro sonho decepado,
sangue a fluir direto da ferida,
inesperado. Nublas meu gemido.

E a visão que te vejo, anjo nublado,
é como atrás de um vidro estar chovendo
e estares deste lado me cobrindo

com largas mãos os olhos ansiosos
de dor, de tanto à dor andarem dados,
e teres, sem saber, me renovado.

 

Walmir Ayala

Walmir Ayala

 

A WALMIR AYALA
por Lúcio Cardoso

.

Quando Walmir florescer
esta coisa obscura,
este inseto ciente
de sua cor
e de seu fim
– quando o giro disser
este olho de ouro
este cisne
de opala a nadar
– é que o tempo
começa.
Sempre começa o tempo
nesta hora,
sempre
nesta bruma
começa. Tempo
é coisa breve.
Tempo é breve
– coisa por começar.
Se ouço, falo:
Se calo, escuto –
fala o tempo e a bruma.
Existir é recomeçar.

 

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