A PROPOSTA INDECENTE DE NIETZSCHE


“E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: ‘Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência’?”

 

Nietzsche, em A Gaia Ciência

 

É com essa premissa que Friedrich Nietzsche (1844-1900) nos apresenta o mito do eterno retorno, que ele mesmo considerou sua ideia “mais profunda e amedrontadora”. Segundo sua linha de raciocínio, não existe passado, presente ou futuro: tudo se repete eternamente, sempre exatamente da mesma forma, sem a menor chance de modificação. Assim, o melhor e o pior momento das nossas vidas continuam acontecendo agora mesmo, e suas alegrias e angústia ainda agem sobre nós da mesma maneira.

O conceito é tão complexo e, aparentemente, antinatural, que não há como não duvidar: será que existe mesmo alguma possibilidade de ele ser verdadeiro? Grande parte dos filósofos contemporâneos que tentaram desatar esse nó concluíram que não. Para eles, no entanto, o mais importante não é tentar descobrir se o eterno retorno é plausível, mas aproveitar a valiosa reflexão que ele oferece: até que ponto gostaríamos de experimentar nossa própria existência novamente? Ou, em outras palavras: até que ponto amamos a vida?

Para encontrar a resposta, basta rever a proposta do demônio nietzschiano e responder: para você, ela se parece mais com um presente divino ou com uma terrível maldição?

 

 

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