Francisco Bandeira de Mello, um poeta armorial e homem público de exemplar pernambucanidade


Francisco Bandeira de Mello

Francisco Bandeira de Mello

 

No fatídico dia 7 de outubro de 2011, o Jornal do Comércio publicou a seguinte notinha: “O poeta, escritor e jornalista Francisco Austerliano Bandeira de Mello, 75 anos, morreu na madrugada desta sexta-feira (7), no Recife, vítima de um ataque cardíaco. Francisco estava internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Santa Joana.

Durante décadas, foi articulista do Jornal do Comércio, onde relatava suas memórias. Bandeirinha, como era conhecido, participou do projeto do Centro de Convenções de Pernambuco (Cecon) e foi secretário de turismo, cultura e esportes”.

A notinha comprova que o JC perdeu toda sua grandeza, e virou um jornaleco de secos & molhados para, no balcão dos negócios obscuros, vender os interesses imobiliários de seu proprietário, um enriquecido coronel de asfalto.

Centro de Convenções 1

Centro de Convenções

Centro de Convenções

Francisco Bandeira de Mello jamais foi conhecido como “Bandeirinha”, e assim era chamado pelos mais íntimos amigos e familiares.

Escreveu Vicente do Rego Monteiro: “Queremos incluir entre os poetas da Escola do Recife, o nome do autor da “Máquina de Orfeu”, pequena máquina à retardement com percussão a distância e teleguiada. Francisco Bandeira de Mello que: ‘traz na bainha uma flecha de ouro,/ no brasão, em velhíssimo vermelho,/ um hierofante, uma moça nua”.

Ariano outro amigo, escreveu o seguinte poema:

BANDEIRA POETA ARMORIAL

Bandeira, poeta cortesão,
Bandeira, poeta armorial,
ó claro bardo provençal,
de galo, peixe e hierofonte,
de fauno bêbado e bacante,
do sal, do sol, do mar, do mal.

Bandeira canta como moço
e à morte fala como velho
– mago Bandeira, águr do só!
Do espinho, sol quase vermelho,
do condenado ao pé do espelho,
do solo amargo, do negro pó.

Bandeira fiel a sua amada,
Bandeira fiel ao seu amigo.
Cantar de amor, cantar de amigo
e a morte sempre desejada,
chama amarela do perigo.

Estás e estamos todos na ponte
do velho diabo, nosso inimigo.
Já chega a barca de Caronte:
Bandeira – arqueiro, poeta, fonte,
quero salvar-me mas não consigo!

Bandeira sim, nunca Bandeirinha. Ariano podia, nas conversas amigas, talvez usasse, carinhosamente, Bandeirinha.

A notínha esquece que Francisco Bandeira de Mello foi Secretário de Cultura e Turismo dos governos Marco Maciel, Roberto Magalhães e Gustavo Krause. E secretário de Josué de Castro, participou da equipe que criou a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO).

Transcrevo do verbete Francisco Bandeira de Mello da Enciclopédia Nordeste:

Poeta, jornalista, advogado, nasceu no Recife em 24 de abril de 1936.

Presidente da Empresa Pernambucana de Turismo e, depois, secretário de Turismo, Cultura e Esporte do Estado de Pernambuco.

Em 1955: prêmio de Poesia do Estado de Pernambuco, com o livro “Pássaro Narciso”.

Redator do Jornal do Comércio do Recife.

Publicou, entre outros, o livro de poemas “A máquina de Orfeu”, “O Sol Amargo” e “Poemas Didáticos”.

Membro da Academia Pernambucana de Letras.

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O HOMEM DE PEDRA

.

Hoje deu-me náuseas

a arte: força é cantar

os ritmos do escuro

as rosas sepulcrais

o nosso barro imóvel?

.

O mundo: caos e ordem.

E os nossos olhos flamam

de sonhos, no sal longínquo

dos lagos da espera.

.

Apagam-se as rosas

belas e verdes, na noite.

Ficamos sós embebidos

de esperanças e cinzas.

.

Quem estamos nós

quando estamos sozinhos?

que sol corrói nossa alma

perfumada e escura?

.

Prisioneiros, um dia

vestimos nossa mão de luta

de roxas desilusões

e pálidos abismos.

.

Prisioneiros, um dia

vestimos nossa mão

de luta, comícios de pedra.

(A máquina de Orpheu)

 

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VELHO TEMA

.

Só eu sinto o que sinto

e mais ninguém

(e isto me consola também).

.

Quando eu vou pelas nuvens

de acanto

solitário e tranquilo

que coisas pergunto

além do meu brilho?

.

Porque bebo tanta cinza

se já sou maior

se já tenho patente

de ser o que sou?

.

Vou pela estrada sem brilho

sozinho sem ninguém

como se das trevas extrair

pudesse

a lembrança de alguém.

.

Depois eu sei que sou um quarto

do que poderia ser

uma estrela que brilha

com tal estribilho

que não sei viver.

(A máquina de Orpheu)

(Extraído da antologia A NOVÍSSIMA POESIA BRASILEIRA. Seleção de Valmir Ayala. Rio de Janeiro: 1962. (Série Cadernos Brasileiros, 2)

 

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O EQUILIBRISTA

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Tocávamos clarinete na corda bamba

subíamos às altas torres do Egito

passeávamos de pára-quedas

no sol sem fim dos dias de fogo

subíamos à capota do avião

por cima das nuvens

recitávamos poemas à lua

tocando nela.

.

Andávamos nos parapeitos dos edifícios

de um pé só na balaustrada dos abismos

não caíamos dos fios metálicos do circo

andando de cabeça para baixo

nem do alto da torre Eiffel correndo

sonâmbulo.

Só na vida é que não nos equilibrávamos.

 

Fonte: antoniomiranda

 

Francisco Bandeira de Mello exerceu diferentes funções no Jornalismo, numa redação do Jornal do Comércio repleta de poetas, de nomes como Carlos Pena Filho, Eugênio Coimbra Jr, Audálio Alves e Ladjane Bandeira.

Secretário de Cultura, contrariou os interesses da agiotagem imobiliária, promovendo o tombamento de sítios históricos, além de rua e casarios.

Promoveu a interiorização do turismo pernambucano, incentivando a construção de hotéis nas principais cidades, e criando um calendário de eventos.

 

Parque das Esculturas Nilo Coelho 2

Parque das Esculturas

Parque das Esculturas

UM HOMEM NO MUNDO

por Talis Andrade

A Francisco Bandeira de Mello

Na tarde avulsa
no longo hoje de cada dia
o franciscano Francisco
Bandeira de Mello
serenamente caminha

Andanças no mundo
com Josué de Castro
andanças no Recife
com João Cabral de Melo Neto

Andanças de cavaleiro andante
desejoso de viver o seu tempo
enchendo-o de coisas
Andanças de retirante
com a fome endêmica de sua gente
fome de sonhos precisamente

Andanças de menestrel
que pretende imortalizar
os viventes dos alpendres e ruas
preferencialmente os que possuem
o amargo sol do nordeste

Andanças de construtor
No Parque das Esculturas
deu vestes de pedra
aos habitantes do deserto
E no longo hoje de cada dia
possível ver
cantadores e violeiros
beatos e benzedeiras
cangaceiros e mulheres rendeiras
nos ermos da terra agreste

 

Publicado in Literário

e Vinho Encantado, Talis Andrade, Livro Rápido, Olinda, 2004 

 

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