SEGUNDA ELEGIA PARA SHELLEY


de Talis Andrade

Fugindo do tumulto da cidade
um adolescente virá mirar-se
nas águas dormentes
que preservam teu corpo
infinitamente jovem
infinitamente belo

O adolescente tocará
em uma flauta de bambu
cantilenas de inclinação
que os ventos de feição
soprarão nos teus ouvidos
te acordando do sono eterno

Ao contemplar teu rosto
do adolescente a ilusão
de se ver
de se reconhecer

Enamorado o adolescente
na hora vespertina
deixará a torre em que se esconde
e seguindo os caminhos
que margeiam os muros da cidade
virá tocar cantigas de amigo
virá cantar cantigas de amor

Encantados versos
cairão sobre teu rosto
atendendo uma carência oculta
que te entristece a alma
te entorpece o corpo


In livro Romance do Emparedado, 2007
Ilustração Brodsky

Todo poeta é um eterno adolescente. Aqui, o eu-poeta menino, que há no universo mítico de Talis, rompe o tempo e revisita as cantigas românticas de outroras. Outroras (outras+horas) que o poeta quer roubar ao Tempo, como a cobrar dele próprio um resgate impossível.
Iracema Torquato

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s