A virgem que desencantou Sapeaçu


Sapeaçu é um município da região do Recôncavo Sul da Bahia, com apenas 17.087 habitantes espalhados pela pequena cidade e os distritos de Conceição do Almeida, Cruz das Almas, Aporá e Muritiba.

Ninguém numa viu falar em Sapeaçu, um pontinho perdido no mapa da Bahia

Vem uma menina pobre, com um vídeo, e torna o lugarejo conhecido. Pelo feito, vem sendo vítima da bíblica condenação da lapidação.

Após a divulgação do vídeo, a moça é obrigada a conviver com zombarias e com o “apedrejamento” de moedas voadoras e incontáveis chacotas de falsos puritanos

Conta Victor Uchoa:

De repente, duas moedas de 25 centavos voam em direção à jovem de 18 anos que dá explicações sobre a decisão de leiloar a virgindade na internet: “Foi pelo dinheiro mesmo, mas eu queria ajudar minha mãe e garantir um futuro melhor pra gente”.

Em Sapeaçu, a 156 quilômetros de Salvador, esse é o mantra que Rebeca Bernardo Ribeiro repete nos últimos dias. Há uma semana, ela postou no site Youtube um vídeo em que oferece sua primeira vez. Para o bem ou para o mal, virou alvo imediato de todos os olhares da cidade.

Rebeca, 18 anos, virou atração e polêmica em Sapeaçu

Rebeca, 18 anos, virou atração e polêmica em Sapeaçu

Após a divulgação do vídeo, a moça é obrigada a conviver com zombarias como a das moedas voadoras e incontáveis chacotas. “Já me ofereceram R$ 1,99. Teve um que escreveu que dava cinco centavos e queria o troco. Não tá vendo essas moedas aí? Pelo menos já tenho 50 centavos”, diz Rebeca.

“Fiquei assustada com toda essa repercussão. Não esperava que fosse assim. Mas minha virgindade ainda está em leilão”, atesta ela, afirmando já ter recebido um lance real de R$ 60 mil, o que acha pouco. “Talvez por esse valor eu aceite, mas espero ainda uma proposta maior. Se valer a pena, eu faço”, completa, optando sempre pelo eufemismo “coisas íntimas” em lugar do popular “sexo”.

Ajuda
Rebeca admite que teve a ideia após a repercussão do caso da catarinense Catarina Migliorini, 20 anos,  que leiloou sua virgindade por US$ 780 mil (R$ 1,5 milhão). Entretanto, justifica sua atitude revelando o drama da mãe, uma mulher de 57 anos vitimada duas vezes por Acidente Vascular Cerebral (AVC), a primeira há quatro anos, a segunda há cerca de 2 meses. Numa casa simples de quatro cômodos, as duas se viram com uma pensão de um salário mínimo. No quintal, nada se planta. O espaço é ocupado por 13 galinhas e a coelha Vida.

Por onde passa, Rebeca provoca curiosidade. Alguns jogam moedas. Foto: Tayse Argôlo

Por onde passa, Rebeca sofre assédio moral. Alguns jogam moedas. Eta cidade violenta. Foto Tayse Argôlo

“Preciso comprar remédios pra minha mãe e pagar fisioterapia. Ela precisa de muitas sessões. Ninguém pode me julgar. Eu tomei minha decisão sozinha e pronto”, argumenta a jovem, nascida em Itapecerica da Serra (SP), mas moradora de Sapeaçu desde bebê. Seu pai, com quem nunca teve muito contato, morreu há três anos.

Com dificuldade de locomoção e fala limitada, a mãe de Rebeca não conversou com o CORREIO, mas a garota garantiu que ela está ciente de toda a situação. “Só contei depois que o vídeo estava na internet. Ela não gostou, mas disse que tenho 18 anos e posso fazer o que eu quiser”.

Estudante do 2º Ano do Ensino Médio do Colégio Estadual Dr. Eliel da Silva Martins, Rebeca conta que desde que o vídeo foi parar na internet perdeu o sossego. Nem precisava contar. A mera saída da lanchonete onde conversava com o CORREIO para entrar no carro causou rebu. O burburinho une velhos, jovens e crianças. Um garoto com seus 8 anos se exalta. “Eu pago, eu pago!”, grita, desvairado.

Veja vídeo

Antiga Rua Batucar, que hoje deve ter o nome de algum político

Antiga e pobre Rua Batucar, que hoje deve ter o nome de algum político que nada fez pela cidade

Que pode fazer uma estudante para salvar a mãe? Sapeaçu é a cidade do nada. Foi criada na malandragem da fabricação brasileira de municípios para receber verbas estaduais e federais, e sustentar a vida malandra do prefeito, do vice e vereadores, e ajudar a eleger um deputado estadual.

A palavra Sapeaçu é de origem indígena e significa palha grande. A localidade era habitada pelos índios cariris ou sabujás. Com a expulsão (genocídio) dos indígenas que habitavam o local onde hoje se ergue Sapeaçu, foi edificada a fazenda Sapé Grande de propriedade de Pedro Barbosa Leal, e aí construída uma capela dedicada a Nossa Senhora da Conceição, em torno da qual se formou uma povoação, também conquistada por outro invasor, Manoel Nascimento Lopes, na localidade conhecida como Cansin.

Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição. Foto Vicente A. Queiroz

Município originou-se da freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Sapé, desmembrado do município de São Félix, e com a denominação de Vila de Sapé, em 1890.

Os falsos puritanos de Sapeaçu gabam a virgindade de todas as moças solteiras da cidade. É a única cidade do Brasil que as noivas são virgens. E não tem nenhum gay. E nenhuma lésbica. E os moços do lugar casam donzelos.

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