O outro, o duplo e a defesa do ser/estar fake


Não devemos confundir o fake com o duplo, o gêmeo, o outro, ou mesmo o hemafrodita como símbolo alquímico.

androgyne-aurora

In O Enforcado da Rainha, na página 136, publiquei o poema:

 

O INIMIGO

 

Como descobrir o inimigo

quando nunca saberemos

quem seguramente somos

Um corpo inteiriço

o eu único

ou o outro

o gêmeo o duplo

Nunca saberemos

quem realmente somos

qual o temerário o verdadeiro

Na controvertida dualidade

o passivo o ativo

o benigno o maléfico

o inocente o infesto

Nunca saberemos

quem realmente somos

 

Na internet o significado do termo fake é este: Uma palavra da língua inglesa que significa falso ou falsificação. Pode ser uma pessoa, um objeto ou qualquer ato que não seja autêntico.

Com as redes sociais, o termo passou a ser muito utilizado para designar uma conta na internet ou o perfil em uma rede social de alguém que pretende ocultar a verdadeira identidade. Aqui fake como pseudônimo. Usado nos livros de estréia de romancistas e poetisas no confronto com o patriarcado, a Santa Inquisição e o machismo. Ou qualquer escritor ou jornalista para escapar da perseguição política e do assédio judicial, notadamente em uma ditadura.

Da página da consagrada poetisa Nina Rizzi apresento como se fosse um debate:

Eu sempre imaginei um cara, pela poesia mesmo, e tudo ok até aí. E, para mim, se confirmou depois de uma entrevista n’O Chaplin. A inverosimilhança estava na grandiosidade de tudo: céus, Rimbaud, HH? E a bio e, por fim, a morte, a partir de um fato verídico e verificável nesses jornais sensacionalistas vide youtube…

Não, isto não é juízo de valor à poesia ou ao ser-fake – ainda que num ano foice como esse 2014, ‘ninguém merece chorar a morte de um fake no domingo de páscoa’, como bem disse M.

Mimi Verunschk: Querem criar fakes, que criem. Heterônimos mais que Pessoa, mas não criem nas pessoas vínculos afetivos com alguém que parece gente. Quando dão carne a alguém que é de plástico e depois anunciam sua morte de modo trágico não pensam nas lágrimas que caem ante a decepção que a verdade traz.

[palavras da minha amiga Ehre, que vinha acompanhando a produção de Nanda Prietto e que, como eu, desconfiou da morte trágica e sem notícias da imprensa de Poços de Caldas. Se Nanda Prietto errou em algo na composição da personagem foi em não dar verossimilhança à própria morte]

 

Sobre ser-estar fake, faço minhas as palavras de Cellina Muniz neste texto que adoro:

Celina Muniz/ Alice N.:

EM DEFESA DO SER/ESTAR “FAKE”

 

Em diversas ocasiões, em inúmeros artigos e comentários postados aqui no SP, de vários autores, tenho observado rastros de um discurso rancoroso a respeito dos chamados fakes (ou, como alguns preferem grafar “feiques”).

O que esse discurso enviesado sobre as assinaturas supostamente “falsas” me sugere é aquela velha atitude de nomear condutas e comportamentos sob a batuta clássica do bom x mau, ou, em outras palavras, do certo x errado, ou ainda do feio x belo. Mas em vez de cairmos logo nesse juízo de valor simplista e redutor (usar um fake é certo ou errado?), não seria mais interessante pensar a respeito desse fenômeno que ultrapassa segmentos de ação e esferas de comunicação e que reflete a pluralidade do ser?

Pensando a respeito, é fácil constatar que nem se trata de um fenômeno novo assim, embora o termo em si esteja atrelado às novas mídias e ao advento da internet, sem dúvida. O que pensar dos pseudônimos que permeiam diferentes e ilustres casos na literatura e no jornalismo? No Ceará, nos fins do século XIX, no divertido movimento literário conhecido como “Padaria Espiritual”, era regra ter uma outra alcunha, o que fez Antônio Sales assinar como Moacyr Jurema e Adolfo Caminha como Félix Guanabarino, por exemplo, nos textos que ocupavam as páginas do periódico “O Pão”. Aqui em Natal, falando ainda de periódicos, o jornal O Parafuso, que circulou de 1916 a 1917, trazia como redatores nomes como Dr. Seboso e K-Tispero. O nosso Carlão de Souza, pouco tempo atrás, por meio de sua prosa jornalística, transformou-se temporariamente em Linda Baptista e o reconhecido Nei Leandro de Castro já foi Neil e Nathália em algumas ocasiões/publicações…

E o que dizer dos apelidos, nomeações particulares, geralmente restritas aos círculos familiares e de amizade, cujos laços de afetividade não podem ser ditos pelos nomes convencionais? O poeta visual Falves Silva, tomando outro exemplo na cultura potiguar, registrou isso casualmente, quando escreveu o artigo “Quem diria? Falves Silva conheceu Cazuza”, ao indicar a maneira pela qual ele era chamado àquela época em que frequentava a banca do primeiro sebista da cidade (aliás, também conhecido por um apelido): o poeta em processo, quem diria, também é Fransquim!

Pseudônimos, apelidos, fakes, todos me parecem indicar que, para além das dicotomizações (de tradição socrático-platônica, aliás), o ser não cabe numa persona só. Por isso, somos máscaras, conforme o estar sendo. E poderíamos passar o dia pensando em outros casos, de Fernando Pessoa e seus heterônimos aos alter egos de Bukowski (com seu Chinaski) ou Fante (com seu Bandini) etc. etc… Insistir em julgar o mundo sob as lentes de polarizações que aprisionam o humano numa essência una e natural é fechar os olhos para toda essa diversidade que se manifesta em todas as esferas, artísticas ou não.

Quem discorre muito bem sobre isso, no âmbito da reflexão acadêmica, é Michel Maffesoli (que, aliás, vem a Natal em setembro), quando propõe a lógica da “identificação” no lugar da defasada lógica da “identidade”. Cito: “(…) a lógica da identificação põe em cena “pessoas” de máscaras variáveis, que são tributárias do ou dos sistemas emblemáticos com que se identificam” (MAFFESOLI, M. “No fundo das aparências”. Tradução de Bertha Gurovitz. 3 ed. Petrópolis, SP: Vozes, 2005).

Escritores, grafiteiros, professores, internautas, donas de casa, leitores do Substantivo Plural, vários são os tipos que mostram, de fato, como somos vários e como exercemos nossa variedade por meio de pseudônimos, apelidos, fakes. Circulamos por diferentes campos de ação e traçamos diferentes relações de pertencimento com determinados grupos e comunidades. Negar essa polifonia e insistir em rotular esse fenômeno sob o par “verdade x mentira” é negar a complexidade da vida e do mundo, vasto mundo.

Talis Andrade: Também adorei. Os dois romancistas brasileiros que mais admiro também podem ser citados por Celina Muniz.

Moacir Japiassu tem um auto-ego: Janistraquis. Urariano Mota, na internet, sempre aparece com o nome Frederico Jimeralto.

 

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